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sábado, abril 18, 2020

GLOBALIZAÇÃO E LUTA DE CLASSES - 10

continuação:

10
2. Num outro plano, no plano da necessária adaptação das relações de produção à evolução das forças produtivas, o actual momento histórico parece explodir com este rastilho de crise sanitária e, sobretudo, com o seu aproveitamento.
O trabalho em casa, o tele-trabalho e outras modalidades surgem como recurso para compensar a impossibilidade ou perigosidade de grupos e equipas, e afigura-se-me que está a ser tentado fazer, como emergência, o que seria muito difícil de conseguir em situação aparentemente normalizada mas com natural e não escamoteável luta de interesses antagónicos, de classe. 

Nas “soluções” emergentes, devido à emergência…, o trabalhador fica isolado, o seu camarada do mesmo tipo ou perfil de trabalho surge-lhe, é-lhe apresentado ou sugerido, como seu concorrente, não há contratação colectiva, proíbem-se as greves, horários de trabalho são inexistentes e geridos em função dessa concorrência, também quase impossibilitadora de posições colectivas e solidárias. A precariedade aparecerá como inevitável. E apresentar-se-é como sendo naturalmente decorrente das novas condições e não como adaptação (e continuidade) da exploração às novas condições.

A frente sindical de origem e razão de classe pode vir a ter de confrontar enormíssimas dificulades para cumprir o seu papel de organizações de defesa económica dos trabalhadores e das suas condições de trabalho, nomeadamente na questão dos horários, verdadeiramente básica para a concepção do trabalho como criador e social, e do tempo livre como objectivo e expressão de liberdade. 

continua

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Trabalho extraordinário e em dia feriado, encurtamento do dia de trabalho e "bolhas"

de  "eles andam aí?" (no Expresso curto de hoje, por Pedro Lima):

"(...)

O PCP lembrou este fim-de-semana as más companhias com que anda o PS ao lembrar o chumbo, com o apoio do PSD e do CDS, da reposição do pagamento do trabalho extraordinário e em dia feriado proposta pelos comunistas. (NB1)

(...)

Eles andam também aí, os receios de turbulência nas Bolsas. Depois de um início de ano quente, a semana passada foi marcada por uma forte queda das ações em muitos mercados. O que nos dizem estas recentes quedas? É o princípio de uma correção mais acentuada? É uma bolha prestes a estourar? Os receios estão aí, como nota o Wall Street Journal, os alertas também. Depois de Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal, ter dito que nos Estados Unidos há duas bolhas, uma nas ações e outra nas obrigações, este fim-de-semana coube a Janet Yellen, que no final da semana deixou também de ser presidente da Reserva Federal, dizer que o facto de as avaliações dos ativos estarem tão elevadas é fonte de “alguma preocupação”. Se é uma bolha ou não, é algo a que não sabe responder. Foi numa entrevista à estação televisiva CBS.

Hoje alguns dos principais mercados asiáticos fecharam a sessão a cair: Tóquio 2,2% e Hong Kong 1,4%. Lisboa abriu a perder 0,56% com as quedas do BCP, Galp e EDP em destaque.

Há também alertas em torno das moedas virtuais, com a Bitcoin a destacar-se pela forte perda de valor. Nouriel Roubini, o economista americano que gosta de nos dar más notícias, também anda por aí a alertar para aquela que considera a maior bolha de sempre na História da Humanidade. (NB2)

(...)"

Notas do blog:
(NB1) - Citação de fontes onde se vai
quando por outros trabalhos:
... o verdadeiro reino da liberdade,
a qual, porém, só pode florescer
 com aquele reino da necessidade como base sua.
O encurtamento do dia de trabalho 
é a condição fundamental.

(NB2) - Quando é que "eles"
deixaram de estar "c' a bolha",
ou, pelo seu funcionamento,
deixaram de caminhar para ela?

sábado, janeiro 14, 2012

Uma campanha com o maior significado - 3



O trabalho de Américo Nunes, publicado em O Militante de Jan-Fev. de 2012, acabado de sair, tem a maior actualidade. Como Marx!

O seu título é




A questão do horário de trabalho
- A actualidade de Marx

e começa assim:

No VIII capítulo de O Capital – o dia de trabalho – Marx trata exaustivamente a questão da jornada de trabalho diário, a luta dos trabalhadores pela sua limitação, a evolução histórica dessa luta, e os seus resultados, até à reivindicação universal dos três 8x8x8 pela Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), em 1866. Oito horas de trabalho diário, oito para lazer, convívio familiar e cultura, e oito para dormir e descansar.
Tal como nas questões essenciais da sua análise da sociedade capitalista e da sua teoria económica, social e política, também nesta matéria a sua actualidade continua a ser impressionante. A leitura ou releitura deste capítulo da obra magna do grande filósofo é obrigatória para a compreensão total do significado das recentes propostas do governo de direita para o aumento de meia hora de trabalho diário, a criação dos bancos de horas e a eliminação de feriados.
(...)





Vale a pena ler o resto.
Em O Militante...
e o resto de O Militante

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Uma campanha com o maior significado - 2



Do avante! de 12-01.2012


(o Livro Terceiro de O Capital
ainda não saíu nas edições avante!) 

Uma campanha com o maior significado - 1

Uma campanha com o maior significado.
Prático, concreto, imediato.
E teórico, ideológico, de concepções de vida.
Capitalismo é desemprego, tempo de vida humana igual a tempo de exploração dos trabalhadores.
Socialismo (e comunismo) é tempo livre, tempo humanizado, beneficiando do que, ao longo de séculos e milénios, o ser humano foi conquistando para se ir progressivamente libertando do jugo da natureza.
Do "reino da necessidade" para o "reino da liberdade"!


O horário de trabalho distingue o trabalhador/a livre, mas tendo de vender a sua força de trabalho, do escravo!   

quinta-feira, novembro 10, 2011

ex-certos (não todos certos...) e in-certos

«(...) É nossa obrigação aprender com as lições do passado. A inacção nunca é uma solução e jamais poderá ser a resposta das Nações Unidas, sob pena de sermos coniventes com aqueles que violam os Direitos Humanos (...)».

Disse Cavaco Silva (em português... louve-se!) no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O comentário de Fernando Samuel em cravodeabril. deve ser lido. Aqui. E dispensa-nos de mais comentários

«(...)Para o lugar do pomposo catálogo dos «inalienáveis direitos humanos» entrou a modesta Magna Charta de um dia de trabalho legalmente limitado, que finalmente «esclarece quando acaba o tempo que o operário vende e quando começa a seu próprio». Quanto mutatus ab illo!» (Marx, O Capital)

[Há que esclarecer (mais uma vez... e as que forem necessárias) que a expressão em latim quer dizer "quão mudado está do que era", expressão da Eneida de Virgílio. E que não se pode consentir que se volte a mudar no sentido contrário, para o tempo sem tempo livre (mas cheio de... "direitos humanos" impostos à bomba!).
Se mudança há a fazer, ela é a de que o esclarecimento de quando acaba o tempo em que se vende força de trabalho e quando começa o tempo próprio, livre, se deve refirir aos operários e a todos os trabalhadores! Uma Magna Charta!]



terça-feira, novembro 08, 2011

Leituras de fim-de-semana (e não só) - 5 - Marx e o dia de trabalho - 3

(...)

3. De repente, porém, eleva-se a voz do operário(*), que estava emudecida na tempestade e ímpeto do processo de produção: “(…) Eu reivindico, pois, um dia de trabalho de comprimento normal e reivindico-o sem apelo ao teu coração, pois em coisas de dinheiro os sentimentos não contam. Tu podes ser um cidadão exemplar, talvez membro da associação para a abolição dos maus tratos aos animais e, ainda por cima, teres fama de santidade, mas na coisa que face a mim representas não lhe bate qualquer coração no peito. O que aí parece palpitar é o próprio bater do meu coração. Reivindico o dia de trabalho normal, porque reivindico o valor da minha mercadoria, como qualquer outro vendedor.”
(* - … e de todos os trabalhadores)


Leituras de fim-de-semana (e não só) - 4 - Marx e o dia de trabalho - 2

(...)




2. (...) Embora o dia de trabalho não seja uma magnitude fixa, mas fluida, por outro lado ele só pode variar dentro de certas barreiras. A sua barreira mínima é, porém, indeterminável. (…) Pelo contrário, o dia de trabalho possui uma barreira máxima. Não é prolongável acima de certo limite. Esta barreira máxima está duplamente determinada. Por um lado, pela barreira física da força de trabalho. (…) Durante uma parte do dia, a força tem de repousar, dormir; durante uma outra parte, a pessoa tem outras necessidades físicas a satisfazer, alimentar-se, lavar-se, vestir-se, etc. Para além desta barreira puramente física, o prolongamento do dia de trabalho choca com barreiras morais(*). O operário precisa de tempo para a satisfação de necessidades espirituais e sociais, cujo âmbito e número são determinados pelo estado da civilização. A variação do dia de trabalho move-se, portanto, dentro de barreiras físicas e sociais.
(* - que necessidades são ou virão a ser)

Leituras de fim-de-semana (e não só) - 3 - Marx e o dia de trabalho - 1

Tendo-me aparecido obrigações inesperadas, resolvi aproveitar coisas que estou a ler (a estudar!) para deixar três "posts", programados numa montagem para o dia de hoje. Tinha a intenção de aqui trazer estas transcrições, pela enorme oportunidade para reflexão e aprofundamento ideológico, mas antecipo. Deixo-as - para as 10.30, 13.00 e 16.00 (com um ou outro sublinhado e uma ou outra nota à margem que estavam, e continuarão, a ser tomados) - com a única intenção de comunicar e propor à reflexão aprofundada a que Marx nos convoca, e antecedendo-as de parte que está em "post" anterior, que se repete.

A. «(… ) Onde isto aconteceu, o trabalho servil raramente brotou da servidão; inversamente, foi sim a servidão que na maioria dos casos brotou do trabalho servil (...). 


1. (…) logo que os povos – cuja produção se move ainda nas formas inferiores do trabalho escravo, do trabalho servil, etc. – são atraídos a um mercado mundial dominado por um modo de produção capitalista, que desenvolve a venda dos seus produtos para o estrangeiro como interesse prevalecente, aos bárbaros horrores da escravatura, servidão, etc., é enxertado o horror civilizado do trabalho a mais.
(em simultâneo com o desemprego!...)


segunda-feira, novembro 07, 2011

Leituras de fim-de-semana (e não só...) - 1

Alguns amigos e camaradas, em mais de uma ocasião não escondem a irritação e o cansaço que lhes provoca a comunicação social e dizem não aguentar, mostrando alguma estranheza por se conseguir aguentar tanta infecta “informação”.
Compreendo-os muito bem, mas vou resistindo. Por vezes com surpresas não diria agradáveis mas reveladoras de que, por entre a poeira das palavras, o barulho dos sons (e das luzes), a espuma dos dias, há uns raios do sol da realidade que conseguem infiltrar, erupções do que são as raízes da vida.
Entretanto, e antes de voltar a esta maneira de pegar na questão da (in)formação em luta de classes, um pequeno intróito, que servirá, também e depois, para justificar  intercalações.
Neste caminhar pelo meio de todas estas veredas, umas leituras (voluntárias ou por tarefa) de Marx pelo meio são como que um mergulho em águas profundas, ou um lavar a cabeça por dentro e não só os cabelos…

Por exemplo:

«(… ) Onde isto aconteceu, o trabalho servil raramente brotou da servidão; inversamente, foi sim a servidão que na maioria dos casos brotou do trabalho servil. Aconteceu assimnas províncias romenas. (…) Segundo o Règlement organique – assim se chama aquele código de trabalho servil – cada camponês valáquio deve ao chamado proprietário fundiário, para além de uma massa de pormenorizadas contribuições em géneros: 1. doze dias de trabalho, em geral; 2. um dia de trabalho no campo; 3. Um dia de carregamento de lenha. Summa summarum, 14 dia no ano. (…) Nas palavras secas de autêntica ironia russa, o próprio Règlement explica assim que por 12 dias de trabalho se deve entender o produto de de um trabalho manual de 36 dias; por um dia de trabalho no campo, três dias, e por um dia de carregamento de lenha, igualmente o o triplo, Summa, 42 dias de trabalho servil. Acrescenta-se porém a chamada Jobagie, prestações de serviço devidas so senhor fundiário por necessidades extraordinárias de produção. Na proporção da magnitude da sua população, cada aldeia tem de fornecer anualmente um determinado contingente para a Jobagie. Este trabalho servil suplementar é avaliado em 14 dias para cada camponês valáquio. Assim o trabalho servil prescrito ascende anualmente a 56 dias de trabalho. (…)»

(O Capital, Livro Primeiro, Tomo I, 8º cap., O dia de trabalho,
pp. 270-1)

Assim, com este exemplo se mostra como o trabalho servil se pode ir aproximando, pela regulamentação positiva “bem aplicada”, em servidão.

sexta-feira, novembro 04, 2011

ex-certos e in-certos a partir um certo comentário

Num comentário deixado num "post" anterior por Fonseca-Statter, que julgo ser o autor (Guilherme da Fonseca-Statter) de uns livros e textos muito interessantes e úteis sobre economia política e sua crítica, sem pruridos de estudar e dar a estudar Marx (que enorme ousadia...), lia-se: 
"a propósito dos «Merkozys» de serviço
e das suas boutades,
vem-me à memória a reflexão de Marx
sobre a mediocridade grotesca de Louis Bonaparte".
Para além do gosto provocado pela visita e pelo comentário, este continha um desafio. Não uma provocação... um desafio que tomei para mim, e cujo foi o de ligar a referência a Luis Bonaparte (e à sua mediocridade grotesca) a este tema mais que actual do tempo de trabalho, do horário de trabalho, do "dia de trabalho", em que o (diria) grotesco ministro da economia do governo português (e o das finanças...) nos quer atolar como uma inevitabilidade e a forma de recuperar uma falácia chamada produtividade. A que seria impossível não reagir, e violentamente, pois toca num aspecto essencial, profundamente ideológico.
No oitavo capítulo - O dia de trabalho - do tomo I do Livro Primeiro de O Capital pode ler-se:
"(...) Há que confessar  que o nosso operário sai do processo de produção de modo diverso do que nele entrou. No mercado, entrou como possuidor da mercadoria «força de trabalho» perante outros possuidores de mercadorias, possuidor de mercadorias perante possuidor de mercadorias. O contrato pelo qual vendeu a sua força de trabalho ao capitalista demonstrava, por assim dizer, preto no branco, que ele dispõe livremente de si próprio. Depois do negócio fechado. descobre-se que ele não era «nenhum agente livre», que o tempo pelo qual é livre de vender a sua força de trabalho é o tempo pelo qual é forçado a vendê-la, que de facto o seu sugador não o larga «enquanto ainda houver um músculo, um tendão, um pingo de sangue para ser explorado». Para «protecção» contra a serpente dos seus tormentos, os operários têm de juntar as suas cabeças e, como classe, impor uma lei de Estado, um impedimento social superpoderoso que os impeça a eles próprios de, por contrato de livre vontade com o capital, se venderem a si próprios e à sua descendência até à escravatura e à morte. Para o lugar do pomposo catálogo dos «inalienáveis direitos humanos» entrou a modesta Magna Charta de um dia de trabalho legalmente limitado, que finalmente «esclarece quando acaba o tempo que o operário vende e quando começa a seu próprio». Quanto mutatus ab illo!»

Apetece dizer que... "está aqui tudo!", que... "está tudo dito".
Mas nunca está! E, no meio do encantamento ao transcrever este trecho, ainda tive de me forçar a não transcrever as elucidativas notas, para não ultrapassar dimensão razoável para este meio de comunicação. Embora deva incluir uma esclarecendo que a expressão em latim quer dizer "quão mudado está do que era", e é expressão da Eneida de Virgílio. E que não se pode consentir que volte a mudar no sentido contrário, para o tempo sem tempo livre. Se mudança há a fazer, ela é a de que o esclarecimento de quando acaba o tempo em que se vende força de trabalho e quando começa o tempo próprio, livre, se refira aos operários e a todos os trabalhadores!

Uma Magna Charta!