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sábado, março 19, 2022

noutros lugares

Ironias e vida e morte 

  • Público - 18 Mar 2022
  • Por António Rodrigues


Ironias sírias

Para alguém que seja dado a isto das ironias, entre os sírios que olham agora este êxodo ucraniano para os braços abertos da Europa e do mundo, não deixa de ser de uma cruel ironia que três semanas de guerra tenham feito de um povo ucraniano flagelado pela guerra, o povo mártir escolhido — porque até nas tragédias ter a cor certa e a localização geográfica adequada ajuda à construção mitológica do horror — quando os sírios andam há 11 anos a desviver nas bolandas de um conflito que não lhes sai de cima — e cruel das ironias, pode ainda recrudescer, enquanto os holofotes mediáticos apontam todos para um só lugar no planeta. “Hoje na Síria, mais do que nunca, os pais não têm como trazer comida para casa. Os seus filhos vão para a cama de barriga vazia todas as noites”, denunciou esta semana o secretário-geral da organização humanitária Norwegian Refugee Council, num apelo urgente a que a Terra não se esqueça da Síria por mais que a Ucrânia nos deixe a todos tão ocupados. Temendo Jan Egeland, tal como escrevia um dos maiores irónicos de todos, Mário Cesariny, que acabemos todos a encolher os ombros, porque “afinal o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come”. Mesmo quando os sírios com fome sejam quase sete milhões, totalmente dependentes da ajuda internacional, e muitos milhões sobrevivam sem acesso a pão, combustível, electricidade e água potável. Sem comida nem aquecimento quando as temperaturas vão chegar à noite nos próximos dias a um grau positivo. “A comunidade internacional não pode fugir do firme compromisso que assumiu”, lembra Egeland. Resta saber da sua firmeza. A do compromisso do mundo, não de Egeland.

Vida e morte iemenita

A coisa é para ser dita de forma simples e clara: 400 mil crianças iemenitas estão à beira da morte, de acordo com as Nações Unidas. A guerra que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos com o apoio dos Estados Unidos travam no Iémen desde 2014 para restabelecer o regime que uma revolta popular derrubou (e para combater a revolta armada dos houthis apoiados pelo Irão) matou mais de 100 mil pessoas, incluindo mais de 12 mil civis, segundo o Armed Conflict Location and Event Data Project (Acled), ONG que colecta dados de conflitos no mundo. Mais de um ano depois de Joe Biden ter assumido a presidência dos EUA e de ter assumido no seu discurso inaugural “que esta guerra tem de acabar”, a guerra continua e o povo vai morrendo de desnutrição, numa catástrofe humanitária que não tem merecido o empenho e a solidariedade que merecia, mesmo com os muitos alertas da ONU. Aliás, como escrevia o jornalista iemenita Shuaib Almosawa no The Intercept na quarta-feira, “passado um ano”, do discurso de Biden, “a crise humanitária no Iémen está, em vários aspectos, pior que no tempo de [Donald] Trump”. Apesar de o actual líder da Casa Branca sublinhar a sua pretensão de acabar com o “cheque em branco que Donald Trump passou à Arábia Saudita para abusos de direitos humanos no país e no estrangeiro”, a verdade é que desde Dezembro a coligação liderada pelos sauditas aumentou os bombardeamentos da capital do Iémen, Saana, incluindo áreas residenciais e o aeroporto. E a crise da Ucrânia e a decisão de deixar de importar petróleo russo traz más novas para os iemenitas, já que Washington está a pensar em pedir aos sauditas que aumentem a produção de petróleo. Como referiu a congressista Ilhan Omar, “a nossa resposta à guerra imoral de Putin não deveria ser o fortalecimento da nossa relação com os sauditas que actualmente estão a provocar a pior crise humanitária do planeta no Iémen”

sábado, abril 28, 2018

Súmulas (e sumo) de informação - 2 (SIRIA-"armas químicas")

do (quase)diário:



Duas súmulas de informação lidas no avante!

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(...)

Outra, sobre outro “truque” barato e fácil de que ainda não se terão apercebido que começa a não pegar, apesar das ondas de fumos mediáticos, da avalanche de “fake news”: o dos “heróicos democratas” que são “duplos” de terroristas se necessário descartáveis, e das “armas químicas”.

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- Edição Nº2317  -  27-4-2018

Armazenar

Armazenar é um verbo transitivo que significa «recolher em armazém, depositar, conservar, reunir». O termo aplica-se a qualquer produto independentemente do estado em que se encontra (sólido, líquido ou gasoso), que como todos os produtos armazenados é susceptível de interagir/reagir a acções e acontecimentos externos. A água num depósito, por exemplo, derrama-se e perde-se no solo se o seu recipiente se partir. Se o reunido forem tijolos, muitos se quebrarão na derrocada, dependendo da força do impacto. E se for um gás? Sendo os gases compostos moleculares que se caracterizam pela grande capacidade de se expandirem, não é difícil perceber que a destruição da embalagem os libertará, levando a que se espalhem livremente.
Vêm estas considerações óbvias a propósito dos ataques de 14 de Abril levados a cabo pelos EUA, Inglaterra e França, em retaliação ao suposto ataque químico a Douma, contra três alvos alegadamente relacionados com a produção e armazenamento de armas químicas e biológicas na Síria: um laboratório que segundo nos disseram seria usado para a «investigação, desenvolvimento e testes», perto de Damasco; um depósito onde estavam armazenadas as principais reservas de gás sarin (sublinhado nosso), em Homs; e um armazém e «importante centro de comandos» na mesma cidade. Os locais atingidos, veio informar o incontornável Observatório Sírio dos Direitos Humanos, estariam ligados ao Instituto de Estudos Científicos e Centro de Investigação, a entidade que a troika retaliadora acredita ser o centro de produção de armas químicas do governo de Bashar al-Assad.
As manifestações de apoio a estae agressão não se fizeram esperar, Portugal incluído. O Governo e o Presidente da República disseram compreender as razões que levaram ao ataque, sublinhando o facto de os bombardeamentos terem sido feitos por «três países amigos e aliados de Portugal» que é uma curiosa forma de dizer que os inimigos dos meus amigos meus inimigos são, mesmo que não saiba porquê...
Deixando de lado todas as incoerências e cegas «certezas» com que a comunicação social nos bombardeou nos últimos 15 dias a propósito deste assunto, uma questão me atormenta sem que vislumbre no horizonte, já não digo uma perspectiva de resposta, tão só a formulação da pergunta elementar: o que é que aconteceu ao gás armazenado depois de os armazéns levarem com não sei quantas bombas em cima, que como garantiram os senhores que sabem destas coisas «atingiram com sucesso todos os alvos»? Sumiu-se? Evaporou-se? Escafedeu-se? Sem consequências? Sem as vítimas que é suposto causar quanto o «ataque» é do governo sírio? Nem uma intoxicação para a gente ver?
Às voltas com este mistério, recorro de novo ao dicionário, amigo de confiança, e lá descubro que em sentido figurado armazenar significa reter na mente. Pois. Mas o quê?

Anabela Fino 

sábado, abril 14, 2018

NOTA de IMPRENSA a divulgar e comentar por todos os meios


NOTA DO GABINETE DE IMPRENSA DO PCP

PCP condena o bombardeamento dos EUA, Reino Unido e França contra a Síria


O PCP condena com a maior firmeza o bombardeamento contra a República Árabe Síria perpetrado pelos EUA, Reino Unido e França e com o apoio ou aval da NATO, União Europeia e Israel.
Este inaceitável acto de agressão contra a Síria, em flagrante violação e afronta à Carta das Nações Unidas e ao direito internacional, foi realizado sob o pretexto de uma alegada e não comprovada utilização de armas químicas em Douma, cuja responsabilidade a Síria rejeita, tendo-se disponibilizado a contribuir para o cabal apuramento do que efectivamente se passou.
Assume particular e esclarecedor significado que este bombardeamento dos EUA e seus aliados, tenha sido efectuado no momento em que peritos internacionais chegam à Síria para investigar a alegada utilização de armas químicas em Douma.
O PCP recorda que os EUA, o Reino Unido e a França foram responsáveis por guerras de agressão com o seu brutal legado de morte, sofrimento e destruição, sob o pretexto de escandalosas e graves falsidades e mentiras, como as inexistentes “armas de destruição massiva” no Iraque ou os infundados “massacres da população” na Líbia.
Este ataque representa um novo e grave passo na operação de agressão e destruição da Síria, indissociável das derrotas infligidas pelo povo sírio, com o apoio da Rússia e outros aliados, aos grupos terroristas criados e apoiados pelo imperialismo, dirigido pelos EUA.
O PCP alerta para as imprevisíveis e perigosas consequências de uma escalada de provocação e de agressão contra a Síria e o seu povo.
O PCP repudia a posição do Governo português e considera que, no respeito pela Constituição da República, Portugal se deve demarcar deste inaceitável acto de agressão, pugnar pelo fim da agressão à Síria e apoiar as iniciativas em curso para o diálogo e a paz.
O PCP apela à solidariedade com a Síria e o seu povo que, enfrentando desde há sete anos a bárbara agressão do imperialismo norte-americano e seus aliados, resiste e luta em defesa da sua soberania, da independência e integridade territorial da sua pátria, do direito a decidir, livre de quaisquer ingerências, o seu destino.

quinta-feira, abril 12, 2018

Da EFE - Agência de Notícias de Espanha


SÍRIA CONFLITO
Síria envia convite à OPAQ 
para que averigue suposto ataque químico
EFEBeirute10 abr 2018



A Síria enviou um convite à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) para que uma equipa dos seus investigadores visite a cidade de Douma, nos arredores de Damasco, onde houve denúncias do seu suposto ataque químico no sábado.
Uma fonte de alta categoria do Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros disse à agência de notícias oficiais SANA que o convite foi enviado "em resposta à campanha de difamação lançada por vários Estados ocidentais contra a República Árabe da Síria sobre o suposto uso de armas químicas na cidade de Douma".
Além disso, explicou que o convite foi enviado através dos representantes permanentes do país árabe em Haia, cidade onde a OPAQ tem a sua sede.
"A Síria afirma a sua determinação para proporcionar toda a ajuda necessária com o objetivo de que a missão (da OPAQ) faça a sua operação e desenvolva o seu trabalho de forma totalmente transparente e sobre provas concretas e credíveis", ressaltou a fonte.
A fonte ressaltou a disposição do Governo sírio a cooperar com a OPAQ para descobrir a verdade sobre o ataque, "cujas denúncias foram promovidas por algumas partes ocidentais para justificar as suas intenções agressoras a fim de servir os seus objetivos políticos".
A fonte síria reiterou a condenação "contundente" do país para o uso de armas químicas por qualquer lado e sob qualquer circunstância e lugar.
Desde Genebra, várias agências da ONU, entre elas a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Escritório de Coordenação Humanitária (OCHA), denunciaram hoje que não tinham podido verificar as informações sobre o suposto bombardeamento químico em Douma devido à falta de acesso.
A OPAQ informou ontem que tinha estado a acompanhar de perto o incidente e que tinha feito uma análise preliminar das informações sobre a suposta utilização de armas químicas.
A Sociedade Médica Síria Americana (SAMS, a sua sigla em inglês) e a Proteção Civil da Síria, ambas organizações apoiadas pelos EUA, asseguraram que pelo menos 42 pessoas faleceram no sábado com sintomas de terem sofrido um ataque com substâncias tóxicas.
Nenhuma outra fonte confirmou que se tenha tratado de um bombardeamento com armamento químico, e tanto Damasco como Moscovo negaram o uso deste tipo de armas em Douma.
Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, pelo menos 21 pessoas pereceram nesse dia por asfixia mas como resultado da "derrubada dos edifícios" nos quais se encontravam.
O presidente americano, Donald Trump, prometeu ontem à noite responder "contundentemente" ao suposto ataque químico e avançou que tomaria uma decisão em breve.

sábado, março 03, 2018

Manipulação deshumana, repugnante

 - Edição Nº2309  -  1-3-2018

Mas as crianças, senhores?

É sabido que a guerra na Síria está longe de terminar, e é igualmente sabido que não terminará enquanto potências ocidentais capitaneadas pelos Estados Unidos se obstinarem em derrubar o governo de Bashar-el-Assad, réu do imperdoável delito de se entender muito bem com a Rússia, para esse tão nobre objectivo derramando sobre grupos efectivamente mercenários da região uma abundante chuva de dólares sob a forma de armas modernas, munições altamente eficazes e mão-de-obra bastante para a execução da empreitada. Entretanto, de ambos os lados da região fronteiriça com a Turquia, o povo curdo obstina-se no sonho de conseguir a autonomia/independência do Curdistão, seu país, objectivo de que a Turquia de Erdogan não quer nem sequer ouvir falar. Por tudo isto, e decerto ainda por mais motivos que aqui nos escapam, a tragédia instalou-se em Goutha, situada já nos arrabaldes de Damasco, a capital, e sobre Goutha se desencadeou uma intensa tempestade de bombas que mata não apenas os que combatem o governo mas também, talvez sobretudo, a população civil que dificilmente se lembrará ainda do tempo em que a Síria era o país mais tranquilo e socialmente mais avançado daquela zona. E, de entre os que morrem, serão mais numerosos os que mais dificuldade tenham em fugir, os velhos e as crianças. Quanto aos velhos, não há registo mediático de grandes comoções: afinal são velhos, já viveram uns tempos, estão maduros para a morte e são geralmente feios, mas a morte de crianças é uma dor de alma. Por isso as câmaras das televisões buscam os seus corpitos inertes para os mostrarem ao resto do mundo. 

Inertes e usados

A esses momentos de reportagem move-os decerto o dever de informar. Não é, porém, um dever que venha só, digamos assim. O caso é que o governo de Damasco, que até ver é o único com a legitimidade confirmada por reconhecimento internacional, tem a fama e o proveito de ser apoiado pelos russos, esses mais-que-maus, de onde ser imputada à Rússia a responsabilidade pelos bombardeamentos aéreos a Goutha, dominada pelos rebeldes. É o pavor instalado, como se imaginará, e no meio dele estão crianças a morrer em conjunto com adultos. Atentas, as reportagens dão-nos imagens desses pequenos corpos, pois que os cadáveres dos adultos já não têm interesse informativo, e dir-se-ia por vezes só faltar que sobre essas penosíssimas imagens seja posto um letreiro com a legenda «made in Russia» a fim de tornar explícita a acusação. Entendamos claramente do que se trata: é a utilização de crianças mortas como arma no combate propagandístico que sempre acompanha os conflitos bélicos, e esse processo tem na verdade uma designação que não é simpática: é uma forma peculiar de profanação de cadáveres. Talvez os pais dessas crianças tenham sido apoiantes do governo de Damasco, mas desse crime, se de crime se trata, estão os filhos inocentes. Contudo, ali estão eles, inertes, transformados em argumentos no quadro sinistro de um conflito de facto accionado de muito longe. Inertes e usados. Sem que ninguém ou quase ninguém se dê conta dessa sua última condição.

Correia da Fonseca

segunda-feira, maio 15, 2017

terça-feira, abril 11, 2017

Siria e outros sentires... neste "estado do mundo"

Sentei-me a esta secretária de (quase) todas as manhãs com a disposição de aproveitar muito do que lera antes de adormecer. Na revista rápida de "novidades", sou agarrado por um Expresso curto, do Valdemar Cruz. Que me exige o trabalho de divulgação ao meu alcance!




11 de Abril de 2017
Há um vento de lamentos nos lamentos do vento



Os primeiros-ministros dos sete países do sul da Europa (França, Itália, Espanha, Portugal, Chipre, Grécia e Malta), ontem reunidos, como seria de esperar não esboçaram qualquer ato de condenação do ataque lançado pelos Estados Unidos contra a Síria na madrugada da passada sexta-feira. Revelaram até compreensão. E aqui entra a contradição suprema, porque ao mesmo tempo que entendem ser necessário sublinhar que “não pode haver uma solução militar do conflito”, acrescentam que apenas no âmbito das resoluções da ONU e das conversações de Genebra será possível encontrar uma solução política crível, capaz de assegurar a paz, a estabilidade da Síria e a derrota do autodenominado Estado Islâmico. Ou seja, tudo o contrário do que fizeram os EUA e pelo qual estes países mostraram compreensão. Ou então sou eu que estou desfocado, deslocado, e “às vezes sinto-me como um órfão, muito longe de casa”. Este é um lamento com dezenas de anos, que Jimmy Scott canta de uma forma comovente, como o fizeram, entre muitos outros, Louis Armstrong, Odetta, Pete Segger, Charlie Haden ou Prince. São palavras de um espiritual negro, cujo registo mais antigo data de 1870, concebido para denunciar a prática comum de vender os filhos dos escravos. Aqui subverto-lhe o sentido original e converto-o no lamento por um outro tipo de tráfico, o das ideias, a que assistimos no tempo que passa.

Bashar al-Assad é apresentado como o maior dos facínoras, autor de crimes odiosos, inomináveis. Seja ou não, e já se viu como há opiniões para todos os gostos e conveniências, não podem existir dúvidas sobre uma posição de princípio: existindo, esses crimes devem ser firmemente condenados e combatidos, ocorram eles na Síria, na Líbia, Arábia Saudita, em Israel, no Paquistão, no Egito, na Palestina, no Afeganistão, no Irão, no Sudão, ou onde quer que aconteçam e independentemente de quem sejam os seus responsáveis. A questão é, porém, outra. Com o mesmo empenho com que se repudiam as alegadas ações de Assad, tem de ser repudiado qualquer ato unilateral de guerra, executado à margem das decisões das Nações Unidas, e sem uma investigação rigorosa sobre o que realmente possa ter acontecido no terreno. Não permite ações imediatas? É fazer o jogo do agressor? Há hipótese de vetos (não há sempre?). Não é bom para um presidente acossado internamente poder ganhar novo fôlego com uma vistosa ação externa? Talvez não seja, mas o que a comunidade internacional tem de decidir – e Portugal em particular - é se, depois de tanto ter sido festejada por cá a eleição de António Guterres como Secretário Geral da ONU, afinal o que se celebrava era a eleição de um figura decorativa para um organismo que faz de conta que coordena, vigia e assegura o concerto das nações porque, no limite, a última palavra será sempre a que corresponda aos interesses de alguém tão fiável, tão seguro, tão tranquilo, tão previsível como Donald Trump, agora transformado no herói do combate aos russos e seus aliados. O problema é ser este o mesmo Presidente dos EUA que não há muitos dias era detestado pelo “centrão” que domina a política interna e externa do país, classificado como mentalmente instável, refém dos interesses de Vladimir Putin e desprezado pelos media. Bastaram uns mísseis e tudo mudou. O normal, portanto.
(...)
______________________________

Por aqui me poderia ter ficado, cumprido o que considerei um dever, e tentado continuar a manhã com outros trabalhos. Mas estava mesmo "agarrado". Pela lembrança do que senti, ontem, ao saber da compreensão (!) dos 7 do Sul relativamente aos misseis enviados dos Estados Unidos contra a Síria, que foi vergonha e... "motherless child" (alguma inevitável orfandade)!

"Los países del sur consideran “comprensible” el ataque de EE UU a El Asad"
 
(um terá ido "lá dentro"... ou, de tão pequeno, não coube na foto!)





segunda-feira, abril 10, 2017

Síria - Denúncia e repúdio

«Aliados de Assad ameaçam responder 

se EUA atacarem de novo

Rússia, Irão e Hezbollah dizem que Washington ultrapassou "linha vermelha". EUA repetem que não vêm futuro para o país com Assad.
(...)»

("Público", de hoje à noite)

Assim se faz "informação", assim se manipula a opinião pública!
"Aliados de Assad"!... Assad é o chefe de um Estado chamado Síria!
Com que direito os Estados Unidos da América, por seu único alvedrio, decidem "retaliar" sobre um Estado, a partir de informações divulgadas (por quem e como?, talvez de "factos alternativos")?
Com que mandato se permitem, os EUA, "avaliar" sozinhos quem e como tem futuro noutros países?
Terão os EUA futuro com esta administração? 
Teremos nós futuro? Terá futuro a Humanidade?

Não é a primeira vez!, não será a última... mas isso não impede a denúncia e o repúdio! De acções e da "informação" que as pretexta e da "informação" que delas se faz

domingo, abril 09, 2017

Síria e a "informação"

Na 4ª feira, no expresso rodoviário das 20.30 para Viseu, a minha vizinha do assento 3, reconhecendo-me como"um político" (como viria a dizer-me mais adiante e que, aliás, não serei mais do que ela ou outrem…) interpelou-me sem apresentações nem preâmbulos:
- … o que me diz da Síria?
Respondi-lhe, surpreso pela insólita abordagem:
- … sobre o quê da Síria, minha senhora?
- Sobre aquele crime horrendo das armas químicas. Aquele homem tem que ser tirado dali!
- Mas... qual crime?, qual  homem?
- Aquela criança na televisão, assassinada pelas armas químicas do Assad, ou lá como se chama o homem. Horrível! Têm de o tirar de lá, já matou milhões de pessoas, toda a gente foge de lá… Estou indignada!
- Oh minha senhora…, não vi a televisão e, se tivesse visto e ouvido, não reagiria como a senhora, teria sérias dúvidas sobre a veracidade e as intenções daquilo que ouviu e não o interpretaria como o fez, a partir de anteriores “informações” que lhe têm sido oferecidas. Do que não tenho dúvidas é que a sua indignação era o objectivo do que lhe foi mostrado, e que vai servir para justificar acções criminosas e muito perigosas para a Paz…

E assim continuou uma conversa de quase 100 quilómetros e de quase uma hora – nem sempre muito “pacífica”… –, até sermos depositar em Fátima, lugar de residência da senhora e minha escala para chegar a casa, entre o incomodado e o satisfeito por ter tentado cumprir um dever cívico.   

quarta-feira, janeiro 25, 2017

sexta-feira, dezembro 23, 2016

É urgente informar toda a gente!

É urgente informar toda a gente. É vital que toda a gente se informe sobre o mundo e o tempo que vive. Sobre o que aturde as “nossas vidinhas” (não é, Ana Margarida Carvalho?), sobre o que está no germe do que faz perigar a Humanidade. Toda.

Alepo é, diriam bem-falantes…, paradigmático. O avante! de ontem sobre Alepo é exemplar! Porque informa e comenta com base na informação. A crónica de Jorge Cadima
é, como sempre, fundamentada e pedagógica (“… Nada disto é novo. Em 1957…”, “… A histeria é grande, porque a derrota do imperialismo em Alepo é pesada…”); os comentários de João Frazão e Ângelo Alves são certeiros e actuais. 
À dimensão de um blog, aproveito o comentário do Ângelo mas, pela vossa e nossa saúde..., informem-SE que isto é/está muito sério e TUDO depende de nós!
 O terrorismo e a guerra
A instabilidade internacional atingiu níveis quase impensáveis há alguns anos. As suas causas radicam, como sempre afirmámos, numa deriva violenta, reaccionária, agressiva e militarista das classes dominantes e dos governos das grandes potências imperialistas. A sucessão vertiginosa de acontecimentos não nos deve, nem pode, turvar a visão global e de fundo. É na crise do capitalismo, na sua natureza de classe e contradições, e na reacção do imperialismo a essa crise, que estão as fundas causas dos recentes acontecimentos.
Os três ataques de segunda feira não aconteceram por acaso. Ocorrem num momento extremamente importante para os desenvolvimentos da guerra imperialista na Síria, em que se confirma as verdades sobre quem está, e sempre esteve, por detrás daquela guerra de agressão; num momento em que a «coligação» dos EUA, NATO, Turquia e petro-ditaduras do Golfo Pérsico não só sofre uma pesada derrota, como começa a registar importantíssimas fissuras.
O que os três ataques, cada um com um objectivo concreto, demonstram, é que a guerra na Síria, e em geral no Médio Oriente, está longe de estar terminada. O assassinato do embaixador russo visou limitar complexas negociações entre Turquia, Irão e Federação Russa relativas a soluções diplomáticas para a guerra na Síria. O ataque em Berlim visou reavivar o sentimento de medo e terror na Europa, que justifique mais guerra e mais medidas securitárias, como aliás Hollande já veio afirmar. Pode ser aliás o clique, e o lastro psicológico, por detrás de uma ainda maior e mais directa escalada de guerra imperialista na Síria e Iraque. O ataque de Zurique, num centro de oração islâmico, tem como objectivo manter a tensão religiosa com que se tenta envolver o conflito no Médio Oriente.
Os três convergem num mesmo propósito. Não permitir que a vitória do legítimo governo sírio em Alepo atinja dois objectivos: 1 – Desmascarar quem são de facto os terroristas (circulam as notícias de dezenas de agentes de forças especiais ligados à NATO e às petro-monarquias cercados ou mesmo já capturados em Alepo) 2 – Abrir campo a compromissos negociais que envolvam um dos responsáveis da guerra: a Turquia. Para impedir estes dois objectivos vale tudo. Como sempre, o terrorismo serve os interesses da reacção e do imperialismo.
Ângelo Alves

Isto não é para assustar
      = :-)              
 é só para avisar
a partir de opiniões avisadas


quinta-feira, dezembro 15, 2016

A guerra é a guerra

No Expresso curto desta manhã

Quando o horror do tempo que se vive é relatado por um jornalista com profissionalismo, cultura e sensibilidade:

A cor das lágrimas por Alepo

Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a guerra
Regressaram os combates a Alepo. A Síria continua a ferro e fogo. As televisões ficam saturadas de imagens cruéis. Lançam-se apelos lancinantes. Veem-se rostos desesperados. Há mortos. Há feridos. Há gente em ruínas. Há um quotidiano rasgado por uma violência inaudita. Havia um cessar-fogo. Agora há de novo tiros. Balas cravadas no tempo. E nos corpos inertes. E na verdade feita um frangalho num conflito infernal. A guerra é a guerra, cantava Fausto no disco “Por Este Rio Acima”. Tremenda verdade. A propaganda é um elemento crucial das guerras. Pelo que se conta e, tantas vezes, pelo que se esconde. Segundo uma das hipóteses colocadas para este regresso dos combates, as condições impostas pelo Irão terão inviabilizado a evacuação de Alepo. É uma hipótese. Assumi-lo é reconhecer, como o faz Robert Fisk, o conceituado jornalista do jornal inglês “The Independent”, que há mais que uma verdade para contar na horrível história de Alepo. Fisk diz que “os políticos ocidentais, ‘especialistas’ e jornalistas vão ter de reformular as suas histórias nos próximos dias, agora que o exército de Baswhar al-Assad retomou o controlo da parte oriental de Alepo. Vamos perceber se os 250 mil civis ‘encurralados’ na cidade era assim tão numerosos. Ouviremos contar porque é que não foram capazes de partir quando o governo Sírio e a força aérea russa suspenderam os seus ferozes bombardeamentos na parte oriental da cidade. E vamos aprender um pouco mais sobre os ‘rebeldes’ que o Ocidente – os EUA, Inglaterra e os nossos amigos cortadores de cabeças do Golfo – tem vindo a apoiar”.
A situação é de tal ordem complexa que a CNN se viu na necessidade de tentar elaborar um gráfico com a rede de ligações e cumplicidades entre os diferentes protagonistas no terreno, para reconhecer, no final, que mesmo assim será difícil encontrar numa narrativa que se encaixe no esquematismo da generalidade da comunicação social, muito disponível para arrumar tudo em dois caixotes: o governo Sírio por um lado, os rebeldes por outro. Como a vida seria simples, se um conflito como este fosse traduzível nesta dicotomia destinada a facilitar a arrumar no tabuleiro de xadrez os bons e os maus. O problema é que um tabuleiro de xadrez, que é aquilo em que está transformada a Síria, tem muitas peças. Demasiadas peças a movimentarem-se em múltiplas direções. É por isso que a guerra é a guerra. E, ali está em curso, também, uma poderosa guerra de propaganda que torna pornográfica a exploração do sofrimento, do horror, da miséria, dos mortos, em nome de uma suposta superioridade moral.
É fundamental reconhecer que não existe informação fiável sobre os crimes que estão a ser cometidos, e quem os está a cometer. Há uma implícita indiferença à tragédia quando se verifica este acantonamento em posicionamentos rígidos dos quais resulta a pretensão de ignorar uma evidência: na Síria está em vigor uma guerra por procuração. Há o governo Sírio, a Rússia e o Irão, mais milícias libanesas e iraquianas por um lado, e, do outro lado, a apoiar múltiplas fações, algumas delas com ligações à Al-Qaeda ou ao chamado Estado Islâmico, estão esse intocável modelo de democracia chamado Arábia Saudita, bem como o Qatar, e, a um outro nível, os EUA, a França, Inglaterra, ou o Egito e a Turquia, cujos apoios também vão oscilando ao sabor das conveniências.
Aqui chegados, percebemos a confusão moral instalada na generalidade dos meios de comunicação social do Ocidente: à força de tanto se pretender diabolizar o governo Sírio à boleia da diabolização de Putin, ignoram-se, escamoteiam-se, finge-se nada acontecer de anormal nas zonas controladas ou nos ataques efetuados por grupos como a ex-Frente Al-Nosra (ramo sírio da Al-Qaeda), o Al Nusra e outros grupos ligados ou subsidiários do Estado Islâmico.
De facto, a guerra é a guerra. E quando a guerra avança, é melhor não dar cor às lágrimas. Porque as lágrimas são o espelho dos destroços humanos gerados pela violenta irracionalidade. Não há bons e maus neste conflito. Há mortos. Muitos mortos. E muitas lágrimas.

sábado, setembro 26, 2015

Nos limites do suportável

É na verdade quase insuportável o cinismo e hipocrisia das versões de Israel do que está a acontecer no Médio Oriente ilustradas por este desenho publicado no Courier. "Primavera árabe" à bomba?, milhões de seres humanos em acampamentos e fugas de tragédia mediatizada, crianças mortas e fotografadas na praia para fins inconcebíveis, uma União Europeia em implosão?, essas "coisas" não existem, ou servem apenas para serem manipuladas.  

sexta-feira, junho 21, 2013

OUTRA INFORMAÇÃO - "Armas de destruição em massa"?

- Edição Nº2064  -  20-6-2013


ADM 2.0
Há uma década, o imperialismo lançou uma enorme campanha de desinformação alegando que o Iraque de Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa (ADM). Cedo se confirmou que o pretexto não passava duma Aldrabice para a Destruição em Massa (ADM). Agora, uma nova versão da saga ADM está em marcha. O seu subtítulo é «as armas químicas de Bachar al-Assad».
Actor de proa da ADM 2.0 é o presidente «socialista» francês, François Hollande, que no início deste mês foi agraciado com o Prémio da Paz da UNESCO por (pasme-se!) «a sua contribuição considerável para a paz e a estabilidade em África». Ou seja, pela invasão militar do Mali. O presidente do júri de tão criativa atribuição é Mário Soares (www.unesco.org). Após reestabelecer a ordem colonial no Mali, Hollande parece determinado em reestabelecer a ordem colonial na Síria. O seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, declarou em entrevista que «a França já tem a certeza de que o gás sarin foi usado na Síria […]. Não há qualquer dúvida que [os responsáveis] são o regime e os seus cúmplices, porque fomos capazes de recriar toda a cadeia» do ataque (Libération, 4.6.13). E esclarece: «todas as opções estão em cima da mesa [...] incluindo uma reacção armada contra os locais de armazenamento do gás». A França não tem dúvidas. Mesmo depois de Carla del Ponte ter afirmado (Independent, 6.5.13) que se alguém usou gás sarin na Síria, foram os «rebeldes» armados pelo imperialismo. Mesmo depois de «jornais turcos terem relatado que 12 membros da Frente al-Nusra da Síria, com ligações à Al-Qaeda, que alegadamente planeavam um ataque na Turquia e que estavam na posse de 2kg de sarin, tinham sido presos» naquele país (Reuters, 30.5.13). Até o insuspeito New York Times escreveu (10.6.13) que «o presidente Obama terá, sem querer, fornecido um incentivo para exagerar» relatos de utilização de armas químicas ao afirmar que «a utilização de armas químicas pelo governo Sírio seria uma 'linha vermelha'» que provocaria uma escalada da intervenção dos EUA no conflito. Mas o Prémio Unesco da Paz parece ter convencido o Prémio Nobel da Paz que chegou a hora de fazer uma guerra a sério. Em comunicado da Casa Branca, e apesar do «governo Obama estar profundamente dividido» (NYT, 13.6.13), o vice-conselheiro de segurança nacional de Obama avalizou as acusações contra o governo sírio. A máquina de guerra aquece os motores. Do infalível senador McCain, ao ex-presidente Clinton e ao inglês Cameron, cresce o coro que pede uma escalada da intervenção na Síria. E cresce a presença militar dos EUA na região – na
Turquia, Israel e Jordânia.
As verdadeiras causas de tanta movimentação não são armas químicas. Nem são difíceis de encontrar, mesmo na imprensa de regime: «os rebeldes sírios estão a perder terreno na sua luta contra o governo de Bachar al-Assad» (CNN, 14.6.13) e «depois das tropas do Sr. Assad – auxiliadas por combatentes do grupo militante Hezbolá – terem conquistado a estratégica cidade de Qusayr […] Washington receia que grande parte da rebelião esteja à beira do colapso» (NYT, 13.6.13). A cruzada imperialista no Médio Oriente arrisca uma derrota de enormes consequências. Et voilá les armes chimiques! grita Fabius, «o Químico».
A farsa é grotesca, mas ameaça transformar a tragédia em catástrofe. Desde há muito que a Síria está a ser destruída por mercenários armados, pagos e apoiados pelos EUA, Inglaterra, França, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, Jordânia (e outros). Em Maio, Israel bombardeou Damasco. A Rússia ripostou reforçando o seu apoio ao governo sírio. O Hezbolá ripostou entrando em acção no terreno. O Irão já declarou repetidamente que, caso seja necessário, entrará em acção em apoio do aliado sírio. Uma escalada da aventura militar imperialista no Médio Oriente arrisca-se a incendiar, não apenas a região, mas todo o planeta.


Jorge Cadima

segunda-feira, junho 10, 2013

OUTRA INFORMAÇÃO - Turquia, Síria... e o resto do mundo

 - Edição Nº2062  -  6-6-2013

Entrevista a Aydemir Güler sobre a situação na Turquia
«Derrotar o AKP
é justo e mobilizador»
Os protestos que eclodiram nos últimos dias na Turquia resultam da confluência de descontentamentos com diversas origens, mas expressam um denominador comum: a rejeição popular do projecto reaccionário que o governo procura impor no país, disse ao Avante! o membro da Associação de Paz da Turquia e do CC do Partido Comunista da Turquia (TKP), que esteve em Portugal a propósito das reuniões do Secretariado e da Região Europa do Conselho Mundial da Paz.

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As movimentações de massas na Turquia surgem depois da realização de manifestações contra o envolvimento turco no conflito sírio. É essa ingerência o seu principal factor desencadeador?
A recusa da via intervencionista adoptada pelo governo, ao lado dos grupos armados e contra a Síria, foi um dos detonadores, sem dúvida, mas o alastramento da revolta surge na sequência de uma luta aparentemente menor e mais simples. Na Praça Taksim, o coração de Istambul, há um parque público muito apreciado que o governo do AKP [Partido da Justiça e do Desenvolvimento] quer demolir, argumentando que vai reconstruir uma antiga caserna militar otomana. Isso é a fachada. Na realidade, onde hoje está o Parque Gezi, o AKP pretende construir mais um centro comercial.
A rejeição do empreendimento foi desencadeada há muito, mas a repressão violenta da defesa do Parque provocou a indignação e o alastramento dos protestos.
A maioria dos turcos, e mesmo muitos dos habitantes dos subúrbios de Istambul, nunca estiveram no Parque Gezi, mas consideram-no parte da identidade da cidade.

Então o que move milhões de pessoas em todo o território?
A destruição do Parque Gezi foi a gota de água que fez transbordar a paciência do povo. Foi a centelha da revolta dos trabalhadores, dos jovens, dos estudantes, de sectores e camadas intermédias que recusam o alinhamento do país numa guerra imperialista na região; que estão contra a proposta de nova constituição apresentada pelo AKP, o desemprego galopante que atinge jovens qualificados e não-qualificados; contra as orientações neoliberais impostas pelo primeiro-ministro Recep Erdogan e as suas consequências sociais; contra a violência policial cada vez mais frequente e o autoritarismo do governo que sempre se recusa a negociar.
A Síria é uma questão central. A 11 de Maio, o governo turco acusou a Síria de ser responsável pelas explosões em Reyhanli. Ninguém acreditou nisso. Ninguém acredita que a Frente al-Nusra, vinculada à al-Qaeda, produza armas em Adana, a quinta maior cidade turca, sem o conhecimento de Ancara.
A iniciativa que a Associação de Paz da Turquia e o Conselho Mundial da Paz promoveram em Antakya, no final de Abril, incluindo um acto público com milhares de pessoas, esclareceu e mobilizou contra a guerra. A esmagadora maioria dos populares da província de Hatay tiveram algum contacto com o movimento da paz. A isto acresce o facto de observarem a liberdade com que se movimentam os terroristas na fronteira e, sobretudo, constatarem que dois anos de guerra na Síria provocaram o colapso da economia na sua região.
Para mais, os atentados em Reyhyanli vitimaram cerca de uma centena de pessoas. O primeiro-ministro acusa um Estado vizinho da sua autoria e a primeira coisa que faz é deslocar-se aos EUA para reunir com Barack Obama e apelar a um intervenção na Síria? Tudo isto tornou muito claras as intenções do AKP e desacreditou o governo aos olhos do povo, que recusa que a Turquia seja o principal centro de provocação à Síria, que rejeita que a «oposição» se reúna no país e tenha bases.

Há então um denominador comum?
Sim, há, a islamização da sociedade num determinado sentido. Recentemente, o governo fez aprovar legislação que limita a comercialização e consumo de álcool. O que os turcos vêm nisto não é a defesa da saúde pública, mas o aprofundamento de uma orientação por parte do AKP. A maioria dos turcos são muçulmanos, mas convivem com a religião de uma forma diferenciada face a outras facções islâmicas. Defendem o Estado laico e os valores do secularismo.
O AKP não é somente um partido, mas um projecto. Podemos até dizer que terá servido de inspiração no desfecho das chamadas primaveras árabes para a instalação no poder de partidos afectos à Irmandade Muçulmana. O AKP foi a primeira experiência bem sucedida de um modelo de consolidação de um poder islâmico promotor de políticas neoliberais. O AKP acalenta a esperança de reconstruir o império otomano, ser a maior potência regional. Washington apoia um poder desse tipo. O AKP é apoiado pelo grande capital na Turquia.

Qual o rumo que os acontecimentos podem tomar?
As movimentações de massas cresceram de uma forma espontânea. O governo mostra-se incapaz de manipular essa dinâmica. Tem a maioria no parlamento, tem dinheiro e apoio das petro-monarquias árabes do Golfo, mas não vai conseguir controlar um povo inteiro que sempre se tem manifestado. A Turquia não é uma sociedade abafada, calada, amorfa. Milhões de pessoas estão nas ruas com reivindicações específicas. Demitir o governo é a tarefa imediata.
O TKP está a desempenhar um papel fundamental no estímulo da luta. No último sábado, apoiou e chamou para uma manifestação na Praça Taksim. O Partido Popular Republicano, maior partido da oposição parlamentar, fundador da República Turca, social-democrata, foi obrigado a desconvocar o protesto, agendado para uma outra praça de Istambul e a mobilizar para Taksim.
É certo que os protestos carecem de uma direcção política. Neste momento, nenhum partido pode reivindicar a condução de um processo onde sobressai a grande energia e disponibilidade das massas. É urgente garantir a unidade de acção e propósito, assegurar que a resistência prossegue. Se este movimento deixa as ruas para a polícia, o governo vai entender que forçou o regresso do povo a casa e avançar com mais limitações à liberdade, mais repressão, mais autoritarismo.
Derrotar o AKP e exigir eleições antecipadas é um objectivo justo e mobilizador que contribui para o recuo do seu projecto político.



Hugo Janeiro 

sábado, fevereiro 02, 2013

domingo, outubro 28, 2012

OUTRA INFORMAÇÃO- Síria

Grupos armados na Síria
 violam cessar fogo
Grupos armados sírios põem a prova hoje o frágil cessar fogo aprovado pelo Governo pela iniciativa da ONU e que nesta sexta-feira (26) enfrentou sangrentas violações.
Após sua aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU e a aceitação pelo governo de Bashar-al-Assad, que não excluiu o direito de resposta, milícias terroristas explodiram dois carros-bombas em uma populosa zona residencial de Damasco e na cidade de Daraa, ao sul.
A explosão de um carro bomba na comunidade de al-Zuhour, nas áreas de Daff al-Shouk, no sudeste da capital, matou 10 pessoas e feriu cerca de 30, enquanto reinava o feriado pela comemoração muçulmana do Eid al-Adha.
Em Daraa outro carro bomba explodiu e deixou 11 feridos, alguns em extrema gravidade. Outras ações perto da rotatória dal-Thanawiye, em Harasta, em Damasco Campo, deixaram vários terroristas mortos ou feridos. Nessa mesma província, nas localidades de Erbin e Douma, grupos armados atacaram tropas do governo e cometeram atos de vandalismo contra civis e suas propriedades. Ao norte do país, na província de Alepo e capital homónima, cinco ações dos grupos foram respondidas pelo exército sírio. As rupturas ocorreram próximo ao teatro Queen City, a fábrica XO, a rotatória al-Turkawi e as mesquitas al-Ramousa e al-Badawi.
Os milicianos também atacaram agentes do governo na empresa de eletricidade e um centro próximo à estrada al-Tharwat, em Khan al-Assad, em áreas rurais dessa província. Nessas ações foram mortos ou feridos vários insurgentes entre eles Okla Saeed al-Kasimi, um líbio de 43 anos.
Também em outra ação, agentes do governo responderam a um ataque na zona dal-Siryan, ação na que foram confiscadas grande quantidade de armas e munições incluindo dois rifles de franco-atiradores, dois lança-foguetes RPG com seis cargas, seis fuzis AK-47, granadas e cocktails Molotov, entre outras.

em vermelho
com informações da agência Prensa Latina