sexta-feira, janeiro 09, 2015

Fome de pão?... comam brioches! - Carrito conFISCadO? ... comprem BMW!



- Edição Nº2145  -  8-1-2015


O melhor de sempre
2014 foi o ano em que Portugal perdeu mais de 400 camas hospitalares; em que 269 clínicos pediram à Ordem dos Médicos os certificados para exercer a profissão no estrangeiro; em que 2082 enfermeiros emigraram, o que dá uma média de 5,7 por dia; em que as urgências dos hospitais rebentaram pelas costuras por falta de profissionais e camas para internamento, com tempos de espera a atingir as 18 horas e mais; em que corporações de bombeiros denunciaram que há ambulâncias a ficarem retidas nos hospitais por falta de macas e demais material; em que houve pelos menos 66 mil processos de penhoras de casas ou execução de hipotecas (dados de Setembro); em que só entre Outubro e Novembro mais 1700 crianças perderam o abono de família; em que voltou a cair o número dos que recebem o complemento solidário para idosos, o subsídio de desemprego e o rendimento social de inserção, entre outros apoios sociais; em que morreu gente no serviço de urgências sem ter sido atendida; em que...
O rol podia continuar por aí, falando nos dramas que cada número tem contido no bojo, acrescentando outros, tantos, que não caberiam nestas linhas, mas tal seria não só deprimente como politicamente incorrecto, nestes tempos em que Pedro e Paulo já não vislumbram nuvens negras no horizonte, Pires transborda de confiança no crescimento da economia, e o senhor Silva continua a cacarejar de contente sempre que o Governo põe um ovo.
As desgraças do povo, consabidamente madraço, não cabem no discurso oficial, cujo, insiste-se e repete-se até à exaustão, diz que o País está bem e recomenda-se. Se não é o nosso caso paciência, azar, alguma coisa fizemos ou deixámos de fazer para não estarmos a cavalgar a maré dos sucessos que proliferam como cogumelos em terras de Portugal. A prova de que assim é chegou-nos esta semana através do comunicado distribuído pelo grupo BMW em Portugal, dando conta de que 2014 foi o «melhor ano de sempre», com a venda de «12 961 unidades, entre automóveis BMW e Mini e motociclos BMW, o que corresponde a um crescimento de 35% face ao ano anterior».
Maria Antonieta terá dito «se o povo tem fome, por que não come brioches?» Maria Luís não recomendou a compra de BMW, mas lá que alguém anda a comprá-los com o nosso dinheiro, isso anda.


Anabela Fino

Boa!

Reflexões lentas - procura de palavras com acerto-2

 Desde ontem não é possível a procura de informação, seja escrita, falada ou "ouvista", estar-se com alguém, sem que a "conversa" não seja atropelada pelos acontecimentos de ontem. Dispensar-me-ia de escrever Charlie Hebdo. E é grave o momento, ou esses acontecimentos vieram trazer gravidade ao grave momento histórico que se atravessa.
  • Barbárie. O que aconteceu ontem em Paris foi uma manifestação de barbarismo, e não enquanto erro de linguagem. O atentado contra a revista de humor politizado, aquele assassinato colectivo, é inaceitávelsuportável num processo histórico que já passou as etapas que passou... desde a barbárie. Nada - mas nada! - o explica ou torna compreensível. Dito isto, igualmente inaceitáveissuportáveis são algumas (muitas) coisas que se dizem, escrevem, ouvem, comentando o que aconteceu e o que está a acontecer. São hipócritas - ou ignorantes - as afirmações que colocam a questão em termos absolutos de liberdade de expressão. E são-no por se viver num mundo - num tempo histórico - em que a liberdade de expressão está evidentemente (para quem quiser ver as evidências) condicionada pelo "poder económico-financeiro", que se serve daquela expressão para tudo, até para atentar quotidianamente contra... a livre e civilizada liberdade de expressão, contra uma verdadeira informação, contra um direito a cada um informar-SE. Vivemos a pré-história da Humanidade e atentados como o de ontem, e o que ele está a desencadear, são recuos (de dias, anos, décadas ou séculos) na humanização da Humanidade. "Tento na língua", isto é, liberdade de expressão no seu sentido mais profundo. Por isso me calo, e recolho, triste e preocupado. Em reflexão. Lenta.      

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Reflexões lentas - procura de palavras com acerto-1

Reflecte-se com palavras, porque as reflexões assentam sobre palavras e o significado que se lhe queira dar. Reflectia assim, alinhando palavras, a partir da observação/comprovação de que as últimas reflexões lentas têm sido sobre palavras. Palavras com tanto pêso que, sós, isoladas, exigem reflexão. Ou, vendo ao contrário... ou, pegando pelo outro lado, são precisas palavras para se sintetizar reflexões, sejam estas rápidas ou, preferencialmente, lentas. Para que as reflexões se entendam.

  • CAOS. Vejo a televisão ou folheio jornais e a palavra caos aparece-me repetida. Depois de um processso passo a passo, medida a medida, decreto a decreto, orçamento a orçamento, vetos do TC a vetos do TC (porque vetos são), a evolução dos rendimentos dos portugueses, das políticas de saúde, das políticas de educação, justificam o vocábulo. Sobretudo na área da saúde se tem de entender que quer dizer caos para reflectir a situação. Hoje, no restaurante, no jornal televisivo que me serviram com o cozido à portuguesa: "homem de 77 anos morre nas urgências de Setúbal, depois de esperar 4 horas"; "mulher de 79 anos morre nas urgências de Peniche após esperar 10 horas". E fala-se em caos por estas duas mortes que são anunciadas ao almoço (a mim, que tenho 79 anos e estou constipado...) se juntarem a outras anteriores em outros sítios mas aqui, de outras idades mas sobretudo destas, com outros números para as horas de espera mas sempre muitas, e às macas ocupadas, e às viaturas de apoio médico imobilizadas, e à decisão de apressar baixas, e à responsabilização de empresas de aluguer de pessoal médico, e, e. Caos na situação, pânico não confessado (ou envergonhado) nas... pessoas!, em quem não tem posses para se marimbar no Serviço Nacional de Saúde. Porque é aqui que bate o ponto da reflexão. A responsabilidade, a culpa que sempre se procura identificar, não é deste governo e do seu orçamento, não é do ministro que é mau, não é dos médicos que não há, não é dos enfermeiros que emigram, não é dos administrados que gerem mal. É de uma política que vai em décadas, e que tem vindo paulatinamente a tornar um direito num não-direito, um serviço nacional e público num sistema que o vá substituindo, articuladamente, num sistema em que tenha cada vez maior (até à exclusividade) peso o negócio  da doença. E assim tem sido até se chegar a (este) caos. A culpa é da política que privilegia o privado e abate o homem de 77 anos e a mulher de 79 ao número dos que são "culpados" por (ainda) estarem vivos e serem um encargo para o orçamento! 


  • Segue BARBÁRIE      

   


quarta-feira, janeiro 07, 2015

Reflexões lentas - segredos e gestões

Para intervalar com a crónica "7 dias em Maio", que está em curso de escrita - o "cronista" vai no dia 19 de Dezembro, e acabamos de chegar à Vila de Maio (de antigo nome Porto Inglês), capital da ilha de Maio -, aqui se vêm deixar algumas reflexões que a situação que vivemos, aqui e agora, suscita, ou melhor: provoca!

  • Os vários segredos. Ele há o segredo de justiça, que parece existir para ser violado, em nome-alibi de uma "informação" aparentemente completa mas sempre desvirtuada e manipulada, ou servindo de pretexto para só se dizer o que convém que seja dito. Ele há, agora, o segredo fiscal, ele há o segredo de ordem pessoal, confessional, profissional. Impunha-se uma ementa dos segredos a respeitar para que não se utilizassem "à la carte".
  • As gestões. Houve uma "moda" (ou vaga) do vocábulo gestão. O uso e a utilização da palavra serviu - e serve - para imensa coisa. E, numa economia em deriva de financeirização, até pareceu mesmo que gestão complementava e/ou substituia a racionalidade económica. No entanto, tudo mais se transformou - no léxico - quando se começou a dividir a gestão em boa (que seria a privada) e em má (que seria a pública). O que se procurou transformar em "verdade" consensual, e que está a ser esquecido quando a realidade a veio tornar em perfeita falácia. É que a gestão dita privada invadiu os "negócios do Estado", ou seja, a dita gestão pública foi privatizada, adoptando os critérios privados, tão prevalecentemente individuais que egoístas, quando não criminosos ética ou humanitariamente. O caso tornou-se particularmente gritante no sistema bancário. Está bem â vista (e ao ouvido) a "bondade" da gestão privada. Bem a mostram os BPN, BPP, BCP, BES/GES, PT, e mais, e mais. Dir-se-á que a tal "bondade" da gestão privada tem provocado gravíssimas malfeitorias e que há necessidade (e urgência) de impor uma gestão pública onde só ela pode garantir (mau grado erros que possam ser cometidos) a prevalência do interesse geral.    


segunda-feira, janeiro 05, 2015

2015 - reflexões lentas

E aos 3 dias do ano de 2015, no seu primeiro dia útil (como se houvesse os que não o são), com um desejo (e necessidade histórico-social) de que muitos sejam mesmo úteis, este canto de alguma (outra) informação e muita (modesta e talvez dispensável) reflexão saúda os seus ainda teimosos visitantes e cada vez mais raros comentadores. Bom ano nOVO!
Nesta mensagem, três notas, a que outras se poderiam juntar mas em que, qualquer o rol, estas estariam sempre presentes:

  • a "mensagem de ano novo" de Sua Excelência o Presidente da República (como o tratam uns, os "seus") ou do Cavaco (como o designam outros, talvez desvalorizando a sua real e perene intervenção política). Trata-se de uma "peça" que se gostaria de catalogar como de fim de mandato, epitáfia. "Aquilo" é (a meu "ouver", claro) inqualificável. Que país é aquele em nome do qual Cavaco Silva se atreve a falar, a dizer o que disse e a não dizer uma palavra sobre o que não disse como se não existisse ou não tivesse importância (o caso BES, por exemplo!)?, como é possível que alguém, daquele lugar e ali colocado pelo voto, seja tão desavergonhadamente (e desastradamente) tão colado a uma política executiva de que tinha a obrigação de ser distante e distanciado?, quem suportará - além dos que ele suporta ou sustenta - sequer ouvir aquelas "recomendações" que toda a gente sabe (dos que querem saber...) não serem mais do que cunhas para aguentar edifício a ruir? Depois, ainda uma palavra sobre o lado formal, diria estético: um verdadeiro emplastro de si próprio.. Se tudo "aquilo" tivesse a intenção de descredibilizar a democracia, de afastar as gentes de quem as gentes escolheram para as representar, dar-lhe-ia 20 valores. E não se fique satisfeito pelo facto de, nas massas, ninguém lhe ligar nenhuma... Esse é, talvez, o mais nefasto efeito. O da indiferença, o "encolher de ombros", perante o que nos agride e, assim, continuará a agredir.
  • o "caso Sócrates" (assim dito para simplificar, porque há um ancião já passado mas sempre presente que esbraceja e espingardeia desalmadamente, e o transformou em "caso SS - Sócrates-Soares) encheu a passagem de 2014 para 2015. Como se diria em "futebolês" - apesar do futebol continuar a inundar a informação, o "caso Sócrates" sobre-inunda-a num fenómeno interessante, sintomático...e perigoso -, para Sócrates a melhor defesa é o ataque. Mas o ataque a quê, a quem? Ao que se devia exigir que funcionasse ausente de pressões que não fossem as da necessária celeridade e rigor. A política, no seu sentido nobre e societariamente globalizante, está a sofrer os maiores maus tratos pela procurada (embora mal-escondida) promiscuidade entre os poderes - o judicial, o político (no sentido restrito, de executivo institucional) e, por detrás e por todas as costuras do tecido social, o económico. Não se fugirá a que 2015 seja o ano Sócrates português, como ele o desejará. Mas talvez as contas e os cálculos lhe saiam furados...
  • Uma última nota sobre a evolução do preço do petróleo. A nossa contemporaneidade - e alguns, de há tanto tempo contemporâneos, já começam a ser também passado vivido... - estrutura-se sobre uma fonte de energia que tudo mexe e que mexe com tudo. Lembro - eu, que sou desses tais contemporâneos em excesso de anos... - o começo dos anos70 do século passado e como foi decisiva para muita coisa a então dita "crise do petróleo" associada à crise monetária (decisão de Nixon sobre a inconvertibilidade do dólar). Deixo a nota como nota de preocupação. Esta movimentação à volta do preço do petróleo vai perturbar muito o estado das nações e do mundo. Numa primeira linha, cito países como a Venezuela e Angola, os do Médio Oriente todo (quais forem, e como forem), depois (?) os BRICS, depois (!), numa última linha, toda a correlação de forças inter-nacional. No que parecia ser uma evolução de correlação de forças a ter um determinado rumo, algo pode estar a provocar perturbações e perigos muito sérios.
Vai ser um ano em cheio. Vivamo-lo... porque vivos, lúcidos porque informados, intervenientes porque em luta.

                    

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Duas mensagens ainda no desgraçado (por mim falo) 2014 - 2

A outra mensagem, ainda de 2014, que não queria deixar de aqui trazer, neste 1º de Janeiro de 2015, é a da libertação dos 5 de Miami.



A mensagem foi transformada em "gesto de Obama", personalizado, corajoso e magnânimo. Sem pretender retirar-lhe significado (e coragem), não foi isso, e muito menos teria sido só isso. Se se empolou até ao desrazoável a "decisão de Obama" e as negociações que a acompanharam, apagar toda a luta solidária, e a influência que - de certo! - essa solidariedade universal teve, apenas reforça o sinal de fraqueza que tal decisão também teve. 
A vitória é de Cuba... e um pouco, mesmo que nada pareça ou visível seja, de cada um de nós. Preocupa o custo que possa vir a ter tal vitória mas, por e para isso, continua a ser necessária, indispensável, a mesma atenção e solidariedade militante. 
Porque, como sempre, a luta continua. Contínua!

Exemplos só para lembrar:






Duas mensagens ainda no desgraçado (por mim falo) 2014 - 1

Ainda do desgraçado ano de 2014 (por mim falo... ano em que, entre muitas outas malfeitorias, me levou dois amigos muito queridos - o Herberto e o Zé Casanova), guardei duas mensagens que me parecem do maior significado e com que quero abrir 2015. Uma, é esta crónica de Correia da Fonseca, em que nos fala de uma "uma voz em Roma", de que aguardei a publicacação no avante! (paa onde foi escrita) para aqui trazer.    

UMA VOZ EM ROMA
O Natal é, como se sabe, um tempo cheio de luzes multicolores, de intensificações publicitárias, de espectativas comerciais quase sempre condenadas à decepção e de oralidades recheadas de sacratíssimos lugares-comuns. Por estes dias, os telespectadores portugueses puderam aceder a dois momentos exemplares deste tipo de discurso: um deles foi do senhor Presidente da República, desta vez acolitado pela senhora sua Esposa, outro não se dirá de quem foi porque a prudência é sempre boa conselheira, mas é possível revelar que nessa alocução se falou de “a família” como tema destacado. Não será preciso sublinhar como a escolha desse tema foi importante neste momento da vida nacional em que cerca de um terço das famílias portuguesas já está afundada na pobreza que o governo na devida altura assumidamente desejou para o país inteiro, salvo as excepções do costume; quando em milhares de casas o desemprego já atingiu marido e esposa, isto é, pai e mãe, presumivelmente para regozijo da senhora Merkel e de quantos ela representa e serve. Convém registar também uma outra voz, essa ouvida no próprio dia 25, que nos veio contar uma estória que, sendo de inteira ficção, de tão construída toda ela de inverdades óbvias era agressão, desrespeito ao Natal, verdadeiro pecado. Porém, não foram apenas vozes portuguesas as que directa ou indirectamente foram acolhidas pelos nossos televisores neste Natal que, como habitualmente e em desafio dos nossos votos, foi bem menos santo do que tanto foi desejado: chegaram vozes dos Estados Unidos, ecos muito resumidos de uma voz em Moscovo, vozes de Gaza e também de Telavive, até chegou uma voz de Cuba. Mas a voz que terá suscitado mais comentários, a que se mostrou mais atrevida, elevou-se aqui da Europa, de Roma.

O pior dos pecados
Foi, como já decerto se entendeu, a voz de Francisco Bergoglio, cardeal argentino, filho de um ferroviário de nacionalidade italiana, que, na sequência de uma espécie de leviandade que hoje decerto muitos lamentam, foi há vai para dois anos eleito por um punhadão de cardeais para chefiar a Igreja Católica. Talvez a generalidade desses eleitores até desconhecesse qual a profissão do pai de Francisco e essa ignorância tenha ajudado à escolha feita, pois consta um pouco que que isso de ferroviários não é gente de muito fiar. O certo é que a eleição aconteceu e que, de então para cá, a inquietação e o claro desagrado têm vindo a atingir muita gente excelente, e sobretudo devota, que estava posta em sossego, dos seus anos colhendo o doce fruito, como Luís Vaz disse de Inês. Entende-se: aquilo no Vaticano estivera a andar muito bem, João Paulo II havia sido um talvez decisivo cruzado no combate aos infiéis do Leste; o seu valido Marcinkus, arcebispo de Chicago, tinha sido um eficaz presidente do Banco do Vaticano; em devido tempo o céu se encarregara de no breve período de um mês afastar do caminho João Paulo I, que na altura não viria muito a propósito. Ia, pois, tudo bem, quando de súbito, zás!, surge Francisco e desata a multiplicar inconveniências. Não apenas a falar de pobres e desamparados, o que já não é de muito bom gosto, mas também a responsabilizar as estruturas financeiras dominantes pelos desconcertos do mundo, a formular apelos em favor da dignificação e respeito pelo factor Trabalho, a condenar as várias opressões sociais. Logo se desencadearam vozes a acusá-lo de ser comunista, pecado enorme e irremível, pois é sabido que os comunistas é que se preocupam com tais coisas afinal naturais, sempre houve ricos e pobres. E agora, em plena quadra de Natal, chega a sua denúncia pública, clara e veemente, de torpezas e vícios cardinalíssimos, um pouco a lembrar Jesus no Templo. Bem vimos na TV como prováveis visados aplaudiram o Papa com as pontas dos dedos, e apenas por dever de ofício. Bem sabemos que a esperança é que ao perfazer 80 anos, em 2016, Francisco passe à reforma, e que o tempo passe depressa. E bem sabemos também que a prudência recomenda ao Papa alguns cuidados. Pois a História ensina que nem sempre a cidade do Vaticano é um lugar saudável. E o céu não dorme.

Correia da Fonseca

Outra, virá a seguir...



segunda-feira, dezembro 29, 2014

Lançamento de A Luta Sindical-II


Retomando após... férias de natal

- Edição Nº2143  -  23-12-2014


Férias de Natal


Depois de um ano inteiro a olhar o televisor e a ver nele, dia após dia, imagens (ainda que muitas vezes desfocadas e sempre insuficientes) de um País empurrado para a penúria e de um povo condenado à miséria por um punhado de gente a mando do estrangeiro, fica-se cansado. E, porque se fica cansado, a apetência de uns dias de férias a coberto da quadra natalícia surge como uma miragem convidativa. Não, neste caso, umas férias como são costume, esvaziadas de tarefas, com horas e horas aparentemente livres: aliás, isto de fingir saber do País e do mundo através da televisão, mesmo com a certeza de que se está a usar uma fonte inquinada, torna-se uma espécie de vício que subsistiria até para lá de um eventual fim da obrigação. Mas, pelo menos, uns dias de escolha mais livre, desobrigada de seguir as peripécias do caso BES, da escandaleira dos submarinos, da desvergonha provocatória do depósito de um milhão de euros na conta do CDS-PP a coberto de um pseudónimo literalmente porcalhão, coisas assim. Seriam então uns dias em que fosse possível optar por programas apetecíveis, que também os há embora pouco nos pareça: as emissões do «Visita guiada» na RTP2, entrevistas em «Palavra de escritor» na TVI24 ou no «Ainda bem que viestes» na RTP Informação, decerto outros mais, embora não nos canais chamados abertos e de maior audiência, estes em princípio especialmente dedicados ao despejo de telelixo em nossas casas mas, reconheçamo-lo, com momentos de abrandamento e até de excepção, pois a graça dos céus pode descer até aos recantos mais fétidos. Seriam, pois, umas férias caracterizadas não pelo lazer puro e simples, mas sim por uma espécie de selecção higiénica e saudável, o que já não seria nada mau nos tempos que vão correndo e no chão que vamos pisando.

Uma triste partilha
Acrescente-se um pormenor: até já havia sido feita a escolha de uma espécie de prato principal para essa depurada dieta televisiva. Tratava-se de «A Taxista», uma série transmitida pela RTP2 em quatro dias consecutivos ao longo da passada semana. «A Taxista» é uma série italiana agora em transmissão repetida, injustamente desprezada quando da estreia entre nós, que exibia uma dupla qualidade pouco frequente na televisão portuguesa: ser europeia e ter qualidade. Não se dirá que é uma obra-prima, mas nem a vida em geral nem o quotidiano do telespectador pode ser feito de obras-primas: «A Taxista» tem a frescura da ligeira comoção, um certo sabor a autenticidade que se diria ainda herdado do cinema italiano do imediato após-guerra, e as ligeiras pinceladas com que nos remete para o quotidiano de uma Roma de classe média baixa, de gente de trabalho, são convincentes. No episódio final tem concessões, mas paciência!, ainda assim «A Taxista» seria um bom momento das tais projectadas férias. Bem se repete, porém, que o homem põe e alguém dispõe: cedo aconteceu o desastre. Na passada quinta-feira, quando incautamente se passava por um noticiário depois de se haver evitado o depoimento de um dr. Sobrinho, mais uma declaração do dr. Passos, mais uma bazófia do dr. Portas, eis que sobre nós salta a notícia: numa localidade lá para Viseu (e decerto noutras mais, é de crer) as férias escolares de Natal não são inteiramente cumpridas, os garotos continuam a ir lá, dia após dia, para comerem uma refeição que ali continua a ser servida. Assim evitam a fome que os ronda. Mas há mais. E pior. Com eles vão também muitos pais que desse modo, e provavelmente só desse modo, conseguem aceder a uma refeição diária. Tenta-se, mas não se consegue imaginar, entre outras coisas, o que essa tristíssima camaradagem entre pais e filhos pode resultar na relação específica entre eles, agora e no futuro. Tenta-se adivinhar com que sentimentos os pais vão com os filhos partilhar o que é de facto uma esmola. Tenta-se perceber qual o grau de infâmia que caracteriza quem conduz o povo a situações destas. E arrepia pensar em férias de Natal assim.


Correia da Fonseca

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Esclarecimento


'inda me espanto!

Depois de ter assistido a (quase) toda aquela  "cena" de ontem, em que R. Salgado tentou, com grande "profissionalismo" e em desavergonhada estratégia, impor a sua versão absolutamente inverosimil da queda do BES/GES, que logo a seguir Ricciardi mostrou à exaustão que o era, ainda me consigo espantar por o Excelentíssimo Senhor Governador do Banco de Portugal venha escrever cartas a refutar o que o que o terá incomodado.
A entidade reguladora não só não funciona como não tem nenhum respeito por si própria, na interpretação do seu alto reponsável. Está ao nível do que, em democracia, é o mais alto responsável por isto tudo, do PdaR. Ou seja, ao nível rasteirinho.
Não seria de chamar este último à comissão de inquérito? Isso é que era giro: o PdaR a ser auditado na AdaR!!!

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Que insuportável mundo!, este dos banqueiros...(remake)

Ontem foi um dia a que chamaram várias coisas. Foi um dia-chave, embora não daqueles que abrem portas. Pelo meu lado, dediquei-o, quase por inteiro (e por solidária camaradagem...) a acompanhar os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito ao BES. Das 9 horas da manhã de ontem às 2 já de hoje. Com curtos intervalos, que também "eles" os tiveram.
Gosto da expressão, que não teria inventado mas que não tinha lido ou ouvido antes, de autópsia do capitalismo regulador, e este teria sido um episódio dos mais significativos. Mas nada de mórbido me "agarra" ao televisor e me prende à cadeira. Só o desejo de melhor conhecer as entranhas do sobrevivo para melhor ajudar - microscopicamente - à transformação do mundo.
E, enquanto via e ouvia, folheava um caderninho que há uns meses organizei, arrumando alguns "posts" que aqui coloquei. Para uso pessoal e oportuno. Como foi agora o caso.
Faço o "remake" de dois extratos:

QUARTA-FEIRA, MAIO 25, 2011

 Que insuportável mundo!,

este dos banqueiros...

Uma noite sem tarefa(s). Calma. É como quem diz...
Ao terceiro dia de campanha (e só neste me detive face ao televisor), o aparelho está em sérios riscos!
Ainda por cima, apanhei com uma insuportável entrevista com o insuportável dr. Ricardo Salgado.
  
Como este "mundo dos banqueiros" é insuportável. Coexistir nele só em luta contínua.
É insuportável. Dêem-me tarefas ou ainda faço um disparate!

(...)

TERÇA-FEIRA, JULHO 08, 2014


(...)

Foi a financeirização da economia.

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O BESCL, agora BES, “devolvido à família Espirito Santo”, entrou no jogo todo, tomou lemes e rédeas.

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E fez disso alarde em certos momentos, como foi o de chamar a"troika" para nos invadir explicitamente, sem pensar no ricochete, sem pôr as barbas de molho.

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Bem pelo contrário.

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O médio e o longo prazo deixaram de contar (Keynes, se relembrado, diria que amanhã estaremos todos mortos… e não lhes importa os que nasçam depois de amanhã).

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Especular, especular, especular sempre e cada vez mais.

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A opção deixou de ser entre o pão e a ”pastilha elástica” para passar a ser entre o nada e a coisa nenhuma, para o que dê maior dividendo ou cotação na Bolsa, ou o “off-shore” mais rentável e/ou menos fiscal izado.

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Está a dar-se o esperado.

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Está a dar-se o previsto, o prevenido e… o inevitável na correlação de forças dominante sempre, aqui e ali, mais ou menos moderado pela resistência… porque nunca nenhuma força está sozinha, toda a força tem o seu contrário.

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O que está a acontecer ao “meu” BES, se diferente nas formas, nasce do mesmo que aconteceu ao PBN, ao BPP, ao BCP.

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Entretanto, pode comprar-se hoje a 0,6 o que amanhã se pode vender a 1, transferindo riqueza (das nações) de mão em mão sem que nada se crie, e sem que se recuperem os milhares de milhões volatilizados.

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Filme de terror?, estou de acordo com a designação do género, embora me interesse muito mais o genérico e a ficha técnica!

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E fico-me por aqui, apenas com mais uma nota. 
Já li, hoje de manhã, no sapo-expresso, um interessante resumo da audição de ontem de R. Salgado (Um homem sem confissões, nem de Santo Agostinho, de Filipe Santos Costa), mas a que faltou a 2ª parte das audições de ontem, a das "confissões" de S. Ricciardi, que mexeram mesmo nas entranhas do "bicho" em autópsia, e que, entre as 19 e as 26 (24+2) horas, puseram a nu muito do que R. Salgado tapou, com grande "profissionalismo", contenção e contensão, entre as 9 e as 19. horas.

tem continuação! 
  

terça-feira, dezembro 09, 2014

domingo, dezembro 07, 2014

E venho eu e digo POIS!

Num fim-de-semana (ainda que prolongado) cheio de deslocações, lendo a imprensa e enquanto se aguarda com alguma expectativa a audição dos "primos" Espirito Santo na Assembleia da República (que o esCAVACadO PdaR já dispensou... democraticamente como é seu timbre), tinha alguma ansiedade por uma paragem aqui à secretária (e computador) para reproduzir e divulgar esta "pérola":

Embora possa ser lido clicando sobre a imagem, não resisto a copiar o texto que me fez gargalhar (embora amarelamente), com algum arranjo gráfico e sem fotografia porque outros mereciam tal "distinção". além do Vitor Bento (que cada eventual leitor escolha a sua ilustração).

Vem o governador do Banco de Portugal e diz: há investidores privados interessados no BES!
Vem Vitor Bento, ex-presidente do BES, e diz: "Ainda hoje não sei se houve ou não investidores interessados no banco".
Vem a ministra da Finanças e diz: "Nunca foi apresentado ao Governo qualquer pedido de rcapitalização pública do BES."
Vem Vitor Bento e diz: pedi ao Governo uma declaração pública de que poderia vir a fornecer liquidez ao banco em caso de necessidade.
Vem o vice-governador do Banco de Portugal e dá 48 horas à administração para apresentar um plano de recapitalizaçãodo banco. 
Vem Vitor Bento e diz  "Recapitalizar em dois dias era impossível."
Vem o Banco de Portugal e não exige provisões para o empréstimo de €3,3 mil milhões do BES ao BESA.
Vem o Novo Banco e exigem-lhe que provisione a 100% o empréstimo.
Vem Mário-Henrique Leiria e pergunta:
"O que aconteceria se o arcebispo de Beja fosse ao Porto e dissesse que era Napoleão?
Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.
Então o arcebispo dizia: Sou a Josefa de Óbidos.
Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso, davam-lhe trouxas d’ovos.
Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava: Sou o arcebispo de Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu."! 

TLIM!


sexta-feira, dezembro 05, 2014

Que vergonha!

um mail amigo mandou-me esta notícia. fiquei envergonhado!


EUA, Canadá e Ucrânia 

rejeitam na ONU moção 

contra “glorificação” do nazismo


Ao todo, 115 de 173 países votaram a favor da moção, enquanto 55 delegados – em sua maioria embaixadores dos países da União Europeia – se abstiveram
26/11/2014
Por Archille Lollo
De Roma (Itália)
(Ver art.º completo em: http://www.brasildefato.com.br/node/30649 )

QUADRO DAS VOTAÇÕES NA ONU
Numa moção contra "a glorificação do Nazismo, neo-nazismo e outras práticas que contribuam para incentivar contemporâneas formas de racismo, discriminação racial e correspondente intolerância" , Portugal, obedecendo à União Europeia, absteve-se!

domingo, novembro 30, 2014

Reflexões lentas suscitadas por outros

DESPACHO: não obstante riscos que, no texto, se não quer (ou se não pode?) pisar e ao não usar determinado e identificador léxico, transcreva-se este escrito dada a sua evidente lucidez e assertividade... para reflexões lentas:

SÉCULO XXI, O SÉCULO DOS TRIBUNAIS, 
OU SÉCULO DO ESTERTOR DA DEMOCRACIA?

As negociações, no Parlamento Europeu, relativas ao Acordo sobre o Comércio dos Serviços (ACS, em inglês, TISA), que congrega cerca de 50 países, entre eles os da EU), iniciaram-se em março de 2013, com os votos favoráveis (526), dos partidos da direita e dos partidos socialistas, e a oposição dos partidos de esquerda (111).
O ACS, de entre os seus objectivos, estabelece a aceleração das privatizações em praticamente todas as áreas do comércio e serviços dos países aderentes e a proibição de qualquer forma de nacionalização ou reapropriação pública de não importa que actividade comercial ou de serviços que tenha sido objecto de privatização.
Lembremos o princípio da irreversibilidade das nacionalizações incluído na nossa Constituição em 1976, mais tarde suprimido pelos partidos “do arco da governação” que preparam agora a aceitação do princípio da irreversibilidade das privatizações, não no texto constitucional, sujeito a revisão democrática, mas em tratados internacionais que vão prevalecer sobre a Lei fundamental portuguesa.
Aqueles que ainda conservavam a expectativa de, um dia, sectores estratégicos da economia portuguesa vendidos a preço de saldo para se “reduzir” a dívida pública - que afinal aumentou de 90% para 130% do PIB em 3 anos - poderem voltar à esfera pública para ali cumprirem o desígnio do serviço à comunidade, bem melhor é que se unam e se organizem para não permitirem que o processo da prevalência dos interesses empresariais se consolide sobre os interesses da soberania dos Estados e dos cidadãos.
É que uma empresa privada, operando num sector estratégico para a população, sendo de tal modo mal gerida que implique insuportáveis custos sociais, mesmo assim, o Estado não poderá intervir, pois regerá o princípio de que qualquer modificação do estatuto da empresa deverá operar “dentro” da esfera privada; assim, por exemplo, a “renacionalização” dos CTT, se amanhã a empresa deixar de cumprir o serviço público a que se “obrigou”, será impossível.
Dir - se - á: mas ainda vai correr muita água sob as pontes antes do ACS e do TTIPS (o Tratado Transatlântico), e outros na forja, começarem a produzir efeitos.
Mas já está a correr: a onda de privatizações em Portugal, dos sectores energéticos às águas, da saúde aos aeroportos, da TAP à CGD (lá irão!) revela que as multinacionais estão em campo, “encolhendo” o Estado e utilizando para isso a docilidade, senão mesmo o entusiasmo, dos partidos do arco da governação e dos seus agentes que vão propagando a irreversibilidade do poder das multinacionais sobre os Estados.
Veja-se o que diz o deputado ao parlamento europeu Paulo Rangel no Público de ontem (25.09.2014), a propósito de declarações, no âmbito de uma organização de magistrados, que apontam o século XXI como o século dos tribunais (o século XX seria, assim, o século do poder legislativo/executivo): “a desterritorialização do poder e o fim do monopólio estadual do poder político enfraquecem os centros legislativos e executivos e valorizam o poder judicial como polo de arbitragem e de regulação politico-constitucional dos conflitos sociais”.
Paulo Rangel (PR) está de acordo: o século XXI vai ser o século dos tribunais, porque a “capacidade de afirmação do eixo do poder legislativo – executivo diminuiu francamente - PR”; enquanto deputado ao Parlamento Europeu, ex-deputado ao parlamento português e membro do governo, Paulo Rangel não pode desconhecer que a “captura” dos centros políticos dos Estados pelos grandes interesses (financeiros, conglomerados industriais, químicos, alimentares, armamentistas, etc, estes de facto na génese do ACS, do TTIPS e quejandos), gerou a origem da redução da “capacidade de afirmação do eixo do poder legislativo – executivo” dos países; e não pode desconhecer que, para o conseguirem, tais interesses contaram sempre com a colaboração infamante de deputados, nos parlamentos, e de ministros, nos governos dos Estados onde operam, em iniciativas contrárias aos interesses de quem os elegeu ou designou.
Parece, assim, não ser preocupante, antes natural, para um qualquer democrata, a perda de substancia dos poderes legislativos e executivos nas sociedades democráticas, ou quando se se descarta a prioridade do reforço e da consolidação da casa da democracia (o Parlamento) e a prioridade do reforço e fiscalização da acção governativa, dentro do quadro constitucional e do respeito pelos cidadão; eis, assim, a defesa da teologia da inevitabilidade do declínio dos poderes do Estado, da lógica da propriedade/acumulação e da sua prevalência e da consequente perda de direitos cívicos e políticos das pessoas.
E esta defesa, respaldada no conforto da máxima liberal de que os mercados tendem sempre para o equilíbrio e para o pleno emprego e no delirante efeito de “compensação salvífica” dos tribunais que, “emergindo” no século XXI (“valorizados” através de uma mexida “nos pilares da sua legitimidade - PR”, obviamente!), harmoniza-se já, em Portugal, com o grande número de tribunais suprimidos, ao mesmo tempo que as custas judiciais aumentaram escandalosamente e o acesso à justiça é crescentemente dificultado.
Entretanto e simultaneamente, a “onda” da desjudicialização alastra através da criação e funcionamento de tribunais arbitrais, em passo ultra-rápido e acertado com o “imperativo” incontornável de se obter a condenação fatal do Estado e o ganho das empresas dominantes.
Mas com o ACS e o TTIPS, apoiados pela maioria dos deputados europeus, nem ao que “resta” dos tribunais judiciais sobrará grande coisa: espoliados de legitimidade para dirimirem conflitos entre multinacionais e os Estados, matéria reservada aos tribunais arbitrais, os tribunais judiciais, no século XXI, ainda vão ficar mais imersos no estatuto de soberania limitada, remexendo em bagatelas e, claro, aplicando as leis que punirão a “des-ordem” provocada pela inexorabilidade da “natural” e crescente incapacidade “de afirmação do eixo legislativo – executivo”.
E mesmo que, episodicamente, aumente o “circo mediático” à volta de casos em que haja “biqueiradas” dentro de um bloco central superficialmente desavindo (mas sempre consolidado enquanto bloco dos interesses), o circo mediático, justicialista e antidemocrático assinalará, não a vitalidade, mas o real declínio dos tribunais.
Vai, assim, a democracia do século XXI, nos seus três pilares, legislativo, executivo e judicial, escorregando no plano inclinado que, simultaneamente, descolora e esvai cada um dos pilares… até à extorsão total dos seus poderes, perante a mansidão dos eleitos e a perplexidade dos cidadãos transformados em ordeiros produtores e consumidores, sem direitos, sem liberdades, sem garantias.
Rui Coelho e Campos
Advogado

sábado, novembro 29, 2014

Pintar o céu de azul claro e limpo
























Queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma
Cesariny
Numa pátria não de malfeitores e névoa, 
numa mátria querida e tão ferida, 
o que queria dos Cesarinis, 
o que queria de nós/para nós e o futuro?
 
Trabalho, Festa, Juventude; 
juventude a pintar o céu de azul claro e limpo
como aquela madrugada que a Sofia esperava... 
... e todos nós 
(e eu!, em Caxias...).
 
Como suportar este presente 
se não se tiver a força que vem do futuro 
em que  se acredita e por que se luta?

sexta-feira, novembro 28, 2014

Reflexões lentas - os incómodos dos "intocáveis" e as pedradas anacrónicas



no SAPO (Económico):

Sócrates:
Cartoon no Avante
incomoda PS

MARIANA ADAM


Sócrates: Cartoon no Avante incomoda PS

Avante ‘coloca' Sócrates atrás das grades num cartoon publicado na última edição do jornal oficial do partido. PS reage com desagrado.
O PS não gostou do cartoon publicado no Avante, jornal oficial do PCP, em que o retrato de José Sócrates aparece como tendo sido captado atrás das grades. Na legenda lê-se: "O PS diz que não corta fotografias da sua história. Mas...podem actualizá-las?".
Na reacção, fonte próxima de António Costa, que este fim-de-semana é ‘entronizado' líder do PS, disse ao Económico que "o mau gosto não tem comentários".
O próprio PCP tentou demarcar-se da ilustração: "O referido cartoon - com o que reflecte de expressão própria de um autor a propósito deste ou daquele facto de actualidade - não altera nem substitui a posição do PCP".
A mesma fonte oficial dos comunistas remeteu para as declarações em que Jerónimo de Sousa pediu que "não sejam feitos julgamentos ou precipitados" sobre a detenção de José Sócrates. "Recusamos fazer qualquer comentário que tenha uma componente de julgamento prévio", lê-se nas declarações feitas pelo líder comunista e transcritas também na edição do Avante. Mas a primeira ‘pedra' chegou (talvez inesperadamente) de um órgão oficial comunista.
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COMENTÁRIO:
Embora não fosse decisão minha, ou até disciplina (partidária ou outra) a de que seria sujeito voluntário, não me referi (ainda!),  aqui, directamente ao caso Sócrates, tendo, não obstante, reagido a uma expressão que considerei uma "pedrada" despropositada de António Costa, reveladora do seu anti-comunismo. 
Não o terei feito por considerar que a situação é demasiado séria para se tratar com leveza, e porque não gosto de fulanizar o que não é senão reflexo de condições criadas para que aconteça o que vai acontecendo (as ocasiões que fazem os ladrões... embora só os ladrões as aproveitem). 
Cito-me: "A corrupção está no ADN do capitalismo,  a promiscuidade é a sua vocação e o clientelismo voctacional" (os casos personalizados, os nomes, apenas interessam para ilustrar... e se ilustram!)".
Como militante sem quaisquer responsabilidades (partidárias ou outras) que consintam que se atribua às minhas reacções outro significado que não o de posição pessoal, reagi ao que António Costa entendeu referir-se como "práticas estalinistas", e reajo também agora ao que se chama, até anacronicamente, a "primeira pedra". 
Já que há democracia a encher tanta boca que não parece saber do que fala, que se reflicta sobre o "incómodo" que um "cartoon" terá provocado, e o acinte de considerar que se atirou a primeira pedra do lado que é alvo de frequentes e sucessivas pedradas.
E termino com inocentes perguntas: Não é verdade que Sócrates está atrás de grades?, e quem o pôs lá?, foi a Justiça, ainda que só preventivamente, ou foi a imaginação criativa de um cartoonista  fazendo "julgamentos precepitados"?