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sexta-feira, novembro 24, 2017

Para o quase-diário - um 25 de Novembro, o de 1967

Seria para o quase-diário, que durante anos escrevinhei, não estivesse ele "em estaleiro"... Por isso, vem para aqui o que se me impõe registar.
Acabávamos de almoçar quando a vizinho que, por dias combinados, nos vem ajudar em lides caseiras entrou, e depois das saudações, me perguntou se eu me lembrava das cheias de há 50 anos, de que ouvira coisas na televisão e mal se lembrava tão pequena era mas, de que guardava uma recordação.
O que ela veio trazer-me!!!
Andava há uns dias com esse dia na memória a aguardar espaço (ou tempo) para a ele voltar, por efeito de mails (do Jorge Vasconcelos, por exemplo) e outros sinais, mas a vizinha Rosa, com o seu questionar, despoletou tudo, isto é, fez arranjar tempo (ou espaço) para recuar 50 anos.
Nesse dia 25 de Novembro de 1967, a Estampa organizara um colóquio para, com os depoimentos nele gravados e segundo a coordenação e apresentação de Urbano Tavares Rodrigues, vir a editar o 2º volume de uma nova colecção - Polémica - que lançara.
O tema proposto foi A Condição da Mulher Portuguesa e a editora (e o coordenador) incluíra-me entre os depoentes, como economista a parceirar com uma socióloga (Isabel Martins, mais tarde também escritora conhecida como Isabel Barreno), quatro escritores (Isabel da Nóbrega, Augusto Abelaira, Natália Nunes e Agustina Bessa Luís) e uma jurista (Maria da Conceição Homem de Gouveia).
O colóquio realizou-se no fim da tarde. E chovia!
No meu depoimento, comecei com o lamento/justificação por, com tais interlocutores, ter de me atribuir a tarefa de "(...) apresentar os áridos números, (e) sei que isso me pode tornar no desinteressante estragador de troca de impressões vivas, sobre temas vivos.(...)".
E chovia lá fora!
Depois de prologar a introdução/lamento, disse:
"(...) Mas vamos às tarefas auto-atribuídas. Lá fora, aqui ao lado, há frio, há fome, há quem apanhe chuva.(...)".
Era o dia 25 de Novembro de 1967. De há 50 anos. Só horas depois se teve a clara consciência da tragédia que, estes anos passados, se assinala, particularmente com a justa lembrança (vivida por alguns de nós) da solidariedade dos jovens estudantes universitários e do Partido Comunista, então na dura e violenta clandestinidade, mobilizada para minorar a tragédia sofrida pelos de "ali ao lado"!

A propósito, ao folhear o livro, deparei-me com este trecho do depoimento de Isabel Barreno:
«(...) Um dia, a assistente social foi visitar a oficina, viu as mulheres trabalhando ao torno, e, conversando com o contramestre, mostrou-se muito satisfeita com a promoção daquelas mulheres, "e elas agora ganham o salário de um torneiro não é verdade?"; o contramestre disfarçou, mostrou-se pouco à vontade, "bom, por enquanto não, por enquanto são aprendizes"; a assistente social insistiu, "sim, mas depois vão ganhar o mesmo que os outros torneiros, não é?", e o homem então resolveu entrar a direito no assunto: "oh minha senhora, não diga isso, parece mal, as mulheres a ganharem o mesmo que os homens, até parece comunismo".(...)».
Ah!, pois parece...

terça-feira, junho 28, 2011

Altos voos - 2

Tive o privilégio de viajar de avião (pelo menos) três vezes tendo por companhia próxima (não desejada… de parte a parte, julgo eu) o dr. Mário Soares. Ou de não viajar, como foi aquela, já aqui relatada, em que Sua Excelência faltou ao embarque, em Maio ou Junho de 1974, por não se “rebaixar” a viajar numa TAP “proletarizada”, sem a primeira classe que a Swissair lhe oferecia, quer-se dizer, saindo mais caro aos cofres do Estado.
Da segunda vez, Mário Soares não tinha escolha. Foi uns tempos depois, no começo dos anos 80, e o voo era entre a cidade da Praia e o aeroporto do Sal, o único que nos levava à e trazia da República de Cabo Verde. E os TACV, que faziam essa “ponte”, só tinham espaço, e pouco, para uma classe.
Foi uma viagem inesquecível, para mim.
Era o meu regresso de uma missão de cooperação, pela OIT/BIT (quando a cooperação era, também, solidariedade e não o negócio e a satisfação de clientelas partidárias em que, depois, se tornou).
Estivera na noite anterior no Djonsa, na Fazenda, em despedida fraterna, e fizera praticamente uma “directa”. No caminho, conduzido pelo Xavier, cuja mulher também regressava nesse voo, ainda passámos pelo “plateau” e o “jeep” encheu-se com a miudagem que ele comportava, e que queria despedir-se de mim (do “artista”, como me chamavam o Eliseu, o Elísio, o Val e todos os “mini-pop”*).
Chegados ao aeroporto, feitos os despachos e as pesagens, prontos para embarcar, a primeira surpresa/emoção: os putos que não tinham cabido no “jeep” apareceram, esfalfaldos da correria com que se tinham atirado “plateau” abaixo e amarinhado até ao aeroporto. Não queriam deixar de se despedir de mim... e foram as primeiras lagrimitas a despontar.
Passado um bocado, quase na hora do embarque, aparece a segunda surpresa/emoção. Alguns amigos, que tinham ficado no Djonsa à espera que a manhã nascesse – e não tinham malas para fechar e transportar… – apareceram, com o Didi Marreco e o Zézinho, e fui acompanhado até ao avião ao som dos seus violinos na “hora di bai”.
Lá me aguentei mas, ao chegar ao meu lugar e tempo de “apertar os cintos”, desatei num pranto desabalado.
Foi aí que entrou o dr. Mário Soares. Que estava no avião, vindo da salinha dos VIPs, e observava a cena. Regressava de uma visita de atarefado “caixeiro viajante” da Internacional Socialista, para convencer o PAICV a entrar para o grupo e, decerto, se desmarcar de outras más companhias.
E então não é que a Graça, a mulher do Xavier, talvez perturbada com o meu choro e querendo acudir-me, ao colocar uma cesta de fruta na acanhada bagageira, dá com ela na cabeça do Mário Soares que, se não estava incomodado, mais incomodado ficou.
Depois, ao chegar ao Sal, perdemo-lo. Deve ter ido para a sala de espera a que, homem de todos os direitos, tinha direito e, no voo Sal-Lisboa, terá viajado lá na frente, na 1ª classe de uma TAP já “em recuperação”, sem incómodos companheiros de viagem com violinos que não eram para ele, e cestas de fruta que lhe batiam na cabeça.
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• - esta dos mini-pop será uma outra estória…

segunda-feira, junho 27, 2011

Para o dia seguinte, ou um outro lado de um domingo qualquer... como o de ontem

De um "diário" que não escrevi:

Há sempre uma outra maneira de “ver as coisas”. De as sentir. De as viver.
Enquanto eu “fugia” de Caxias a chutar na bola-de-meia, num daqueles becos a que chamavam “recreio”, para que os guardas nos abriam as porta das celas, uma a uma e desfasadamente, e nos acompanhavam lá acima para apanharmos ar livre, no beco ao lado, rectângulo de cimento e muros, o Orlando Gonçalves ouvia, vagamente, os ruídos que eu fazia no meu (t)reino de liberdade.
Tínhamos sido presos no mesmo dia, no Notícias de Amadora – que era ele e a família, que, depois e também, éramos nós, seus camaradas e amigos. Eu fora lá levar “material” e, por acaso, estava lá quando a brigada o fora buscar. E, tendo-me encontrado na tipografia, decerto para reduzirem despesas – antecipando medidas agora impostas – o chefe da brigada, depois de telefonar para a sede, por conta da casa, claro, que então não havia telemóveis (e que houvesse…), também recebeu ordem para me levar.
“Olha esse… vale mais dois pássaros na gaiola que um deles a voar”…

E assim foram os nossos, do Orlando e meus, últimos dias do fascismo. Sobre que ele escreveu um livro – precisamente com o título “Caxias - Últimos Dias do Fascismo” – e eu um livro escrevi – “Porque vivi e quero contar…”.
Pois, nesse seu livro, o Orlando conta que ouvira ruídos anormais no espaço ao lado e, depois de algum esforço, se apercebera que era alguém a dar chutos numa bola. Ressabida e brincada que era a minha tendência para chutar em tudo que fosse redondo (ou aproximado), e de muito gostar de “jogar à bola”, logo terá concluído : é o Sérgio, com certeza….
E deve ter sorrido, tendo eu – e uma bola-de-meia – contribuído, de forma inocente e indirecta, para que aquele(s) recreio(s) também tivesse(m) sido de comunicação e de amizade.
Assim tivessem sido tão fáceis as comunicações entre nós, a bater com os nós dos dedos na parede comum das nossas celas contíguas, até tudo se ter transformado, no dia 25 de Abril à noite, numa conversa aos berros, e gritos de dúvida, perplexidade, alegria, entre as janelas gradeadas.

domingo, junho 26, 2011

Para um domingo como este, ou outro qualquer

De um diário que não escrevi:

24 de Abril
Ao acordar, tive uma ideia.
Em vez de um par de meias, escolhi três, isto é, três meias ou um par e meio. As duas meias que calcei e uma outra, a do par mais usado, cujo ficou desirmanado.
Com arte e ofício relembrados, enchi-a com páginas do jornal da véspera. Compactei muito bem, dei-lhe forma e tinha nas mãos uma bola-de-meia. Das boas. Das antigas.
Quando o guarda me veio buscar para o recreio, lá em cima, nos terraços compartimentados sobre as celas, estava preparado.
Subi as escadas e… ia contente (pode dizer-se isto?).
Depois de ficar sozinho (mas vigiado!) para aquele curto tempo de ar livre (!) no rectângulo de cimento de um beco rodeado de altos muros, fiz umas corridas em roda, de aquecimento, antes de pôr a bola-de-meia a saltar.
Foi assim que me escapei dali, de Caxias. Enquanto ensaiava fintas e passes malabares, enquanto dava toques sem deixar a bola cair no chão, enquanto chutava contra uma parede como se nesta estivesse desenhada uma baliza, enquanto afinava a pontaria dos remates.
E assim se passou aquele tempo… livre, livre.
Depressa o guarda me fez voltar à cela.
Para o tempo de espera. Para esperar o tempo de interrogatório. De tortura. Para esperar o dia seguinte.
Mas não foi esse o tempo do dia seguinte.
O dia seguinte que chegou a Portugal e a Caxias foi 25 de Abril. De 1974.