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segunda-feira, abril 19, 2021

TáVisto

 - Nº 2472 (2021/04/15)

Lembrar

Argumentos

Foi no passado domingo e num canal pouco frequentado, o AXN, presumivelmente só visitado por uma minoria de telespectadores, para mais a meio da tarde, que foi transmitido «Resistentes», filme de Edward Zwick. Era, mais uma vez, uma estória situada durante a Segunda Guerra Mundial, ficção tristemente verosímil, com a brutalidade nazi a ser contestada por acções de resistência. Nada de novo, dirá quem porventura já esteja saciado de narrativas protagonizadas pelos crimes nazis e pela coragem dos que contra eles se organizaram. Essa eventual saciedade, porém, implica algum risco: não esquecer os crimes é a primeira condição para que eles não se repitam, e quem porventura prefira que «falemos de outras coisas» por este assunto já ter sido suficientemente abordado pode estar à beirinha de lhes facilitar uma reedição. Tem sido lembrado, mas nunca excessivamente, que o nazifascismo foi (ou mais exactamente, é) uma serpente que nunca chegou a ser exterminada de modo a impossibilitar uma indesejável ressurreição. Ou de outro modo: que nunca os ovos dessa serpente foram eficazmente destruídos.


Ajudar a memória

Poderá lembrar-se que os anos entre 33 e 45 do século passado já estão longe, que o actual mundo é outro, que as extremas-direitas de fardas paramilitares e cruzes mais ou menos suásticas estão definitivamente fora de moda. Pois sim. O essencial da questão, porém, será que os nazifascismos, com fardas e botas ou sem elas, sejam os passados ou eventualmente alguns actuais, não correspondem a qualquer delírio militarófilo sem raízes: os nazifascismos, os que a História regista e os que por aí circulem fora de moda mas sempre à espreita e disponíveis, são uma forma da luta de classes e serão sempre uma via possível mesmo se improvável. Por isso é saudável, e até mais que isso, lembrar até onde podem chegar as classes dominantes quando vêm a sua hegemonia em grande risco: não é possível uma compreensão correcta da Segunda Guerra Mundial sem a relacionar com classes, domínio, exploração em crescimento exponencial. Não foi por acaso que os movimentos de resistência antinazi em toda a Europa ocupada tiveram os partidos comunistas como sua espinha dorsal e não é por acaso que os sinais mesmo que ligeiros do regresso nazi em diversos lugares da Europa e do mundo são denunciados pelos comunistas. Não haverá grande pessimismo ou enorme exagero ao dizer-se que a direita no mínimo «compreensiva» para com os neonazis é a modalidade por agora «democrática» de pendores nazificantes. Na dúvida, olhe-se para a actual política interna na democrática Alemanha actual e repare-se em como por lá vai vivendo sem problemas nem visíveis angústias a extrema-direita. Por isso são saudáveis os programas que ajudem a não esquecer. Até porque haverá quem deseje que esqueçamos.

Correia da Fonseca 

quinta-feira, janeiro 28, 2021

TáVisto... estava a fazer(-me) falta

  - Edição Nº2461  -  28-1-2021


CONVERSA NOS ALGARVES

Foi em 3 de Janeiro de 60, isto é, há já sessenta e um anos, que o fascismo português sofreu uma derrota espectacular que terá levado Salazar a um mal controlado estado de irritação, verdadeiro «estado novo» perturbador da sua habitual tranquilidade: do forte de Peniche, prisão considerada de total segurança, evadiram-se dez presos, entre os quais Álvaro Cunhal, Canais da televisão portuguesa, porventura não todos, assinalaram só um poucochinho a efeméride, mas não deixa de ser curioso que exactamente por estes dias a RTP1 se tenha aplicado a entrevistar longamente Carlos Brito, ex-militante do PCP que não teve nada a ver com a fuga de Peniche e em tempos saiu do Partido por uma porta encimada por um imaginável letreiro a dizer-nos «Renovador». A entrevista não teve nada de obviamente provocatório ou semelhante, excepto porventura nessa etiqueta. Aliás, como bem sabe quem o queira saber, formular votos para que o PCP se «renove» é uma espécie de destino dos inimigos do PCP: que ele, o Partido, se renove incessantemente até à sua autodestruição final.

Por vezes, Roma paga

A entrevista a Carlos Brito, que aliás não arrancou de um pretexto visível e não teve relevo especial, poderia passar por apenas uma tentativa algo ingénua de incomodar o Partido que Brito afirmou querer «renovar». Aliás, mesmo durante a entrevista, que não foi breve, não foi possível vislumbrar sinais concretos e claros de convite a uma qualquer renovação. Mas admite-se que para o anticomunismo militante que está permanentemente alojado nos grandes «media» a questão não ofereça dúvidas: o PCP deve renovar-se até que deixe de ser «C», e a recusa dessa trajectória, porventura enovelada com ambições pessoais de promoção dentro do Partido, poderá explicar o embarque de Carlos Brito na mítica barca chamada «renovação» e a sua partida para os algarves. É claro e indubitável que Brito foi um resistente antifascista e que sofreu por isso, como o programa acentuou e bem, mas mesmo os bons combates travados não justificam uma atitude qualquer. Carlos Brito parece ter decidido «renovar» a partir da sua província natal e ao decidir assim pagou uma espécie de pesado preço: abandonou os muitos milhares de camaradas seus que optam pela permanência num combate comum que exige unidade sem rupturas e desaconselha protagonismos individuais, por muito apetecíveis (e porventura estimulados do exterior) que eles surjam. Há circunstâncias em que é preciso resistir às tentações, talvez Carlos Brito não tenha resistido a todas as que surgiram no seu trajecto, e em consequência saiu do mapa político português. Mas ganhou agora esta entrevista na RTP. Uma língua pérfida diria que Roma já paga, embora pouco, a quem há uns oito séculos atrás não pagava.

Correia da Fonseca

sábado, novembro 28, 2020

TáVisto - O CONGRESSO

  - Edição Nº2452  -  26-11-2020


Os cuidados

Pela televisão, e naturalmente que não apenas por ela, ficámos a saber que há por aí muita gente boa e generosa que se preocupa com a saúde dos comunistas: é que a realização do próximo Congresso do PCP, implicando a presença de muitos delegados numa sala, poderá resultar num acréscimo de contágios do sinistro vírus que anda a passear-se pelo mundo em geral e pelo nosso país. Daí que as tais almas sensíveis e solidárias preconizem tacitamente, se não explicitamente, o cancelamento do Congresso. É um pouco a repetição dos receios e preocupações que a Festa do Avante! já suscitou, e pela repetição dos temores parece poder concluir-se que a saúde dos comunistas e similares é questão que muito inspira cuidados a larga gente, ao contrário do que podia recear-se. Felizmente, uma breve revisita ao passado revelará que os comunistas não são apenas corajosos, como a História ensina, mas são também adequadamente prudentes, como aliás o seu sentido da eficácia recomenda. Pelo que é provável que as inquietações que o Congresso pelos vistos suscita em certas almas resultarão menos de um superlativo apreço pela saúde dos comunistas que de um irreprimível desejo de embirrar com a iniciativa anunciada.

Ou não

A verdade é que, para alguns olhos, isto de um certo número de comunistas se juntarem presumivelmente para partilharem experiências, definirem estratégias e gizarem planos, tem sempre qualquer coisa de inquietante: é que os comunistas têm um projecto que não é tão largamente partilhado quanto seria desejável. Acontece até que esta simpática onda de cuidados com a saúde de comunistas pode suscitar memórias e reflexões: por exemplo, memórias do chamado «verão Quente» de 75 em que a aparente palavra de ordem seguida por alguns recomendava a destruição de instalações do Partido e, de caminho e se as circunstâncias a tanto fossem estimulantes e favoráveis, a eliminação física de militantes. Já lá vai um punhadão de anos sobre esse mau momento, felizmente, mas uma coisa é o tempo que decorre e coisa diferente é o falecimento da memória. De qualquer modo, temos agora que o apreço pelos comunistas é tal que a sua reunião em sala fechada inspira cuidados acerca da sua saúde, o que é bonito. É certo que por vezes acontece que o rosto bonito de alguns factos é enganador, mas não há-de ser este um desses casos. Assim, as preocupações que o Congresso indirectamente desencadeia podem (e, naturalmente, devem) ser autênticas: aliás é óbvio que a presença dos comunistas confirma a autenticidade do regime democrático. Estejam eles em sala fechada ou não.

Correia da Fonseca

(guardado para editar 
enquanto estiver a "ouver" 
o Congresso ao vivo  VIVO)

sexta-feira, abril 10, 2020

TáVisto

 - Edição Nº2419  -  8-4-2020

Tempo de (algum) medo

«O medo vai ter tudo (…)», escreveu um dia Alexandre O’Neil num tempo em que o medo possível tinha algumas razões muito concretas. Hoje, o eventual medo tem raízes específicas: é um medo que nos é inoculado por um inimigo invisível que, dizem-nos, veio de longe, sem que se saiba ao certo quem o desencadeou e quem dessas lonjuras o transportou para perto de nós, sobre esse ponto havendo informações diversas e sobretudo muito desconhecimento. Uma coisa é certa: este medo aprisiona-nos, e neste quadro surge a televisão como uma espécie de carcereira benévola que nos dá bons conselhos e adequadas orientações para que o medo não passe disso mesmo, de ser medo, para se transmutar em risco e/ou coisa pior. É, pois, uma televisão amiga e tendencialmente útil, embora aconteça, neste caso como em muitos outros, que entre a intenção da utilidade e o resultado desse bom intuito possa haver uma distância de transposição difícil.

Uma arte difícil

A televisão vem, pois, entreter-nos nestes dias difíceis e para alguns longuíssimos que custam a passar. Aliás, entreter-nos (presume-se que no melhor dos sentido) é desde sempre um dos assumidos objectivos da televisão. Acontece, porém, que entreter é uma tarefa mais difícil do que possa parecer desde que o entretenimento nunca possa confundir-se com emparvecimento, confusão possível em que a televisão, e não apenas ela, muitas vezes corre o risco de incorrer. É certo que, pelo menos em certo grau que naturalmente desejamos mínimo, pode-se porventura dizer que mais nos valerá ficarmos parvos que mortos, mas convirá decerto que não se exagere nessa preferência, e convirá reconhecer que a televisão portuguesa, toda ela, isto é, no conjunto dos diversos canais que a integram, não tem notáveis antecedentes nessa arte de facto muito difícil que é a de distrair sem queda abrupta da inteligência. O segredo dessa particular eficácia estará porventura em não facilitar riscos, mas haverá nesta questão uma dificuldade: lembremo-nos de tristíssimos programas «de comédia» que se revelaram autênticas «dores de alma». Assim, para o telespectador com alguma exigência aliás sempre muito recomendável, emerge um outro medo, este ainda que menoríssimo em confronto com o outro, o das ruas parece emergir e tentar entrar em nossas casas. Esperemos que todos esses medos se dissolvam nos dias próximos. E façamos por isso. Se possível, com a ajuda da televisão.

Correia da Fonseca


domingo, dezembro 15, 2019

TáVisto que é assim...

 - Edição Nº2402  -  12-12-2019

Duas partidas

No breve período de apenas algumas horas, a televisão trouxe a nossas casas as notícias da morte de dois homens que em áreas muito diferentes foram relevantes: um jogador de futebol chamado Rogério de Carvalho, decerto inesquecido pelos que durante anos o admiraram como talentoso extremo direito da equipa em que jogava, e Arquimedes da Silva Santos, poeta, decerto muito menos conhecido pela generalidade dos portugueses, pois que o talento poético não é entre nós (nem provavelmente em qualquer outro lugar do mundo) sequer de longe comparável ao futebol como gerador de popularidade. Não incorramos aqui no preconceito presunçoso de estabelecer uma abissal diferença de méritos entre uma e outra actividade: reconheçamos que jogo da bola e «jogo literário» têm cada qual o seu terreno próprio, por aí nos fiquemos. Mas não nos fiquemos sem um reparo perante a irrelevância que todas as operadoras de TV deram ao desaparecimento de um poeta português que não era «de segunda linha». E a essa quase chocante «discrição» acrescentemos uma suspeita: a de que a circunstância de Arquimedes da Silva Santos ser um poeta neo-realista poder explicar o quase inteiro silêncio acerca da sua morte.

Nós e as garras

Para mais, Arquimedes da Silva Santos não era homem de meias palavras ou de meias acções. Quanto a estas, foram elas que o levaram à prisão de Caxias e a umas longas horas da tortura de estátua; quanto às palavras podemos lembrar entre muitas outras quatro versos significativos escritos quando escrever com clareza era lutar com coragem: «Sinistro bando de corvos / ronda nossos corpos magros, se algum de nós desfalece / logo aduncas garras descem». Poderá ter sido por estas e por outras, isto é, por estes e por semelhantes versos, que a(s)TV(s) se incomodaram tão escassamente perante a morte do poeta. E nesta circunstância caberá notar mais uma vez como é fácil para a televisão suprimir ou reduzir ao mínimo a imagem de um homem apenas porque ele cometeu a inconveniência de lutar enquanto vivo e de nos deixar em legado um testemunho palpitante de insubmissão e da «fome e sede de justiça» de que nos falou Mateus no seu evangelho. Agora que Arquimedes partiu, resta-nos guardar o seu legado e ser-lhe fiel quando seja caso disso. Isto é: nunca desfalecer. Para que sobre nós não desçam as tais garras aduncas.


Correia da Fonseca

Para desanuviar,
ou para sacudir o véu
que vai cobrindo os nossos olhos
com tantas e tão frequentes "partidas",
permito-me corrigir o Correia da Fonseca,
ao mesmo tempo que o saúdo 
e agradeço pela constância das crónicas
e da amizade:
o Rogério Lantres de Carvalho
- o "pi-pi da pôpa" do Benfica
(e do Botafogo, que o veio buscar para jogar no Brasil!), 
... com quem cheguei a jogar 
e de que guardo amiga recordação -
era extremo esquerdo!

S.R.

segunda-feira, junho 24, 2019

"ESTAR PERMANENTEMENTE EM GUARDA"...





 - Edição Nº2377  -  19-6-2019

Ver, ouvir e depois

Com a «redefinição de conteúdos» a que o «Jornal do Fundão» procedeu recentemente, foi extinta a área de crítica de televisão que aquele jornal mantinha há cerca de quarenta anos. Em consequência, a crítica de TV, que em tempos teve muita leitura na imprensa portuguesa e um consequente impacto na consciencialização dos telespectadores perante a carga televisiva que diariamente recebem, ficou reduzida aos notáveis textos de Bernardo de Brito e Cunha na edição em papel do «Jornal de Sintra» e a esta magra coluna. Se nos lembrarmos de que a televisão é um meio de comunicação social com uma «tiragem» de milhões distribuída ao domicílio e que entra pelos olhos e ouvidos de cada cidadão, isto é, com um incomparável poder de penetração, ficamos com alguma ideia acerca da sua relevância social, política, cultural, e apercebemo-nos de que uma reflexão acerca dos seus conteúdos é como o direito/dever de defesa mínimo que cabe a cada cidadão. É essa reflexão que cabe à crítica fazer, no elementar direito de opinião, e também suscitar no telepúblico como fundamental atitude de autodefesa. Perante o televisor não basta ver e ouvir: é preciso confrontar os conteúdos televisivos com outras fontes, lembrar quem escolheu aquelas mensagens e não quaisquer outras, e porquê. A crítica de televisão pode ajudar.
Em guarda
A crítica de televisão pode ajudar, e decerto por isso não tem tido uma existência fácil ao longo das décadas em que vem acompanhando a quotidiana convivência dos cidadãos com a TV. A coisa chegou ao ponto de, no tempo sombrio do fascismo, os mais impactantes textos de crítica de televisão, os de Mário Castrim no «Diário de Lisboa», terem sido terminantemente proibidos e o seu regresso só se ter verificado na sequência de uma verdadeira pressão popular. Esse tempo passou, hoje a imprensa respira melhor (mas nem sempre tão fundo quanto se supõe e quanto seria necessário), mas a crítica de TV continua escassa e débil. Como se não fosse necessária, isto é, como se uma reflexão acerca dos conteúdos que nos são diariamente injectados não fosse indispensável. E aqui caberá uma espécie de advertência: em verdade, na televisão tudo é informação, sem exclusão dos enredos das telenovelas e das notícias aparentemente anódinas. Sem exclusão dos bons momentos de TV, toda a televisão tem lastro, digamos assim. Pelo que é preciso estar como que permanentemente em guarda. Para nosso bem. E também talvez para bem dela.
Correia da Fonseca
____________________________________________________ 

E é oportuno lembrar, entre tantos textos de mais de meio século de intervenção de Correia da Fonseca, o que ela escreveu em 2000, na abertura do livro que integrava crónicas suas publicadas no âmbito da colaboração no Diário do Alentejo:

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

TáVisto-Faria rir se não cheirasse a esturro (e petróleo!)

Como a partir de um caso tristemente ridículo se faz uma crónica bem humorada, cheia de pontaria e pedagogia! Senhoras e senhores, estimados espectadores, eis o caso do deputado que perdeu um avião (coisa tão grande!) e dos colegas do dito que não perderam o avião mas não acharam a porta de desembarque para levarem ouro, incenso e mirra ao menino que lhes mandaram adorar:

 - Edição Nº2360  -  21-2-2019

Ida e volta

Rangel, eurodeputado, tinha diante de si a perspectiva agradável de uma viagem que lhe daria prestígio e lhe acrescentaria o currículo: ir à Venezuela cumprimentar e apoiar Guaidó, o presidente que se elegeu a si próprio. Para tanto, foi a Madrid e meteu-se num táxi para chegar ao aeroporto. Acontece, porém, que o trânsito em Madrid não parece mais fácil que em Lisboa, que os táxis emperram por lá mesmo quando transportam um eurodeputado em missão superiormente democratizante, e que em consequência Rangel falhou o avião para Caracas. Soubemos desta pequenina odisseia pela televisão, naturalmente, e também por ela pudemos recordar mais tarde que há males que vêm por bem. É que outros eurodeputados, digamos que uma mão-cheia deles, não perdeu avião nenhum, fez a viagem para Caracas que não é nada breve, e chegando à capital da Venezuela foi devolvida imediatamente à procedência porque as legítimas autoridades venezuelanas não estão dispostas a consentir ingerências estrangeiras na sua vida interna. Dizem elas, as legítimas, que o chavismo é um património do povo, e talvez acrescentem que, quando olham para o interior das autocaracterizadas democracias que enformam a União Europeia, não encontram que a gestão da coisa pública em qualquer delas se situe tão decisivamente no interesse dos povos quanto o chavismo na Venezuela, salvaguardadas obviamente as diferenças abissais entre as circunstâncias europeias e a amarga história de submissão ao peculiar colonialismo que é a marca norte-americana em todo o continente.
Como novos reis magos

Ficaram, pois, os devolvidos eurodeputados a digerir a sua rejeição, eles, que já antessaboreavam o prazer e a honra de cumprimentarem Guaidó, o presidente que Trump reconhece e após Trump todos os seus vassalos; o engenheiro formado numa universidade cuja designação, «George Washington», dirá o fundamental quanto aos saberes ali ministrados, designadamente os saberes políticos, que serão os mais relevantes. O episódio, ainda que fique por secundário, é verdadeiramente frustrante: imagine-se que há cerca de dois mil anos os chamados «reis magos» haviam sido impedidos de se ajoelharem diante do presépio e tinham sido devolvidos à procedência. Pois bem: podemos entender que, embora a uma escala diferente, os eurodeputados impedidos de oferecerem a Juan Guaidó as formas actuais de oiro, incenso e mirra, foram despojados da oportunidade de se parecerem pelo menos um pouco com os antigos magos, o que decerto muito lhes agradaria. Sobra que as coisas poderão não ficar por aqui: a União Europeia poderá não encaixar passivamente a desfeita: Rangel perdeu o avião mas não irá perder o espectáculo das agressões múltiplas que vão chover sobre Caracas. Esperemos que diferentes da trágica «chuva» que há já quase quarenta e seis anos desabou sobre Santiago. 


Correia da Fonseca  

domingo, janeiro 07, 2018

Isto anda tudo ligado... TáVisto!

do diário (em TEXTOS e CONTEXTOS):

(...)
Para começar, achei interessante a maneira como Ana Leonardo (leitura já desta madrugada) “pega” na passagem de número de ano, de 2017 para 2018, coincidente, ou quase, como a que a que eu fiz por aqui,
 [(…)
Porque assim foi convencionado que se datasse.
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Aqui.
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Sim, porque em muito lado, e para milhares de milhões de gente, está convencionado que seja tudo (dias, horas, anos) de outra(s) maneira(s).
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Depende dos fusos, e não só, cujos são, também, convenções.
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Tudo igual, ou que já foi ou que ainda não ou que nem será ou que será diferente em função calendária determinada por outras convenções (e rituais) completamente diversas destas que a nós respeitam ou que nos fazem respeitar.(…)]

 (…)

particularmente aquela referência aos “milhares de milhões” de que ela (e eu…) se lembrou, bem como à paciência dos chineses e outros povos asiáticos

&-----&-----&

Ainda procurando não perder tudo o que merece ficar guardado, registo mais este TVisto do Correia da Fonseca sobre a Lei de Financiamento dos Partidos e a manipulação da comunicação social de que me ocupei e me preocupa como sinal de que nos não podemos distrair

 

- Edição Nº2301  -  4-1-2018

O pretexto e o vírus
Foi por volta do Natal, o que aliás foi generalizadamente considerado como circunstância agravante ainda que por razões alheias à religiosidade que foram aprovadas as alterações à da Lei de Financiamento dos Partidos Políticos. A iniciativa dos deputados teve imediatas consequências que muito se pareceram com alarme social, bem se podendo dizer que num certo sentido incendiou o País e que as chamas da indignação se propagaram por todo o lado com o prestimoso sopro que lhe foi dado pela comunicação social em geral e pela televisão em especial. Não surpreende: no nosso País está desde há muito generalizada a aversão ao deputado quase sempre integrada na mais geral aversão a «os políticos» que faz parte da herança ideológica deixada pelo fascismo sem que ninguém tenha tomado em mãos a tarefa cívica e higiénica de a desmontar e desmentir. É sabido que o doutor Salazar odiava «os políticos», gente antipatriótica geralmente paga por Moscovo que alimentava condenáveis sonhos de liberdade e democracia, e por isso ordenava ao seu aparelho propagandístico que os bombardeasse com detracções e calúnias. Metamorfoseada em vírus de actividade permanente, essa estratégia foi herdada por boa parte dos media posteriores a Abril que lhe dão bom uso quando a situação é propícia e até quando não o é. Este caso da alteração à Lei do Financiamento dos Partidos foi para eles um presente dos deuses decerto movidos pelo espírito do ditador de Santa Comba.

Emboscado

É possível e até provável que as repercussões deste episódio sejam limitadas e se dissipem rapidamente, dele sobrando para o sentimento colectivo um agravamento da imagem dos deputados na avaliação da chamada opinião pública. Neste aspecto cabe dizer, naturalmente que com a devida vénia e todo o respeito, que os senhores deputados há muito que deveriam ter adoptado estratégias de autodefesa da sua reputação e de desmentido de calúnias explícitas ou implícitas que contra eles sejam disparados. É que não se trata apenas deles mas também e sobretudo da democracia. Talvez mereça ser recordado que uma boa parte dos golpes de direita que regularmente vão acontecendo por esse mundo fora se «legitima» invocando o combate à «corrupção». Dir-se-á que o nosso País está ao abrigo de algum risco desse género, mas nem assim é saudável que a reputação pública de «os políticos» seja abandonada às manobras dos que são caluniadores por uma vocação reforçada por encomendas de raiz fascizante. E aqui chegamos talvez ao âmago da questão: é de fascismo que se trata ou, no mínimo, de um caminho para ele que, nunca o esqueçamos, já não usa fardas nem braços estendidos mas subsiste no afecto e até já nos comportamentos de muita gente, e que agora serviram para a disseminação e reforço do vírus que está sempre por aí, emboscado. E utilizável.
 Correia da Fonseca 

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quinta-feira, novembro 23, 2017

anexo 2 a reflexões lentas - russos os maus das fitas todas

O recorte do Expresso que scaneei, sendo recensão bibliográfica com a assinatura de Luís M. Faria, antes de muitas outras "pérolas" tanto ou mais aleivosas começa com esta: «Conforme este livro recorda a certa altura, Marx não confiava nos russos. "Logo que um russo consegue infiltrar-se aqui, abrem-se as portas do inferno", disse o autor de "O Capital"(...)»! Ah!... disse? Onde? Não importa...o que importa é que os russos são os maus das fitas todas, como o provam esses tais de Estaline, de Lenine e agora (parece) de Putin, safando-se, como excepções uns Gorbatchov, Ieltsin e, noutras "artes" - no cinema, na literatura, na música -, uma quantidade enorme deles, desde que não se matam em políticas
E então não é que, já publicado o "post" me encontro com o Correia da  Fonseca a tratar, muito bem como sempre - a meu juízo - do "tema", e a titular Os maus... que são os russos, claro.
Transcreve-se, com gosto mas... leia o avante!

 - Edição Nº2295  -  23-11-2017
Os maus
Por reprodução de informações provenientes dos Estados Unidos, de onde aliás parece vir quase tudo quanto entra nas nossas cabecinhas, ou talvez também por outras vias, já sabíamos que os russos haviam interferido nas eleições presidenciais norte-americanas e desse modo impedido que Hillary, essa santa, se instalasse na Casa Branca e daí prosseguisse a política que levou a grande nação americana ao Afeganistão e ao Iraque (com o favorável voto Clinton) e decerto a levaria aonde mais lhe conviesse e lhe apetecesse. Em consequência, a eleição foi ganha por Trump, essa espécie de Tio Patinhas em versão mal-educada, que do alto da pirâmide constituída por negócios e cofres desatou a fazer coisas impróprias e indesejáveis, a começar por declarações em que confessou o desejo de se entender com a Rússia de Putin e a continuar com a recente visita à China do presidente Xi. Será adequado registar aqui que nas últimas semanas nem na televisão nem fora dela houve notícias de novos lançamentos de mísseis experimentais por parte da Coreia do Norte, o que mentes suspeitosas podem atribuir a eventuais conselhos chineses coincidentes com a visita de Trump. Bem se pode dizer que não há memória de que a eleição de um presidente norte-americano detestável e na verdade detestado tenha, durante o primeiro ano do seu mandato, resultado em factos tão distantes do retorno ou da intensificação da Guerra Fria. Isto não faz de Trump um santinho a merecer altar, longe disso, mas os comunistas são gente realista, pelo que é natural que olhem os factos com olhos de ver sem prejuízo de sempre lembrarem o que há muito sabem: que os Estados Unidos são o país líder do supercapitalismo devorador de tudo o que é justo, desejável e livre.

Uma nova maldade
Voltemos, porém, ao fio inicial desta pobre prosa: segundo o que nos foi ensinado pela televisão e outros media, os russos intervieram surdamente na campanha eleitoral que conduziria Trump à Casa Branca. É plausível, estes russos são uns metediços e ainda não deram provas completamente convincentes de estarem todos, mas todos, curados do vírus do comunismo. Além de que lhes continua colada a reputação de serem maus: como diriam algumas das nossas avós, têm o diabo no corpo. Ora, eis que recentemente a televisão, e decerto não apenas ela, nos presenteou com mais uma informação importante: os russos também interferiram em Espanha, designadamente no caso da Catalunha e porventura não só! Reconheçamos: estava a sociedade espanhola posta em repouso, do governo PP gozando o doce fruito, quando os russos injectaram na alma catalã a estranha apetência da independência. Uma vez mais não se sabe como, por que vias, com que métodos, mas sabe-se uma coisa: que é preciso serem maus para fazerem uma coisa destas. Porque são maus e a cada passo essa maldade se confirma, justifica-se que a russofobia, o horror à Rússia e aos russos em geral (com óbvio destaque para Vladimir Putin) se espalhe pelo mundo afora mais velozmente do que as gripes de Inverno. Com a prestimosa serventia dos media, naturalmente. Pois é também para isso que existem.

Correia da Fonseca


quinta-feira, fevereiro 16, 2017

A(s) voz(es) incómoda(s) - T(á)Visto

 - Edição Nº2255  -  16-2-2017

A voz incómoda

Fátima Campos Ferreira não resistiu e interrompeu Arménio Carlos. No «Prós e Contras» da passada segunda-feira, é claro, com as leis laborais como tema do programa. E não é que o dirigente da CGTP estivesse a falar durante muitos minutos: a questão é que Arménio Carlos incomoda, dispara factos e números capazes de causarem escândalo, não se mostra inclinado a encarar com serenidade que os trabalhadores cumpram o seu destino natural que é o de serem explorados das muitas e variadas maneiras que ele, Arménio Carlos, bem conhece. E depois há a voz e talvez também o modo como ele a usa: aquela voz surge sempre impregnada de uma indignação que reforça o efeito dos dados que ele exibe e que por si já seriam indignantes. É claro que uma voz assim a desfiar factos fundamentados e fundamentais não fica lindamente numa reunião onde desejavelmente todos deviam ser, se não amigos, pelo menos tranquilos e pacíficos. Ouve-se Arménio Carlos e é fácil perceber que ele não é homem para certas omissões ou, no mínimo, para certos esquecimentos: para esquecer que são muitos os portugueses que trabalham sem deixarem de estar afundados na pobreza, que a famigerada troika veio com o objectivo de destruir a legislação laboral que defendia ou ainda defende os direitos dos trabalhadores, que 25 por cento das crianças portuguesas vivem abaixo da linha técnica que identifica a pobreza, que subsistem condições de trabalho que engendram a morte em pleno acto laboral. É claro que uma voz assim que enumera coisas destas assusta, injecta mal-estar em gente serena e bem sentada nas suas cadeiras, e em consequência é preciso calá-la. Por isso Fátima acudiu a interromper Arménio, como era exigido pela serenidade geral e o desejável bom entendimento entre todos. Fátima é sem dúvida uma boa senhora que não gosta de ver gente incomodada. 

Em terrível incerteza 
Ora, entre o muito que Arménio Carlos enumerou no estreito tempo de antena que apesar de tudo conseguiu, talvez mereça referência destacada a epidemia de precariedade laboral que percorre o País. A questão é que a precariedade elimina a expectativa natural, dir-se-ia que quase instintiva, de uma existência compatível com necessidades humanas básicas e continuadas: alimentação, reprodução, habitação. Quem não sabe se terá trabalho remunerado na semana seguinte, no mês seguinte, e assim vai manter-se ao longo da sua vida laboral, vive em terrível incerteza: não pode estar certo de continuar a ter duas ou três refeições diárias, de assegurar a si próprio e à sua família um tecto sob o qual sobrevivam, de manter a esperança de dar aos filhos o pão e o ensino de que eles carecem absolutamente. Em verdade, a precariedade que vem sendo apregoada como inevitável e tendencialmente «natural» é a semente de todas as angústias, a intensificadora de muitas subserviências, a estimulante de todos os abusos, a propiciadora de muitas infâmias. Arménio Carlos decerto sabe muito bem tudo isso e muito mais, faz parte do seu trabalho conhecer esse peculiar monstro que foi introduzido no cenário laboral, e porque o sabe é tão firme nas denúncias que aliás documenta. É nesse quadro que bem se entende que Fátima o tenha interrompido, ela, que é boa senhora e por isso gostaria de ver todos amigos ou pelo menos todos cordeais. Percebe-se, porém, que Arménio Carlos é diferente: que é saudavelmente exigente na escolha de amigos e na selecção de cordialidades. Acontece que também ali, no improvisado estúdio que a RTP montou no auditório da Fundação Champalimaud, Arménio Carlos está a bater-se por direitos humanos fundamentais, e essa é uma situação enormemente séria. E, contudo, mesmo com aquela voz incómoda, com aquela veemência que a muitos parecerá excessiva, Arménio Carlos tem muitos milhares de amigos. Que lhe chamam camarada. Que gostam de ouvi-lo. E detestam que Fátima Campos Ferreira lhe corte a palavra.


Correia da Fonseca

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Uma crónica de TáVisto

O LEÃO E OS JUMENTOS

Morto Fidel Castro, dos quatro cantos do criptofascismo local ou multinacional surgiram textos e vozes que nos diversos meios de comunicação social, incluindo naturalmente os diversos canais que enformam a televisão portuguesa, se aplicaram a agredir a memória do líder da libertação de Cuba. Alguns deles, se não a sua maioria, são tão primários, tão singelamente utilizadores de velhos e toscos argumentos, que podem trazer à nossa memória a milenar fábula do leão agonizante, retomada pelo quase inesgotável La Fontaine. Como muito provavelmente nem todos a recordamos, lembremos que a fábula nos conta a situação de um leão que, velho e moribundo, se viu agredido por muitos outros animais que ao longo dos tempos nem sequer se atreviam a aproximar-se dele, e a todos esses cobardes o velho leão respondia com indiferença. Não, porém, quando viu aproximar-se um reles jumento com a intenção de participar na agressão colectiva: aí, o leão reagiu com indignação porque a conjunção da cobardia com a literal burrice lhe pareceu inaceitável mesmo naquele momento. Ora, no caso desta ofensiva póstuma contra Fidel, o que mais suscita indignação e porventura algum nojo é a evidência do velho ódio que aproveita agora o ensejo misturando a má-fé da omissão do essencial com o punhado de distorções que ao longo de décadas vieram sendo construídas. E por isso pode visitar-nos a memória a reacção do leão da velha fábula: é de mais!
O velho vício

Recordemos as duas mais repetidas acusações agora formuladas contra Fidel: a de ser um ditador e a de ter consentido a aplicação da pena de morte. Ambas são quase pueris e evidentemente infames. Quanto à primeira, é certo que Fidel Castro não foi eleito para a presidência de Cuba por um processo eleitoral “clássico”, digamos assim, mas lembremos que Hitler, sim, chegou ao poder por essa via tradicional e legítima: será que essa gente que agora abocanha a memória do libertador de Cuba prefere a “democraticidade” de Hitler, será que é por essa via que a condição de ditador se define? Para lá desse dado digamos que inicial, haverá alguma dúvida minimamente razoável acerca do apoio e mesmo da devoção que a larga maioria do povo cubano dedicava a Fidel, sem prejuízo de ilhéus de contestação interna aliás alimentada pelo exterior e por alguma ilusão acerca dos supostos paraísos capitalistas? É óbvio que não para qualquer observador honesto. Quanto a aplicação da pena de morte sobretudo aos apoiantes de Fulgêncio Batista, esse sim, ditador sem disfarce nem alibis, recorde-se que a repressão ordenada por essa criatura infame incluía a castração dos prisioneiros políticos antes da sua execução, o que obviamente explica o rigor da pena aplicada aos carrascos e seus cúmplices entre estes se incluindo os que se cumpliciaram tempos depois. Normalizada a vida cubana, a pena capital foi uma vez aplicada a um oficial superior do exército cubano, e esse facto surgiu como tão raro que suscitou a crítica de muitos apoiantes da Cuba socialista, mas recorde-se que a motivação do duro castigo não foi de ordem política: tratou-se de um general que cedera à tentação de traficar droga. Assim, perante os factos, a acusação de assassínios agora bolsada contra Fidel surge na sua inteira hediondez. Bem se sabe, é claro, que os Estados Unidos nunca deixaram de, ao longo de mais de meio-século, tentar injectar em Cuba o vírus da traição muitas vezes à débil sombra de pretextos e manejos em favor de uma suposta democraticidade. Mas a tentativa da Baía dos Porcos falhou e não foi a única, tendo sido a mais falada, sendo óbvio que foi caracterizadora de um clima de permanente agressão que não podia favorecer a supostamente desejada “democratização”. Também o isco do mítico consumo de bens à “maneira capitalista” foi usado para, em combinação com os efeitos do bloqueio que todo o mundo civilizado condenava, aliciar a população cubana. A resposta era dada pelo povo de Cuba, orgulhoso da sua revolução, nas praças da Cuba livre que Fidel para ele conquistara. Contra tudo isto e o muito mais que aqui não cabe pouco podem as calunias agora desferidas. Mas bem se sabe que para alguma direita a calúnia é um vício. Incurável e por vezes bem pago.

Correia da Fonseca
no avante!

quinta-feira, julho 21, 2016

TáVisto -


 - Edição Nº2225  -  21-7-2016

A Frente Leste

Na passada segunda-feira, por volta da hora de jantar, a TVI24 transmitiu mais uma reportagem no âmbito da sua rubrica «Observatório do Mundo», aliás habitualmente preenchida com conteúdos resultantes de uma colaboração permanente com um canal público norte-americano. Recorrendo a uma graçola pateta, poder-se-á dizer que desta vez a TVI24 fez uma escolha errada ou pela reportagem transmitida ou pela hora da transmissão, pois o que nos foi ali contado e mostrado era de todo incompatível com uma digestão tranquila.
A reportagem falava-nos dos países bálticos, talvez sobretudo da Lituânia, e da azáfama que por lá vai em matéria militar. E explicava-nos o motivo de tão intensa mobilização de facto lato senso, pois depressa se entendeu que se trata não apenas de blindados e canhões, de aviões e de mísseis, mas também de colocar os espíritos em pé-de-guerra. E de guerra contra quem, como perguntaria algum mais distraído? Contra a Rússia, naturalmente, como nos bons velhos tempos da Guerra Fria para alguns talvez de saudosa memória. A questão, como pacientemente nos foi explicado, é que a URSS, quer dizer, a Rússia, não é de fiar, e um dia destes bem pode querer lançar-se sobre qualquer dos países bálticos, ou sobre todos eles, e fincar-lhes os dentes tal como se lançou sobre a Ucrânia. Aqui, um telespectador ingénuo poderia lançar uma pergunta em tom de dúvida: lançou?
Não é certo que todas as agências internacionais, democráticas e de insuspeitável espírito ocidental, informam que na Ucrânia está em perfeita tranquilidade um poder amigo e venerador do Ocidente, por sinal manifestamente mancomunado com poderosos grupos neonazis e ostensivamente inimigo dos comunistas e de quem com os comunistas se pareça? Não é sabido e confirmado que da Ucrânia só se separou, por expressa vontade da população, uma parcela habitada por quem fala a língua russa e tem a clara vontade de estar integrado na Federação Russa, o que foi confirmado nas urnas? Não é certo que estes dados, obviamente fundamentais, são por cá conhecidos graças aos «media» ocidentais e não a eventuais panfletos de propaganda russa distribuídos à socapa por antigos agentes do KGB no desemprego?
É natural, pois, que o telespectador não acéfalo pergunte onde estarão os sinais das garras do urso moscovita cuja inata agressividade é agora invocada para manter o clima de pé-de-guerra nos países bálticos tão encostadinhos à fronteira russa?

Depois de Spínola
Durante a Segunda Guerra Mundial de abominável memória, a Frente Leste era a longuíssima linha de combates que se estendia desde a fronteira fino-soviética, ao Norte, até aos territórios banhados pelo Mar Negro, ao Sul. Nessa Frente Leste chegaram a combater e naturalmente a morrer os espanhóis da chamada Divisão Azul que Francisco Franco para lá mandou. Quanto a portugueses, só há memória da presença de António Spínola, então já decerto oficial superior mas ainda não general, que por lá andou na qualidade formal de observador e decerto de monóculo à prussiana encaixado na órbita para observar melhor.
É óbvio, pois, que a Frente Leste foi uma realidade sinistra e verdadeiramente criminosa. Não espantará, assim, que uma reportagem que factualmente dá conta de preparativos bélicos com vista a um eventual conflito, mesmo que sob a invocação de se tratar de cuidados preventivos, cause péssima impressão ao telespectador que tenha memória histórica e suscite preocupações. Subsiste, e ainda bem, a convicção de que não se regressará à Guerra Fria, esse jogo de risco mortal, mas o que a reportagem transmitida pela TVI24 nos contou, o que talvez tenha tentado meter-nos na cabeça, não é nada que nos ajude a ter sonos tranquilos.
Para mais, como informação adicional, minúscula no quadro global mas desagradável, sabe-se que por lá, por aquelas fronteiras russo-bálticas, também estão militares e material portugueses. Já nos bastava a vergonhosa presença de Spínola em 41 ao lado da Wehrmacht. Mas a vida é assim: nunca sabemos ao certo para o que é que estamos guardados. Ou para o que é que nos querem guardar.

Correia da Fonseca

sexta-feira, dezembro 18, 2015

O Zé e o menino Afonso Nuno

Leitor do avante! não (só...) por militância mas para ME informar e melhorar as condições pessoais para informar os outros, e/ou com eles trocar opiniões, tenho sempre a vontade de transcrever algumas das informações e opiniões publicadas. Só não o faço mais ou por falta de tempo, ou por perda de oportunidade, ou por não querer exagerar... Como seria o caso desta semana, em que vários trechos do semanário me convocaram à transcrição. A alguns não resistirei mas a este dou prioridade. Porque muito gostaria de o ter escrito. Assim:  

 - Edição Nº2194  -  17-12-2015

O Zé e o Afonso Nuno

Talvez a televisão portuguesa não tenha dado ao chamado «ranking das escolas», este ano, o mesmo grande destaque que lhe deu em anos anteriores. É certo, porém, que o noticiou com algum vagar e que até identificou «a melhor escola», uma instituição privada situada no Norte, e «a pior», uma escola pública de outra zona do País, assim confirmando que o Estado não tem vocação para ensinar meninos e que, em contrapartida, a iniciativa privada mantém o seu já muito divulgado talento para essa função social, como aliás para todas as outras desde que rentáveis.
Não consta que algum organismo federador do ensino privado tenha remunerado a notícia como facto publicitário, mas é claro que essa dimensão existiu inevitavelmente: não é facilmente imaginável que a generalidade dos pais portugueses não ambicione para os seus filhos os professores mais eficazes e uma probabilidade maior de futuro ingresso no ensino superior. Assim, não será absurdo admitir que, em face do «ranking», muitos cidadãos reflictam em quanto é adequado que o Estado sustente com subsídios o tão competente ensino privado e que decida abundantes cortes na despesa directa ou indirecta com a escola pública, essa incapaz. Sobre alguns espíritos mais minuciosos até poderá agir um outro factor ainda que meramente complementar: grande parte dos colégios privados nasceu sob a invocação de uma espécie de santo protector que figura na sua designação, ao passo que no nome das escolas públicas só está o nome de escritores ou equiparáveis, gente provavelmente agnóstica ou pior que isso. E não está comprovado que os céus se mantenham indiferentes a esse factor e se abstenham de apoiar quem esse apoio mereça. 

Sempre 
De entre a generalidade dos telespectadores que assistiram à divulgação do «ranking das escolas» permita-se que sejam destacados dois deles, ambos com a mesma idade de doze anos, mais mês menos mês: o Afonso Nuno e o Zé. Um deles gostou muito de saber que o seu colégio se classificou entre os «top ten» do «ranking», o outro sentiu-se um poucochinho humilhado porque a sua escola figurava lá para o fim da extensa lista. 
Porém, não se esgotam aqui as diferenças entre os dois rapazes. O Afonso Nuno reside numa bonita vivenda situada na periferia da cidade, o pai leva-o para o colégio no carro em que depois seguirá para a empresa de que é gestor; o Zé mora num T2 da periferia onde partilha o quarto com um irmão e vai para a escola em transportes públicos difíceis e fatigantes. No quarto do Afonso Nuno há uma secretária só para ele, computador e muitos livros que para si foram cuidadosamente escolhidos pela mãe, médica numa clínica privada; em casa do Zé há poucos livros e quanto a letra imprensa apenas jornais desportivos e números antigos de revistas «femininas» que a mãe traz das casas onde presta serviços domésticos.
Quando o Zé sente dificuldades com a aprendizagem na escola, é a mãe que tenta dar-lhe algum apoio: o pai, operário da construção civil, não tem sabedorias que lhe permitam essa ajuda; a senhora doutora ou o senhor engenheiro sempre encontram tempo e sabenças para acompanharem o estudo do Afonso Nuno. Aliás, eles prevêem claramente que o seu filho integrará, um dia, a «élite» que mandará no País a partir de São Bento ou, mais discreta e eficazmente de um gabinete empresarial; quanto aos pais do Zé, tudo quanto desejam é que os seus filhos consigam empregar-se mal acabem a escolaridade obrigatória e nunca, mas nunca, tenham de vê-los emigrar. É claro que o Zé não tem nítida consciência de tudo isto, mas apercebe-se talvez de que a escola pública que frequenta condiz bem com o resto da sua vida. Por isso não gostou de saber a sua escola na zona final do «ranking». Quanto ao Afonso Nuno, achou muito bem, até natural, que o seu colégio estivesse no topo da classificação. Acha mesmo que ele próprio, mais a sua família, mais os seus companheiros de colégio, sempre estarão no topo de tudo porque é natural que seja assim. Sempre.


Correia da Fonseca
(obrigado, Paulo)

sexta-feira, outubro 30, 2015

As tra(d)ições e as contradições

 - Edição Nº2187  -  29-10-2015

Roma já paga a traidores?


É uma estória antiga que se integra na História suficientemente antiga para ser anterior à nacionalidade portuguesa, aí por volta do século II A.C. Nesse tempo, ao que consta, havia um grupo de obstinados que resistia à ocupação romana. Eram chefiados por um sujeito chamado Viriato, homem que vinha do proletariado rural daquele tempo, pastor de sua profissão, de tal modo hábil na luta de guerrilha que infligia sucessivas derrotas às muito famosas legiões romanas. Compreensivelmente, a situação desagradava muito ao general romano com comando local, Cipião de sua graça, que decidiu resolver a dificuldade por um caminho lateral, digamos assim: comprando os serviços de três indivíduos do campo lusitano com vista ao assassínio de Viriato. Negócio fechado, dito e feito: quando, certa noite, o chefe lusitano dormia, os três assassinos penetraram na sua tenda e degolaram-no, após o que correram para dar a boa nova a Cipião e sobretudo para arrecadarem os proventos que lhe haviam sido prometidos pela consumação do crime. Esperava-os, porém, uma duríssima decepção: o general romano encarou-os com desprezo e explicou-lhes: « – Roma não paga a traidores!». Para mais, mandou que fossem decapitados, medida extrema que actualmente não está generalizada, optando-se preferivelmente pela utilização de drones «made in USA» quando os interesses ou as estratégias do Império estão em risco. Quanto a traidores e a traições, não consta que do século II A.C. para cá tenham diminuído substancialmente. Já pouco se pratica a degola, é certo, mas continua a haver muitos adormecidos contra os quais avança a traição. Digamos que como ladrões nas trevas, para deixar aqui uma fórmula bíblica que vem mantendo actualidade através dos tempos.

A obsolescência da honra
É aqui que entra a referência à actualidade portuguesa e ao que dela se vai podendo saber por obra e graça dos televisores que com conta, peso e medida, nos vão dando notícias dela. Foi assim que os cidadãos telespectadores puderam conhecer a peça oratória de grande significado com que o senhor PR nos favoreceu recentemente: nela já esteve presente e transparente o convite para que pelo menos um bom punhado de deputados se deixasse de lealdades pelos vistos obsoletas e se resolvesse a degolar politicamente o seu líder. Não se sabe qual o preço da traição proposta, sendo aliás provável que nem sequer ele tenha chegado a ser definido, o que seria demasiado indecoroso, mas faz parte de uma sabedoria generalizada e difusa que os serviços prestados às novas Romas, ainda que quando estas sejam relativamente minúsculas e nada ilustres, constituem créditos a prazo incerto. Aliás, o convite foi depois reiterado por outras vozes de menor estatuto mas ainda assim qualificadas, tanto e de tal modo que a ruptura com os imperativos deveres de lealdade, isto é, a traiçãozinha no seu estado mais óbvio e reconhecível, surgiu promovida à condição de acto patriótico, mascarada de comportamento decorrente de maus princípios, é certo, mas com um suposto bom fim, o que é típico de todas as operações de camuflagem lançadas sobre um estímulo à desonra. Sendo que neste caso o objectivo é visível à vista desarmada: a manutenção no poder dos que estão ao serviço dos fortes contra os fracos, dos injustos contra os justos, dos ricos contra os pobres. Caberá aqui lembrar a objecção em tempos formulada por uma excelente senhora: « –Eu não sei o que é um rico!», disse ela em estilo de semeadora de nevoeiros. Não saberá, mas os pobres sabem o que é um pobre, e neste momento há milhões deles em Portugal. É contra eles que, numa prática tanto mais vergonhosa quanto provenha de mais alto na estrutura do Estado, são agora lançados repetidos convites à traição. Resta saber se, após a sua eventual consumação, Roma pagará aos traidores. E como.




Correia da Fonseca

*****!