Mostrar mensagens com a etiqueta antologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta antologia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, junho 11, 2019

De volta...

Passou uma semana, anteontem foi domingo, ontem foi feriado. E eu calado. Aqui. Porque noutros lugares e ocasiões fui dizendo... coisas que acho que vale a pena serem ditas.
Por isso, hoje e aqui, quero retomar a conversa. Com quem? Com quem for... que comigo já conversei ao ler e a ouvir o que a leitura me trouxe.

Um texto (longo? não importa... que curto parece) de antologia:

 - Edição Nº2375  -  6-6-2019

Do trabalho e do cantar
CULTURA Na ordem de sucessão dos acontecimentos naturais – diz quem sabe – tudo se transforma há muitos milhões de anos sem que de outra mão, que não a da Natureza, tenha havido precisão. Bichos e vegetais foram-se sujeitando aos humores do clima e às farturas e escassezes que lhes fossem calhando, adaptando-se uns, sumindo-se outros, porque «vontade» é qualidade de que não foram dotados. Já aos humanos, não sendo velozes como os felinos nem agarrados ao chão como as árvores, permitiu-se-lhes serem capazes de inventar securas em dia de temporal e regos de levar a água à terra quando ela racha de tanta sede.



A transformação da realidade deixou, portanto, de ser incumbência dos deuses, roubada que lhes foi a exclusividade na produção da luz e das trevas, descoberto que foi o milagre de tirar o pão da espiga e a espiga da semente. A cada qual os seus pelouros, o que nos deuses se diz ser milagre, nos humanos é produto do Trabalho. Nuns e noutros é de transformação que se trata, diferentes apenas os nomes do mecanismo.
Podiam os humanos ter-se ficado pela produção do fogo na sua serventia de luz e de repasto; e podiam ter-se bastado à fixação do animal na perspetiva do caçador. Mas não. Acharam naquelas funções mais utilidade do que a evidente, e puseram-se a representá-las desta e daquela maneira, trabalhando também, mas para acudir a novas e entusiasmantes necessidades. Combinaram pigmentos, juntaram sons, transformaram volumes e, porque hão-de ter gostado do resultado, nunca mais prescindiram daquelas artes de representar a vida.
Talvez por essa razão, a Arte seja, dos traços duradouros, um dos mais constantes na vida da Humanidade. Constante também nas lutas todas da História, sobretudo a Música que é, das Artes, a que se transporta com superior facilidade e inegável emoção, aliada segura das palavras quando elas ali fazem falta.
O canto de trabalho, o cantar o Trabalho
A música mais antiga, a primordial, não há-de ter sido a composta, mas antes a percebida: o silvo do vento, a pulsação do gotejar, o canto das aves consoante a natural intenção (o de acasalar diverso do de alertar). Talvez depois tenha havido imitação e até mistura dos muitos elementos da banda sonora natural, quando se percebeu que as mãos e a voz eram, afinal, os precursores dos sintetizadores de circuito integrado.
Os primitivos instrumentos musicais, esses sim, eram já produto do Trabalho – no corte da madeira, na curtição da pele, no dimensionamento do tubo oco, tudo extensões da voz humana, tudo mediadores da sua urgência em comunicar entre si e com os ouvidos (e os favores) da Natureza e seus divinos intermediários. Não tardaria a chegar – coisa de uns milhares de anos, apenas – o canto de trabalho, como aquele que acerta a queda da enxada, que Michel Giacometti registou em Tavarede, ou o que desloca o penedo na Cantilena na Pedra, que também o etnomusicólogo gravou na Póvoa do Lanhoso.
No momento em que o canto musical é também instrumento de trabalho, parceiro na labuta pelo melhor-viver, é sozinho sendo pouca a encomenda, é coletivo quando um só par de braços não basta para os devidos encargos. Há-de ter sido nos lugares de trabalhar que as palavras se hão-de ter juntado aos trauteares, revelando vontades (como no Llaço do Ofícios: «Quero d’aprender un ofício / que me mantenga senhor / barbeiro ferreirico / alfaiate ferrador») e desilusões («Fui um ano à vindima / pagaram-me a trinta réis / dei um vintém ao barqueiro / ai, fui pra casa com dez réis»).
Não se sabe em que altura é que o canto prazeiroso passou a ser «de intervenção», mas o processo há-de ter levado o seu tempo, sendo sabido que os breves momentos da História – sabe-o bem quem luta – duram sempre o tempo de vida de uma mão cheia de gerações.
Quando o salazarismo implantou o modelo cultural fascista, procurou depurar a música popular (ou tradicional, ou regional) de todos os vestígios da luta de classes. O Trabalho era, na leitura do fascismo português, uma praça de alegrias entre o celeiro de Portugal e as latadas nortenhas, rústico mas pitoresco, árduo mas saudável. Cabia à Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, a FNAT, a criação de linhas de rumo da «cultura popular», procurando afastar as vozes do povo daquilo que hoje se considera serem «temas fracturantes».
Coexistia, por isso, em linha desencontrada com o folclore oficial, um canto popular que dizia «ó minha mãe dos trabalhos / para quem trabalho eu / trabalho, mato o meu corpo / não tenho nada de meu». Ou «Comem-nos vivos em vida / Mortos a terra nos come / Como dá tanta comida / Quem cá passou tanta fome». Não sendo ainda bandeira de conspiração, este é já um canto consciente e porta-voz dos explorados.
O povo canta o Trabalho porque o trabalho é a sua vida, ao mesmo tempo riqueza maior e chão da sua pobreza. E canta-o permanentemente, porventura para «que na grande construção do mundo se sinta o fio das vozes e a razão dos sons, com suas primas e bordões, ajudando a enterrar sementes que serão Futuro e que hão-de fecundar o chão que é nosso».
Tamanha sementeira vem sendo necessária nos tempos todos, já que «a história das sociedades é a história das lutas de classes» – no campo, que foi o lugar central da produção ao longo de milénios, e na fábrica, onde mais modernamente se constitui a classe operária, mas é tomada de novas urgências no momento em que a fábrica passa a ser o lugar central da apropriação do produto do trabalho, em ambiente de privação das mais básicas condições de bem-estar.
Por isso, quando o compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) se lança à criação de La Fabbrica Illuminata (de 1962, para soprano e fita magnética de quatro pistas sobre textos de Scabia e Pavese), o seu objectivo é denunciar as condições de trabalho dos operários siderúrgicos italianos. A Italsider situada em Cornigliano (perto de Génova) era, na altura, a maior produtora italiana de aço, conhecida como «a fábrica dos mortos», tão frequentes que eram, ali, os acidentes de trabalho. Nono inclui na primeira das três secções de La Fabbrica Illuminata o ambiente sonoro que registou da Italsider, adicionando-lhe as vozes de operários e a leitura de excertos de documentos sindicais com que acentua a intenção política da obra.
Muitos anos mais tarde, também a islandesa Bjork integra o ambiente sonoro de uma fábrica na escrita da canção Cvalda para a longa-metragem Dancer in the Dark (2000). De novo a teia rítmica da maquinaria, uma vez mais o Trabalho no centro da acção sonora, uma vez mais a denúncia da desumanização das relações de produção.
Marx, inspirador de canções
Para lá da imensa obra que legou à luta pelo socialismo e pelo comunismo, Marx constituiu-se escritor de canções por interpostas mãos. Working Class Hero (Herói da Classe Operária), de John Lennon, foi classificada no seu país como «canção política». Lennon concorda e aumenta os receios da classe dominante: «Eu acho que é uma canção revolucionária – é realmente revolucionária.» A canção, composta muito antes da invenção do «empreendedorismo» individualista, traça um retrato do filho da classe operária a quem a sociedade de consumo rouba a consciência de classe a golpes de «religião, sexo e TV», a escrita de Lennon a desenhar dois mundos paralelos e conflituantes: o do operário e o de «eles» («they»).
Em Factory (Fábrica), Bruce Springsteen canta os passos do «seu» operário ao longo da dura jornada de trabalho: «De manhã cedo soa a sirene da fábrica / o homem levanta-se e veste-se / leva o almoço, vai sob a luz da madrugada / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho; Final do dia, soa a sirene / os homens atravessam os portões com a morte nos olhos / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho.»
Dizem as canções que aqui referimos que a condição de vida de um operário dos EUA de Springsteen, ou da Liverpool de John Lennon, não é diferente da do operário chileno da canção Te Recuerdo Amanda de Victor Jara. Manuel, «que partió a la sierra / que nunca hizo daño / que partió a la sierra / y en cinco minutos quedó destrozado / suena la sirena / de vuelta al trabajo / muchos no volvieron / tampoco Manuel». Ou do personagem de Foi a Trabalhar, de Sérgio Godinho, afirmando que «Quem me usa não me merece / só merece o meu desprezo quem abusa / da minha força e da minha competência / e até mesmo da impaciência / de dar de comer aos meus filhos», consciente de que «É a trabalhar / que a gente paga o jantar / mas foi a trabalhar / que a gente fez a faca para o cortar».
Num tempo de patética imposição da «concertação social», numa sociedade capitalista desconcertada por natureza, cantar o Trabalho é sonorizar o futuro. Mesmo que, como refere Manuel Gusmão, «de há uns tempos para cá vozes muito dissemelhantes [pareçam] insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém». E, contudo, se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, «cadáveres adiados que procriam». Com efeito, «não há experiência histórica, não há história sem a categoria do futuro, mesmo que essa categoria seja a de uma falta ou ausência, que se desloca e move no passado a reconstruir, e no presente que reencena o passado. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar. O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma auto-poesis histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro, “uma terra sem amos“. Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa».
O Trabalho no canto essencial
Intervieram sempre as canções nas tarefas de transformar o mundo, estandartes de sons em vez (ou junto) de bandeiras de pano – empunhadas por vozes em vez de mãos – símbolos por igual nas lutas de há muito tempo nos idiomas todos da Terra.
Não se sabe qual foi a primeira canção da primeira luta, mas sabe-se que A Internacional herdou os cantos que a terão precedido e prevalece, desde a sua criação, como canto universal dos trabalhadores: «De pé, ó vítimas da fome! / De pé, famélicos da terra!». A letra original de A Internacional foi escrita em 1871 pelo communard Eugène Pottier (1816-1887). Pottier tencionava que o poema se juntasse à melodia da Marselhesa, mas Pierre De Geyter (1848–1932) alterou o projecto inicial, compondo em 1888 a música que viria a acolher as dezenas de poemas por que A Internacional responde nos quatro cantos do globo. Companheira do Partido Comunista Português na clandestinidade, a Revolução de Abril devolveu-lhe o eco das ruas e a presença em todos os actos partidários.
A Revolução permitiu (exigiu) que mais cantos fossem compostos ou redescobertos para as suas muitas tarefas, uns condenados a perecer às mãos da rima fácil, outros calhados para durar. Entre estes está o Hino da Intersindical. A partitura foi retirada da canção do século XIX (1852) Guerrilheiro, descoberta por Luís Cília (compositor de Avante, Camarada!, de 1968) na Biblioteca Gulbenkian de Paris. Guerrilheiro terá sido composta por autores alentejanos anónimos no tempo das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte, e convertida em hino sindical num processo semelhante ao da passagem dos sinais identitários de geração em geração.
Trabalhar sem receber
Produto também da História, as canções trazem sempre agregadas ao seu corpo a marca da classe a quem servem. Ao mesmo tempo que as classes dominantes geram e disseminam produtos de entretenimento na linha do denunciado por John Lennon em Working Class Hero, cantar o Trabalho visa agora a denúncia da exploração de uma geração tão especializada quanto vulnerável.
Parva Que Eu Sou é denúncia e é lamento na voz de Ana Bacalhau – de um lado a ignomínia, do outro a resignação que alimenta um desencontro de classes precisado de luta: «Sou da geração sem remuneração / e não me incomoda esta condição. / Que parva que eu sou! / Porque isto está mal e vai continuar, / já é uma sorte eu poder estagiar. / Que parva que eu sou! / E fico a pensar, / que mundo tão parvo / onde para ser escravo é preciso estudar.»
Mudam-se os tempos, mas há vontades que não mudam. Que seria do Capital sem a apropriação do produto do Trabalho? Que seria do crescimento do lucro privado sem o «contributo» dos baixos salários ou do trabalho (os tais estágios) não remunerado? Um coro de milhares de jovens cantava na edição da Festa do Avante! a plenos pulmões um tema de Boss AC em que o salário é a preocupação central: «Tantos anos a estudar para acabar desempregado / Ou num emprego da treta, mal pago / E receber uma gorjeta que chamam salário / Eu não tirei o Curso Superior de Otário / Não é por falta de empenho / Querem que aperte o cinto mas nem calças tenho / Ainda o mês vai a meio já eu 'tou aflito / Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito / É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão / Alguém me arranje emprego / Bom bom bom bom / Já, já, já, já.»

Conta-se que era uma vez uma cigarra que, cantando e cantando de fome viria a morrer; e que era uma vez uma formiga que, trabalhando e trabalhando chegaria ao inverno abastada de migalhas. A fábula está errada: porque de Trabalho é feito o Cantar da Humanidade, e porque a cantar sempre se trabalhou (e trabalha) neste mundo. Vozes ao alto, portanto, que o caminho é comprido e a tarefa – como diz a Heróica de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça – é a de «chegar ao fim da estrada ao sol desta canção»!

Manuel Pires da Rocha



 Working Class Hero 
(podia ser outro. mas este veio mesmo a calhar... e soube tão bem ouvir!)
- Tradução livre...

Desde que nasces fazem-te sentir pequeno
e não te dão tempo algum para ti.
até tuas dores são tão grandes que nem as sentes
Um herói da classe operária está sempre em construção
Um herói da classe operária está sempre em construção
cresces em casa pobre e batem-te na escola
odeiam-te se és inteligente e desprezam-te se és parvo
ou dizem-te doido se lhes não segues as suas regras
Um herói da classe operária está sempre em construção
Um herói da classe operária está sempre em construção
assustam-te e torturam-te durante vinte anos estranhos
em que querem que escolhas uma profissão
e se não o conseguem fazem-te ter medo
Um herói da classe operária está sempre em construção
Um herói da classe operária está sempre em construção
drogam-te com religião, sexo e televisão
pensas que és esperto, bêbado e livre
mas, pelo que se vê, não passas de um campónio fodido
Um herói da classe operária está sempre em construção
Um herói da classe operária está sempre em construção
dizem-te que tens um lugar no topo da vida
mas primeiro tens de aprender a sorrir enquanto matas
como os que estão lá no alto
Um herói da classe operária está sempre em construção
Um herói da classe operária está sempre em construção
se queres ser um herói, bem!....só tens que me ouvir
se queres ser um herói, bem!... só tens que me seguir 

quarta-feira, maio 02, 2018

Nada acontece por acaso....

SEGUNDA-FEIRA, 30 DE ABRIL DE 2018

Um engano premonitório

Neste último fim de semana teve lugar em território germânico um encontro de reigby Alemanha-Rússia, cujo resultado mais insólito foi o da troca do hino da Federação Russa pelo da União Soviética, mas o mais estranho deste singular acontecimento foi ver os jovens jogadores russos a cantarem com grande empenho e alguns com matreiros sorrisos um hino que já não seria oficial quando nasceram, o que nos leva a deduzir que a URSS passados todos estes anos ainda está viva mesmo entre os jovens.
Vejam:


 Hino da URSS

A união indestrutível das repúblicas livres
Reunidas para sempre pela Grande Rússia

Que vive, fruto da vontade dos povos,
Unida, a potente União Soviética!

Gloriosa sejas nossa Pátria livre,
Sob a efesa da amizade dos povos!

O partido de Lenine, força do povo,
Conduz-nos ao triunfo do comunismo

Através das tempestades renasce o sol e a liberdade,
E o grande Lenine ilumina o nosso caminho,

Na causa da justiça ele ergueu o povo,
E inspirou-nos no trabalho e na luta!

Gloriosa sejas livre Pátria,
Na defesa da amizade dos povos!

O partido de Lenine, força do povo,
Conduz-nos ao triunfo do comunismo,

Na vitória dos ideais imortais do comunismo,
Nós vemos o futuro do nosso país

E à bandeira vermelha da nossa gloriosa pátria
Nós seremos sempre infalivelmente fieis

E ao tremular do Estandarte Vermelho,
Estaremos nós para sempre fiéis!
Gloriosa sejas nossa Pátria livre,
Na defesa da amizade dos povos!

O partido de Lenine, força do povo
Conduz-nos ao triunfo do comunismo.


sábado, novembro 04, 2017

Sobre a Catalunha - De antologia!

Reproduz-se, com a devida vénia, esta "crónica histórica" do Rei dos leittões:


«Puta que pariu os catalães

Se a história tivesse sido outra.



Não houve o 1 de Dezembro de 1640, Portugal continuou a pertencer à coroa espanhola. Não existiu o 5 de Outubro de 1910, Portugal continuou a estar dependente dum poder de matriz sanguínea.
No início dos anos 30, em alguns povos do reino de Espanha, sobretudo na Catalunha e em Portugal,  começaram a declarar-se alguns movimentos independentistas, libertários, socialistas, republicanos.

A ação desses movimentos progressistas acaba por fazer da Espanha uma república onde se manifestam as vontades de novas repúblicas e por ter um desfecho numa sangrenta guerra civil. Os republicanos são vencidos pelas forças fascistas, lideradas em Portugal pelo general Carmona e, no resto da Espanha, pelo general Franco que impõe uma república ibérica à sua medida.  Este, assumindo-se como generalíssimo, acabou por conceder um poder territorial especial ao seu parceiro de armas português. Fica, no entanto, uma mancha no mapa da sua vitória, a Catalunha resistiu ao seu poder de fogo e conseguiu constituir-se como estado independente, reconhecido por muitos estados e tolerado por Hitler, ou reservado para intervenção futura.

Nos anos 70, adivinhando a morte e o fim do seu reinado, Franco achou por seu poder, deixar a grande Espanha entregue ao rei de coroas, filho da corte a quem permitira, até então, a sobrevivência num palácio maior, da província maior, Portugal, nesses anos vigiada pelo almirante subalterno, Américo Tomás.

Embora ressuscitassem, na altura, algumas manifestações republicanas e independentistas, nas quais Portugal se destacava, fantasmas da guerra, apatias ideológicas e promessas de democracia, acabaram por viabilizar a nova monarquia e o filho do rei velho regressou ao palácio, palacianamente aclamado mas, naturalmente, sem votos.

O novo reino de Espanha preparou, entretanto, a sua  entrada na CEE e, travessuras da história, acabou por ter de reconhecer a república da Catalunha e assinar a adesão à comunidade no mesmo dia.

Nos anos 10 do novo século, Portugal, que nunca se sentira bem com a sua consciência nacional por depender de famílias castelhanas, onde as ideias republicanas sempre tiveram expressão popular, onde o direito dos povos à autodeterminação sempre foi um direito querido, entra num processo independentista e proclama unilateralemnte a sua independência. Fortemente condicionado pelo capitalismo, pelo poderio bélico da comunicação social, pelo poder Bruxelas-Madrid, vítima de chantagem generalizada, o país fica suspenso.

Em novembro de 2017, mais do que a hipocrisia dos senhores da Europa, que intercederam pela formação de novos estados da ex-Jugoslávia à ex-União Soviética, o que irrita mais os portugueses que reclamam a independência são as declarações dos governantes da Catalunha e, sem atenderem que as mesmas não traduzem necessariamente os sentimentos dos cidadãos que se fazem representar, dizem chateados:

- Puta que pariu os catalães!»

bacorada do 

segunda-feira, setembro 07, 2015

Nos 30 anos do MULTIBANCO

De regresso, após três dias "de FESTA" (num"outro mundo" dentro deste em que vivemos e contra que lutamos), reabriu-se o "estabelecimento". 
Havia leituras em lista de espera e, entre elas, uma por que se começou e que incitou a transcrição. No seu blog umoutroparadigma, Guilherme Fonseca-Statter publica um texto que, com enorme oportunidade e rigor histórico, trata dos 30 anos do multibanco que a comunicação social relevou. Aqui se deixa o que é um importante testemunho (que ainda melhor seria se a modéstia de Guilherme Fonseca-Statter não tivesse calado o seu papel nesse acontecimento técnico na verdade significativo:      

A Propósito dos 30 Anos do Multibanco

Dizem nos jornais que passaram agora 30 anos desde o arranque do sistema Multibanco, o qual é usualmente considerado único no mundo pela variedade das suas múltiplas funções. Não se trata apenas de um grande agregado de máquinas de distribuição de dinheiro contra a apresentação de cartões de crédito ou de cartões de débito. É, de facto, muito mais do que isso.
«Há 30 anos que o MULTIBANCO “Movimenta a Vida” dos portugueses com toda a comodidade, segurança e fiabilidade. Só no passado mês de Julho, a Rede MULTIBANCO atingiu um novo recorde mensal alcançando um total de 210 milhões de operações processadas. Mas já imaginou como seria sem o MULTIBANCO? Se não existisse a Rede MULTIBANCO, não seria possível fazer acções tão simples como pagar a água à meia noite ou emitir uma licença de caça ao sábado de manhã. Teríamos de esperar horas em filas para comprar um bilhete de comboio em vez de o fazer sentados no sofá em casa, por exemplo. Ou teríamos de andar com a carteira com moedas para pagar as portagens, em vez de o fazer com o cartão. O MULTIBANCO é, sem dúvida, uma Marca que já faz parte da vida dos portugueses, facilitando as atividades do dia-a-dia».(Do sítio da SIBS)

A esse respeito tenho dito em diversas ocasiões que essa característica (de ser muito mais do que um conjunto de máquinas de distribuição de dinheiro...) e por muito estranho que isso possa parecer a muitos espíritos bem pensantes, se deve ao chamado período do «gonçalvismo». Isso por causa da nacionalização da banca. Entretanto e a esse respeito convém lembrar a «tensão dialéctica» que se desenvolve de modo permanente entre a concorrência e a cooperação entre os diversos agentes económicos, sempre em busca de novas oportunidades de negócio. O mesmo acontece entre os bancos. Entregues a si mesmos procuram ao mesmo tempo, ainda que de modos distintos, cooperar no que diz respeito a conluios para manipular taxas de juros, por exemplo, mas também concorrer pelo dinheiro de todos e quaisquer potenciais depositantes e de pedidos de crédito.
Para caracterizar devidamente o sistema Multibanco são precisas algumas advertências preliminares. Em primeiro lugar, no universo das actividades bancárias ditas de retalho, é conveniente não confundir coisas e funções diferentes umas das outras. Por exemplo convém não confundir cartões de débito com cartões de crédito, duas formas distintas (ainda que complementares) de dinheiro plástico. Em segundo lugar convém não confundir, por um lado, muitos ATM's (ou caixas automáticos) com, por outro lado, um sistema integrado de máquinas e programas que propiciem múltiplas funções monetárias. Em terceiro lugar convém não confundir um sistema integrado de terminais em rede (para proporcionar as referidas funções monetárias), com os múltiplos serviços de cariz mais ou menos similar (mas nem sempre...) disponíveis na rede global «internet».
De facto a informatização de todas as actividades económicas e das actividades financeiras em particular tem permitido o desenvolvimento de sistemas de registo e controle de informação que, até há poucas décadas atrás, poucos de nós imaginávamos. No caso do sistema Multibanco, por exemplo, quando o mesmo foi proposto duvido que os mentores iniciais tivessem à partida uma ideia de que «aquilo» se pudesse vir a transformar no sistema que temos hoje (ViaVerde, Impostos, transferências entre contas, pagamento de facturas, licenças de pesca e etc…)
Entretanto, e por um daqueles acasos da pequena história do planeta, caiu em sorte a este escriba o estar lá (na empresa multinacional de informática) no lugar certo e no momento adequado para estar bem no centro de um processo então em fase de arranque embrionário. «Proposal Team Leader» seria a designação (que veio mais tarde, no jargão empresarial) que então caberia a este escriba na elaboração do estudo técnico-comercial que deu origem à elaboração da proposta técnico-comercial (também de sua co-responsabilidade) que veio a dar origem ao Multibanco. Muito prosaicamente, poderá dizer-se que este comentador foi quem (juntamente com mais dois colegas) fez a venda do sistema multibanco.
A quem procure informar-se, não parece fácil encontrar as raízes do sistema Multibanco, quando o próprio sítio «internético» da SIBS (proprietária e gestora do sistema) não fornece a esse respeito qualquer informação. Algo de estranho se considerarmos que a maioria dos sítios disponíveis de muitas outras instituições financeiras por esse mundo fora fazem questão de mostrar as suas origens. Se eu fosse dado a «teorias da conspiração» suspeitaria que alguém parece ter vergonha das suas origens «revolucionárias». 
A respeito das raízes históricas do Multibanco e da SIBS o mais que consegui, na pesquisa rudimentar a que pude proceder, para complementar memórias pessoais, foram alguns elementos que passo a elencar.
Para além de uma breve referência à história da introdução de cartões de crédito em Portugal (tal como assinalei acima, convém não confundir...) por iniciativa de responsáveis do Banco Português do Atlântico e do Banco Totta & Açores, a partir de uma reunião em Roma em 1969 «destinada a sensibilizar os quadros da banca europeia para a provável expansão dos cartões de crédito e, sobretudo, para que não se incorresse na Europa nos mesmos erros que haviam sido cometidos nos Estados Unidos neste domínio»1, pouco mais se encontra que relate, com um mínimo de detalhe, as origens da SIBS e do sistema Multibanco.
Entretanto, e na opinião do Engº Sebastião de Lancastre, então Director-Geral da Unicre, à «Revista Unibanco» (Março e Junho de 19941) «o sucesso dos meios de pagamento via cartão de plástico em Portugal, ao ponto de estarmos há vários anos perfeitamente a par dos países mais avançados deste campo, se deve fundamentalmente ao facto de se terem tomado entre nós as decisões certas nos momentos certos. Isso é válido tanto para a decisão de criar a Unicre em 1971 como iniciativa conjunta de seis grandes bancos, por mérito, coragem e visão dos quadros superiores bancários a que me referi atrás, como também para a decisão da criação da SIBS em 1981. Neste último caso, é justo que cite aqueles a quem se deve a sabedoria de avançar para uma empresa integrando os vários bancos: Dr. Rui Vilar, Dr. Almerindo Marques, Dr. Palmeiro Ribeiro e Dr. Ribeiro Moreira».
Entretanto, a julgar pelo teor das muitas conversas em que participei na altura, assim como pelo teor do caderno de encargos que tive que estudar ao pormenor, a ideia original dos objectivos estratégicos do sistema que então se perspectivava, parece dever ser creditada principalmente ao acima referido dr. Palmeiro Ribeiro (que este escriba nunca teve o privilégio de conhecer, pois o mesmo já parecia estar afastado do processo).
Poderia este escriba falar sobre “N” discussões «mais ou menos técnicas», designadamente as discussões que vieram dar origem ao PIN de 4 (quatro) dígitos, em vez dos seis que estavam propostos. Para já não falar de um projecto de uma espécie de «contabilidade nacional» (fazia parte do caderno de encargos) e então rejeitado por este escriba por ser demasiado avançado («economia planificada centralmente» à la Janos Kornai 2).
Este escriba tomou conta do processo em 1982/83. Em 1984 já a venda estava concretizada e o processo de instalação e arranque do sistema em andamento. A questão do «gonçalvismo» (que passa despercebido da quase totalidade dos comentadores actuais por não pensarem bem no problema) é simples: se bem me lembro foi por determinação da Secretaria de Estado do Tesouro, a quem cabia a tutela dos bancos comerciais (então ainda todos nacionalizados), que em 1982 todos os bancos aderiram ao sistema SIBS então ainda em formação. Os bancos estrangeiros (se bem me lembro, o BOLSA-Bank of London and South America e o Crédit Franco-Portugais) aderiram porque não tinham alternativa. Não podiam arriscar-se a ficar de fora. O mesmo aconteceu com o Montepio. Nos outros países não há nada de parecido com o o Multibanco justamente porque a nesses outros países (em todos…) os bancos comerciais privados fazem entre si concorrência. O que temos são esboços (que agora começam a desenvolver-se mais …) de alguns bancos que fazem entre si «acordos de cooperação». Mas nada que se compare com o Multibanco.

Pois a esse respeito talvez mereça a pena uma outra reflexão que tem a ver com o uso da tecnologia que vais sendo desenvolvida para benefício da colectividade (ou não...).
Confesso que conheço mal os meandros da Justiça portuguesa. Já tive ocasião de entrar em vários tribunais, já fui testemunha e observador interessado em «meia-duzia» de processos e tive ocasião de observar, com alguma atenção, os procedimentos, mais ou menos arcaicos, que vão sendo adoptados. São do conhecimento geral expressões como «a Justiça não funciona», «estão sempre a prescrever processos importantes», «a Justiça é só para os que podem pagar»... etc., etc. Entretanto, embora tenha um longo percurso profissional numa área profundamente tecnológica, não penso ser um tecnocrata, no sentido de que acho que «isto» não vai lá só (nem sobretudo) com soluções técnicas.
Vem isto a propósito de em tempos ter tido ocasião de ouvir o dr. Marinho Pinto dizer na televisão que os procuradores do Ministério Público não têm acesso directo a bases de dados de entidades (se bem me lembro, posso estar enganado nos detalhes) como as Conservatórias Prediais ou das Repartições de Finanças. E aí cabe perguntar como é ainda possível, num país que se gaba, com toda a razão, de ter o sistema de transacções interbancárias (e não só...) mais avançado do mundo. Se temos em Portugal inteligênciae conhecimento tecnológico para desenvolver, e manter a funcionar, um sistema como o sistema multibanco, como é que não somos capazes de montar e manter a funcionar um sistema informático que permita a qualquer agente do Ministério Público (ou a qualquer agente das autoridades públicas, devidamente autorizados) a aceder instantaneamente a toda e qualquer informação necessária e relevante para a investigação criminal, designadamente os crimes de colarinho branco.

E depois lembrei-me (esquecido que eu sou...) de que o sistema multibanco só foi possível por causa do «gonçalvismo»... Logo, uma solução eminentemente política. 
De facto, os outros países também têm engenheiros informáticos e programadores decomputadores de altíssima qualidade. Todos os bancos desses outros países têm também ATM's (caixas automáticos) em todas as esquinas... O que não têm é um sistema multibanco... Repito: se somos capazes de ter um sistema com a sofisticação e capacidades do sistema multibanco porque raio de razão é que não somos capazes de ter um sistema informatizado que ligue todos os tribunais, de todo o país, com acesso (devidamente regularizado) por parte de todos os agentes da Justiça?!...

A quem é que isso não interessa?...
Pelos vistos vai ser preciso um novo período de «gonçalvismo»...
_____________________________________
1 Revista Unibanco (Março e Junho de 1994)
2 Economista húngaro (nascido em 1928) que se tornou conhecido pela crítica do sistema de planificação central mas que não deixava de sublinhar também o eventual papel da informática como precioso auxiliar para a simulação e controle da economia de mercado por parte das instituições políticas...

Publicada por Guilherme Fonseca-Statter à(s) 07:18



segunda-feira, março 19, 2012

Anto lógico

(...)
Um comentador político, seja economista, advogado ou futebolista, é no fundamental, um papagaio. Não lhe cabe decifrar os fenómenos, mas apenas criar as condições para que os outros nunca os venham a entender. Curiosamente, pese o seu "apartidarismo", todos têm o mesmo discurso. Todos explicam tudo da mesma maneira, todos partem dos mesmos dogmas, cristalizam em torno das mesmas ideias. E todos, ou quase todos, são afinal de contas, não comentadores ou analistas, mas sim agentes partidários do capitalismo.

pedras contra canhões
em império bárbaro
- capitalismo para tótós - XXII 

sexta-feira, setembro 16, 2011

Uma memória viva para ajudar a fazer o caminho do futuro

Varela Gomes, capitão na reserva, com 87 anos, continua (escreveu Manuela Cruzeiro, há 2 anos) "o seu combate solitário, quase quixotesco, através de textos livres, indignados, provocatórios, que teimam em furar o cordão sanitário do politicamente correcto, da aceitação passiva de que não há alternativa". Textos que se vêm juntar a outros e que, com a luta não solitária, não quixotesca (numa redutora leitura de D. Quixote) servem as batalhas de hoje para o caminho do futuro (*). Esta "opinião" no último Alentejo Popular é um desses textos, é um documento sobre um documento que não pode ser esquecido, e aqui lido e recordado como, hoje, é preciso que o seja.

domingo, 11 de Setembro de 2011

Surpreendidos? Então vamos a factos. Em Dezembro de 1975 esteve em Portugal, por iniciativa e com o apoio da OCDE (Europa) uma missão do Departamento de Economia do MIT (USA) constituída por três eminentes professores desse Instituto – Rudiger Dornbuch, Richard S. Eckaus, Lance Taylor. Vinham avaliar o estado da economia e das finanças do país português, por suposto caóticas, após a «terrível ditadura comunista» dos 19 meses anteriores, com nacionalizações, fuga da capitais e capitalistas de calças na mão, etc..
Essa missão produziu um relatório (que estou compulsando) – «Analysis and Projections of Macroeconomic Conditions in Portugal», datado de Lisboa 1976. Inclui um prefácio (em inglês) do economista português J. Silva Lopes. Abre com uma Introdução (na verdade, mais é uma Conclusão).
Citando: «Parece ser opinião virtualmente unânime em Portugal, ter havido um catastrófico declínio da actividade económica na última metade de 1974 e durante 1975. Avaliações incluíam frases como “à beira do caos”, “a um passo do desastre”. Perante um cenário tão negro (gloom), pode ser considerado injustificado optimismo sustentar que no começo de 1976 a economia portuguesa está surpreendentemente saudável (sound)»
Mais adiante, adiantam: «(...) Os resultados (the record) do último ano e meio em Portugal não se revelam muito diferentes dos do resto da Europa (...) o consumo pessoal aumentou, bem como a participação do (factor) trabalho no rendimento nacional». Rematando a Introdução: «Para um país que recentemente experimentou uma completa reforma social, uma alteração total no seu comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal inesperadamente (unexpectdly) goza de boa saúde económica». Seguem-se cerca de 50 páginas de quadros, diagramas, análises sectoriais, etc., etc.

*

Por motivações contrafactuais, cuja origem reaccionária/contra-revolucionária não oferece dúvidas, o Relatório da Troika de 1975 foi, e permanece, enterrado e esquecido. Apesar do prefaciador, antigo ministro das Finanças de governos revolucionários (V. Gonçalves) ter feito posterior e frutuosa carreira como gestor público, ser figura mediática com frequente presença, ainda activo neste corrente ano. Mas não creio que alguma vez tenha recordado a sua experiência «nacionalizadora» para repor um mínimo de verdade e decência no mar de falsidades e trafulhices onde navega a burguesia renegada e arrivista.
Acresce que a actual tutela internacional do País por uma troika neo-liberal torna particularmente oportuno recordar a experiência bem-sucedida (cf. Relatório) de um modelo económico alternativo, diametralmente oposto àquele que está arruinando o presente, hipotecando o futuro, destruindo o pouco que resta da herança de Abril.
O morto/desaparecido Relatório da Troika de 1975 merecia ser ressuscitado, servir de argumento e alento na luta contra o modelo que nos está sendo imposto pelo império capitalista. Deveria, além disso, ser objecto de estudo e reflexão em escolas e cenáculos mediáticos onde a tese fatalista da «inevitabilidade da submissão» assentou arrais. Mas isto é só um desabafo; uma aspiração etérea. Com os pés na terra, penso que a honestidade intelectual está condenada a nova clandestinidade.

----
(*) - esse caminhos em que, há 50 anos, em Dezembro de 1961, nas "eleições" para a Assembleia Nacional, encontrei/ámos (e tanto me/nos ajudou com a sua frontalidade,  a sua coragem) este militar "de Abril", década e meia avançado e um seu construtor.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Antologia

Não houvesse já por aí, este texto de um tal leittão, que até tem a mania que é rei dos da sua espécie, obrigava-me a abrir esta secção, nomeando chefe dela (o que é sempre uma promoção).
Alto aí!, sem mais tergiversões, e muito respeito e homenagem, transcreve-se

Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011
Leitão da Quinta

Meus senhores, minhas senhoras, amigos, companheiros e camaradas,
 estou farto disto!

Farto de quê!? Das férias?! Não! Eu não nasci para trabalhar mas para viver! De Portugal?! Da Vida?! Do Mundo?! Não! Eu gosto de viver em Portugal e de sentir que Portugal faz parte do Mundo!...
Estou farto da blogosfera?! Não! Não troco os meus blogues por qualquer jornal ou folhetim paroquial e os meus Amigos "blogueres" são tão grandes como outros amigos daqui e dacolá, disto e daquilo, são Amigos!...
Estou farto das notícias, do país, da crise, da situação, da conjuntura, das declarações, dos comentários, dos comentadores, dos especialistas, dos analistas, do descaramento, da afronta, da provocação, das soluções, das inevitabilidades, das medidas, das soluções, dos cortes, dos despedimentos, da pobreza, da caridade, dos aumentos, das diminuições, dos índices, das taxas, dos números, dos aumentos, das descidas, das subidas, da merda em que isto se tornou!...
Estou também farto de me chamarem utente, utilizador, cliente, consumidor, colaborador, pessoa, cidadão, português, abusando da minha condição, decidindo e falando em meu nome, e deixando nas entrelinhas que eu, privilegiado, malandro, tenho de pagar!...
Mas, em resumo digo, estou farto! Abusando um pouco, estamos fartos!...
Mas não resignados! Privatizem a puta que os pariu! Vendam as estradas, as pontes e as fontes! Façam dos Jerónimos um centro comercial e do mosteiro da Batalha uma casa delas! Que seja heresia o termo "serviço público"! Que a Nação não tenha nada Nacional! Que concorram ao governo - se não é isso que já está a acontecer - grupos económicos e que se entregue o governo e a assembleia a grupos privados! Grupo Amorim - 10 deputados! Grupo Belmiro - 7 deputados! Grupo Balsemão - PSD! Grupo Mota-Engil - PS! Lobbie Gay - CDS!
E depois, só para justificar a democracia, um activista de esquerda vai à televisão fazer umas declarações, no enquadramento que se achar mais desajeitado, acerca de uns trabalhadores que julgavam que a fábrica ia durar sempre!...
Isto são outros tempos!
Talvez sejam! Mas contra rumos, rimas e marés, este blogue não dobra! Contra todos os Passos! Anuncio-vos a nacionalização deste Blogue! Porque este blogue é um serviço público, este blogue passa a ser, a partir de hoje, propriedade do Estado!
Estou farto disto?! Eu estou de férias!... Mas estou farto disto!... É natural que a partir de agora, em vez de andar por aqui a partir destas, comece a andar por aí a partir de outras!
Rei da Nação,
Nacionalizado,
Não Resignado!

-----------------------------------------------
É assim mesmo! Estamos fartos! Vamos a eles!


segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Para uma antologia!

De aspalavrassaoarmas, do Cid Simões, com aplausos... sem reticências (ou assins-assins):

Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

MEIAS-TINTAS
ou
ASSIM-ASSIM


“Ser descontente é ser homem”
Fernando Pessoa

“Vamos andando assim-assim, não é verdade?” A afirmação embebida de interrogações foi lançada ao grupo que tomava a bica matinal, por um sujeito portador de máscara-sorriso-convencional.

O senhor António, homem de convicções, detestava as meias-tintas, além do mais não estava nos seus dias, bebeu de um trago a bica-curta, olhou de frente o recém-chegado e disparou:

“Eu estou assim, e o senhor assim está, o que não significa que estando ambos deste modo, estejamos os dois assim-assim. Detesto a neblina, prefiro a enxurrada.”

O homem máscara-sorriso-convencional, apertou o nó da gravata, remexeu-se dentro do casaco, olhou à sua volta, soltou uma amostra de pigarro e quedou-se, enquanto outro dos visados, “virado do avesso”, engasgando-se logo ao primeiro golo de café, não deixou passar o “insulto”:

“Não gosto da vida assim-assim, é o pior que nos pode acontecer. É o indefinido, o não anda nem desanda, o marasmo que arrasta a perda de horizontes, a mornaça que atabafa os espíritos. Não é cólica nem diarreia, é prisão de ventre. Um desconforto!”

“Já imaginou o que é um indivíduo, um povo, uma autarquia ou um país assim-assim”? hem! Já imaginou? Se nos dispuséssemos a ficar assim-assim estávamos acabados!”

A máscara virou o sorriso para a porta espreitando a fuga, e o homem achou que as coisas já não estavam assim-assim. Triste ideia a de ter saído de casa!

“Estar assim-assim, é ter perdido as emoções que comandam o gosto ou o desgosto de viver, não estar contente nem descontente, olhar e não ver, comer sem apetite, um desconsolo! Procure colocar-se nessa situação, faça um esforço e diga-me se não é de ficar apavorado.”

“Uma reforma assim-assim dá para ir vegetando, e vegetar é gastar a vida sem interesse e sem emoções, levar uma vidinha que se arrasta por entre o paciência-podia-ser-pior, o se faz favor, o muito agradecido, o desculpe se incomodo. O assim-assim é um mal-estar que nos envolve sem sabermos de onde vem; prefiro a topada.”

Hirto e de sorriso aos pés, o homem não sabia como se desenvencilhar da encrenca em que se havia metido. Aferiu que estava entre gente insatisfeita e balbuciou: “Mas... um... um governo assim-assim... sempre seria melhor que...”

O empregado de mesa deixou cair a bandeja, e por entre o estardalhaço explodiu um vozeirão:

“O assim-assim é o caminho privilegiado para o ainda pior”. - Fez-se silêncio, e a interrogação surgiu tonitruante. - "E sabe porquê? Porque o assim-assim é a inércia. Sabe o que é a inércia? É o vai para onde te empurram!”

O sorriso rastejou até à porta deixando só o homem já sem máscara. “Melhor seria ter estado calado.” Concluiu. “Quando não se tem trincheira apanha-se de todos os lados.” Cogitou.

O Manuel Caveira, de olho vivo, ouviu, ouviu e sentenciou:

“Estar assim-assim é uma merda!”