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terça-feira, janeiro 26, 2021

Leituras oportunas

 Badana de um livro que estou a começar a ler (em boa alturaJ…):

«Deve-se em todo o caso, constatar até que ponto é que o voto só traduz as mais das vezes – e isso aplica-se a toda a gente – uma adesão parcial ou oblíqua ao discurso ou ao programa do partido ou do candidato a quem se dá o sufrágio. Quando eu fiz notar à minha mãe que, ao votar Le Pen, ela tinha apoiado um partido que militava contra o direito ao aborto, quando eu sabia que já tinha abortado, ela respondeu-me: “Oh! mas isso não tem nada a ver, não foi por isso que votei por ele.” Neste caso, como é que se escolhem os elementos que se tomam em consideração e que determinam a escolha e aqueles se deixam deliberadamente de parte? Sem dúvida, o essencial terá que ver com o sentimento de se saber ou de se crer representado individual ou colectivamente, ainda que de forma incompleta, imperfeita, isto é, apoiado por aqueles a quem se apoia e de ter a impressão, mediante esse gesto eleitoral, isto é, dessa acção que se decidiu realizar, de existir e de contar para alguma coisa na vida política.»  

quinta-feira, junho 29, 2017

Leituras oportunas

                                                                                                       

AS MÃOS E OS VENTOS

Das palavras amordaçadas em nossos lábios roxos
nascerão ventos, nascerão ventos

E nascerão mãos
para conduzir os ventos


Edição de 1952,
um livro a ler
de vez em quando


domingo, maio 28, 2017

Leituras e comentários

Nesta pausa de domingo (ou neste domingo de pausa), retomei algumas rotinas, entre elas a de certas leituras, que logo me convocam para comentários:

1 – Porque “isto anda tudo ligado”, gosto de ler Ana Cristina Leonardo, embora por vezes ela me afugente por excesso de erudição. Ora, este sábado, ACL deu o título Elogio da erudição à sua crónica, o que me assustou. Mas, resistente (ou teimoso) que sou, li até ao fim. E valeu bem a pena porque termina assim:

Apenas comentaria que embora não me pareça que estejamos em período de ressaca (e não me refiro a problema dos intelectuais), mas que há um apagamento dos intelectuais que assusta pelo que pode pressagiar.

2 – Um livro muito referido é o de Carlos Tavares e Carlos Alves A banca e a economia portuguesa. Foi-me aguçado o interesse em o ler, não obstante não esperar novidades relativamente a questões de fundo (e fundamento) que não tenha já lido e debatido em páginas, reuniões, conferências, congressos, mas a que se dedica todo o silêncio e desinformação possível.
De qualquer modo, os autores estão bem documentados, até pelas funções responsáveis que ocuparam. O que é curioso é que nos panegíricos que são feitos ao livro e autores não tenha visto sublinhado – nalguns casos sequer referido – essas circunstâncias curriculares. O que, aliás, não se estranha quando vêm de comentadores que escrevem e falam como se nunca tivessem sido muito responsáveis na coisa pública e até ministros da área, como é o caso do perorador Daniel Bessa.

3 – Do senhor Schäuble não falo, nem de quem dele fala ou escreve. Não valerá a pena gastar mais cera… ou talvez valha, mas cansa tanta prepotência de sua insolência.
Para sair de casos de banca e banqueiros, deixo um apontamento apontar às mentes sobre a magna questão do interesse público, isto é, de todos, e a excelência da gestão privada (sobretudo se em língua estrangeira) que deve – dizem! – servir de exemplo para o que ainda seja público.




quarta-feira, junho 01, 2016

Uma página de quase-diário - leituras

(...)
A propósito de Melo, é com gosto que vou transcrever – pelo menos aqui – a crónica da Ana Cristina Leonardo na revista do Expresso:

ISTO ANDA TUDO LIGADO







ANA CRISTINA LEONARDO

SE NÃO SABE PORQUE É QUE PERGUNTA?

Tudo o que é sólido se dissolve no ar. Conhecida frase do “Manifesto Comunista”, autonomizada da sua origem, autores e significado primeiros, ganhou amplitude, subiu aos céus, incluindo aos da poesia, e entrou no imaginário popular, maior do que os seus autores, mais perene do que os seus autores, igualando o destino de muitas outras expressões e frases que se perdem na memória do tempo: o francês “cherchez la femme”, de longe preferível ao americano “follow the money”, ordem popularizada por Alexandre Dumas (pai) em “Os Moicanos de Paris”, recua na verdade a Juvenal, poeta satírico romano do final do século I; discutir o sexo dos anjos, que é hoje sinónimo de discussão estéril e bizantina, foi na realidade uma discussão séria e bizantina: decorreu à porta fechada em Constantinopla enquanto os turcos tomavam a cidade e caía o império (isto recorda-me qualquer coisa que agora não me ocorre relacionada com febres legislativas que incluem alheiras e outros enchidos...). Já agora note-se que, na edição dirigida por José Barata-Moura e Francisco Melo para as Edições Avante!, a frase de Marx e Engels, decerto mais conforme ao original, aparece assim: “Tudo o que era dos estados [ou ordens sociais — ständisch] e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas.” Ganha-se em precisão, perde-se em poesia... A frase ganhou asas com o livro do filósofo marxista norte-americano Marshall Berman, que a usou para título do seu ensaio sobre a modernidade, que ele analisa começando pelo “Fausto”, de Goethe, e é repetidamente citada — talvez até já tenha sido usada em publicidade, um dos meios mais eficazes de esvaziamento ou adulteração de sentidos (que o Allgarve nos tenha ensinado alguma coisa), mais um sintoma do “estado líquido” em que nos encontramos mergulhados, conceito de Zygmunt Bauman que ele explana em vários livros, não tão longe assim de Berman. Mas se tudo o que é sólido se dissolve no ar, o que se dissolve no ar não desaparece, pelo menos de acordo com Lavoisier, que nos garante que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo de transforma. Regressando, pois, ao sentido pragmático inicial da frase do “Manifesto Comunista”, ocorre perguntar: os refugiados que entretanto deixaram de ocupar a frente das notícias volatizaram-se para onde?”