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domingo, junho 09, 2013

09.06.2013, domingo e actualizando

09.06.2013
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Durante a semana impôs-se-me uma abordagem que verdadeiramente me provocou: a de terem os salários começado a ficar disponíveis para os assalariados (para quem os ganhou) depois de durante cinco meses e uns dias (mais de 40%) estarem a ser sugados para pagar impostos e outras alcavalas semelhantes de que se alimenta o Estado, esse "monstro" como, em momento de rara inspiração, lhe chamou essa abentesma chamada Cavaco Silva.
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Trata-se de um vergonhoso golpe baixo na luta de ideias, no confronto de concepções, mas muito eficaz porque as pessoas, as massas, apreendem facilmente a ideia, e têm outras “ajudas” para encontrarem conotações que o mesmo despudorado ataque ideológico insinua, cavilosa ou explicitamente.
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“Então eu estou a a trabalhar quase meio ano sem receber nada, porque aqueles gajos da política me levaram o dinheirinho que tanto me custou a ganhar… lá para as suas mordomias de políticos, para subsidiarem os que nada fazem, para darem a calões, e etc., etc, etc. ...?”, será a mensagem subliminar. 
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Nessa mensagem está ínsito o ataque ao Estado, que é "monstro" por ter etiquetas e  arrogâncias de social e redistribuidor, mas que seria predador, esbanjador, a tirar aos que trabalham para dar aos que nada fazem, e não só aos que nada fazem, ou aos que ainda nada fazem, mas também aos que nunca nada fazem, ou que, se alguma coisa fazem, é sem préstimo e cheios de regalias porque “à custa do orçamento”, ao   serviço do Estado, parasitando o parasita-mor e monstruoso.
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Há que, permanente e sistematicamente, denunciar estas mensagens, responder-lhes com as forças que temos, desmontar o que, nelas, são habilidades e lhes está  subliminar.
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Para agora, e em resposta directa, apenas deixar dito que é (ou deveria ser!) com o que se desconta dos salários (e não só) que é possível dar satisfação a necessidades colectivas –  isto é, de todos, da comunidade – e satisfazer necessidades que são direitos, ou seja, fazer por via da segurança social o que se alicia para que feito seja por via de seguros privados que se tornem bons negócios por darem lucros e acumularem capital financeiro.
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Melhor procurando dizer, para que todos tenhamos respostas que anulem a eficácia da mensagem; as infraestruturas de que só o Estado nos pode (e deve) dotar a todos, a saúde, a educação – universais e gratuitos, o que não quer dize que não tenham custos, e que não haja alguns que não devam ser comparticipados pelos cidadãos que a esses direitos têm direito – a prevenção de situações de doença, de incapacidades, de esporádicos desempregos nunca voluntários, de longevidade sempre desejável com qualidade de vida.
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O que se desconta do que é pago por se trabalhar é, antes de mais, para que a comunidade possa assegurar os direitos de quem em comunidade vive, os que trabalham, os que ainda não trabalham, os que já não trabalham, os que não estão a trabalhar.
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Dir-se-á que assim deveria ser mas que assim não é.
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Se assim não é, cabe-nos a nós, que escolhemos quem nos representa para que assim seja, pedir contas – e não só em eleições quadrienais… – e exigir que assim seja!
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Mas, e esse é o busílis, “o moderno poder do Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa” (Manifesto) e, se em democracia burguesa, nas condições da correlação de forças sociais numa luta de classes que é a História.
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sexta-feira, maio 24, 2013

Dos "dias de agora" para as "questões de moral"-18 ou as "reflexões lentas"-171 ou o que for...

24.05.2013
Acabei o dia de ontem (que já dia de hoje era) a ler o avante!
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Por aqui e por ali.
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“Picoletando”, passando páginas.
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Como considero dever ser tarefa mínima de militante.
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Quase na recta final, com os olhos a quererem fechar-se (porque já era muito dentro do dia de hoje, e porque o dia fora pesado, com a Universidade Sénior e a GatARCA e o ensaio e outras coisas), ainda me consegui fixar na crónica TVISTO do Paulo Correia da Fonseca.
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Repeguei-lhe hoje de manhã, e tenho vontade de reproduzir o final daquela excelente denúncia sobre a posição pública, e publicitada, do dr. Negrão, que ministro de algumas coisas foi e hoje é de puta do, posição profundamente ideológica e com o objectivo de censurar a Constituição para que ele não informe os meninos do seu lado ideológico.
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Como diz o CdaF, logo à partida“o senhor deputado é brutalmente ideológico” ao querer fazê-lo.
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Mas não é isso que me retém no tema (e na prosa sempre solta e pedagógica do CdaT). 
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Que o dr. Negrão tenha a sua ideologia é inevitável (todos a têm, tal como o sr. Jourdain escrevia prosa sem o saber... embora Negrão  saiba o que finge desconhecer), que a defenda é seu direito nos limites de não a querer impor brutalmente, que seja divulgada aceita-se, mas já não se aceita que seja apresentada em parangonas, como desideológica e purificadora de ideologias, escamoteando o lado censório, impositivo, brutal.
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 Por isso, transcrevo, a parte final do T(á)VISTO do CdaF:

«(…) parece que seria compreensível, se não deontologicamente obrigatório, que a comunicação social portuguesa em geral e a televisão em especial se tivessem detido pelo menos um pouco sobre a proposta do senhor deputado, lhe tivessem esgravatado as raízes e reflectido a repugnância por ela suscitada nos cidadãos que, por serem democratas, conscientes e fiéis à Lei Fundamental, não querem que ela seja parcialmente ocultada aos seus filhos e netos. Não aconteceu nada, pelo menos na TV e na imprensa que me passou pelas mãos, o que tem alguma gravidade. Fica este textozinho obscuro nas páginas deste semanário honrado e patriota como objecção débil à iniciativa feia e verdadeiramente negra do deputado Negrão.»

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E para que o “textozinho” não fique imerecidamente obscuro, aqui se transcreve, neste canto diário e obscuro, e daqui se faz trampolim para outros cantos onde procuro dar a conhecer ou sublinhar, obscuramente, o que me incomoda que obscuro fique. 

sábado, maio 11, 2013

Dias de agora, 11.05,2013 (sábado) - "questões de moral" - 16


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Retomando o
Corre uma aragem
(suite…)

Em política não vale tudo! 
Diria mesmo que deve ser a política, tal como entendo ou vejo, a tudo avaliar. O que exige a definição de critérios claros de avaliação. E a clivagem tem a linha de fronteira na divisória serviço público/interesse privado.
Vivendo-se em sociedade, e cada vez mais colectivamente – ao teclar neste computador estou em relação, viva ou passada, próxima ou longínqua, com um número inimaginável de seres humanos –, algumas estruturas criadas e alguns de nós – de hoje, de ontem, de amanhã – terão de servir o conjunto, e cada um, para que se concretize o que for considerado, em sociedade, serem os nossos direitos por termos nascido. Por termos nascido!
Por outro lado, em democracia (ainda que burguesa), todos somos políticos porque há o princípio mínimo de todos termos o direito a ser informados (o dever de nos informarmos), a participar na vida colectiva e a escolher aqueles de nós (políticos!) que nos devem representar e fazer, em nosso nome, o que não pode ser feito por todos. Pelo voto. Que pode tomar várias formas e não só a de papel dobrado em quatro numa urna, normalmente de 4 em 4 anos 
Por isso, o serviço público (político) deve, tem de servir os interesses privados (políticos). Porque ser político é estar vivo, agir por si  e ser co-responsável pelo modo como todos vivem 
E os interesses privados não podem privilegiar-se e servirem-se do serviço público, infernizando (gosto do verbo...) o viver colectivo. E este, o nosso de agora, está um inferno...  

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quinta-feira, maio 09, 2013

dias de agora - 09.05.2013 e "questões de moral"-15


09.05.2013
Para aqui (dias de agora) e para ali (anónimosecxxi):    
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Corre uma aragem (suave e malcheirosa)
Corre uma aragem de estupefacção e escândalo pelas urbes. 
Pela grande urbe, que soma as cidades e vilas do espaço pátrio, por esta pequena urbe que é a cidade de Ourém, onde tenho raízes e vivo. Nalguns locais das urbes, em cafés e tertúlias, a aragem toma ares de escândalo. Mas escândalo calmo e sem que faça as gentes amofinarem-se à maneira de auto vicentino.
Ao fim e ao resto, há muito tolerância e resignação sobre questões de moral ou ética, e esconde-se, sob a capa que encolhe os ombros do “são todos iguais...”, haver a fraqueza de, bem no fundo de nós, todos nos julgarmos assim. O que tem algo de verdade embora nada tenha de justo relativamente a alguns de nós que, sendo iguais a todos, querem ser diferentes e muitos diferentes sejam.
Talvez por isso, ao redor das urbes, pelas aldeias e povoados (mais e mais desPovoados...), e pelas gentes que, habitando as urbes, vive como se estivesse à margem dos acontecimentos e imune aos noticiários, campeia ou a indiferença ou, em número crescente de casos (e casas), o desespero que paralisa e pode ser explosivo.
Mas… mas não se tergiverse. Por agora… 
Que aragem que corre é essa? Será a que leva aos comentários sobre o Passos e o Portas (com variantes, em lugares e gentio mais “dentro das coisas”, entre o Gaspar e o Álvaro, ou – como parece já ter sido e, por agora, não será – entre o Seguro e o Costa, ou sobre as opiniões aos quatro ventos e cantos de rectângulos televisivos      propaladas dos Marcelos, Manuelas, Marques, Mendes, Sócrates, Morais, Sarmentos, e mais uns poucos mas bastantes e, esses sim, sempre os mesmos e todos iguais…).
É que, para usar imagens de beira-mar, os pares ou parceiros, estão nos mesmos barcos e parecem remar para destinos diferentes, ou até contrários, com um fulano ao leme a assobiar para o lado e a dizer que os assobios são avisos à navegação pela qual, afinal, ele é responsável-mor e desde há décadas de governança e presidência da res pública.
Parece que assim é… se não é que não se quer dar a ideia de que não se entendem os que muito bem lá se arranjam entre si, embora incapazes de encontrar um rumo que os tire do remoinho das águas turvas e pantanosas em que patinham. No entanto, em resumo, a aragem que sopra traz a pergunta que raio de coligação é aquela, que partidos são aqueles que tão partidos estão… ou parecem estar?
Isto é pela urbe das urbes. Por aqui, pela pequenina cidade, a brisa animou localmente com a candidatura deolinda pelas listas do PS. Ora aqui estava um tema para conversa e comentário urbano. Então a senhora, a indefectível PSD (a “nossa (oureense)” Helena Roseta dos velhos tempos desta ser o símbolo feminino dos pêpêdês), a actual presidente da Assembleia Municipal, eleita numa lista e (crê-se) com um programa autárquico PSD, passa-se para candidata noutra lista e (talvez) programa concorrente, sem falar de polémicas e tricas no decurso destes anos, que décadas são, de rivalidades aparentemente irreconciliáveis, e (pasme-se!) ainda e mantendo-se de posse e pose no lugar a que acedeu por mandato de representação eleitoral a partir dessa outra lista e desse (eventual) programa?
No meio do palavreado à solta, salta o argumento, popular e acertado (ou “assertivo”, como dizem bem-falantes), que “só os burros é que não mudam” a jeito de paleio de advogado de defesa, enquanto outros atiram cobras e lagartos abrangendo toda a “classe política” e a sem-vergonha de vira-casacas que seria apanágio dos… “políticos”. Como se todos fossem iguais e não fossemos todos políticos com adiferença de uns de nós termos o direito (e o dever) de escolher alguns de nós para nos representarem por tempo de mandatos e em determinadas funções. Como a de membro de uma assembleia de freguesia, de uma assembleia ou vereação municipais, de uma deputância em S.Bento ou algures na União Europeia. De nos representar que para isso nos é pedido o voto nesta democracia que a isso se quer resumir.
E não é isto mesmo, o respeito por um conceito de democracia representativa (mesmo reduzido ao seu mínimo significado) que está em causa?  
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Mas por aqui me fico, nestes dias de agora, e fica muito mais por dizer, ou seja, por escrever.
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‘Inté já.

Ah! e a propósito de outros escritos: apesar de... toda a simpatia pessoal e até de excelente convivência, não posso aceitar sem denúncia clara e pública de atitudes e opções políticas, cidadãs e cívicas, que condeno em nome de uma democracia por que sempre lutei e luto. "Em política não vale tudo"

segunda-feira, maio 06, 2013

"questões de moral"... democrática - 14

Já com o repasto a aproximar-se do fim, a entrevistadora teve um ligeiro sobressalto.
A refeição-conversa correra bem, o gravador devia estar cheio e, segundo o transcrito, o entrevistado dissera coisas importantes e interessantes da sua área profissional, sem sair do seu confinamamento político-ideológico, salvo numa resumida resposta de definição em discurso directo: "Sou de esquerda. A minha área é essa, social-democracia. Mas nos anos 90 cometeram um erro colossal, ficaram cheios de complexos com a União Soviética", sem que  quem conduzia a entrevista - a entrevistadora, claro - quisesse estragar a refeição com o pedido de explicitações sobre  qual o entendimento de "ser de esquerda" e sobre quem cometera o "erro colossal" - os sociais-democratas e/ou os social-democratizáveis?! - e se teria sido erro ou a inevitável postura de (não) ser de esquerda da social-democracia quando se julga poder e por estar ao serviço do real poder...
Adiante... regresse-se à "questão de moral" que aqui me trouxe e ao sobressalto que a motivou.
Quase no final transcrito das (repito) interessantes e importantes coisas ditas no âmbito da profissão de professor de economia do entrevistado, saltou uma pequena pergunta "Isso não é antidemocrático?", o que não atrapalhou o emérito e sério técnico mas também conhecedor (ao que parece...) dos meandros pouco sérios de áreas confinantes: "Admito que possa vir a ser votado. Pode haver uma sessão parlamentar, à noite da véspera de um feriado (...)" e passou à frente. Estaria salvaguardada a demo cracia e a entrevistadora poderia pedir a conta quase logo a seguir, após um pósfácio prandial em que se sentou à mesa o "pai da democracia". Desta! O dr. Mário Soares, que almoçara numa mesa próxima do restaurante com vista larga sobre o Tejo.

sábado, abril 06, 2013

"Questões de moral" - Os nossos tradicionais atrasos,

ou não cumprimento de horários!

Apenas gostaria de observar - e em questões de moral - que aquele atraso de ontem  foi diferente dos que são os nossos, dos habituais.
Quanto a mim, o que a ele obrigaram - ao atraso de ontem - foram as... contingências. Como a de se dizer ou não os nomes dos juízes que votaram. Isto para não influenciar os não influenciáveis!... Mas quem é que não o é?
De qualquer modo, uma pedra branca no percurso de um Tribunal Constitucional que, enquanto colectivo de juízes, deu um "grito de ipiranga" (guardadas as devidas proporções).

Haja Constituição! Que povo e luta há.

quarta-feira, março 13, 2013

"questões de moral" - 12

Em tempos idos, mas relativamente recentes (tudo é relativo... aí há umas duas/três décadas)  escrevi, para uso interno, um "decálogo" a que dei o nome de manualitância. Uma das "máximas" que me pretendia impor, e que é das que consumo frequentemente, era a de que
"sê o mais disciplinado dos não obedientes".
E assim procuro ser. Se não a consigo cumprir (ou, melhor..., quando não consigo), maior é a minha responsabilidade pessoal! Mas sempre o será (ou terá sido) por escassez de disciplina e nunca por obediência.

Vem esta lembrança (moral...) a propósito do que estou a ler, o recentemente saído 6º volume dos Dias Comuns, do José Gomes Ferreira, Memória Possível.
Este diário, de que "devorei" os 5 anteriores volumes, tem a circunstância pessoal e intransmissível de me fazer (re)viver, com a idade de hoje, o que vivi intensamente com menos quarenta e tal anos, e contado (com a qualidade de José Gomes Ferreira, qualidade de escrita, densidade de reflexões, capacidade de comunicação... em prosa ou poesia) por quem tinha, então, quase a idade que eu hoje tenho. Por isso, esta leitura me exige prioridade sobre outras e me empurra para a transcrição. Aliás, por vezes de enorme oportunidade.
Assim, enquanto parece estar todo o mundo - e não está!... - à espera de fumo branco lá para os céus de Roma, leio isto, referido a 27 de Novembro de 1968: 


Como comenta Zé Gomes, umas linhas à frente: "que lhes faça bom proveito - que ao mundo não faz nenhum". Ou, como escreve mais adiante e a propósito de outra coisa: "Que o futuro lhe(s) seja leve".

Mas há muito mais coisas a pedir transcrição. Tantas...

segunda-feira, março 11, 2013

"questões de moral" - 11

Estas “questões de moral” estão a ocorrer com assiduidade. São… ondas! E a questão é se não se trata tudo,na verdade, de questões de moral. Basta ir ao dicionário e confirmar.

Ora o facto é que as ocorrências surgem sob a forma dicotómica (ou dialéctica): classes e luta entre elas, trabalho e força de trabalho, salário como custo e como rendimento, e, agora, esta do desemprego e do que chamaria tempo livre.

É com o emprego de horas da força de trabalho, trabalho vivo como capital variável, a juntar ao trabalho cristalizado, meios de produção como capital constante (que nada acrescenta se não se lhe der vida com o trabalho vivo), que se cria valor e se distribui o que foi criado. Por isso, a grande questão (moral, e segundo as morais) é a de como a sociedade assim estruturada mantém vivos os portadores de força de trabalho que não têm emprego de horas em que produzam (ou distribuam) o que satisfaz as suas necessidades. O que os mantém vivos e humanos, querendo isto dizer com usofruto dos frutos criados pelo trabalho ao longo de anos, séculos, milénios.
Quem, estando em idade activa – isto é, tendo-se preparado para tornar útil a sua força de trabalho e tendo menos que certa idade –, não está a empregar a sua força de trabalho, é desempregado e soma-se a todos os que ainda não são “activos” e aos que já não o estão, segundo uma certa moral, compondo o grupo dos que "já estão a mais” porque não produzem e se atravem a consumir (e outras coisas) porque vivos insistem em continuar.

A questão do pleno emprego (nunca total) tem decorrido destas circunstâncias, variáveis mas recorrentes. A correlação de forças sociais tem determinado como se organiza a sociedade e, no capitalismo crescido, particularmente no pós-guerra, estruturou-se o chamado "Estado social" (na esteira do mutualismo e outras solidariedades), em que se reserva parte do produzido para socorro a situações de não-trabalho (desde maternidade, formação, a doença, reforma, velhice).
Dizem agora cálculos crípticos que não chega o que foi sendo reservado, e procura-se que se esqueça o que alguns estratos escandalosamente abusam.
A esta situação e catastróficas previsões pode contrapor-se a moral do tempo livre. O que se diz desemprego pode ser visto como o resultado do ser humano se ter dispensado de esforços penosos (de enxada, foice, martelo e etc.), ter dominado (muitas vezes levianamente) a natureza de que é parte, andar sem ser apenas com as suas pernas, comunicar muito para lá da sua voz e grito. E muito mais. 
Assim o ser humano ganhou tempo livre, liberto do domínio da natureza, que as relações sociais transformaram em desemprego. Porque, se o ser humano não se tivesse tanto libertado do que era penoso, transferindo trabalho vivo para trabalho morto, cristalizado, objectos e instrumentos de trabalho, haveria mais procura de emprego da força de trabalho. A doença social do desemprego é tópica do capitalismo. Em sociedade estruturada com sentido de Humanidade, muito tempo de desemprego seria tempo de conhecer, de lazer, de cultura, de trabalhar como necessidade humana e não de venda da força de trabalho.
Num inquérito, perguntaram a um camarada meu quantas horas trabalhava por semana, e ele respondeu: “cerca de 80!... das quais 35 em que vendo força de trabalho”. Logo, digo eu, 45 horas semanais de tempo livre… a trabalhar.
Cá por mim, e na idade em que estou, não raro ultrapasso essas horas semanais de trabalho (na minha concepção)… já sem ter necessidade de vender força de trabalho. Por enquanto.

tudo isto é discutível
e para ser discutido

sábado, março 09, 2013

“questões de moral”-10 – falemos então de salários

Peguemos num salário. Mal acomparado, como Gedeão fez com a lágrima de preta.
Antes de mandar vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais que “políticos” como Passos Coelho e “economistas” iguais a António Borges e banqueiros como Ulrich e muitos mais manipulam para multiplicar os capitais, observemos que há duas maneiras de lhe pegar.

1. Uma, a destes, com o pré-conceito (os antolhos, que é outro modo de dizer a ideologia, o pensamento único seu) de que o salário é um custo, igual aos outros das suas cont(h)abilidades feitas pelos seus cont(h)habilidosos mas, também, diferente porque é, de todos os custos, o que mais julgam poder diminuir, comprimir, reduzir ao que mantenha vivo e produtivo e competitivo o continente do “factor de produção” (ou de distribuição) a que é pago esse custo, o trabalhador. Aliás, dizem e repetem e até convencem, sempre propenso a exagerar, a querer viver acima das suas/dele possibilidades.
Diga-se, ainda, que alguns destes sabem mais. Porque leram todo o Marx na creche, ou em livros da estante dos esoterismos, sabem que há coisas que se chamam mais-valia e que todo o lucro material nasce do tempo de trabalho não pago e que, por e para tanto, é tudo como os vasos comunicantes, quanto mais se baixa nos salários mais sobe o lucro, e este só da fome daquele se alimenta e engorda.

2. Outra maneira é a dos possuidores dessa mercadoria, e que contra salário a vendem. Por isso lhe pegam como o seu rendimento, o que está nos antípodas do tal custo pelos “outros” considerado como seu exclusivo conceito (embora estes, depois, tenham periódicos problemas – crises lhe chamam… – porque quem produziu o que em distribuição está não tem meios para o realizar por troca com os salários de que dispõem quem produziu e distribui… mas isso é outra história). Importante para esta é sublinhar que, como rendimento, é com o salário que os trabalhadores têm acesso àquilo com que satisfazem as suas necessidades, com que compram os melões como se diz popularmente, sendo estes exemplo da matéria com que matam a fome. Mas há outras necessidades, sempre crescentes e novas. Porque o que ontem não o era, hoje o é. Os auto-móveis e os electro-domésticos, por exemplo. Pelo que as suas “possibilidades” estão sempre dependendo (e em crescendo) do que eles próprios/trabalhadores vão criando, milénio a milénio, século a século, dia-a-dia.
Não são muitos os que o sabem. E, por isso, não sabem – todos – a força que têm, e muitos pegam no salário como algo que lhes é oferecido pelos “outros”, e quase como favor para que emprego tenham, como se ser proprietário dos meios – desde o meio-dinheiro, aos edifícios e máquinas e ferramentas – (e sabe-se lá por que bulas…) fosse, também, ser proprietário de horas de vida dos trabalhadores.

3. Por isso, enquanto uns ligam o salário a lucro, a ter como seu o que é de todos; outros ligam salário a ser, necessidades, a vida (mesmo que ainda não tenham consciência das conexões).



terça-feira, março 05, 2013

"questões de moral" - 9 - trabalho-1

Há temas recorrentes. O que é expressão com que embirro mas que, por vezes, me assalta. Talvez à falta de melhor... Andam, quase sempre, à volta das palavras e das suas utilizações. Como o adjectivo recorrente... Talvez melhor fosse usar a palavra chave, até porque a imagem de abrir portas de compreensão me agrada muito, a começar pels minhas próprias de mim. Será... recorrente.

Trabalho.
Fala-se em trabalho e é uma baralhada conceptual. Nunca me esquecerei, nos idos anos 70 (ou seja, do século passado e do que então se passava), de, num programa de televisão que sucedeu ao Zip-Zip, o Curto-Circuito, me ter visto no palco, após algumas "manobras" em que a Isabel da Nóbrega foi verdadeiramente hábil (e teve cumplicidades), e ter tido a oportunidade de perorar sobre o conceito, a partir de um debate sobre a condição da mulher. Passo adiante do episódio, retendo a lembrança para uso próprio, e próximo (estamos quase no dia 8 de Março...), e aproveito dela uma diferença que considero ser essencial.
Vivendo nós em capitalismo, a pressão ideológica, o "pensamento único" levou a que se assimilasse trabalho a emprego e, bem pior, a venda de força de trabalho.
Uma mulher (ou um homem) que, ou quando, trabalha (!) em casa, como "doméstica/o" (hesitei antes de escrever a palavra... mais uma!), com um/a companheiro/a e um, dois, ou mais filhos, numa casa de que é a/o principal quando não única/o "gestor/a" (outra palavra...) NÃO TRABALHA!, segundo esse pensamento... Não faz parte da população activa, ou apenas dela faz parte quando em OUTRAS actividades.
Um reformado (ou uma reformada, claro), mesmo que passe 8 horas (e mais, ou até muito mais) do dia a labutar, mas que dessa labuta não receba uma retribuição em dinheiro ou espécie... NÃO TRABALHA!, segundo esse mesmo, e único, e estatístico pensamento... Deixou de fazer parte da população activa. Estará já, talvez, a mais.
Mas!... trabalho é a actividade, o gesto, o sinal humano com que o ser humano satisfaz uma sua, ou de outrém, necessidade. 
Se alguém me disser que não trabalho desde que passei à condição de reformado, tendo direito ao que descontei durante décadas de venda da minha força de trabalho, terei de dominar os meus instintos violentos para, acalmado, conseguir explicar que o que faço é TRABALHAR. Sempre. Ainda que tenha de pagar para isso... 

Mas isto não fica assim!    

sexta-feira, março 01, 2013

"questões de moral" - 8 - O que não serve para nada, segundo "eles"...

Já ontem o tema me invadira, moralmente falando, enquanto, no "expresso" (rodoviário), lia o i
Uma "opinião" (de José Neves), sobre «Um comentador televisivo (que afirmara) não haver utilidade em continuar em ter licenciados em História, concluindo que as escolas estão a formar pessoas que "não servem para nada" (...)», tecia considerações a  propósito dessa ideia que, com toda a desfaçatez, nos entrara em casa e, assinando como Historiador, terminava a sua "opinião" com o que se pode dizer a  defesa da sua profissão:
«Entendamo-nos: um comentador televisivo como Camilo Lourenço servirá certamente a muita coisa; nós, os outros, os párias, pelo inverso, podemos aspirar a mais do que uma condição servil. Já dizia um historiador falecido, de cujas intenções porventura abusarei ao trazê-lo ao fim desta crónica, que uma história que serve é uma história servil.»

A foto que acompanhava... servia bem de ilustração!

(...)

Mas, hoje, fui de novo "atacado". Ao folhear o Correio da Manhã, num restaurante onde almoçava, "apanho" com um colunista (João Pereira Coutinho) também a zurzir no dito Camilo, por aquilo que disse e, por extensão, na "seita dos economistas". O que não me agradou nada. Porque... nada de confusões... Se o dito comentarista da televisão é representativo dos economistas, eu, mais uma vez!, demito-me da licenciatura e do doutoramento com décadas, embora sempre com intenções de permanente actualização e de modo algum me revendo em tal representante.
Começa o colunista como segue: 

«A voz da razão

A seita dos economistas

Gostei de ouvir o desprezo de Camilo Lourenço pelas Humanidades. Ele revela bem o essencial da tragédia em curso: a incapacidade de olhar para além dos números. Essa incapacidade começou com o próprio euro, que ignorou a diversidade de hábitos e estruturas produtivas de cada um dos seus membros; continua agora com a crença fantasiosa de que o ‘ajustamento’ será triunfal quando os países alienaram a sua soberania monetária e cambial – um instrumento historicamente decisivo para enfrentar a concorrência externa; e irá terminar com a emergência de populismos de todo o género – o velho ressentimento que sempre alimentou os extremismos.(...)»






e terminava assim, depois de acertar muitas nos pregos mas a desacertar algumas na ferradura:

«(…) Se Camilo Lourenço soubesse História, ele saberia também que a economia é um assunto demasiado sério para ser deixado apenas à "seita dos economistas". Mas, como diria um cientista (e humanista) célebre, ao saber apenas economia, o nosso Camilo nem economia sabe.» 

Sendo assim, e tendo Camilo Lourenço irritado historiadores, humanistas, opinosos e colunistas, também eu, como economista, quero dizer, em "defesa da honra ", que o nosso "negócio" não são os números, e que a economia é uma ciência social que se serve dos números, como se serve da história, e da sociologia, e da antropologia, e da geografia, e de tudo o resto, tal como tem todo o gosto em servir estas referidas áreas do conhecimento e outras, ao serviço da Humanidade.
Quanto a C.L. - com quem se estará a gastar demasiada cera... mas televisão oblige -, diria que há palavras e frases suicidas, assassinas (ou asininas?...). O sr. C.L., que se estimará economista (não sei se de alguma seita...), teve uma "hora má", empolgado talvez pela sua frequente visibilidade televisiva. "Euforizou-se", e terá escorregado a confessar que, para ele, a História (bem como muitas outras coisas...) é imprestável, é tempo perdido, ou, por outras palavras que não terão sido exactamente as suas, não serve para dar lucro e só isso serve. 
Cretino!

domingo, fevereiro 10, 2013

"questões de moral" - 7

Uma “opinião” é – ou pode ser – “uma questão de moral”. Hesitei onde transcrever-comentar esta opinião de Stiglitz, publicada no caderno Economia do Expresso. Pois é mesmo uma “questão de moral”. Ele o diz.
Em

 o pensamento não convencional de Stiglitz, ao comentar a última reunião de Davos (onde se encontram anualmente os “capitães da finança e da indústria”), levou-o a escrever
(…)
(…)
Tem razão. E só não tem mais que isso (isto é, toda a razão) porque o seu pensamento não convencional tem limites… convencionais. Que o levam, por exemplo, a dizer que “O Ocidente nunca teve qualquer autoridade moral” quando é o capitalismo, e não uma metáfora geográfica, que não tem qualquer autoridade moral mas que tem, ah!, isso tem, a sua moral, a do ganho, da ganância, da acumulação do capital, a partir da exploração dos trabalhadores. Que também têm a sua moral. Outra. Da outra classe. Em luta, mesmo quando disso não tem consciência.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Questões de moral - 6

Há quem se esconda atrás das palavras. Das "grandes palavras". Aliás, se não fossem grandes, pouco escondiam quando tanto se quer esconder...
São as palavras "morais", embora se não saiba a que moral (ou a qual) se referem ou de que (ou de qual) são referência.
Mas, se da "prima religião" já por aqui se falou - embora de passagem... - outro/as parentes estão a pedir para nos vir fazer companhia. E, sempre!, com a ambiguidade indispensável para que sejam boa capa ou trincheira. Cujas são, ao fim e ao cabo e evidentemente, ideológicas.
Por exemplo, legalidade como se fosse o mesmo que legitimidade.

"O quê? Eu?!... tudo o que fiz foi dentro da legalidade", dizem muitos (como o mais "alto magistrado da nação"), dando punhadas no peito e esquecendo-se de dizer, os maganões, que foram eles (ou alguéns por eles) que fizeram as leis que os colocam dentro da legalidade e, a partir daí, legalizaram a ilegitimidade em que chafurdam.

Exemplos? Um "post" de um "blog" é espaço limitado - tem de ser, para ser "à medida" - mas cada um de nós encontra, se quiser, muitos exemplos em cada jornal, em cada noticiário.
Basta que cada um tenha uma moral sua, escorada em valores e princípios... morais, de humana convivência e não de fancaria, injectados dolarosamente ou eurosamente (e nem  sempre com anestesia) em doses maciças da infiltrada comunicação ideológica, como "piolho em costura".  



quinta-feira, janeiro 31, 2013

“Questões de moral” – 5


No tempo de Marx, e dos clássicos antecedentes, a economia era a Economia Política (pelo menos os conhecedores de alemão assim o dizem). E assim se percorreram décadas e séculos com as duas palavras umbilicalmente ligadas mesmo quando a “economia” de texto poupava a segunda. Subentendia-se que se falava do que assentava sobre um tripé por vezes semelhando mesa de pé-de-galo
necessidades, recursos, trabalho.
Com o correr do tempo e as dinâmicas sociais, começou a distinguir-se, na Economia, com ou sem Política, as Finanças Públicas, indispensáveis para que o todo funcionasse. No processo de cientificação desta área do conhecimento, ela começou por se (tentar) libertar da tutela do Direito e da da Contabilidade - como registo de variações patrimoniais. Em Portugal, e disso posso falar porque vivi, a Escola do Quelhas, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), ganhou, com a reforma de 1949, o estatuto universitário, e só mais tarde apareceu a Faculdade de Economia da Universidade do Porto (1953), e muitos anos depois a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (1972), com um complexo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa também criado em 1972.
Neste(s) caminho(s), o ensino da economia passou por etapas que não tenho a pretensão de caracterizar mas de que deixo discutíveis notas. Para além do marginalismo, das "pontes" do neo-clássico com o keynesianismo, nota-se a crescente importância dos métodos quantitativos e o enfraquecimento e esquecimento da vertente necessidades, bem como a constante marginalização e centrifugação do marxismo, com excepção de períodos curtos… e de alguns docentes excepcionais.
A gestão monetarizada dos recursos ganhou foros de cientificidade, imune à consideração das necessidades a satisfazer, o que se transforma numa questão moral, e sendo ignorada uma racionalidade económica existente desde sempre e inerente à inserção do ser humano no meio de que colhe e transforma os recursos.
Ilustrando esta evolução, o ISCEF passa rapidamente por Instituto Superior de Economia (ISE) para logo acrescentar e Gestão (ISEG), e nascem proliferamente escolas de gestão e gestão em escolas. Com o resultado que se conhece, de se confundir economia com gestão e gestão com negócios.
Não é por acaso que, no avante! da semana passada, dois artigos em  actual (de José Casanova e de Vasco Cardoso, e por outras formas) colocavam a questão pertinentemente, num caso sobre a gestão da EDP, que pouco tem a ver com a produção e fornecimento de electricidade e muito com a acumulação de capital monetarizado, e a gestão bancária que apenas tem a ver com esta acumulação, em total especulação desmaterializada (D-D’).
E pode acrescentar-se (como se fará em próximos textos) a ilustração da gestão nas áreas de alimentação, vestuário, habitação, transportes, saúde,  educação, cultura, banca, armamento, tráficos de vária ordem, como “neutra”, apenas avaliada (avaliados os gestores dela intérpretes… e assim remunerados) por essa acumulação de capital monetarizado cada vez mais desmaterializado, e por isso idêntica para todas elas e a todos os níveis

segunda-feira, janeiro 28, 2013

"Questões de moral" - 4

E dizia ele, o dito senhor Karl Marx nos seus manuscritos de 1844, que 
«...a antítese entre Moral e Economia Política é em si mesma apenas aparente; há uma antítese e igualmente não há antítese. A Economia Política exprime à sua própria maneira, as leis morais.
A ausência de exigências, como princípio da economia política, é atestada da forma mais chocante em sua teoria da população. Há homens em demasia. A própria existência do homem é puro luxo, e se o trabalhador for "moralizado" , ele será económico ao procriar. (Mill sugere louvor público aos que se mostrarem abstêmios nas relações sexuais, e condenação pública aos que pequem contra a esterilidade do matrimónio; não é essa a doutrina moral do ascetismo?) A produção de homens afigura-se uma desgraça pública.
O significado da produção com relação aos ricos é revelado no que tem para os pobres. No alto, sua manifestação é sempre requintada, disfarçada, ambígua, uma aparência; nas camadas inferiores, ela é crua, franca, sem rodeios, uma realidade. A necessidade áspera do trabalhador é fonte de muito maior lucro do que a necessidade requintada do abastado. As moradias em porões de Londres dão mais aos senhorios do que os palácios, i. é, elas constituem maior riqueza no que toca ao senhorio e, assim, em termos económicos, maior riqueza social.
Assim como a indústria se reflecte no refinamento das necessidades, também o faz em sua rudeza, e na rudeza delas produzida artificialmente, cuja verdadeira alma é a auto-estupefacção, a satisfação ilusória das necessidades, uma civilização dentro da barbárie grosseira da necessidade. As tavernas inglesas, são, portanto, representações simbólicas da propriedade privada. Seu luxo desmascara a relação real do luxo industrial e da riqueza com o homem. Elas são, pois, adequadamente, o único divertimento dominical do povo, pelo menos tratado com brandura pela polícia inglesa. »

E se, numa outra tradução se pode retirar, simplificando, que 
«a moral da economia política é o ganho, o trabalho e a poupança, a sobriedade…», 
a actividade económica (da economia política) veio tornando-se uma actividade de gestão de recursos para acrescer esses ganhos (para uns) à custa do trabalho e da poupança, da austeridade (para outros).
Mas... gestão de que recursos? Dos directos?, dos que a natureza faculta e os seres humanos colhem e transformam incessantemente para satisfação das suas necessidades materiais, sejam elas "refinadas" ou "rudes"?

... a ver vamos.

sábado, janeiro 26, 2013

"Questões de moral " - 3

Tendo-me servido de Manuscritos de 1844 do jovem Marx - não para enfileirar com aqueles marxólogos que, para diminuirem a influência de Marx o seccionam em vez de procurarem encontrar a unidade dialéctica de um pensamento que não termina com a sua morte física, em 1883, mas por ter, então, 25/26 anos -, guardo, como trampolim para estas questões (de moral) a frase de que a economia política, "se bem que se dê o ar de procurar a bem-aventurança terrestre, é na realidade uma ciência moral, a mais moral das ciências".
No entanto, assim será numa asserção de "moral" diversa da que é do senso comum, que tem uma valoração... moral, ética. Até porque, como também escrevia Marx, com muita ironia, se perguntassem à Economia (da família da Política) se as suas regras de comportamento se adequavam a esse senso comum da moral, ela mandaria os interpelantes irem falar disso com as "primas", a dona Moral e a dona Religião, que ela, a Economia tinha as suas próprias regras e "essas coisas" de valorações morais eram de outras jurisdições. 
Claro que as ditas "primas" corroborariam, solidárias, mostrando-se, aliás, muito disponíveis para atenuar os efeitos eventualmente perversos (moralmente...) das leis da Economia, com as suas "boas acções", a caridadezinha que lhes serve de razão de ser enquanto amparo para os desfavorecidos da Economia, ou os "vencidos da vida" que não tertúlia de escritores e intelectuais. 
No entanto, há nestas formulações muitos equívocos. O primeiro - porque é o que salta para as teclas... - é que, ao falar-se de Economia (da família, ou ramo, da Política), se pode, sobretudo nos tempos de hoje, esquecer, ou intencionalmente confundir, a Economia Política com a Finança Pública que, ainda que irmãs entre si, não são gémeas e deveriam complementar-se e não substituir-se. Acresce que a Economia Política, se de alguma mana é gémea, é da Economia da Empresa, e tanto que os amadores (e beneficiários) de confusões até as querem tratadas da mesma maneira, quando são muito diferentes, e o macro-objecto da Economia Política nunca pode ser assimilado, ou mesmo assemelhado, aos micro-objectos da mana Economia da Empresa.
Por outro lado, em nome do ramo (ou da ascendência da Política), há que dizer que a Economia tem a sua moral, falando mesmo Marx, em traduções fieis, da economia política da moral. Ou seja, há uma moral da Economia Política, e esta tem uma moral que é a sua. Como definiram os seus teóricos clássicos e os neo que os continuaram. De que Marx fez a crítica, que os que se querem marxistas têm a obrigação de continuar.
Ah!, e não vale endossar para as "primas" responsabilidades que são suas, da Economia e das relações de forças sociais em que se concretiza.
Mas estas serão questões (de moral) a tratar em reflexões próximas.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

"Questões de moral" - 2


Ao correr da(s) pena(s), reescrevo trechos lidos várias vezes e originalmente escritos por Marx em 1848, nos seus manuscritos económico-filosóficos (com menos de 30 anos!)

A economia política e a moral 
- o "economista" 

A economia política (do capitalismo), dos clássicos e divulgadores, ciência da riqueza formou-se, ao mesmo tempo, como a ciência das privações, da poupança, da austeridade, e chega, na verdade, a poupar ao homem até a necessidade do ar puro ou do movimento físico ou os anos que possa viver. Esta ciência da maravilhosa indústria é também a ciência do ascetismo, e o seu verdadeiro "modelo" ideal é o avarento ascético e o escravo ascético… mas produtor. 
O seu ideal moral é o operário que leva para a ”caixa de poupança” (que na moderna idade são os bancos) uma parte do seu salário, ou que até o recebe através dessa "caixa", apenas retirando o indispensável, fazendo por ela todos os movimentos. Para glorificar este encantador ideal, não falta uma arte servil, e obras-primas se fizeram sobre o tema, abordando-o de várias maneiras. 
A economia política, se bem que se dê o ar de procurar a bem-aventurança terrestre, é na realidade uma ciência moral, a mais moral das ciências
A renúncia a si próprio, a renúncia à vida e a todas as necessidades humanas é uma sua tese central. Quanto menos tu comeres, quanto menos livros tu comprares, quanto menos tu fores ao teatro, ao bailado, aos locais de diversão, quanto menos tu pensares, tu amares, tu filosofares, quanto menos tu pintares, tu fizeres poemas, etc., etc., mais tu poupas, mais tu aumentas o teu tesouro, que não se satisfaz nem de migalhas menos ainda de grãos de poeira, o teu capital.
Tudo o que “o economista” te rouba de vida e de humanidade, te será compensado em dinheiro e em riqueza (ou crédito que o "financeiro" te "oferece"), e tudo o que tu não podes, o teu dinheiro poderá: este pode comer, beber, ir ao bailado, ao teatro; ele conhece a arte, a erudição, as curiosidades históricas, o poder político; ele pode viajar, ele pode arranjar-te tudo isso; ele pode comprar tudo isso; ele é o verdadeiro poder
Todas as paixões e todas as acções, toda a actividade é engolida na sede da posse, na ganância do eu-ter. Concede-se ao trabalhador, que é o outro e que produz e distribui, apenas o que ele precisa para que possa viver, isto é, produzir, distribuir, servir, e ele só pode querer viver para ter acesso àquilo de que necessita em sua austera vivência.

terça-feira, janeiro 22, 2013

"Questões de moral" - 1


Por uma "questão de moral"

Sem ser um “ouvinte de rádio”, ouço rádio. Intermitentemente. Entro no habitáculo e, quando rodo a chave para ligar o motor do carro e os seus não sei quantos cavalos, também ligo o motor radiofónico e as suas ondas.

Se para aí estou virado ouço os noticiários hora a hora (quando a viagem dá para isso), canso-me das suas  repetições, irrito-me, barafusto.

Mas uma grande parte do tempo tenho o aparelho sintonizado na Antena 2. Costuma ser boa companhia.

De onde acontecerem-me, até há pouco tempo, encontros com um sr. Joel Costa e o seu programa “Questões de moral”.

Tenho, por isso, muitos quilómetros nas rodas a ouvir textos bem escritos e melhor ditos. Que, além de boa companhia e gozo estético, ainda davam para aprender umas coisas interessantes.

Pois acabou o programa! Soube-o distraidamente, e acabei de o confirmar. Faz parte da desgraçada herança desta governação política, ou das políticas que decorrem desta desgovernação: acabar com tudo o que seja bom. A meu critério, evidentemente.

Assim, hão-de – nem sei bem quem, mas sei bem o sistema que – destruir o Estado social e cultural, com os direitos que lhe estão ínsitos. Custe o que custar!... até que o défice orçamental (não) se equilibre e a dívida pública (não) se possa pagar.

Cá por mim, e por aqui, vou pegar no título, de que gosto muito, e assim, sem intenções nem pretensões de continuidade, vou abrir uma série que começara a ser congeminada e que estava mesmo a pedir que lhe chamasse questões de moral para arrancar.

É, também, de certo modo, já uma memória para uma homenagem e, embora tenha pesquisado a ver se havia, na blogosfera, alguma antecipação, e verificado que não, arranco.

Se tiver que pagar direitos, é só dizerem...

É uma questão de moral.