quarta-feira, junho 22, 2011

Reflexões lentas – sobre a saída do euro, a entrevista do Prof. João Ferreira do Amaral

A entrevista do Prof. João Ferreira do Amaral, no Diário de Notícias de 20 de Junho, tem grande interesse, e justifica a maior atenção.
Com base numa reflexão que vem fazendo há muitos anos, não motivada ou condicionada por ventos, marés ou conjunturas, este economista, com um CV que, a partir de critérios objectivos (embora nuns casos sobre-valorizados, noutros ignorados), lhe concede grande credibilidade, diz o que pensa da situação económica que se está a viver, em Portugal e não só, e prevê e previne, como nunca deixou de o fazer.
João Ferreira do Amaral foi uma voz que, durante a década de 90, apesar de nesta ter estado em funções de consultor e assessor de presidentes da República, alertou para as condições em que se estava a criar a moeda única, ao serviço de que interesses, e para as consequências desastrosas que resultariam para a economia portuguesa da sua adopção. Fora da área do PCP – com o sentido de classe que nos define e com base no fundamento técnico em que nos escorámos –, JFA destoou do consenso laudatório e enganador sobre as doses de mel e canela que iria forjar o nosso futuro com a entrada para o euro.
Mais autorizada é por isso a opinião de JFA quando vem dizer, sem fazer alarde estulto do que advertiu atempadamente, que tinha razão (e acrescento, sem qualquer pejo: que tínhamos razão).
A sua posição política ideológica nunca se afirmou coincidente com a nossa, mas nunca recusou conversar connosco, condicionar as suas opiniões coincidentes com as nossas por aquilo em que connosco não coincidia. Por isso mesmo, ganha muito maior importância, para nós, o que afirma. E se a entrevista merece ser toda lida e estudado o que para além dela vai, aqui apenas reproduzo os títulos, que são da escolha da redacção do DN, mas, aqui, relevam o essencial das suas posições:

«Portugal deve usar fundo da “troika” como ajuda à saída do euro»
«Descida da TSU é um disparate total»
«Espero que não se ajustem à bruta os preços dos transportes»

Naturalmente que, também nesta entrevista, não coincido em tudo com JFA. A uma pergunta crucial (“podemos fazer isso sozinhos?”) parece-me que a resposta passa ao lado ao referir a necessidade de apoio (de quem?), quando o que se considera necessário e urgente é que os países sujeitos a este brutal ataque dos “mercados” concertem posições, pois só assim terão força (periférica) face a um centro super-integrado e esmagador.
Como é evidente, estou a falar numa perspectiva que se pretende marxista e não é essa a matriz do pensamento de JFA. Mas é um pensamento, uma reflexão, também uma abordagem técnica, que, pela sua seriedade, merece atenção. E nos ajuda.

terça-feira, junho 21, 2011

Verdadeiramente indigente

Acompanhar a sessão na Assembleia da República, enquanto se trabalha noutras coisas, tem os seus riscos.
Liga-se o televisor, deixa-se o som ligado para que os olhos se levantem do teclado ou dos papeis e vejam o que se está a passar (nem que seja apenas por curiosidade), e julga-se estar em condições de trabalhar ou ler (o que pode ser igual).
Engano! 
Pior: erro indesculpável.
Ter o som ligado é ter de ouvir, mesmo que não se queira, o discorrer de comentários com que a "jornalista" de serviço preenche o tempo em que os 230 (ou quase) deputados vão votando.
O que se ouve é verdadeiramente indigente. Os pormenores, à maneira de "encher chouriços", são reveladores da "cultura política" (pre)dominante.
Aquela política não sai dali. Daquilo. De vitórias e derrotas, das pessoas com nomes, das histórias com cunho de "revista sucial".

Mas deixo uma nota positiva.
No meio de tanta preocupação e de certezas de uma luta dura a continuar, encontro algo de positivo no facto de ser uma deputada o presidente da Assembleia da República.

Extractos de uma espécie de diário

... e vou mesmo contar em que ocupei o meu tempo, enquanto pelo Palácio da Ajuda (deus nos ajude...), se cerimoniavam e cumprimentavam os "empoçados".

«O dia de hoje acordou, como adormecido o de ontem foi, sob o signo da historinha da andorinha.
Que vou contar lá abaixo, a uma escola de Ourém-Piedade, para onde me convidaram já há umas semanas mas só agora, na véspera de encerrar o ano lectivo, foi possível.
Vou... confiante. A historinha, de que sempre gostei, está a começar a ficar formalmente interessante.
Era uma vez… e lá vou eu.

Pois de lá venho. Da EB1 de Ourém Nº1.
Todo contente!  E devidamente diplomado (ou Certificado:)

Correu muito bem.
As duas sessões, com duas turmas de cada vez, foram muito vivas, com uma primeira parte de leitura-exposição da historinha, e uma segunda parte de conversa animada com a miudagem. De que conhecia, de vista, alguns, ou os pais ou os avós (e eu a "fazer-de-avô" durante aquelas horas!).  
Comentários e questões interessantes (até sugestões), estórias outras, deles, que eles queriam contar, um convívio de que nos apartámos (todos – eles e eu) com vontade de continuar e pena de o ver acabar.
Um miúdo, o Nuno, aí com os seus dez anos, até me perguntou, à saída e despedida, onde é que eu fazia outras “palestras” (assim mesmo!)... porque queria ir ouvir.

Boas férias!

Aqui pelas escolas, já fiz (que me lembre) oito destas “palestras”, já contei oito vezes a historinha de uma andorinha, e de uma nadadora-salvadora… e de um gato que miava e que por ali andava.
E está mesmo a ficar afinada. Talvez a pedir publicação... 
Ainda pego no computador e no projector, arranjo uma vestiota a condizer, e vou andar por aí em “tournée” a contar a historinha. Arranjo um(a) relações públicas... e vou a casa, em serviço domiciliário. 
Graciosamente, claro. Com a única compensação de ficar como estou agora. Todo contente, e meio (só meio!) esquecido do que vai chegar com este governo de final de carreira política. Não deles, dos jovens e excelsos ministros abridores de esperanças em incautos, mas da carreira do processo contra-revolucionário que, entroncado com esta explosão da crise do capitalismo, ainda nos vai dar muita "água pela barba".
Apesar de as termos "de molho". »

Em tempos de tomadas de posse

O dia de hoje tem a marca mediática dos empossamentos.
O do governo, com pompa e circuntância, e, mais logo, a da eleição e tomada de posse da presidente da Assembleia da República, a segunda figura do Estado.

Disto, destes "empoçamentos", se falará, mas sobretudo se deveria falar da notícia mais relevante que é a do próximo despedimento de 380 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, mais de metade do actual activo de empregos da empresa.
Entretanto, perora-se sobre a nossa vocação marítima, vantagem comparativa evidente, pelo posicionamento geográfico de Portugal e pela nossa História.

Mas a minha manhã foi bem diferente. Talvez dela aqui venha a escrever.

segunda-feira, junho 20, 2011

Grande imbróglio

Quando campeava a mais infrene euforia sobre a democracia representativa, excluindo-se tudo o que não seja esta (muito particularmente, evidentemente!..., a democracia participativa, a que não se traduz em votos e estatísticas);
quando, nesta democracia representativa/estatística, se excluía como despiciendo tudo o que não sejam votos expressos, e, nestes, tudo o que não sejam votos em candidatos explícitos, reduzindo-os, aliás, a três ou quatro nomes (dos líderes), negando-se o direito à abstenção, a votar em branco, em anular o voto (coisa que não se defende, mas de que não se pode, de modo nenhum, negar o direito)…
eis um grande imbróglio na primeira eleição no órgão máximo dessa democracia.

Desde a escolha~/aceitação de Fernando Reino (perdão, deveria ter escrito Nobre...) por Passos Coelho, não para cabeça de lista dos candidatos do PSD por Lisboa mas como putativo presidente da Assembleia da República, este cenário existia. Aqui, neste blog, até se chamou a tal decisão política um tiro em quatro pés.
Acompanhando a sessão de instalação da nova AR, o que se sente é curiosidade e considera-se o que está a passar como nada prestigiante para essa tal tão bem-dita democracia representativa/estatística.

Como é que os partidos que se entenderam relativamente à composição ministerial e partilha de ministérios, e mais o partido que, com eles, acorda (ou procura adormecer…) tosca e troikamente, não são capazes de se entenderam quanto a um presidente do órgão, e dão este triste espectáculo?


Sobre Fernando Lopes e/em Ourém – três breves notas

1.(biográfica) – Fernando Lopes nasceu no concelho de Alvaiázere, mas em Ourém viveu o seu tempo “de ir à escola”, de que há um documento muito interessante (“muda aos cinco, acaba aos dez”, por agora apenas literário e de jornal), que é uma crónica de um jogo de futebol entre os miúdos da escola no largo fronteiro à então cadeia e GNR, a “feira do mês”, divididos em duas equipas, uma, dos sportinguistas, os “verdes”, outra dos benfiquistas, os “encarnados… porque “vermelhos” estava excluído do léxico pelo professor Roque. E em Ourém viveu o seu tempo de “descobrir o cinema”, de que guarda a funda memória de ter sido o tempo de a si se ter descoberto como aquilo que queria ser e que é, cineasta.
2. (Belarmino) – Para quem tem a idade de Fernando Lopes, ou por lá perto, e andara pelas lutas académicas e continuava pela luta contra o fascismo, onde os cineclubes eram locais de associação e descobertas, o filme Belarmino (de 1964) foi um acontecimento muito marcante; foi cinema português, feito por um jovem – Fernando Lopes estava ainda longe dos 30 anos – com muito qualidade e novidade formal. Dizer dele que foi uma (ou a) marca cinematográfica do neo-realismo, que é um documento histórico relevante na cultura portuguesa seria motivo de conversa e debate, se o que aqui se deixa escrito merecesse ser sequer lido.
3. (Nós por cá todos bem) – O tempo que viveu em Ourém, deixou marcas muito impressivas (e em celuloide…) em Fernando Lopes. O filme Nós por cá todos bem (da segunda metade dos anos 70) é, transcrita para linguagem cinematográfica, uma carta de uma mãe para um filho. A aldeia onde a carta é escrita é uma aldeia de ficção, mas é uma aldeia de aqui, a mãe que a escreve não é a mãe de Fernando Lopes mas a carta é carta da mãe de Fernando Lopes. É assim que me lembro do filme. Quando o vi e me “tocou” ao tempo da sua estreia, quando, com outros – Luis Nuno Rito, Zé Quim Simões, Zé Manel Alho e Paulo Fonseca – procurámos trazer alguma animação cultural a Ourém, e começámos por uma sessão, na “sede da Banda”, com a sua exibição, com a presença comovente da mãe de Fernando Lopes, de colegas seus de escola primária, e do realizador. E uma sala cheia de gente, de afectos e amizades, de emoção.
Nota extra – A vinda e a homenagem a Fernando Lopes, neste dia 20 de Junho de 2011, a exibição de “O Delfim” (de 2002), filmado em grande parte na Quinta da Alcaidaria, são iniciativas que mereceriam acordo e apoio.
E mais não digo. Até porque há, sempre, muito que fica por dizer... 

domingo, junho 19, 2011

Desiluda-se, sr. Presidente da República

1. No “Congresso das Misericórdias”, a obsessão do mercado levou ao desplante de se ter feito a propaganda de preços de mercado 30% mais baixos, embora caiba perguntar contra quem, contra que concorrentes? Contra os hospitais dos grupos privados, contra os serviços a prestar por grupos financeiros presentes no enorme e crescente negócio da saúde?
O ambiente era de festa, com o PR a deitar foguetes, embora se falasse de fome e de sede que, foi garantido!, a caridadezinha nunca deixará que venham a existir neste País, numa boca que seja. Aliás, as Misericórdias devem estar a preparar-se para abrir instalações anexas a cada centro de (des)emprego.

2. Nessa “festa”, o PR falou, do alto de um banquito com a altura dos 23% dos eleitores que o escolheram, como se fosse o que não é, como se estivesse no cimo de um escadote, ignorou que tem condicionantes legais e constitucionais a cumprir, avalizou e exigiu respeito por um governo que, sendo legítimo, não é mais do que o resultado de uma coligação que representa 22% mais 7% dos eleitores, assimilou o voto de 45% dos eleitores no PSD, PS e CDS a acordo de 80% da população portuguesa com as troikas e suas medidas.
Mas, como é claro, para o conceito de democracia de Cavaco Silva, quem não votou perdeu direitos e legitimidade, e não faltará tentar retirá-los a quem nele não votou (isto é, mais de 80% dos portugueses), ou vier a não mostrar o devido, segundo ele, respeitinho por este seu governo.
Desiluda-se.

Líbia - debate

Tudo contra o Estado? Tudo pelos negócios, nada pelos direitos?

Nestes “dias de susto”, aliás esperados, de infrene euforia ideológica, no discurso de ontem, o Presidente da República excedeu-se..
Cavaco impou. Sente-se nas suas “sete quintas”. Julga-se o dono do País, e diz o que se sabia que ele pensava (pouco!), afirma o que faz parte do seu ideário, de resto bem resumido e paupérrimo, e fá-lo com pesporrência que chega a ser ofensiva.
Nas circunstâncias locais e temporais de ser sido no “Congresso das Misericórdias”, avançou com um ataque desbragado ao Estado e à política de saúde, dizendo coisas absolutamente inaceitáveis para quem jurou recentemente a Constituição da República Portuguesa. Cavaco Silva fez afirmações peremptórias de excessiva presença do Estado na saúde, acusou este de obsessiva tutela e administração e de pouca cooperação com a Misericórdias.
Ora a garantia de um direito social constitucionalizado incumbe ao Estado, devendo outras entidades com ele cooperar, e não o contrário… mas isso são minudências a que o actual PR não atende. E, sem grave falha de respeito por todos nós (o respeito que, inadequadamente, reivindica para o “seu” governo), não pode, como se estivesse a adormecer os netinhos, contar-nos histórias exactamente ao contrário da realidade das coisas.
O PR faz-se esquecido – querendo fazer-nos, a nós, pior que esquecidos, parvos ou ignorantes – de que o serviço nacional de saúde, com todas as dificuldades de implementação e de execução, foi (e é!) uma das nossas mais significativas conquistas sociais, e que tudo começou a andar para trás quando, nas políticas de saúde, se entrou por vias de "empresarialização" de hospitais, à revelia do SNS a desfavorecer o “serviço” em benefício de um “sistema” em que impera o negócio, para grandes grupos financeiros via parcerias (algumas delas evidentemente desastrosas… mas que deram lucros fabulosos) e para categorias profissionais bem corporativizadas.
O SNS começou a ser atacado no sentido da sua destruição precisamente quando, há uns anos, se argumentou (como se continua a fazer) com o despesismo estatal encobrindo outros, e com a necessidade de privilegiar o rigor orçamental, e se entrou em rota de (des)administração em moldes privados e concorrenciais, com preterição do objectivo de prestar serviço público e de cumprir preceitos e direitos constitucionais.
O que é o contrário da presidencial oratória e merecerá denúncia. E luta!

Correcção a tempo

Um comentário ao "post" sobre a assembleia constituinte da associaçã Conquistas da Revolução, leva-me a corrigi-lo ("não temo o erro porque estou sempre pronto a corrigi-lo" - Bento de Jesus Caraça).
Na verdade, não houve conferência de imprensa... mas estava lá imprensa, a imprensa que não é conquista da revolução porque foi parte dela, porque ajudou a revolução a ser e a alcançar as suas conquistas, por elas lutou antes do 25 de Abril e depois e o continua a fazer, o avante!
A "outra" imprensa é que faltou.
E - apetece dizer... - revelando ingratidão. Em obediência às "vozes dos donos", fazendo-se esquecida que a liberdade de imprensa foi uma das conquistas da revolução e assim, hoje, vê-se como foi comprada, isto é, como vendeu a sua liberdade, que foi uma das conquista da revolução.

Regressos e negócios

Para iniciar o dia, que domingo é e é de regresso a este “posto de trabalho”, comecei a s(a)canear:



Ele é pela caixa de correio (como na amostra acima), ele é em cada esquina de cada cidade e de cada vila,  ele é em feiras e mercados semanais.

Depois do ciclo-euro (bem curto, bem curto…), vamos voltar ao "padrão-ouro"?

Também sinais dos tempos, em que eventuais "pés-de-meia" têm de ser mobilizados para satisfazer necessidades e faltas de salário e de subsídio de desemprego e juros altos para empréstimos por pagar, e que - como dizem os "entendidos" - são "tempos de oportunidade" (ou para oportunismos e de oportunistas?).

sábado, junho 18, 2011

Fomos 140!

Fomos 140 os constituintes.
Foi um acto formal, cumprindo obrigações legais, buroráticas.
Aprovaram-se os estatutos, depois de propostas e de consensos. Houve votações do que tinha de ser votado, quase sempre por unanimidade, nuns raros casos com uma abstenção e por unanimidade na votação final.
Num ambiente de grande determinação e solidariedade, foi claro que a associação nascia por e para e de modo nenhum contra. 
Foi, depois, proposta a formalização da comissão promotora para a tomada de iniciativas e para organização da assembleia geral, no quadro estatutário, para eleição dos corpos sociais.
Deveria seguir-se uma conferência de imprensa... mas não havia imprensa.
O fascismo, a resistência, o 25 de Abril, as conquistas revolucionárias (sociais, culturais, políticas, económicas), Vasco Gonçalves?...
A associação Conquistas da Revolução nasceu.
E vai estar viva!
Para lembrar e fazer viver! 
Pela tomada de consciência!

Leituras e releituras – O sentimento de um ocidental

Decidira terminar esta série sobre estes "dias diferentes" com o último “post”.
Em rápida revista, até para saborear os comentários amigos (os outros andam arredios…), notei que não escrevera nada sobre O Sentimento de um Ocidental, essa peça-mestra na obra de Cesário Verde. Não podia ser.
Na “leitura” de Helder Macedo, são dedicadas ao poema quase trinta páginas, recheadas de referências e notas relativas de grande interesse (Raymond Williams, David Mourão-Ferreira, Mário Sacramento, Macedo Papança-Conde de Monsaraz, Jorge de Sena, Pedro da Silveira, Joel Serrão, T. S. Eliot, Shelley, John T. H. Timm, Brunetto Latini), de que me não vou servir excepto de uma de Mário Sacramento.
Para este fecho de ciclo(zinho), apenas quero deixar duas estrofes e dois versos de duas outras estrofes que, por discutíveis razões, são de minha escolha pessoal.

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
(estrofe 1)

(Mário Sacramento: «O “desejo de sofrer” não é absurdo: é o único elo de contacto possível entre a consciência dum poeta bem situado na vida e a atroz realidade dum mundo que fez da dor de uns a condição negativa dos privilégios de outros – mundo em que o homem é o lobo do homem.» - Lírica e Dialéctica em Cesário Verde, em Ensaios de Domingo, p. 122 – em nota de Nós, p.190)

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
(estrofe 6)

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem:
(dois primeiros versos da estrofe 27)

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
(dois primeiros versos da estrofe 37)

Ora cá estou... sem ter saído!

Depois de 4dias4 “de tréguas”:
sem FMI, sem "troikas", sem formação de governo em “tempo Guiness”, sem Sócrates a estudar filosofia em Paris, sem Assis & Seguro, Sucessores, Lª, sem Passos trocados e Portas abertas aos negócios estrangeiros, sem Nobre(za) na eleição mais que problemática para a presidência da Assembleia da República, sem ansiedades sobre quem seria o ministro das finanças … que sossego.
Que de queridas leituras!
Soube (e fez) bem!

E que recomeço!
Com a composição final do mini stério (a dúvida sobre quem iria para o Trabalho ficou decidida… não há!, e esperava-se um Vitor e saiu outro).
Com a compensação da assembleia constituinte da associação Conquistas da Revolução, homenageando Vasco Gonçalves.
Na Casa do Alentejo, às 15 horas!

sexta-feira, junho 17, 2011

Vasco Gonçalves - Conquistas da Revolução



Próximas Iniciativas

Assembleia Constitutiva
18 de Junho – 15h00 – Casa do Alentejo

Leituras e releituras – Cesário Verde (em Helder Macedo e mais)

Depois do último “post”, pareceu-me de ir buscar o poema de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro com que Helder Macedo abre o seu livro (Nós – uma leitura de Cesário Verde). Por ter sérias reservas à “leitura” pessoana de Cesário Verde (de que muito gosto...), aqui a trago.

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

(Fernando Pessoa-Alberto Caeiro,
in "O Guardador de Rebanhos - Poema III")

Cesário Verde triste?, camponês? Só?
Sendo uma excelente abertura para o livro de Helder Macedo, o que sobretudo ressalta da “leitura” deste no seu Nós – "leitura" que quis reler, sem qualquer pretensão a não ser a de aproveitar Cesário para melhor me/nos conhecer – é a de ter sido Cesário Verde um observador da realidade, não só da realidade do campo, e não só enquanto tal, mas da realidade da cidade, e da imparável invasão desta pela realidade da sociedade adentro, nessa segunda metade do século XIX.
Observador triste? Será, mas lúcido e não fixo, ou fixado. Como narrador ou personagem, Cesário Verde corrige-se e pretende intervir. E intervém. Então e hoje. Enquanto crítica social que faz. Contundente, irónica, provocadora, interventiva.
Cito, de Helder Macedo:

«O proudhonismo inerente à tentativa de substituir a “propriedade” pela “posse” – o penoso processo registado em “Nós”(*) – revelou-se um beco sem saída. E a deriva conceptual sugerida em “Provincianas”(**) para, como observa Joel Serrão, “um antagonismo de classes tão claramente posto” poderia efectivamente parecer aproximar Cesário de Marx à medida em que o afasta de Proudhon.»
(p. 236)

E embora Helder Macedo coloque reservas a esta posição, por considerar a cristalização em duas correntes do socialismo oitocentista, será adequado sublinhar que não foram Proudhon e Marx que inventaram a propriedade, o roubo, o capitalismo, mas sim a propriedade como roubo no capitalismo que criaram Proudhon e Marx. Ora Cesário Verde conhecia Proudhon mas desconheceria Marx e os seus últimos poemas (de 19884-5) terão muito de da observação de Marx a superar o empasse de Proudhon.
Por último:

«(…) a polarização entre “cidade”” e “campo” na obra de Cesário adquire o seu pleno valor de metáfora poética estruturante sucessivamente modulada nos correlativos semânticos sujeição/amor, prisão/liberdade, poder/repressão, Norte/Sul, doença/saúde, propriedade/posse e, finalmente, propriedade/trabalho.»
(p. 238 e última)

----------------
(*) - Poema de Cesário, de 1884
(**) – «Foi Joel Serrão quem primeiro observou que “Provincianas” (último poema de Cesário Verde, sem data mas pouco anterior à sua morte em 1886) marca o início de uma nova fase na obra de Cesário: “Toma partido, insurge-se contra a injustiça… “»

Leituras e releituras - Cesário Verde (em Helder Macedo)

4 estrofes de "irmãozinhos" do poema Em Petiz, de Cesário Verde (1855-1886):

(...)
E o resto? Bandos de selvagenzinhos:
Um nu que se gabava de maroto;
Um, que cortada a mão, coçava o coto,
E os bons que nos tratavam por padrinhos.

Pediam fatos, botas, cobertores!
Outro jogava bem o pau, e vinha
Chorar, humilde, junto da cozinha!
"Cinco-réizinhos!... Nobres benfeitores!..."

E quando alguns ficavam nos palheiros,
E de manhã catavam os piolhos:
Enquanto o sol batia nos restolhos
E os nossos cães ladravam, rezingueiros!

Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
Sulcavam as calçadas, as muletas;
Cantavam, no pomar, os pintarroxos!»

Em Nós - uma leitura de Cesário Verde, escreve Helder Macedo:

«/...)
Ao reintegrar os factos reais da sociedade rural na visão idealizada do campo arcádico, Cesário estava a fazer uma crítica moral profunda e radical não só dessa falsa visão mas também da classe social cujos valores essa visão reflectia. Com efeito, que “Em Petiz” continha qualquer coisa de gravemente ofensivo para a ordem social estabelecida é confirmado pela reacção escandalizada que a sua publicação provocou. O “Diário Ilustrado”, porta-voz dessa reacção, foi ao ponto de imputar a Cesário o tipo de atitude que o poema tão eloquentemente ataca (…) É óbvio que Cesário Verde não considerava que caridade individual e palavras de conforto nas colunas dos jornais fossem suficientes para vestir e alimentar os “irmãozinhos”. E deve ter desejado que o seu poema provocasse uma reacção de revolta por causa das condições sociais e não por tê-las revelado.
Porque o que Cesário faz neste poema é destruir, por dentro, a visão convencional do campo sorridente e ameno que ele próprio tinha adoptado nos seus primeiros poemas.»

(p. 137)

quinta-feira, junho 16, 2011

Leituras e releituras – José Gomes Ferreira – 3, com Cesário Verde para logo logo

Ler. Reler. Leituras desencontradas. Que, agora, se cruzaram. Por acaso? Talvez.
José Gomes, na Memória das Palavras, ao lembrar a sua passagem pelo Batalhão Académico, grupo de universitários criado para a “campanha contra a Monarquia do Norte, na lamentável guerra civil que se seguiu à ditadura sidonista”:

«… a minha passagem por esse batalhão de voluntários enriqueceu-me de ensinamentos profundos, mesmo cingindo-me à mera aquisição de experiência de vida, sempre benéfica a um rapaz de 19 anos até então não habituado a escalavrar os pés em marchas forçadas no Inverno ou a assistir a fantásticas aparições de piolhos nas casernas nojentas, inçadas de parasitas (…) com a missão de guardar a linha férrea do Vale do Vouga.
(…)
O deslumbramento do cenário envolvente de penedias, pinheiros e córregos penetrou-me até às células mais fundas. Tudo tão diferente da apoteose da brancura campestre de Júlio Diniz! Digam-me lá onde paravam as moçoilas do Sr. Reitor? E as moleiras que punham por garridice farinha nas faces besuntadas de suor de canseira? E os aventais bordados a ouro e mentira?
(…)
Só negridão por fora e por dentro em tugúrios fétidos: Só porcos, tojo, bosta, tremedais mal-cheirosos e sendas íngremes entre brenhas que, aviado o nosso serviço de vigilância matinal a coisa nenhuma, trepávamos de espingarda ao ombro para explorar os lugarejos nos cocurutos dos montes construídos em redor das capelas – fontes evidentes e únicas da escassa vida moral, espiritual, social e artística daqueles pobres bichos quase vegetativos. Lá os lobrigávamos, curvos de trabalho, nem alegres nem tristes, sujos apenas e afundados na Morte Totalitária duma religião misericordiosa que explica o Universo com uma palavra (que cada qual enche como pode) e oferece a desforra do Céu à miséria transitória dos humildes da Terra.
Mercê desse contacto com a realidade, despida das boas intenções republicanas, cmpreendi a sério a força terrivelmente humana e, até certo ponto, justificada da Igreja com este mundo e o outro às ordens; e acudiram-me à memória aqueles famosos versos de A Velhice do Padre Eterno de Junqueiro (sátira que alguns patetas consideraram anticatólica e anticristã) e eu recitava de cor desde miúdo:
Ó velhos aldeões, exaustos de fadiga
Que andais de sol a sol na terrar a mourejar,
Roubar-vos da voss’alma a vossa crença antiga
Seria como quem roubasse a uma mendiga
As três achas que leva à noite para o lar
(…)
Pouco a pouco comecei a tomar consciência deste reparo que me gelou os olhos e a boca: o mundo camponês nada tinha a ver com o nosso, como bem o provava a indiferença, o desprezo inteiro, a incompreensão, o desconhecimento mesmo da gente rústica a respeito da guerra que naquele instante se travava no País entre monárquicos e republicanos.
Monárquicos? Republicanos? Viva a República?... Miravam-nos com suspeição de olhos caídos dum planeta distante. Não entendiam. (Mais tarde essa Indiferença convenientemente desviada para a resignação à pobreza e mantida com sonhos medianos, tornou-se doutrina oficial).
… Mas a minha mentalidade de pequeno-burguês (…) doía-se ao verificar essa anomalia absurda de assistir ao povo a desdenhar de ser povo. A recusar a honra de representar o papel que lhe tinham distribuído no Drama.
Que se passava? (Agadanhava os cabelos com a suspeita nítida de desmoronamento próximo de ideias feitas.)»
(pp. 78-81 de A memória das palavras,
edição de 1968, Portugália Editora)

Ideias feitas. Doutrina oficial. E este nosso tempo (ainda o mesmo mas já outro) de ideias feitas, doutrina oficial e pensamento único?!
Tinha a intenção de fazer, já neste “post”, a ligação a Cesário Verde (a Em Petiz e noutros poemas), mas a força desta transcrição, o verdadeiro desafio que estes trechos nos fazem a que paremos e reflictamos obrigam-me a não cumprir a intençã. A adiar Cesário Verde para outro “post”. Pelo muito respeito, pelo enorme respeito por Cesário e por José Gomes.

Leituras e releituras – José Gomes Ferreira (A memória das palavras) – 2 (a despropósito?)

Segue o poeta militante:

«(A despropósito devo esclarecer que, ao contrário do que os fabricantes de imbecilidades nos atribuem, não creio que o socialismo anule o sofrimento humano. Por mim já me contento que diminua as horas de trabalho e deixe aos homens mais tempo livre para sofrerem melhor. Isto é: para sentirem dores de grau superior às pífias angústias actuais do homem vulgar provenientes da insegurança, da injustiça económica, da fome e da humilhação social. Nos séculos do socialismo os homens estarão pois disponíveis para dores mais nobres.)»

( p. 179, edição de 1966,
da Portugália Editora)

Atrevo-me a dizer – a propósito – dores mais … humanas.
Já agora:

«(…) Não se riam, mas vou imaginar-me herói da Revolução Inverosímil que, desde ontem, se apoderou dos tronos do globo. Herói anónimo. Secreto. Ocultei i nome, pus uma máscara vermelha, disfarcei a voz para os discursos, E não me atribuí qualquer título ou honra de chefia. Não quis ser Rei, Presidente, César, Regedor ou Comissário do Povo. Nada. Apenas o Homem-Nuvem Primeiro, representante-mor dos Humilhados.
E assim regenerei a existência, enriqueci os pobres, consolei as viúvas, sarei os ofendidos, pintei de saúde os tristes pálidos, apodreci o tempo…
Bem. Levanto-me do divã. Já sonhei. E agora?»

(p. 153)


Agora, Zé Gomes? Continuar a luta.
Contigo. Sempre!







(por Fernando Campos
ositiodosdesenhos)