quinta-feira, agosto 26, 2010

No "expresso" de hoje à tarde

Viagem para Fátima

Se já tantos escreveram,
se Saramago escreveu*,
se Mário Castrim escreveu**.
porque não hei-de escrever eu?

* - No ano da morte de Ricardo Reis
** - A caminho de Fátima

1.
Parecem metralhadoras
as ininterruptas faladoras!
‘Inda por cima em crioulo...
… dão-me cabo do miolo!

2.
Um bebé que chora
toda a hora
(e mais meia...)

3.
A mãe embala,
docemente,
a tia (?) adormeceu,
finalmente.

4.
Um pé grande, grande
(p’raí 44, no mínimo)
vem do banco de trás
e zás!
instala-se no banco vazio
aqui ao lado do meu,
deve ser do tio.

5.
Um pé grande, enorme,
todo mulato menos na sola,
extremidade de um corpo que dorme.
Deve ser de Angola...
.
6.
Branco na planta que espanta,
luzidia,
aqui está,
a fazer-me companhia,
um pé enorme,
que dorme.
.
7.
... e só lhe falta ressonar
(faço-lhe justiça,
não há que dizer:
bem lavadinho, nenhum cheirinho
e unhas bem cortadas)
Deixá-lo estar...

8.
Nos lugares à frente
6-orientais-6,
desses, das peregrinações.
São três casais
de 3-gerações-3.
.
9.
Vieram de longe,
cheios de fé.
Já começaram a rezar,
mesmo sem virem a pé
têm promessas para pagar!

10.
Vão até Fátima,
e em Fátima vão ficar
… e eu também...
faço escala de curta paragem,
estou de obrigatória passagem.
Sou o peregrino acidental
para chegar ao Zambujal.
(Aleluia!)

11.
Há os que,
expressamente,
seguem rapidamente para Braga,
Boa viagem!
25.08.2010

quarta-feira, agosto 25, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 10 (Martinho Marques)

Este poema não tem "cuquice", e na sua última palavra (nunca a queiram dizer...) se verá porquê.

.


É de Martinho Marques

e deste livro


.

O PAPEL

.

.

O papel............do tabaco

o papel.............do sabujo

o papel.............do macaco

o papel.............do buraco

........................que é sujo

.

O papel.............à sucapa

do papa............de Roma

o papel.............do diploma

o papel.............do perfeito

o papel.............do direito

o papel.............papelão

o papel.............do fiel

o papel.............do papão

o papel.............da falácia

o papel.............da polícia

o papel.............do comício

o papel.............do palácio

o papel.............do ofício

que sai

ou que vai.........a sair

o papel.............do papel

atraente............é trair

e é manter.........o papel

ascendente

e caduco

.........................do cuco

_______

.
... e dele me "vingarei",
de Martinho Marques um "poema cuco" farei!

A questão (magna) do desemprego

Esta mensagem poderia incluir-se na série Tomar partido!. Porque o desemprego é questão crucial (qual não é? mas esta é-o especialmente), enquanto situação social terrível mas também enquanto questão teórica. No entanto, não a incluo na série porque iria perturbar a minha sequênci a de reflexões.
Esta mensagem impõe-se-me como reacção a um cartaz de propaganda de um partido que se afirma bloco e de esquerda, cartaz que confrontei nas ruas de Lisboa e que nos entra pelos olhos dentro a gritar que com o desemprego todos perdemos.
A frase é de choque, o grafismo será aliciante (há gostos e estéticas para tudo) ou eficaz (sei lá...)e pode apanhar os passantes desprevenidos. Sobretudo se não armados com uma protecção ideológica permeáveis, por condições objectivas a este tipo de mensagens de propaganda.
Perdemos todos com o desemprego? Todos?!
Quem atira isto cá para fora contribui para a onda de que estamos todos no mesmo barco, de que todos sofremos a crise, de que todos temos de fazer um esforço, seja no IVA, no IRS, e por aí fora até medidas mais drásticas ou que já não podem sere encapotadas. E contribui porque ao serviço do classe que provoca o desemprego, com o funcionamento que impõe à economia e a mentira consciente, ou por confrangedora debilidade ou total vazio ideológico, com uma camada de verniz de esquerda a tapar essas "misérias".
O desemprego tornou-se uma "variável estratégica" do capitalismo, é a forma de ter mercadoria força de trabalho em stock, de manter e reforçar um exército de reserva de mão-de-obra, de se utilizarem as condições que o desemprego cria para se atacarem os direitos conquistados (e constitucionalizados), para se promover a baixa de salários e a precariedade.
Quantos não conhecemos argumentos de gente nossa como "tive de aceitar senão estava desempregado" ou "eu ia para a luta mas não posso correr o risco de ficar desempregado" (e, depois, desempregado fica...).
.
Perdem com o desemprego os grandes senhores da finança e os cavalheiros da indústria?, ou ganham com o desemprego que fomentam?
Perdem com o desemprego os quadros ao serviço do capital seja qual for a forma (ou a máscara)que este tome?
Ao menos... um acrescento do tipo nós à terrível palavra todos! Que se tornou uma arma ideológica para que muitos de nós não tomemos consciência que há classes sociais e interesses antagónicos. Todos é nada e pode ser tudo.
.
Com o desemprego, perde (e sofre) quem vive do seu trabalho e ganha quem explora os trabalhadores!

Tomar partido! (Os transportes)

Quando, ao reflectir sobre a base teórica que fundamentou, ou veio fundamentar, o partido que foi tomado, se confrontam os conceitos nucleares de trabalho, de criação de valor, de trabalho produtivo, espanta o facto desta base teórica ter os seus caboucos lá para a segunda metade do século XIX, quando não havia excel e processadores de texto, estavam para nascer ou eram crianças os avós de Bill Gates e Makintosh (“isto” é um fulano?...), quando davam as primeiras e indecisas voltas os pneus do que viriam a ser os automóveis e não havia aviões (apesar das barcarolas e dos balões).
Não obstante, o sr. Karl Marx, nos seus estudos (teóricos!) sobre o trabalho produtivo já teve a clarividência de considerar que os transportes tinham um papel central nessa tal base teórica. O que é verdadeiramente espantoso!
É verdade que Marx foi sempre testemunha atenta do que se passava à sua volta – como os pneus… - e privilegiava a dinâmica, o que caminhava para o futuro – sobre rodas ou não…
Marx interessou-se muito pelos transportes, e empolgou-se com o seu vertiginoso progresso com a burguesia ascendente (progresso que, hoje, parece lentíssimo!). Decerto porque, nascido ele a 1818, a locomotiva de Stephenson apareceu em 1825, em 1830 foi inaugurada a primeira via férrea Liverpool-Manchester, na década de 40 o mundo passou de 8 mil para 30 mil quilómetros de redes ferroviárias (que coisa impressionante!) De 1863 a 1867, estando Marx entre os 45 e os 50 anos, enquanto escrevia manuscritos (não tinha computador…) para O Capital, nas “suas barbas”, na Áustria, construia-se, através do colo de Brenner, uma via férrea com 22 túneis nos Alpes, sessenta viadutos e pontes, ligando Alemanha, Áustria e Itália.

Há quem diga que se estava na “era do carril”.
Mas não foram apenas os caminhos de ferro. Para dar um outro exemplo, lembre-se que o canal de Suez foi inaugurado no final de 1869. Adiante... avante!

.
Evidentemente que esses factos, e o seu encadear, tiveram importância no estudioso da realidade, e seu atento observador, que era Karl Marx. E foi capaz de ver para diante, de avaliar a importância do desenvolvimento impetuoso dos transportes nos meios de produção e de o enquadrar na natureza capitalista do sector.
Antes, muito antes, do automóvel, do avião, das auto-estradas da comunicação.!
Uma base teórica colocada sobre carris, é o que é!

terça-feira, agosto 24, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 9 (Mário Castrim)

Este é um "poema cuco" especial. Algum não o será?... Sobre um poema de um camarada que deixou uma enorme saudade que resiste aos anos que vão passando. Com uma dedicatória: à Mariana Rafael (a Clarinha).

À maneira copiada
(com uns acrescentos)
de Mário Castrim

Viagem
através de uma tipografia clandestina*


Gritar Liberdade!, é fácil
… quando se vive com liberdades.
É fácil defender a liberdade de expressão
num off-set sofisticado,
com ar condicionado, telex, telefones
amplas janelas para o sol, quebrado
por estores de alumínio, docemente,
com salário em dia, hora para almoço, crédito bancário,
protecção constitucional e recurso ao tribunal.
E, mais adiante, fácil é defender direitos humanos
em mails e nets, blogs e facebook
tudo Windows set e new-look.

Assim,
serem pela liberdade de expressão uns,
outros perorarem sobre direitos humanos
é cómodo, é fácil, é barato e dá milhões (a alguns…)

Mas do que eu estou a falar é de outra coisa.
Se entendeste, o poema está cumprido.
Se não entendeste, o poema espera
com a paciência tradicional de todos os poemas


___________________
* -
do caderno Viagens,

editado pela célula dos Trabalhadores Gráficos

da Renascença Gráfica/"Diário de Lisboa"

para a Festa do avante! de 1977 (Jamor)

Correu bem.

Correu bem!

Isto é, correu de acordo com as regras. Nossas. Democráticas!
Foi proposto - depois de consultados, antecipadamente, os membros do CC -, foi discutido, foi votado, foi aprovado, foi comunicado.

Aquando da comunicação, feita pelo secretário-geral, ouviram-se as perguntas esperadas, que tiveram as respostas repetidas e que, por isso, deviam ser consabidas. Mas os preconceitos, os "clichés", as perguntas repetem-se. Têm de se repetir as respostas!

Depois, duas horas mais tarde, no final da reunião de trabalho, que continuou, o candidato do PCP às eleições presidenciais fez uma declaração.


Os comentários dos encartados comentadores repetiram as "dúvidas", os preconceitos, os "clichés". As mesmas das perguntas...

Assim será (mais) esta batalha.
.
Votos de bom trabalho (e votos dos outros...), camarada Francisco Lopes!
... E só com muito trabalho nosso, porque tem de ser de todos!


Para que fique claro

Em razão de algumas dúvidas que me colocaram, e para que fique inteiramente claro o modo como funcionamos, escrevo esta mensagem às 23:48 de 23 Agosto e vou fazer uma opção de postagem para as 11 horas de amanhã, 24 de Agosto.
A essa hora, e pontualmente como é nosso hábito, começará a reunião do Comité Central eleito pelos delegados eleitos ao Congresso de 2008. Porquê tão tarde? Porque muitos dos camaradas se deslocam de longe - irão do Algarve a Trás-os-Montes - e hoje, até tarde, têm trabalho, partidário ou não, para fazer (eu, por exemplo, que não me desloco de muito longe - chegam duas horas, com uma hora e meia de autocarro - não podia ir hoje para Lisboa porque tive reunião da concelhia até há pouco).
Pois nessa reunião, como já vi e ouvi anunciado vai ser decidido qual vai ser o candidato do PCP às presidenciais. Foi até dito que "amanhã será anunciado..." como se fosse coisa já decidida.
Pois não está!
De acordo com os nossos modos de proceder, depois de consultas que lhes pareceu convenientes, os organismos executivos do Comité Central (a Comissão Política e o Secretariado), na reunião convocada para as 11 horas, e no 1º ponto da ordem de trabalhos, vão apresentar a proposta do camarada a cumprir essa tarefa e, cumprindo decisão anterior (que pode, evidentemente, ser alterada... mas só pelo organismo que a tomou, e que foi o CC), será um membro do CC. Essa proposta será apreciada pelo colectivo do CC, que a discutirá e decidirá. Só depois se pode dizer quem será esse nosso candidato, e deverá ser o Secretário-Geral a fazê-lo. Nada impede que a discussão possa levar a decidir diferentemente da proposta dos organismos executivos.
Nada na manga! Nenhum tabu!
Sem burocracia ou procedimentos de faz-de-conta, mas com lisura e coerência democrática. Sublinho: democrática!
Não estranhem, por isso, que a esta hora que escrevo não possa responder à pergunta sobre quem será o candidato do PCP à eleições presidenciais, e comece a reunião do CC, às 11 horas a que sai esta mensagem, sem o saber, como nenhum outro membro do CC o sabe.

Tomar partido! (formas materiais do capital)

Neste apontamento de hoje, apenas quero deixar um breve encadeado de observações que procuram sintetizar o resultado de algumas leituras e reflexões próximas (embora continuadamente repetidas e reformuladas que não revistas).
De acordo com a nossa base teórica, sendo o capital uma relação social de produção, ele materializa-se em capital-dinheiro (D), capital-mercadoria (M) e capital-produtivo, (… P …).
Essas formas materiais que toma a relação social passam por metamorfoses, de D a M e de M a D, como fases do processo de circulação do capital e, enquanto capital-produtivo, na esfera do processo produtivo (… P …), divide-se em capital constante, que é mercadorias-meios de produção - pano, linhas, botões, máquinas, energia -, e capital variável, que é mercadoria-força de trabalho - horas de trabalho, de que só algumas são trocadas pelos meios para a sua recomposição e (sobre)vivência do proprietário/trabalhador.
.
D – M (…P…) M’ – D’
.
Por este caminho, de que não me canso e em que descubro sempre “paisagens” novas, continuaria, mas só quero acrescentar que, ao longo do processo histórico, outras formas materiais do capital (da relação social de produção) foram aparecendo e/ou autonomizando-se, algumas delas vindas de modos de produção anteriores e/ou coexistentes, isto é, de outros estádios de relações sociais de produção, de anteriores fases do desenvolvimento das forças produtivas.
Refiro-me ao capital-comercial e ao capital-financeiro, inseridos nos circuitos de circulação do capital, e que foram tendo crescente autonomia e importação no circuito total de reprodução do capital.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 8 (Antonio Guerrero)

Não será bem “de cuco” esta mensagem, a tirar dos ninhos de outros as palavras que quero dizer e a dar-lhes ares meus às maneiras suas.
Neste caso, a situação é mais séria que a simples (e importante!) intenção, estulta..., de melhor dizer o que outros disseram tão bem que me desafiou.
Neste caso, traduzo “à minha maneira” – sendo boa a tradução que conheço – e denuncio! Denuncio a prisão do poeta, desde 12 de Setembro de 1998 (há 12 anos!), e de mais 4 companheiros, acusados de “conspiração por espionagem” e de acção consciente como “agentes não registados de um governo estrangeiro”, quando esse governo estrangeiro é o da sua Cuba, e a acção de conspiração era a de procurar conhecer, informar e impedir actos de sabotagem e terrorismo contra a sua Pátria.
de António Guerrero
(Desde mi altura)


Hasta quando

Muitos Abris passaram sem regresso,
tanto se atarda a primavera nova
que não poderei dizer-te ao certo
até quando será esta espera, esta demora.

Dá-me pena saber as flores em tuas mãos
e não as poder regar todas as manhãs.
Causa-me dor adivinhar os frutos dos teus lábios
e não os misturar com meus doces morangos.

Não sei até quando estará seco este vale,
quando voltarão às árvores as flores e os frutos,
mas neste rego onde hoje morre a rosa
sempre se incendeia de vida o coração.

Tomar partido! (para quê?)

Suponhamo-nos em tarefa, na Atalaia a construir a Festa (que é nossa na construção e na desmontagem, para que seja de todos enquanto cidade viva e outra durante três dias), ou a colar cartazes, ou a cobrar quotas e entregar cartões, ou a distribuir propaganda na rua … para que nos serve, então, a base teórica?
Sim, para que nos serve saber se este assalariado desta fábrica a encerrar, operário, é trabalhador produtivo e se aqueloutra assalariada da mesma fábrica, empregada da contabilidade, é trabalhadora improdutiva, como aqueloutra “aviadora” numa grande superfície, todos/as sujeitos/as ao mesmo sistema de exploração, vivendo os mesmos problemas em casa … sim, para quê?
Não será perder tempo estudar “essas coisas” quando a luta está aí, na construção de uma “cidade” nossa, nos cartazes que, com frases curtas e incisiva, e motivos gráficos apelativos, passam a mensagem que se quer retida, nas quotas e fundos que se tem de receber senão a organização não funciona, na propaganda que é preciso entregar de mão em mão, nas palavras a dizer aquele operário e aquelas trabalhadoras (talvez…) não-produtivas?
Não! A luta ideológica é uma frente da maior importância, deve dirigir-se às massas, tem de contrariar, com os nossos escassos meios, a tremenda campanha ideológica que nos massacra, que nos divide, que nos alicia, que nos engana permanentemente. E, para isso, a base teórica é indispensável, porque a tomada de consciência (de classe) tem de se somar às condições objectivas que podem levar à luta, mas que dela podem afastar, ou desviar para batalhas que não são as nossas, quem nosso é, objectivamente.
E continuo este tomar partido!, na sua expressão da base teórica, colocando alguns pontos que resultam do exemplo que saltou sobre os trabalhadores/as serem ou não produtivos/as. Tem importância? Tem toda a importância porque é fulcral para a compreensão do funcionamento da economia. Porque está intrinsecamente ligado às noções de trabalho e de criação de valor (que é, em unidade dialéctica, de uso e de troca) e de mais-valia que se metamorfoseia em lucro e outras formas.
Não se pode lutar sem esse conhecimento, ou sem essa discussão que até pode levar a compreensões diferentes? Claro que sim, mas mais frágeis, menos seguros.
Vou deixar apenas um aspecto que, julgo, a todos tocará. Segundo a nossa base teórica, produtivo não é igual a necessário, produtivo não é igual a útil, produtivo não é igual a racional. Alimentar estas confusões, mesmo que com a melhor das intenções, serve para dividir, empresta a um conceito ou categoria económica uma carga moral que não tem. Ora é preciso tornar claro que, como dizia Marx, a economia política não tem uma moral e, tal como a sua prima, a dona religião, serve para a acumulação da riqueza em boa consciência, em virtude e etc.
Para a compreensão do funcionamento da economia política há que estudar as metamorfoses do capital nos seus círculos de distribuição (D-M e M-D) e de produção (…P…), e nas suas extensões e interpenetrações e localizar onde e como se cria valor.
(e logo volto para continuar...)

Denúncia!

Sobre as Honduras.
Ler Liberdade de informação aqui, em cravodeabril.

domingo, agosto 22, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 7 (Jean Gabin)

Não só os poemas se "cucam". Aliás, já "cuquei" um pedaço de um poema do José Saramago a ser cantado pelo Manuel Freire - e deveria, talvez..., ter tentado colocar o video para poder ser ouvid(e)o. Agora sei. E, agora, vou buscar, isto é "cucar", o maintenant je sais, cantado/dito pelo Jean Gabin que gosto (será gôsto?) de ouvir de vez em quando.


À maneira de
Jean Gabin
(ou ouvindo-o cá dentro de mim
cantar versos de J-L. Dabadie)


Agora sei,
ah, sim! agora sei o pouco que sei,
vou à janela,
olho para fora de mim e interrogo-me

Agora sei,
agora sei que não aceitei
a cruel obrigação de ser fiel

Agora sei,
agora aprendi que sempre cumpri
o dever moral de ser leal
.
Sim, agora sei,
agora sei que, com o amor que inventámos,
não esquecerei uma manhã de ternura
.
Sim, agora sei,
agora sei que, com os que sei camaradas,
lutámos e continuará a dura luta

__________________________________
(*) - Os cucos são aves conhecidas por chocarem os ovos em ninhos feitos por outros/as; também se aplica o epíteto a algumas “aves” humanas que se aproveitam do trabalho dos outros/as

Por onde vai a economia portuguesa?

Quando "dava aulas" (estranha forma de... dizer), um dos testes que fazia, mesmo em auto-avaliação, era perguntar aos meus alunos qual o título de um estudo do professor Francisco Pereira de Moura, que eu citara e que de que recomendara a leitura. E a resposta era invariavelmente errada. Em vez de Por onde vai a economia portuguesa?, respondiam-me (os que respondiam...) Para onde vai a economia portuguesa?

Aproveitava a "deixa", ou a escorregadela, para, depois de recomendar que se começasse a ler os livros, e todos os trabalhos, pelo título, fazer a distinção entre as duas proposições, sublinhando que, mesmo quando se sabe para onde se vai, pode ser de enorme importância a questão por que caminhos lá chegar.

Nós, por exemplo, estamos convictos que vamos para o socialismo, e alguma coisa queremos contribuir para lá chegar, mas podemos, nesse esforço/luta para onde vamos e queremos ir, por onde vamos nem sempre será a melhor ajuda para lá chegar mais deoressa e melhor. Que (e como) fazer?

Por outro lado, estando onde estamos, neste estád(i)o em que nos encontramos, mais importante que os objectivos afirmados - ou por quem não avaliou a possibilidade de os cumprir, ou apenas os afirma para conseguir resultados eleitorais (vivemos em democracia...embora bem desvirtuada), ou até procura alcançar outros bem diferentes - são os passos que estão a ser dados, as medidas que o poder, o real e o fa(n)ctual (de fantoche), toma ou intenta tomar e as suas consequências nas gentes que por estes tempos e caminhos vivem.

Vem isto a propósito (se é que vem...) de ter recorrido ao aparelho de busca da net para encontrar o trabalho de Pereira de Moura e, à pergunta por onde responderam-se com para onde e como!

Interessante, não é?

Depois, fui procurar Francisco Pereira de Moura e, claro, encontrei, entre outras coisas, Por onde vai a economia portuguesa? (o livro, evidentemente...)

Álbum - 11

No Parlamento Europeu.
Quando, depois da cisão entre "franceses" e "italianos" do Grupo Comunistas e Aparentados, que atravessou o mandato de 1989 a 1994, em que o PCP ficou, com os "gregos", no grupo "Coligação de Esquerda" maioritariamente PCF, e os "italianos", antes de desaparecerem como PCI, formaram a "Esquerda Unida" (isto para simplificar), se conseguiu reconstituir um grupo confederal, formado por "espanhóis", "franceses", "gregos", "italianos", "portugueses" (como se vê na foto), e depois "nórdicos" e outros isolados. Foi um passo importante!
Olho para a foto, e vejo que faltam alguns, que estariam em trabalho algures (por exemplo, nessa altura, o PCP tinha três deputados e só estão dois na foto - não sei se, naquele dia, faltou o Barata-Moura, o Luis Sá ou o Honório Novo, que se sucederam, por esta ordem, num curto espaço de tempo -, e estaria em tarefa que impediu de ficar na foto)

Desta equipa, uma da muitas em que "joguei", sempre com a mesma "camisola", olho para os componentes e vejo uns que morreram, outros que desertaram ou se transferiram...
Mas foi um passo importante, ou uma inversão de caminho de cissiparidade!

sábado, agosto 21, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 6 (Daniel Filipe)

É sempre com emoção que se relêem (e "adaptam" cucamente) poemas de quem se conheceu e de quem se gostou muito de conhecer e conviver.





À maneira de Daniel Filipe
(com um "toque" do Ary)



(…)

Pelos homens, pelas mulheres, pelos trabalhadores
pelos meninos tristes suburbanos, pelas viúvas sós e rurais,
contra o peso da impotência, contra o medo,
contra a mentira e a calúnia e tudo o mais
contra a exploração e a miséria, a fome e a sede

Lutaremos, camaradas!

Na aparência sozinhos, muitos, muitos mil,

por Abril lutaremos, meu amor

Notícia na TSF

com alterações (de forma, sem deformar...) de minha respons(h)abilidade:


Jerónimo aponta o dedo ao Governo
em matéria de execução orçamental

Hoje, na TSF, às 14:27

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou hoje o Governo de, em matéria de execução orçamental, continuar a abdicar de pôr em marcha medidas necessárias de combate ao desperdício.
O líder comunista, à margem de primeiro encontro de militantes em Avis, comentou desta forma os últimos resultados da execução orçamental que apontam para um aumento do défice público, na ordem dos 347 milhões de euros nos primeiros seis meses do ano, quando comparados com o 1º semestre de 2009.
Para os comunistas, além do combate ao desperdício, o Governo deveria ir buscar dinheiro onde ele está, no grande capital., e não onde ele escasseia cada vez mais.

Tomar partido! (pausa)

Uma pequena nota prévia: o facto de tanto gostar da expressão tomar partido não me leva a reivindicar qualquer originalidade. Considero, até, que muito do gosto que por ela tenho resulta da sua força quase diria universal. Acho, por exemplo, de grande felicidade o uso que lhe foi dado aqui na vizinhança, ao aproveitar-se o nome da cidade e concelho de Tomar para se “jogar” com a expressão tomar partido… por Tomar.
Pelo meu lado, insisto na referência à sua retroversão francesa parti pris que, na minha leitura, ainda lhe dá mais (ou menos…) força, pelo significado ou interpretação que pode ter de preconceito, como por vezes se usa, enquanto francesismo na nossa portuguesíssima linguagem corrente.
Pois sem qualquer parti pris… tomei partido, e estou convencido que, por o ter feito sem ambiguidade (mas tentando não ser ostensivo), nada se me colou de preconceituoso. Tomei partido!, num certo momento já longínquo de décadas, por opção de vida. E, nesse Partido que tomei, cá vou fazendo, feliz da vida, a minha vida.
Daqui resulta a assumpção de tarefas e talvez aquela que é agora prioritária, nesta altura da vida, seja a de me dedicar (mais!) ao estudo, não para “saber mais” mas para mais aprender e melhor transmitir como forma de fortalecer, eu, a consciência do partido que tomei e ajudar, outros, a ganharem consciência de classe. Isto como luta e para a luta.
[O que não me desviará de outras formas de luta e tarefas, evidentemente, embora não me sinta muito vocacionado (este físico já não é o que era…) para participar em tarefas como a da construção da Festa, de que guardo, de há muitos anos, a recordação de uma desajeitada martelada num dedo (de intelectual…) que me deixou marca.]
Neste fim de semana, e dada a decorrente baixa de visitantes e de comentários (que comecei a gerir nesta forma de comunicação), fica esta reflexão muito pessoal sobre… tomar partido. Segunda-feira voltarei (talvez…) a continuar a trazer para aqui o trabalho sobre a base teórica em que estou empenhado.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 5 (Alda Lara)


Então? Então... nenhuma mulher, nenhuma poet(is)a? E ele há tantas!
Escolhi esta. Porque muito gosto da sua poesia. Porque a terei conhecido, ou dela estive próximo, na Casa dos Estudantes do Império. Porque morreu aos 31 anos. E atrevi-me a “cucar” o seu poema Círculo. Melhorei-o? Decerto que não. Fiz outro, quase com as mesmas palavras, procurando o mesmo sentido e ritmo. Meu, de cuco, sendo dela.

À maneira de Círculo,
“cucando” Alda Lara

Minha!, esta culpa

Todo o caminho é belo se andado.
Ficar a meio é perder o sonho.
É deixá-lo apodrecer, por não caminhado,
é fechar o círculo da angústia, do abandono.

É ir de mãos abertas… mas vazias.
De coração repleto… mas chagado.
É ter o sol a arder dentro de nós,
mas por grades infinitas cercado.

Culpa de mim, que fiz o que podia,
na hora dos descantes e das lidas,
no tempo todo das lutas?

Ah! ninguém diga que foi minha a culpa,
Ah! ninguém diga…

Minha?... minha só esta culpa,
esta culpa de ter dentro do peito
tantas vidas!...

Tomar partido! (alguns aclaramentos - 2)

Tomar partido contra a exploração, que é intrínseca ao funcionamento de um sistema económico que assenta na criação e apropriação de mais-valia, é fácil (é uma maneira de dizer…), sobretudo para quem a sofre no seu viver quotidiano, é instintivo, e pode também ser uma questão… de imperativo moral.
Acontece que, na maior parte dos casos, assim é, e toma-se partido sem um conhecimento mínimo da base teórica em que «repousa toda a compreensão» (usando expressão de carta de Marx a Engels) dos mecanismos de exploração.
No entanto, este conhecimento, ao menos nas suas linhas gerais, é indispensável para a luta consciente. E não é fácil esse trabalho de “saber das coisas”, até pelo ambiente cultural em que se vive, mas sobretudo quando se quer aprofundar, nesta ou naquela área, como na da economia política.
Ora conhecer o funcionamento dos processos i) de produção do capital, ii) de circulação do capital e iii) total da produção capitalista (títulos dos 3 livros de O Capital, que tem o subtítulo geral de Crítica da Economia Política), é essencial para quem se pretenda marxista, e faça da base teórica uma sua arma de luta, na vertente ideológica. E contra esse conhecimento aprofundado levantam-se barreiras objectivas (em português, as edições avante!, ainda só têm publicados os 5 tomos dos 2 primeiros livros, o que já é trabalho notável) e as que concretizam a luta de classes, no plano ideológico.
Na economia política, os apologetas do capitalismo consideram, por exemplo, que os ditos factores de produção – “capital” e “trabalho” na terminologia não-marxista – proporcionam rendimentos aos seus proprietários (capitalistas e trabalhadores) independentemente da esfera de actividade (produtiva ou de circulação) em que são utilizados. E esta perspectiva, ou concepção, é não só imposta em todas as escolas em que se ensina economia – mesmo naquelas em que o marxismo não está totalmente abolido e ocupa uma espécie de reserva arqueológica (nalguns casos como algo respeitável enquanto história passada) do pensamento económico – como tem influência (e perturba, e provoca perturbação) em franjas mais permeáveis dentro do pensamento económico considerado como marxista, pelo que assim favorece a campanha ideológica contra o marxismo.
E não é a discussão, ou o debate, que está em causa. A base teórica do marxismo-leninismo alimenta-se e fortalece-se nessa discussão e nesse debate, mas para isso é indispensável conhecer sobre que repousa a nossa base teórica.
.
A partir daí… discutir tudo!

Tomar partido! (alguns aclaramentos - 1)

Ao ler Marx, ou ao ler sobre Marx, não se tem a ideia – isto digo eu… – de que se está a pescar (ou a saber da poda), mas a de que se está a aprender a pescar (ou a aprender a saber da poda), para usar imagens talvez demasiado batidas… mas clarificadoras. Não há fato feito, não há comida pronta para levar ao micro-ondas, não há modelos acabados, nem sequer as peçazinhas todas que (?!) são precisas para formar o puzzle ou construir o lego, até porque peças de ontem não servem hoje, não se ajustam, e Marx sublinhava-o.
Marx estudou quem pensou sobre a realidade antes de ele, com cuidado e muito respeito mas também com acerado sentido crítico (que consigo praticava), observou a realidade que vivia para a conhecer e para contribuir para a modificar, escreveu, escreveu, escreveu, muitas vezes repetindo melhor o que já antes dissera, algumas vezes corrigindo, mas sem apagar o que estaria errado ou incompleto porque isso antes datado representava um passo, e era útil enquanto fixação do estádio do conhecimento a que se chegara quando errara ou fora incompleto ou insuficiente.
Na área da economia política, Marx estudou com os “clássicos”, que um século antes dele foram os economistas da burguesia ascendente, e deles aproveitou o grande salto que provocaram no pensamento económico, particularmente Ricardo e, sobretudo, Adam Smith com quem muito “conversou”. Nada inventou a partir da negação e do desprezo dos outros (mesmo quando era violento e cáustico). Com todo o respeito pelo saber antes adquirido (e datado!), firmando-se no que adquirira no aprofundado estudo do direito, da filosofia, da história, deu o “salto qualitativo” ao encontrar no trabalho o seu carácter duplo, que se exprime em valor de uso e em valor de troca, e ao tratar a mais-valia independentemente das formas particulares que viesse a tomar (lucro, rendas, juros, despesas) nas metamorfoses do capital que, como relação social, se materializa em várias expressões. E, como ele o escreveu em carta de 27 de Abril de 1867 a Engels, aí está «o que há de melhor no meu livro (O Capital) e aí repousa toda a compreensão»; e acrescentava que «o estudo dessas formas particulares da mais-valia, se é confundido com o estudo da forma geral à maneira dos economistas clássicos, dá uma misturada informe».
Este é um aspecto sobre que importa reflectir (e discutir... se houver com quem) quando se fala da base teórica de quem tomou partido.
Tratando-se de base e de teoria, há que ver quais os conceitos que são caboucos dessa base sobre que se constrói a teoria. Também como arma para a tomada de consciência, para a tremenda e tão desigual (nos meios) luta ideológica.
.
(o trabalho desta noite - mais para a madrugada... -,
de fixação de leituras ao longo do dia,
saiu-me demasiado longo para mensagem de post
pelo que o subdividi.
Logo, a continuação - esta - vai seguir dentro de pouco tempo)