sexta-feira, setembro 24, 2010

Alexandria 10 – OS CAMINHOS DA(s) FÉ(s)

Não sei se tinha reparado nisto quando, há mais de vinte anos, viera ao Egipto. Ou, se o tinha, esquecera-o. Agora, logo à chegada, ainda no aeroporto, intrigou-me aquela mancha na testa de muitos homens. E perguntei, pensando que a razão era étnica.
Não, e a minha ignorância talvez não devesse existir, ao que me parece. Aquela mancha é, como se calhar toda a gente sabe…, uma “nódoa negra” resultado da fricção da testa no tapete em que se fazem as muitas orações do dia.
Passei a ver, naquele sinal, uma indicação do grau de fervor religioso de quem o mostra. Falei, vagamente…, deste assunto com o guia que nos mostrou 8 horas de Cairo, almoçou connosco uma excelente refeição, partilhada também com o motorista, um simpatiquíssimo e bonacheirão Mohamed, com quem fizemos a viagem até Alexandria.
O jovem disse-nos da sua fé – que ainda não deu para mancha na testa… –, e teceu algumas considerações curiosas sobre religião. É crente, faz as suas orações, e diz que não quer cá intermediários para as relações com o seu deus (logo existe…). “Vocês é que se confessam e pedem perdão dos vossos pecados a quem terá pecado mais que vocês… eu não, é tudo directo com quem não peca, só Ele me pode perdoar.” (a maiuscula é dele e respeito-a...). Não estava mal visto, respondi-lhe eu, mas esclareci-o que não tinha esse problema, que para mim nem deus, nem padre, um pouco como os do “ni dieu, ni maître”. Mas só um pouco.
E ficaram por aí as nossas conversas teológicas.
Respira-se religiosidade por aquelas bandas. Mesquitas em grande quantidade, algumas igrejas (uma de S. Sérgio, ora tomem!, que resistiu aos romanos que perseguiam os católicos), umas sinagogas. Mas os tapetes e a reza na rua, as setas para Meca nos hotéis, sobretudo o apelo à oração, enchendo de um som ondulante e quase anestesiante as ruas, criam um certo ambiente.
Que se pode testemunhar da janela do hotel (na que chamo a "horação"... que muitas são durante o dia):

Como já escrevi, nas fotos de Sadat – no museu da Biblioteca, por exemplo –, ele tem o sinal bem visível, quase ostensivo. O que não encontrei em Nasser ou em Mubarak. Daqui, não se tirem quaisquer ilações. Já não diria o mesmo do facto de Sadat ter sido vice-presidente de Nasser, que substituiu em 1970, e ter sido substituído por Mubarak, que era seu vice-presidente em 1981. Mas isto já são coisas da área da política…
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Ficam para a última destas notas-impressões de viagem enquanto viajo.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Responsabilidade, bom senso, pragmatismo

Foram diferentes estes dias de férias... Acho-os estranhos. Ou acho-me estranho.
Estou frente à televisão, ouço o telejornal e a Grande Entrevista. Como é que me foi possível viver estes dias sem "isto"? Como é que me vai ser possível viver com "isto"?
Que sentido têm as palavras face ao dramatismo, à pomposidade, à - numa palavra, perdão em três... - falta de seriedade no seu uso?
Responsabilidade, bom senso, pragmatismo.
"O governo é responsável", "os mercados", "o primeiro partido da oposição", "quem viabilizou o PEC", "as medidas adicionais", "o FMI", "o crescimento económico no dobro do que estava previsto", "bom senso", "o consenso", "o Balsemão", "o Mário Soares", "o Presidente da República nas escolas a falar (que discursos!...) de igualdade de oportunidades e do interior e do poder autárquico".
As conversinhas em privado de que cada um conta a sua versãozinha, fazendo-se de ofendido pela versãozinha do outro. Ficamos é a saber - todos! - que se fartam de conversar, de "combinar coisas" lá entre eles, enquanto, cá para fora, parecem muito zangados e ofendidos.
"Isto" é insuportável... Está muito pior que há uma semana. É influência da proximidade orçamental e do "espectáculo" à volta. O motorista do táxi que me trouxe do terminal rodoviário de Fátima até ao Zambujal perguntou-me se o país se aguenta ou se vai fechar.
Bolas! Que raio de "jet lag"!
A falta que isto me fazia! E se me perguntarem o que foi de melhor dos dias de férias,

29 de Setembro

Já cá estou. Mobilizado. E se não estivesse... vinha!
É que isto ao vivo, com o cheiro da tinta e o brilho da cor, é outra coisa.
De qualquer modo, ainda tenho umas notas para umas duas últimas "alexandrinadas", uma sobre religião e outra sobre política.
Dentro deste quadr(ad)o... Porque noutros, outras coisas haverá para mostrar e para dizer (espero eu).

Alexandria 9 – CAMINHOS TEIMOSOS E já DE REGRESSO






Era o último dia-manhã de Alexandria. Decidimo-nos por uma visita à coluna de Pompeia, o “souk” dos têxteis… e a “acertar umas contas suspensas”.
“A coluna” é um local turístico, dá para fazer fotos e ver as marcas do tempo. O bairro popular em que insere – ou que a inseriu – é a Alexandria de hoje. Chegar lá e voltar foi quase uma aventura com vários intervenientes. Das estórias que ficam para outros contares.
Para este contar, e já que contámos de restaurantes, nomes de ruas e números de portas, conte-se que, teimosos que somos, voltámos àquela rua (Sharia Mohamed Azmi), continuámos para a direita, para diante do nº 12 que ficava à frente do nº 15 e, se não encontrámos o nº 52, encontrámos o tal restaurante, GAD de seu nome. E aí almoçámos a última refeição alexandrina, mesmo em frente do Banco Nacional do Egipto, rodeados de bancos por todos os lados. E com mais estórias para quando calhar…
Depois foi a despedida da “nossa” praça, e do café Délices, e apanhar a boleia de quem nos foi buscar para nos trazer ao Cairo, em mais de três horas de auto-estrada pelo meio do deserto e o esperado engarrafamento à entrada da cidade-monstro.
E se Napoleão disse “do cimo destas Pirâmides, mais de quarenta séculos de História me contemplam” (se não foi assim, foi mais ou menos…), podemos dizer que, da carrinha, contemplámos mais um pôr-do-sol por detrás de pirâmides com mais de quarenta séculos de História (mais coisa menos coisa...) e que 20 milhões de cairotas vêem todos os dias e convivem com elas (com as Pirâmides… e com os séculos de História) com a indiferença das vizinhanças e as dificuldades de um quotidiano que não deve ser nada fácil.

Fizemos escala de uma noite mal dormida num hotel, também, nesta noite, hotel e corredor do nosso quarto para jovens desportistas indisciplinados e barulhentos e, depois das salas de todas as esperas que são as dos aeroportos, aqui vamos de regresso a Lisboa.

E... depois... onde for. Onde tem de ser.

Como pode um fulano desligar-se?

Tenho andado por longe. Uma semana de férias. Há quem, amigamente, estranhe tanta mensagem e sobre tanto tema. É defeito meu… e trouxe um “notebook” (?), e têm-me posto net à disposição, e durmo pouco.
Por outro lado, mesmo em férias, mantenho um empenhado distanciamento, ou um distanciado empenhamento. Aliás, o tempo não está para folgas ou tréguas.


Depois, chegam-me, pelo sapo (e outros “bichos”) as preocupações do Cavaco, sei do dueto Sócrates-Helena-não-sei-quê-ministra-do-trabalho, do escândalo do Banco do Vaticano (e de quantos que não se sabendo, do Vaticano são ou dele dependem), informo-me em todas as mensagens que aqui, na blogosfera, encontro de alguns amigos “do peito” e de outros que nem tanto… e é de meu (mau?!) feitio reagir.
Mas poderia até nem abrir o computadorzinho, nem olhar para uma página impressa em caracteres legíveis… e lá para os confins da Corniche de Alexandria, mesmo mesmo na ponta, topo um ATM do banco HSBC, o banco que – entre outros parceiros do capitalismo financeiro impante mas balofo – decide sobre a divida pública portuguesa. Fotografei e, ao lado, apanho uma camioneta de limpeza da Veolia, a empresa a que pago a água que consumo no Zambujal (e mais nem sei muito bem o quê).
O encontros com a Veolia vieram a repetir-se por várias ruas da enorme cidade. Uma vez, com uma saudação caloroda de um operário cantoneiro egípcio para os camaradas que, pelo resto do mundo (incluindo Ourém), são assalariados deste grupo transnacional.
Como pode um fulano desligar-se?

quarta-feira, setembro 22, 2010

Alexandria 8 – DESCAMINHOS: EIS uma ALEXANDRIA!

Eu tinha ficado a escrever (se me permitissem, passava a vida a escrever…); ela fora, num intervalo, “comparar uns preços” (como ela gosta de “fazer umas compras”!… e ainda bem).
Voltou toda contente (e eu também… porque ela voltou e pela prenda comprada):
- “Não nos vai acontecer como de manhã e ao almoço! Já descobri a rua de um restaurante aqui indicado no Routard. É o GAD, e o número é o 52. Vamos lá?”
- “Embora…”
______________________________
- “A rua é esta que atravessa…”
- “Para a direita ou para a esquerda?”
- “Aqui a placa está para a direita… mas deve ser para os dois lados…”
- “Pois… comecemos pela direita… vamos lá a ver se encontramos um número…”
Andámos uns metros.
- “Olha ali, naquele passeio, um 15 numa porta…”
- “Finalmente… quer dizer que, como é par, é deste lado… será para diante ou para trás, antes do cruzamento?”
- “Temos de encontrar outro número…”
- “Olha aqui, dte lado, um 12…”
- “Porreiro…
- “Deve ser para trás… porque aquele do outro passeio era o 15…”
- “Pode ser… andemos para trás, subamos até ao 52... vá,
atravessemos a rua para o outro lado, para a esquerda.”
Assim fizemos. O que não foi nada fácil, como só saberá quem já atravessou ruas na Alexandria e em Ho Chi Min Ville.
E lá caminhámos à procura de um outro número de porta que nos orientasse. A torto e a direito. Isto é, à esquerda e à direita. Ou, então, sem números, encontrar o restaurante GAD.
Nada. Nem números de porta(s) nem restaurante(s).
De repente, depois de muito andar:
- “Olha aqui!... o 14!”
- “Não pode ser…”
- “Mas é!”
- “Ora bolas… já fizemos o quarteirão todo, e se ele é comprido… o 14?!”
- “Não percebo…”
- “Nem eu… vamos mas é à
Taverna, que é onde fomos no primeiro dia e não foi nada mau…”
- “’Tá bem. É uma chatice. Gostei da comida da
Taverna, gosto do nome… não serve é bebidas alcoólicas…”
Virámos na rua à esquerda.
Eu, ia resmungando. Consolado por ela…
- “É chato, é… mas o tal GAD se calhar também não servia álcool…"
(,,,)
- “Espera aí, espera aí, olha para ali, para o passeio do lado de lá. Não é GAD aquela loja?, ou estou a ver mal?”
- “É. E é uma sapataria. Sem número, claro. E já estamos bem longe, noutra rua, quase a chegar à
Taverna…”
_______________________________
Eis Alexandria!

Alexandria 7 – CAMINHOS E TROPEÇOS, DE PERDIDOS E ACHADOS

Da visita à Biblioteca e, particularmente, ao Museu Sadat, trouxe muitas reflexões. Uma frase de uma escultura-portal na impressionante sala de leitura, do conhecimento à sabedoria.
O Museu Sadat são duas pequenas salas de memorial de uma intervenção individual determinante, e de um período histórico, entre 1952 e 1981, que já vivi na minha pessoal procura do conhecimento.
Nesse período, o papel do Egipto nas relações internacionais foi muito importante, a partir de Nasser (e, ao correr das teclas, apareceu-me uma analogia histórica – talvez um disparate… mesmo com a “água benta” das diferentes circunstâncias históricas que as décadas provocam – com a Venezuela e Hugo Chavez). No pequeno Museu Sadat releva-se a vida de um homem que fica na História como dedicado à Paz (Campo David), a sua prisão como “um dos lugares em que o homem se encontra” (assim o disse, e publicou um livro com o título Em busca da identidade). Embora nem todos os encontros sejam bons e, no caso de Sadat, houve alguns desencontros…
É difícil, em duas linhas, falar desta figura tão controversa e influente, assassinada aos 63 anos, embora me apeteça destacar um sinal. Dos três homens após Farouk, Nasser (1952-70) (porque não o Museu Nasser?, porque foi assassinado?...), Sadat (1970-81) e Moubarak (1981- ), é o único em que se vê com toda a clareza uma mancha na testa, resultado de uma religião que faz os homens roçarem a cabeça no chão várias vezes por dia, deixando-lhes uma marca indelével… Mas de religião escreverei algumas coisas noutra croniqueta.
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Hoje, 3ª de manhã, perdemo-nos. Achámo-nos no meio da enorme cidade (são, com certeza, mais de 8 milhões… 8 milhões já eu contei!). Perdemo-nos (e achámo-nos) à procura de sítios, de nomes de ruas de números de portas. Nomes de ruas, ou quase nunca há visíveis e legíveis, ou mudaram, como parece que acontece com muita frequência; Fouad passou a Nasser, mas na toponímia afixada nem um nem outro nome aparecem. Números de porta só lá de muito de longe em longe… e se.
Em desespero de causa, pergunta-se (em inglês…) e, após muito esforço de parte a parte, parece que nos entendemos (até com toda a simpatia e desinibição, mesmo através de uma “burka”) mandam-nos andar mais uns quarteirões e “virar na segunda rua à esquerda”, que não nos leva a lado nenhum ou, pelo menos, ao lado que nós queriamos! Curioso: foi sempre na “segunda rua à esquerda” que nos mandaram virar!...
Chegou a haver alguma tensão entre nós. Mas, agora que escrevo… acho giro. Andámos pela Alexandria profunda, de antiquários, de quinquilharias, de bate-chapas (e já assistimos ao arranjo de clientela para essa “indústria”, aqui decerto muito próspera…),
de tapetes, de mantas, de tudo, de muita gente em cadeiras e mesas nos passeios a beber chá e a fumar “chicha”. Uma pena enorme de não ser capaz de conversar com alguns daqueles homens (e mulheres)!
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Regressámos ao hotel sãos e salvos.
Ah!, e afinal o trânsito na Corniche desiludiu-nos. Não manteve o nível de ontem, de 2ª feira. As 2ªs. feiras são o mesmo em todo o lado.

terça-feira, setembro 21, 2010

Preocupante!

Parece que o Presidente da República Cavaco Silva está preocupado com os resultados das políticas dos executivos dos últimos 25 anos, em que avultaram 10 anos do 1º ministro Cavaco Silva, muito particularmente no que respeita à política relativa ao mar.
Pelo que o actual Presidente Cavaco Silva prepara o calendário de promoção da candidatura de Cavaco Silva a Presidente da República, para nessa função procurar remediar - quanto possível... - os nefastos efeitos das política protagonizadas pelo 1º ministro Cavaco Silva durante 10 anos mais pelo Presidente da República Cavaco Silva durante 5 anos (em 25, 15, i.é., 3/5!).
Aliás, onde está escrito Cavaco Silva poder-se-iam pôr outros nomes, com as devidas alterações em números de anos. Ou, para que tudo fique menos personalizado (e para fazer o pleno: 5/5!), podem substituir-se nomes pessoais por PSD, PS e - quando o conseguiu - CDS-PP.

Leituras e (ex)citações

Como em todas as suas crónicas no avante!, Jorge Cadima junta a muita documentação actualizadíssima comentários pertinentes.
Na do último número (lido num avião e, como em todos os transportes públicos, provocando alguma visível… estranheza ligada ao enraizado preconceito), retiro umas frases por me parecerem de muito útil leitura (ou releitura):
«A comunicação social de massas não informa*. Esconde ou cria a “realidade” consoante os desejos dos seus patrões e os interesses de classe que representa. (…) Há 80 anos, no auge da outra grande crise mundial do capitalismo, a conversa era igual, embora os alvos fossem os judeus e a “conspiração judaico-bolchevique”. O racismo serviu de caldo de cultura para lançar a mais violenta e brutal resposta do capitalismo à sua crise – o nazi-fascismo e a guerra.» (Mentiras, racismo e crise)
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*- A comunicação social de massas por todo o mundo, em todos os alfabetos. Desde que sejam os mesmos os seus donos. O capitalismo financeiro! (Digo eu… e confirmo)

Alexandria 6 (anexo)

Ao longe, do outro lado da Corniche, a pequena mancha branca é a Biblioteca de Alexandria, qual nave espacial preparada para levantar voo. Como a idealizaram os arquitectos noruegueses.

Alexandria 6 – CAMINHOS ENTRE CIDADES DENTRO DA CIDADE

Em vez de entrar pela cidade, caminhar pelo seu litoral, pela sua marginal. Ao longo da longa Corniche.
Foi assim o dia de segunda-feira.
De manhã, virar à esquerda e andar pelo passeio do lado do mar. A olhar para para dentro, a apreciar as construções, alguns edifícios ainda imponentes, uma mesquita enorme, a olhar para o mar – para o "porto novo" -, uma larga baia em concha, mas atirando a vista para longe porque, por perto, há muito lixo, daquele que suja os olhos. Até aparecerem pedaços de praia, com gente de cá a aproveitá-los. Homens, rapazes, crianças com as jovens mamãs também a irem ao banho – mas todas vestidas... –, senhoras de mais idade sentadas debaixo de guarda-sóis, vestidas com toda a roupa que o corpo consente.

E, pelo caminho, gatos, muitos gatos, uns, mais felizardos, a receberem a sua ração de carapaus a que deram o nome, que uma outra senhora lhes distribui, decerto diariamente. Depois, um pequeno porto de pesca, já mais perto de onde era o farol e hoje é o forte e um espaço em recuperação. Para turistas.
Mas não nos queríamos perder por ali. Passámos para outras ruas. Do outro lado do istmo, ou da língua que separa os dois portos. Andámos pelas ruas perto do "porto velho", pelo meio de um dia normal, à saída das escolas, à hora de almoço. Sentindo todo o pulsar de uma antiga cidade. E a sua inexorável degradação. Talvez irrecuperável. E tudo tão rico de séculos e como seria tão de lamentar!

No meio do nosso passeio, uma surpresa muito desagradável. Se os miúdos – todos até aí – tinham sido exuberantes de alegria, brincando connosco, pedindo fotografias, duas crianças, talvez por um gesto nosso mal interpretado, assustaram-se, tiveram medo de nós-os-estranhos, choraram, fugiram e refugiaram-se junto de idosos que ali estavam. O incidente ficou por aí, mas escureceu a nossa boa disposição. Logo recuperada porque, mais adiante, outros miúdos nos abordaram, vivos e efusivos, e, sem o saberem, vieram ajudar-nos.
Voltados aos locais de frequência turística, de novo na Corniche, nesta cidade de tantos tempos e de tantas cidades, almoçámos no “rei do peixe”. Que merece o título.
À tarde, fomos para o lado direito da Corniche, voltando a caminhar umas boas quadras – bem menos que de manhã – para ir, de novo, à Biblioteca, ver melhor o que tínhamos visto, e visitar o chamado Museu Sadat. Para regressar, com os pés a pedirem descanso, para um belíssimo pôr de sol com jantar, num terraço de onde comprovámos a beleza dos lugares e a loucura do trânsito nos dois sentidos da Corniche, que envergonharia a 2ª circular em hora de ponta.
E tanto para contar!

segunda-feira, setembro 20, 2010

D. Sebastião Manuel Mourinho José

“Portugal?”… “ Mourino, Cristianu Rónalde!!!”... e o polegar de todas as idades a apontar para cima, e um largo sorriso de admiração e respeito… por nós, compatriotas de tal gente. Já passou o tempo de Figo. Todos os deuses têm o seu crepúsculo. Não escrevi os de pés de barro porque não (re)conheço deuses com outros calcantes.
Mas aqui, no Egipto, há um outro nome ainda mais nos fazem admirados e respeitados: Manuel José (e pronunciado sem margem para grafias que não esta). E tanta é a admiração e o respeito que parece que se quer alterar uma lei que impede naturalizações para ele poder vir a ser… egípcio. Honoris causa... dizem que ganhou tudo o que se podia ganhar!
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Entretanto, consta que “o Presidente” está a pensar vir cá (ou onde o tal Manuel José estiver em mecenato-mercenariato) para o convidar para ser uma espécie de “primeiro-ministro” para ver se consegue resultados que vençam os desoladores indicadores pós-PEC e para que se aprove um orçamento de Estado consensual.
Sempre à procura de um D. Sebastião… em vez de se fazerem os trabalhos de casa.

Leituras necessárias

O materialismo histórico é uma leitura da História feita por duas vias que não serão carris paralelos mas que, sendo aparentemente paralelos (e, por isso, paralelos são), interagem, como se diz bem-falando.

As forças produtivas desenvolvem-se, incessantemente - o que não quer dizer linearmente -, pela relação do ser humano com a natureza de que é parte; essa acção do ser humano sobre a natureza materializa-se no contexto evolutivo de relações entre seres humanos, sociais.

As forças produtivas e as relações sociais de produção definem modos de produção específicos, que tudo condicionam nas formações sociais, mas só em última instância pois o modo de produção é condicionado pelas relações sociais, por tudo o mais num vai-vem em progressão dialéctica (não progressão aritmética ou geométrica...).

Por vezes, nas nossas humanas e históricas análises, valoriza-se mais o desenvolvimento das forças produtivas; por vezes, valorizam-se mais os estádios (que se sucedem) das relações sociais.

Só o equilíbrio é dialéctico, ou só a dialéctica é equilibrante.

O artigo de Rui Namorado Rosa no último O Militante é um excelente abanão em quem tenha a tendência (ou para ela esteja a ser conduzido) de esquecer ou desvalorizar a evolução das relações do ser humano com a natureza, o desenvolvimento das forças produtivas, o estado da existência e conservação dos recursos naturais ou adquiridos, por sobrevalorizada atenção para as relações sociais.

É um artigo de leitura necessária, indispensável.

Alexandria 5 – TODOS OS CAMINHOS VÃO LEVAR A ÍTACA

Alexandria. 8 milhões de habitantes.
“Um bairro do Cairo…”, dizia-nos, depreciativamente, o guia que nos trouxe até cá. Era um típico cairota. Que tem uma namorada no Porto (já teve uma em Viseu), pelo que diz que os do Cairo em relação a Alexandria são como os do Lisboa em relação aos do Porto (ou vice-versa), e mostra pelos alexandrinos uma alergia tão grande como a que torna ostensiva relativamente a Espanha, melhor, às espanholas. Era um puto com piada…
Depois da Biblioteca (e antes da Biblioteca), andámos pela enorme cidade. (Tudo é relativo, Ramy.) Alexandria é uma cidade enorme, com 8 milhões de habitantes e um movimento que se estende pelas 24 horas do dia. Isto dizem-nos… porque temos dormido as horas regulamentares e saudáveis e exigidas pelo cansaço. Porque muito temos calcorreado.
Do programa (da Justine) já uma boa parte foi cumprida. Já muito vimos. Ao vivo. Apesar de domingo, e de muitas lojas fechadas de manhã, gente, gente, gente. Escolas abertas e festas infantis por umas fotografias connosco. Não há dúvida que as minhas barbas brancas e o cabelo ainda mais branco da Justine fazem sucesso entre a miudagem, contrastada com a indiferença dos adultos. Algumas, aliás, nem sei como nos vêem lá debaixo daquelas vestimentas que tudo tapam e tanto nos impressionam. Mas as jovens dão outro sinal. E forte. Parecem muito desinibidas, na sua maioria, fumam como umas chaminés, têm uns olhos negros, grandes, pestanudos, bem maquilhados, que olham e não fogem aos olhares…
Duas notas: a visita à casa de Constantino Kavafis e a passagem pela “ruela das mulheres”.
A primeira nota para sublinhar a tranquilidade, a discrição, o ambiente em que viveu metade da sua vida um grande poeta greco-egípcio de Alexandria.

A segunda, para dar conta de um louco mergulho numa multidão a fazer compras numa estreita e comprida rua. De loucura! Tínhamos pensado que, por ser domingo seria mais calmo que o que nos diziam. Mas nunca poderá ser mais do que o que vimos e aquele banho em que estivemos metidos! Ou é sempre assim. ou foi por este domingo terem começado as aulas. Na verdade, o que mais se mercava eram artigos escolares, cadernos, lápis, borrachas… tirando tudo o resto.
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Estivemos no interior e centro da cidade. Vamos, agora, para o mar, isto é, até Qeitbay e ali à (ou até à) volta. Depois se conta. Talvez…

domingo, setembro 19, 2010

Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 25

Desta vez, o "cuco" viajou. Foi visitar o "ninho" deste que "cucou"...



Traduzido "à maneira"
de
Constantino Kavafis.

ÍTACA

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos para que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Que nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon te assustem!
No teu caminho jamais os encontrarás
se altivo for teu pensamento,
se subtil emoção tocar o teu corpo e o teu espírito.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon, hás de ver
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais com que prazer, com que alegria,
tu hás-de entrar pela primeira vez num porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas coisas mercandejar.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades peregrinas do Egipto irás
para aprender, para aprenderes dos que sabem.
Tem Ítaca todo o tempo na tua mente,
estás predestinado a lá chegar.

Mas não apresses nunca a viagem!
Melhor será se muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha já enfim velho.
Rico de quanto ganhaste no caminho
sem esperar pelas riquezas que Ítaca te venha a dar.
Uma bela viagem te levará a Ítaca,
se não for assim, não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre a ela dar-te.
Ítaca não te iludirá
se a achares pobre,
foste tu que te tornaste sábio,
um homem de experiência.
E, então, sabes!

Então, sabes o que significam Ítacas.


in (mais ou menos...) O Quarteto de Alexandria

Uma entrevista a um candidato

Li, com o maior interesse a entrevista a Francisco Lopes num diário. Interesse talvez acrescido pelos quilómetros a que, por uns dias, estou longe de Portugal. Diria empenhadamente distanciado.
É verdadeiramente revelador (e chega a incomodar!) o questionário, quase se podia dizer a tentativa de massacre, com o estendal de todos os preconceitos, falseamentos históricos, contas erradas, ideias feitas.
Nem digo que seja culpa do entrevistador. Ele apenas foi... intérprete de uma imagem de classe que se pretende colar a um candidato (ou tão-só militante) comunista, logo, de outra classe.
Mas digo... ainda bem que foram aquelas as perguntas. As respostas de Francisco Lopes são esclarecedoras (para quem quiser ser esclarecido, evidentemente!) do que é ser comunista e da qualidade de quem, nesyas eleições que se aproximam, se candidata. Para quem, de entre nós, tivesse dúvidas: temos candidato!

Obrigado, Cid Simões, pois pode ler-se em aspalavrassaoarmas a entrevista na íntegra.

Alexandria 4 – PRIMEIRA VISITA A UM "TEMPLO DE MUSAS"

Bom dia, Alexandria!, disse Justine ao acordar.
E, ao pequeno almoço, reviveu pedaços do Quarteto. É curioso: as minhas recordações são políticas – Assuan, Canal do Suez, Movimento dos Não-Alinhados – ; as dela são literárias, embora também com carga política, porque o Quarteto retrata um ambiente em que a política está muito presente. E onde não está?
.


A nossa visita de ontem à Biblioteca, logo à chegada, terá de ser repetida, embora nenhuma visita se repita. Então a um edifício como aquele! E se a história da Biblioteca dava para um romance… tendo o Quarteto sido escrito no intervalo em que, em Alexandria, não houve Biblioteca.
Na história da Biblioteca de Alexandria se comprova o que por aqui já chamei o helicoidal da História. Alexandre teria querido fazer da cidade de seu nome a capital intelectual do mundo antigo, aberta ao mar (ao Mar, ao Mediterrâneo) e às culturas. Daí, a primeira Biblioteca de Alexandria, num complexo museu (num “templo de musas”), com a ambição de juntar todos as obras escritas pelo homem!
Assim começou a ser, até à sua destruição – por incêndio vindo do mar – há mais de dois mil anos. E em 2002 foi inaugurada a nova Biblioteca de Alexandria. Uma obra que retomou a ambição e, por isso, de dimensão e arquitectura impressionantes. De arquitectos noruegueses. Integrada num complexo universitário.
E mais não digo. Não é este o lugar para contar. Para contar tudo isto (e bem, e com números) há outros lugares.
Aqui, só uma vista da maior sala de leitura do mundo.
E reflexões avulsas.

Na defesa do Serviço Nacional de Saúde


Informando-me (embora à distância...) e procurando divulgar informação, a declaração final de Jerónimo de Sousa numa iniciativa de defesa do serviço público de saúde.

Sobre Cuba


Para que não haja confusões sobre tomadas de posição... ler aqui

sábado, setembro 18, 2010

Alexandria 3 – PELA ESTRADA DO DESERTO

Pela estrada do deserto. Larga e nova e com as margens a serem privatizadamente ocupadas.
A caminho do (re)encontro com o Quarteto de Alexandria. Um adiamento de mais de 20 anos, sobretudo para quem hoje é mais conhecida, na blogosfera por Justine do Quarteto. A quem, há de 20 anos, foi tirada uma fotografia, no Cairo, ao lado do sinal rodoviário que indicava Alexandria – 220 kms. Com ar triste. Bem diferente do de hoje. Que aqui não registo, também em foto. Cá por coisas…
.
Por isso, também um reencontro com as memórias. Como todas as viagens. Nesta, além das memórias tão pessoais, as dos anos 50 anos e que, sendo colectivas, também minhas são. E que muito fortes são.
O caso do Canal do Suez, da sua nacionalização, fez História e se, na História o caso se esfuma ou apaga, na minha lembrança reaviva-se com toda a importância que, para mim, teve.
O então novo Egipto projectava uma grande barragem, a de Assuan, contava com financiamento internacional, do FMI e de países ligados ao Canal, como o Reino Unido e a França. Esse financiamento foi negado, e o Egipto de Nasser, em resposta, resolveu nacionalizar o Canal do Suez – em 1956 –, abrindo uma crise de enorme importância de que saiu vitorioso, com o apoio da União Soviética.
O facto (histórico) é que, em resultado dessa firme posição (e dos apoios), houve uma grande mudança nas relações internacionais, e Nasser ganhou prestígio e pêso, logo acrescido pela criação do Movimento dos Países Não-Alinhados, cuja responsabilidade (protagonizada) partilhou com Neru e Tito.
Assim se podem ilustrar os avanços e os recuos da História no seu caminho. E é significativo escrevê-lo no Egipto, em Alexandria. Onde já estamos. E onde já estivemos, para uma primeira visita, na Biblioteca. Que é qualquer coisa de impressionante.
E a Justine instalada no Hotel Cecil! Tão referido no Quarteto. Com um Bar Monty (onde se espera ver aparecer a Clea e o Baltazar). E a tentar esquecer que, ao nome de Cecil se junta, agora, Sofitel.
Ventos, avanços e recuos da História.

... alguém há-de escapar!

Entre os mortos (de Keynes)
e os falidos (de Attali)
por aqui, alguém há-de escapar
(e uns poucos muito bem...)
e todos se julgam alguém!
(ilusões não faltam, também)
.
«Romeiro, romeiro!, quem és tu?»
e Garret enganou-se ao transcrever;
o que Sousa Coutinho respondeu foi:
«Alguém!»
... e entre a morte de uns
e a falência de outros,
alguém há-de escapar!

Um dicionário e uma palavra – 4

A mercadoria como artigo de dicionário, ou “entrada”?… já lá vamos.
Antes, ainda, e por causa daquela discussão que referi em anterior mensagem, deixo ainda uma última citação de Pierre Vilar (e muitas mais faria, ou virei a fazer, noutros tempos e lugares). Diz ele: «Depois de Sweezy, Schumpeter, Joan Robinson, deixou de se discutir em Marx a sua qualidade de economista teórico (como o fez Keynes e o faz ainda P. Bigo); mas será igualmente errado procurar nele o economista puro (sublinhado no original), que da economia faz uma filosofia de existência. Definimo-lo como “o primeiro cientista que propôs à verificação experimental uma teoria da evolução das sociedades”.»
Estarei agora (mais) liberto para tratar do que motivou esta série de mensagens. Da mercadoria enquanto “entrada” no Dicionário de Jean Romeuf.
O certo é que confrontei, de novo, o facto verdadeiramente insólito de um dicionário de economia “sério”, com uma posição em que se lhe pode encontrar uma preocupação científica – até pelos colaboradores e a “abertura” –, não trazer a “entrada” mercadoria ao chegar à tradução para edição em português.
Ainda algumas notas prévias deixarei, por exemplo com referência a um projecto frustrado, como tantos outros e, como tantos outros, retomados mais adiante e de outras formas, que foi o do Pequeno Dicionário de Economia (PeqDicdEc),
editado pela Prelo, que tinha a intenção bem explícita «… talvez mais do que qualquer outro (…) ser simples, directo, o contrário do especulativo. E curiosamente (ou, talvez…, dialecticamente) aparece aliciante a oportunidade de, por forma complexa, apresentar o simples, de, por hipérbole, afirmar o directo, de, com especulações, se negar a intenção especulativa.»
Ser simples, directo… uma obsessão que, no entanto, não pode ceder um milímetro à facilidade, á ausência de rigor!
As palavras, o vocabulário! Dizia Emílio Bottigelli (citado na introdução do PeqDicdEc): «O problema da exactidão do vocabulário é um problema delicado. É certo que durante algum tempo subsistem em Marx termos que estão relacionados com conceitos antigos, mas cujo conteúdo é novo. Mas como é possível apartar o que representa sobrevivência, e se tornará caduco, daquilo que é sinal de um pensamento novo? Como é que se pode datar a transição de um pensamento científico?»
E... sobre mercadoria?
No PeqDicdEc, que era um dicionário atípico, com as palavras a “arrumarem-se” não por ordem alfabética mas por um critério (claro que muito discutível) de oportunidade, nesses anos de 1974 a 1978!, lá está, mas apenas no 4º volume porque, antes, pareceu importante (se alguma tinha ou teve) definir e reflectir sobre nação, economia política, teorias económicas, valor, exploração capitalista, classes sociais, classe operária, classes médias, sindicato, mais-valia, trabalho, estatística, “entradas” do 1º volume.
Era o meu blog de então…

sexta-feira, setembro 17, 2010

Alexandria 2 – PARAGEM A CAMINHO DE

Esta é uma viagem ao (re)encontro de um (de quatro) livro(s).
A paragem no Cairo é para escala, recordar e tomar balanço. Mas o Cairo impõe-se.
Já o conhecíamos – mal – e estamos a conhecê-lo – mal – de forma diferente. Hoje é sexta-feira, e de manhã, ao sair do hotel, aqui nas cercanias estava tudo fechado. É o dia para descanso semanal e para rezar. O guia explicou-nos, como quem fala da sua vida.
São perto de 20 milhões, os habitantes do Cairo. O dobro dos portugueses em Portugal! E para quem veio de uma pequena aldeia de centenas (e escola fechada), de um concelho de dezenas de milhar, 20 milhões, mesmo adormecidos, quase assusta. O que vimos ontem à noite é que assustou mesmo e, à medida que foi correndo o dia, fomos vendo a cidade a acordar, aqui e ali diferente como se a viagem cá dentro nos transportasse a várias cidades.
Há uma cidade cinzenta, degradada, empoeirada, há a “cidade dos mortos”, um extensíssimo cemitério com 200 mil vizinhos habitantes vivos, ou ainda sobreviventes, há a cidade dentro das mesquitas, onde se manifestam com grande aparato policial às portas para que de lá não saia a manifestação, há, do outro lado das pontes, uma cidade que parece europeia (burguesa)… observámos nós. Não estou, evidentemente, a fazer uma crónica de viagem, mas tão-só a trocar umas impressões convosco. É impressionante, melhor: é impressivo este sentimento de estar num outro mundo. Fiquei marcado por aquela informação de que este ano é o ano 6 mil e tal de um talvez primeiro calendário, eu que tão orgulhosamente refiro 8 séculos de (nossa) História.
E sentir-me-ia esmagado se me tivesse surpreendido a pensar nestes milénios de História em que tropeço, nesta ideia de antiguidade que nos toma aqui, em tudo o que aqui começou e por aqui passou. O guia falou-nos dos romanos, e dos gregos, e dos árabes, e dos mameluques, de Mohamed-Ali, e dos franceses, e dos ingleses, e dos chiitas, dos sunitas e dos fatimistas, e de mais estes e de mais aqueles, e depois disse que só em 1952 os egípcios começaram a governar o Egipto.
Os egípcios? Há "os egípcios"? E governam o seu País com nem sei quantos milénios antes de Cristo e mais os que vieram depois (e estamos nós – tão pequeninos – no 3º milénio recém-começado), governam este Egipto, hoje com mais de 80 milhões, e dependente do turismo e de “ajudas” financeiras externas?
Como o mundo é antigo e grande! E como há quem julgue – e actue – como se o mundo tivesse nascido quando ele foi parido e acabará quando ele for" desta para melhor" (e para que seja "melhor que esta", rezam, confessam-se e penitenciam-se dos pecados menores, e fazem caridadezinha para compensar os pecados maiores).
E sinto – estou a sentir coisas… – que há… os egípcios, como uma massa de gente que está ligada a toda a que antes de si aqui viveu. E o que viveu!

Um CONHECIDO humorista que nos fez “sair do sério”.

Ricardo Araújo Pereira é um profissional do humor. Achava-o um bom profissional, e achava-lhe graça. Já me fez rir muito...
Há tempos que só o via, de relance, a fazer publicidade. A ganhar tristemente a vida. E sabia que fazia crónicas para um semanário que não costumo ler.
De súbito, tenho notícias dele.
De repente, para mim, perdeu a graça toda. E dificilmente a recuperará porque colocou a sua qualidade profissional ao serviço de uma campanha baixa, suja, com PCUS e Brejnev como “bengalas” para atacar o PCP e um seu “desconhecido candidato”.
Se se tratasse de desculpar a “gracinha”, RAP teria ainda menos desculpa porque ele sabe que se tivesse continuado onde já parece que esteve, ainda seria desconhecido ou quase, independentemente da qualidade (potencial) que o poderia fazer (e fez) um profissional de sucesso na área do humor. Conhecido!
Tem su€esso e é conhecido. Pena é que não tenha guardado uns restos de seriedade.

As eleições para a Presidência da República - reflexão 5

Nenhum candidato que mobilize votos do eleitorado “de esquerda” é a mais!
Perguntar-se-á: mas isso não representa “afunilar” as eleições para Presidente da República numa luta por uma segunda volta?
Poderia ser – e secundariamente será – se não houvesse outros objectivos. E há!
Como sempre, o objectivo de transformar uma campanha eleitoral numa sucessão de actos que, aproveitando as eleições, sejam mobilizadores, esclarecedores, de tomada de consciência das massas.
Colocada a ressalva, retome-se a via dos números.
Neste momento, há 4 candidatos reclamando-se “de esquerda”, ou procurando mobilizar votos de eleitorado “de esquerda”. Um não o será explicitamente, na ambiguidade que caracteriza a sua candidatura, mas tem por detrás quem procurará fazer esse “trabalho” e, com a sua tão decantada "esperteza" de experimentado animal político – aliás, com recentes resultados que bem contrariam esse decantamento… mais parecendo desencantamento – ir ganhar eleitorado neutro (?) ou “de centro”.
Assim, vindo de 2006, ter-se-ia um potencial eleitorado que se transferiria para o candidato apoiado pelo PS e pelo BE e. em vez de 3 escolhas, passaria a ter… 3 escolhas, assim podendo fugir-lhe algum. Que é preciso reter... votando!, procurando que não parta para a abstenção ou para votos brancos ou nulos.
Bem como, ao nível de todos os candidatos, é preciso lutar contra a abstenção e contra os tais 100 mil que, nas urnas, teriam expressado o que quer que seja, votando branco ou nulo, o que fez faltar os 32 mil votos expressos que elegeram Cavaco Silva, dando uma imagem - que é a que existirá... de um vencedor à vontade nas eleições de 2006 e de candidato privilegiado - que não é real mas construída, e nada favorável para o lado subjectivo das lutas.

Album - 13

Na “cerimónia” da defesa da minha tese de doutoramento tive surpresas. De presenças e de ausências. O abraço que Vasco Cabral me foi dar ao ISEG foi das melhores. O Vasco, colega ali licenciado, foi um dos heróicos combatentes pela independência da sua Guiné-Bissau, e a que procurou dar o melhor de si. Sem os resultados por que tanto lutou.

Soube-me bem voltar a sentir este abraço (com o meu filho Gonçalo em fundo… tão novinho!)



A LUTA É A MINHA PRIMAVERA

a luta
é a minha
primavera

sinfonia de vida
o grito estridente dos rios
a gargalhada das fontes

o cantar das pedras
e das rochas
o suor das estrelas!

a linha harmoniosa dum cisne!


Vasco Cabral

Um dicionário e uma palavra – 3

Na enumeração e avaliação dos elementos da teoria económica no marxismo, Pierre Vilar, no Dicionário de Romeuf, trata das leis tendenciais. O que pode ter vindo ao enconro de uma recente discussão em que participei a propósito de um livro.
Diz Pierre Vilar que se reprovaram a Marx contradições entre fases da sua análise, mas logo acrescenta que qualquer passagem de um “modelo”, de uma conceptualização (mesmo que nascida no concreto) para o concreto implica dificuldades desse tipo, e recorre a Lenine para o confirmar, citando-o: «a redução do valor – que é social – aos preços – que são individuais – não se dá de forma simples e directa; segue vias complicadas.» (tal como em: pg. 19, Karl Marx, Tomo I de Obras Escolhidas de Lenine, edições avante!).
Ora, como ainda sublinha Pierre Vilar, o racional ao nível do indivíduo contraria (pode contrariar) o racional ao nível social, que tenta vencer, e as leis tendenciais exprimem esses desequilíbrios.
E (cito): «A própria fórmula da “composição orgânica mostra que o seu aumento fará baixar a taxa de lucro “geral” (à escala social). Há, no entanto, forças contrárias a esta lei: aumento da exploração da força de trabalho, baixa do valor do equipamento, superpopulação relativa, comércio externo) [o que mostra que P.V. leu, embora não o cite expressamente, o livro 3º de O Capital]. Pode-se acrescentar, hoje [em 1960!] o apoio do Estado ao capital, e os monopólios: mas inversamente e a favor da lei jogam a acção dos trabalhadores e os seus resultados (menor jornada de trabalho). A resultante “tendencial” é difícil de verificar estatisticamente, os hábitos de contabilidade não permitem distinguir bem o “lucro” no sentido marxista, e ainda menos a sua “taxa geral”. A baixa desta é, aos olhos de Marx, “a expressão específica do modo de produção capitalista para o desenvolvimento progressivo da produtividade social do trabalho” (O Capital, III, Costes, t. X, p. 122). Será isto o mesmo que dizer que a procura do lucro individual mata o capitalismo, em benefício da produtividade social? Dialecticamente, sim. Mas acontecerá isso, harmonicamente?»
Interessantes (e polémicas) perguntas e respostas.

E a mercadoria, como artigo, ou “entrada”, no dicionário? Já lá vamos!

quinta-feira, setembro 16, 2010

poemas cucos - 24

Para cuco... cuco e meio! Obrigado a quem me chamou a atenção cá para uma vergonha que não temos


À maneira de
Sophia de Mello Breyner Andersen


CANTATA DA PAZ e da luta

Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar

Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.

A bomba de Hiroshima
foi crime hediondo que não esquecemos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças

De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.

Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.

Alexandria 1 - COISAS A CAMINHO DAS COISAS…

(pessoal mas transmissível)

Para impressionar – só pode ser… - a revista de bordo, a Horus, atira-me com o ano de 6252, como sendo o ano em que estamos naquele que é o primeiro calendário que os seres humanos criaram, e deseja-nos Happy New Year, e o pessoal (também) de bordo oferece-me um livrinho da Vodafone – “isto” é-me familiar… - com um caloroso Welcome to Egypt. Devia daqui "scanear" umas coisas…
Estou a bordo, claro, e tenho nos ouvidos um som arábico. Tipo goma. Daqui a bocado parece-me que nos vão dar uma refeição e um filme. Depois do que nos esportularam, esta gente farta-se de nos dar coisas…
O avião vai cheio. Cheiínho. Só lá do oriente, mesmo dos extremos asiáticos, uma daquelas excursões de muitas pessoas amarelas, pequeninas, formigueiro num carreiro, passo ainda mais miúdo que elas, olhos em fenda e muitas vénias. Este aqui ao lado já bateu com o queixo no peito a propósito de tudo e de nada, a agradecer-me sei lá o quê, umas coisas…
Ah!, entre muita outra gente – o avião vai cheiínho – acidentalmente ocidental, há muitos casais de noivos ou namorados (mas pouco efusivos… nenhum parecendo em lua de mel) e um grupo de balzaquianas (no tempo de Balzac eram-no aos 30, agora são-no lá para os 50 e upa, upa), a que chamei as desquitadas do Nilo. Isto digo eu, que gosto de dizer coisas…
Vamos, este casalinho em que ela dorme o habitual sono voador de boca aberta, festejar um certo 16 de Março, não o de 1974 (o festejo deste foi adiado para 25 de Abril) mas o de 1947. E tinha de ser em Alexandria. Cá por coisas…
Depois, conto mais coisas…
Ah!, e trouxeram a tal refeição. Sem bebidas com álcool. Ele há cada coisa…

5 de Outubro de 1910 e a República Portuguesa

É significativa a atenção e a importância dada a Portugal e ao 5 de Outubro de 1910 por Lenine, antes da União Soviética.
Essa atenção reflecte-se, mais tarde, muito mais tarde, num interessante artigo de Nikolai Efimov, na revista Ciências Sociais da Academia das Ciências da URSS, traduzido no primeiro número dessa revista em edição portuguesa de edições avante!, no ano de 1978.
É também de referir que esta revista (trimestral) começou a publicar-se na União Soviética em 1970, como repositório de trabalhos da Secção de Ciências Sociais da Academia das Ciências da URSS, e se publicava, então, em inglês, francês, espanhol e alemão.
Com 18 páginas, o autor começa por traçar uma sucinta panorâmica da situação económica e política portuguesa no final do século XIX/começo do século XX, a partir de várias fontes, em particular relatórios do embaixador da Rússia em Lisboa, segundo os Arquivos da Política Externa Russa (APER).
É interessante a atenção que merec a “Carbonária” e outras considerações. A que voltarei, Mais perto do 5 de Outubro.

As eleições para a Presidência da República - reflexão 4

Tendo sido esse o resultado, tendo sido eleito com uma margem muito diminuta (0,7 pontos percentuais) o actual Presidente da República, o que faltou ao eleitorado “de esquerda”. Ou o que é que houve a mais?
A mais, houve – e adianto uma opinião pessoal – as candidaturas perturbadoras de Mário Soares e de Manuel Alegre, desmobilizadoras de um potencial eleitorado “de esquerda” pela confusão que provocaram.
(E atenção: recordo a distinção, para mim fundamental, entre candidatos que se afirmam “de esquerda” - e fazem, sempre, política “de direita” - e eleitorado “de esquerda”.)
A menos
, terá havido não terem conseguido os outros candidatos, um a um, mobilizar mais votos, e/ou não ter, eventualmente (e estou a escrever em teoria...), aparecido mais um candidato que tivesse trazido eleitorado potencial a votar, não se abstendo, ou a não votar em branco ou a não votar nulo.
.
E teriam bastado pouco mais de 30 mil votos (a diferença foi de 32221!), cerca de 0,35% do universo eleitoral e de 0,6% dos que votaram, e menos de 1/3 dos que votaram branco ou nulo!
Estou a reflectir sobre a primeira volta, em que nenhum candidato é demais, desde que mobilize para o voto o eleitorado "de esquerda".

Uma manhã de pressões

Ele é o Ecofin(o), ele é o Ecogrosso, ele é o Conselho Europeu, ela é a Merkl, ele é o Nicolau Santos, eles são os correspondentes em Bruxelas ou no raio que os parta!
Uma manhã de pressões, de preparações.
Aumentar os impostos (para quem?, para quem tem lucros exorbitantes?, para os bancos?)
Diminuir as despesas (quais?, as submarinas?, as exibicionistas?, as anti-sociais?, as desnecessárias?)
.
Temos uma palavra (a última!) a dizer!

Um dicionário e uma palavra – 2

A “entrada” Marxismo, no dicionário de Romeuf, da autoria de Pierre Vilar, é muito interessante. Aprende-se com ela, ainda que lida com décadas de intervalo.
Primeiro, ressalva-se a actualidade do marxismo – então e hoje – por vezes não acompanhada, aqui e ali por deficiente leitura pela actualidade de quem lê. Apesar de Pierre Vilar fazer uma leitura séria e atenta da formação do pensamento marxista, dos elementos da teoria económica e dos elementos da teoria sociológica, e do marxismo depois de Marx e Engels, que necessariamente termina (a leitura…) no começo dos anos 60 do século passado.
É todo um caderno (16 páginas) do fascículo 17 e, nesta abordagem da actualidade i) do pensamento marxista e dos elementos da sua teoria económica e ii) da leitura e avaliação desse pensamento e teoria, bem parece que é esta última que não tem em devida conta a actualidade da primeira. Vilar afirma que “Para Marx (…) nenhum fenómeno fiduciário tem sentido económico profundo”, logo acrescentando que “o mundo actual submeteu estas teses a dura prova”, embora sublinhe que “não se conclua que Marx tratou superficialmente do papel da moeda”. Há, no entanto, que lembra o que o próprio Marx escreveu, dando bem expressão ao que de mais valioso tem o marxismo, o seu permanente enraizamento na realidade e a sua abertura às futuras realidades: «Na consideração das formas universais do circuito e, em geral, em todo este Livro segundo, tomamos [o] dinheiro como dinheiro metálico, com exclusão do dinheiro simbólico, meros signos de valor que apenas formam uma especialidade de certos Estados, e [com exclusão] do dinheiro creditício, que ainda não está desenvolvido.» (pg. 124 do Tomo IV do Livro 2º de O Capital, edições avante!).
Sublinho a expressão “ainda não está”, pois é a partir de o que está, mas não deixando de prever o que venha a estar que Marx pensa e teoriza.
Cabe aos marxistas, no tempo em que estão, continuar esse exercício. De seriedade, de (/ao serviço da) humanidade. Tarefa empolgante. Que tem de ser ambiciosa e humilde.
Voltando ao Dicionário de Romeuf, e ao extenso e interessante artigo de Pierre Vilar, aproveite-se ele afirmar que «os verdadeiros discípulos de Marx tiveram menos cuidado em requintar uma teoria económica, considerada praticamente suficiente, do que em fazer da teoria sociológica de Marx um instrumento da análise política para a acção.»
Faz muito pensar esta frase! Desde logo, dizer que o "discípulo de Marx" que mais e melhor fez do marxismo um instrumento para a acção, e que foi Lenine, tem trabalho inestimável de “requinte” da teoria económica marxista; depois, dizer que, na verdade, é erro de lesa-marxismo considerar suficiente a sua teoria económica. Há que a aprofundar no confronto e na análise da realidade, e a partir dos elementos da teoria económica marxista que lhe são intrínsecos.

(já volto)

quarta-feira, setembro 15, 2010

Entre mortos e falidos...

Keynes dizia que a longo prazo estaremos todos mortos. Disse muito mais coisas, mas esta ficou como uma daquelas frases que fica para a História. Talvez porque se queira que frases como esta tudo sintetizem de um momento, de uma situação, de um pensamento, apesar de permitirem muitas e diversas leituras.
Agora, Jacques Attali

vem dizer que a curto prazo – dez anos! – estaremos todos falidos. E até, para melhor promover a sua inscrição na pequena história - que daí não passará, não obstante assessorias a Mitterand -, colocou-a na capa de um livro. Este “todos” somos nós, mas é muito mais o todo que somos como países... mas não todos os países porque é uma frase (e uma leitura) feita a partir de um centro do mundo e de um sistema que se recusam a deixar de ser como são.
Por isso, na ausência de, ou na não aceitação de outro mundo ou de outra maneira de viver o mundo, o destino nosso (de quem?) é o de falirmos porque não pode ser o de continuarmos a acumular cada vez mais capital-dinheiro nas mãos de cada vez menos. Aqui, neste centro do mundo e neste sistema, espalhe-se ele por que off-shores se espalhar.
Pátria ou morte, gritou-se. Então… a longo prazo, estaremos todos mortos.
Capitalismo financeiro ou falência. Então… a curto prazo estaremos todos falidos!
.
De Attali, além do título e da súmula no meu semanário de (des)predilecção, não sei se lerei mais. Como me dizia (mais ou menos) um amigo e camarada, era o que me faltava ter de comer as peras todas, obrigado a “saborear” as que se vê mesmo pisadas e “com bicho”, e ficar sem apetite para as que estão sãozinhas “como um pêro” e têm um gosto sempre novo e especial, que em cada uma se encontra sempre a razão de ser pêra… e a explicação para as mortes de longo prazo e as falências a dez anos.
Não que não tenha nada para aprender. Bem pelo contrário. Tenho é pouco tempo para tudo aprender onde há tanto para aprender em cada leitura que se faz de Marx, em cada reflexão que suscita. Apenas ler Marx? Claro que não. Mas, em Marx, procurar as "chaves" da compreensão das coisas e das outras leituras.
Podem acusar-nos de saber pouco do que por aí se publica. Pois é, mas “eles” pouquíssimo sabem – e nada querem saber (quais avestruzes…) – do que Marx escreveu e deixou pistas para que escrito fosse. Quer Attali, quer Keynes não terão em grande conta Marx como economista teórico. É problema deles, embora o queiram transformar em problema nosso.
E se Keynes ainda conseguiu “dar uma mãozinha” – e que mãozada! – ao capitalismo, com a intervenção do Estado na economia (aos serviço dos monopólios criados ou a criar) e essa coisa da procura efectiva, com a lucidez de ver que a economia tem de estar ligada à satisfação efectiva das necessidades das gentes, os actuais Attalis mostram, nas suas leituras, uma total incapacidade de sairem da teia da financeirização, do défice orçamental e da dívida pública, que outros montaram, curiosamente a partir da opinião contrária de Keynes.
É o dinheiro que se quer que tudo valha a nada a valer. É o dinheiro simbólico de que Max pouco falou mas adivinhou como possível nas dinâmicas do capitalismo que conheceu e dissecou se seguissem o caminho que seguiram. São as finanças, estúpidos.
Essa é a falência!

As eleições para a Presidência da República - reflexão 3

Voltemos então aos números.
Com quantos votos foi eleito, em 2006, o actual Presidente da República, o único que não se apresentou como sendo “de esquerda”?
A ideia que julgo estar arreigada, que será “comum”, é a de que foi uma vitória à primeira volta, folgada, e que o actual Presidente da República foi confortavelmente instalado no lugar.
Pois foi à primeira volta, sim senhor, mas não foi nada folgada, e o Presidente da República em mandato não teve qualquer conforto na margem de eleitorado total, de nenhum modo esmagou o que chamo eleitorado “de esquerda” .
1. Cavaco Silva em 8,8 milhões de eleitores inscritos, obteve 2,7 milhões, isto é, alcançou menos de 1/3, 30,7% do universo eleitoral.
Houve 3,3 milhões de abstencionistas, pelo que só votaram 5,5 milhões, isto é, 62,5%. E não custa a crer que, nos 37,5% de votos possíveis que foram abstenção, abundem os eleitores “de esquerda” enquanto Cavaco Silva terá mobilizado o eleitorado “de direita”.
2. Ora, assim sendo, do total dos votantes, Cavaco Silva teve, com os votos em si expressos, 49,1%. O que. aparentemente, não chegaria para ser eleito à primeira volta.
No entanto, dos votos expressos, 59 mil foram em branco e 43 mil foram nulos, o que dá um total de 102 mil votos não expressos em candidatos, o que dá 1,2% do universo eleitoral e 2,1% dos votos expressos.
3. Feitas as contas todas (por agora) o actual Presidente da República teve 50,7% dos votos expressos em candidatos, o que lhe deu escassa maioria possibilitadora de eleição à primeira volta.
Todos os presidentes da República após 1974 foram eleitos à primeira volta com excepção de Mário Soares em 1986, com 51,2% (os "de antes", do fascismo, foram todos "eleitos" à primeiríssima!...). Em 1976 com 61,6%, em 1980 com 56,4%, em 1991 com 70,4%, em 1996 com 53,9% e em 2001 com 55,8%.
.
Era esta a ideia que tinham?

Um dicionário e uma palavra – 1

O dicionário é o Dicionário de Economia, de Jean Romeuf, que sabia ter entre as obras (que deveriam ser) de consulta, e de que vi, há uns dias, uma possibilidade de comprar, nessas ofertas que aparecem pela net. Mesmo com o risco de poder vir a duplicar, achei que mais valia ter dois Romeuf na secretária que um por aí escondido, e logo me habilitei – até porque o preço era baixo…
A vendedora cumpriu com todos os prazos, veio por correio, paguei o que vinha à cobrança e só depois é que vi que não era o dicionário todo mas só das letras G a O…
Não, não fui enganado porque a oferta não dizia “volume completo”, e este que comprei está em bom estado... para o preço.
O facto é que fui procurar o que tenho dos fascículos e encontrei-os (claro!), do 1 ao 18, até à letra O e julgo que por aí se ficou a edição em português, pelo que fiquei em duplicado com desde meio do fascículo 12 ao fascículo 18.
.
Quantas memórias!
Este dicionário foi publicado em França em 1961, há quase 50 anos, sob a direcção de Jean Romeuf, com colaboração de Gilles Pasqualaggi e prefácio de Alfred Sauvy. Uma obra e tanto!
Algum tempo depois, começou a edição em português, em fascículo na Livros Horizonte, sob a coordenação portuguesa de João Pedreira Vilela e tradução de Rui de Moura e minha.
Além da tradução fiz também parte dos ditos colaboradores portugueses, para redigir algumas “entradas” que faltassem e actualizar ou “aportuguesar” outras, através de anexos. E foi uma dessas “entradas” que faltavam – a de mercadoria, de que me encarreguei – que me fez saltar para as teclas.
Antes de a ela chegar, algumas observações, citando:
1. De Sauvy, no Prefácio: «… a ciência é cumulativa: só pode progredir por heranças sucessivas de geração em geração. Toda a pedra bem colocada que não serve de apoio a outra pedra é uma pedra inútil. Eis porque, longe de ser um “género inferior”, todo o trabalho de agrupamento, de síntese, de compilação (não tenhamos medo da palavra), de difusão, tem um alto valor construtivo. E a excessiva raridade destes trabalhos realça ainda mais o seu valor.»
2. De Romeuf, na Introdução: «… ter-se-ia neste Dicionário hesitado entre duas fórmulas: a de enciclopédia e a de dicionário propriamente dito. Ora, é justamente de deliberado propósito que certos artigos apresentam a primeira forma e outros a segunda (…) Assim, se nos pareceu lógico tratar de maneira enciclopédica os termos Marxismo e Moeda, não aconteceu o mesmo com o artigo Sociedades, o qual, todavia, não devia ser excluído.»
.
Antes de tratar da “entrada” Mercadoria que, inexplicavelmente, não tinha lugar, nem enciclopedicamente nem dicionariamente, ainda me deterei no artigo 2, tal como foi redigido/traduzido há perto de 50 anos.

terça-feira, setembro 14, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 23 (Sophia)

Gosto de ler Sophia. Assim, com ph positivo! E não me inibo a mudar-lhe o tempo dos verbos (e não só), trazendo para hoje o que ela cantou ontem, como esta Cantata da Paz, de que o Francisco Fanhais fez canção. Vou "cucá-los" (aliás, de cada vez que a canta, o Xico Fanhais... "cuca")!




À maneira de
Sophia de Mello Breyner Andersen

CANTATA DA PAZ e da luta

Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar

Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.

A bomba de Hiroshima
foi vergonha de nós todos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças

De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.

Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.



As eleições para a Presidência da República - reflexão 2

“Há que transformar desânimos e resignações em esperança combativa!”.
Como há que dignificar a democracia, que credibilizar a política, que respeitar a Constituição. Mas há, também, quem tenha fundadas reticências a estas formulações…
Vivemos em capitalismo, esta democracia é “capitalista” (burguesa). Há que lutar contra esta democracia. Claro que sim! Mas… em todas as frentes, sem que a batalha numa frente nos possa distrair da que noutras frentes está a ser feita. E com uma intenção sempre presente, com a questão axial da nossa luta ter uma única prioridade: a de levar as massas a tomarem consciência de classe, a abandonarem abandonos, a desistirem de desistências, a lutarem e a conquistarem os seus direitos, o que é seu direito (e possibilidade!), serem mais felizes porque conscientes das suas necessidades (de cada um/a e de todas/os) e podendo satisfazê-las.
Riposte-se que esta “democracia” é burguesa assim porque a relação de forças sociais (de classe) assim o reflecte, e é tanto ou mais burguesa (“capitalista”) quanto menor for, nessa relação, a força da classe operária, dos trabalhadores, das populações, quanto mais frágil for a sua consciência, a sua expressão na escolha eleitoral que lhes é concedida… porque a conquistaram. Por vezes, historicamente…, com duras lutas.
Em 1910, a “revolucionária” lei eleitoral republicana ainda negava o voto às mulheres e aos analfabetos, o que, como escreveu Octávio Teixeira em O Militante (ver “mensagem” aqui publicada sobre a República) “significa que quer elas quer a generalidade dos trabalhadores fabris e do campo continuaram impossibilitados de elegeram e de serem eleitos”.
O mau uso dessa entretanto conquistada possibilidade, ou o até perverso uso desse direito, cada vez mais influenciado pelas campanhas mediáticas, deverá levar a desprezar ou menosprezar o que foi uma conquista?
ou,
quem se considera vanguarda, por estar mais adiantado – por circunstâncias de que é feito o ser humano, juntamente com os seus genes – na tomada de consciência social, a partir do estudo e conhecimento da História, deve lutar contra os maus e perversos usos da possibilidade que é um direito?
Direito de que, aliás – ainda perversamente!, numa das suas muito variadas maneiras –, a burguesia se vangloria, como se fosse apenas e só sua concessão, naquele impoluto, imaculado, percurso de promoção das liberdades e dos direitos humanos… que tem sido seu histórico percurso e apanágio!
.
Aproximam-se eleições. Presidenciais, isto é, com uma carga de escolha individual como nenhuma outra.
Já voltarei aos números. De 2006 e para 2011.

Reflexões curtas - a (in)compreensão

Um título para uma outra curta reflexão:

a incompreensão da dialéctica ou a dialéctica da incompreensão

Não que me esteja a atrever por terrenos que não são dos meus. Se de alguma poda sei é da poda das economias, e mesmo desta bem me tentam baralhar com tanta finança apodrecida à mistura. No entanto, para de algo saber, até da tal da economia, preciso de saber um mínimo de dialéctica.
Por isso, entendamo-nos: quando ataco o federalismo político-financeiro, numa União Europeia reflectindo o estádio da relação de forças (de classe), é porque estou contra ele, porque defendo a soberania nacional, porque só assim entendo o avanço de uma democracia que seja… democrática, no caso português assente em oito séculos de História.
Por outro lado, quando ataco – e tantas vezes o fiz e continuarei a fazer – a desvalorização, o desprezo, o abandono da coesão económica e social, e a diminuição do orçamento da União Europeia que para ela contribua ou preserva, não estou a ser incoerente. Não existe nenhum federalismo implícito ou escondido num reforço orçamental "comunitário". Mas já existe - e bem mais, e até mais perigoso que o federalismo - na coordenação-controlo dos orçamentos nacionais por uma qualquer entidade "comunitária", antes da ida aos respectivos parlamentos nacionais. É, pura e simplesmente inacreditável e inadmissível!
Uma Europa composta de Estados, soberanos e associados numa fórmula que o desenvolvimento das forças produtivas o exija, fórmula que salvaguarde essas soberanias, que esteja em permanente negociação, tem de cumprir princípios de solidariedade, e estes – condicionados pelo estádio da relação de forças (de classe) – implicam um orçamento comum que torne a coesão económica e social uma realidade e não um enfeite, uma expressão demagógica, um ludíbrio para enganar povos.

A CRISE DO CAPITALISMO NA EUROPA E NA UNIÃO EUROPEIA (Festa do Avante! 2010) - 5

Como se sairá daqui?

Como se sairá daqui?
A curto e médio prazo, só se pode esperar agravamento de tensões e contradições e deterioração de situações sociais, para além de toda enorme importância que tem a imagem que a comunicação social e a ideologia transmitem.
A saída do €uro (ou até da UE) aparece no debate. Desde sempre poderosas forças da finança transnacional foram muito reticentes à entrada dos países periféricos para o €uro.
Digo-o, polemicamente: pode surgir como falsa opção uma saída da moeda única que seja apenas uma centrifugação, um “empurrar para fora” que adie problemas ou o seu agravamento inevitável.

E que posição (de classe) tomar?

Que posição (de classe) tomar?
Genericamente, reforçar esclarecimento e luta de massas, reforçar luta e esclarecimento de massas; em cada Estado, nas suas condições concretas mas em rede de solidariedade, uma posição firme de denúncia do funcionamento do capitalismo, e da natureza de classe da integração europeia, com a condução da luta em todas as frentes, sendo uma delas a institucional no Parlamento Europeu, mas sempre como vanguarda da luta da classe operária e de todos os trabalhadores.
O funcionamento do capitalismo, tal como Marx o dissecou, nas condições objectivas (e históricas) que tinha para o fazer, confirma-se plenamente, comprovando a inevitável efemeridade do sistema de relações sociais de produção, e os perigos decorrentes das “soluções” de crise que passam pela destruição de forças produtivas são enormes dado a quantidade e a perigosidade do armamento existente. Há que lutar e esclarecer. Há que esclarecer e lutar. Não há alternativa. Ou melhor: esta é a alternativa!

segunda-feira, setembro 13, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 22 (palavras de cuco)

Depois do senhor José Fontinha, o poeta EuGénio de apelido de Andrade, fica-se sem palavras (ou só com cem?...). Depressa os atrevidos recuperam. Fazendo-se engraçados...



À maneira do
CUCO
(a divertir-se)



Palavra? Ou palavras, ou letras?
Palavra d’honra!
Sem palavras dizem uns, com cem palavras escrevem outros…
De todo o modo, troca-se* uma letra, e tudo muda.
Pois se muda a moda com o modo!,
ou será que muda o modo com a moda?
As palavras são volúveis, as palavras são solúveis.
(troquei - ou truquei? - os vês pelos esses,
e há quem troque os bês pelos vês,
e bice-versa ou vice-bersa**... )
Em vez de um o põe-se um a, e passa o outro a ser a outra.
Soma-se uma letra (pode ser a - ah, pode? há pode! -) e,
por mor do amor,
num nó nós nos podemos transformar.
E apalavrar (ou aparvalhar...)
.
Com palavras tudo se pode dizer,
apenas com palavras tudo fica por fazer
(e, ademais, nada de mais rimas em er!)
.
“What do you read, my lord?”
“ Words, words, words.”
.
Moral para o mural da estória, que não tem História:
Não queiras abalar levando a última palavra;
procura abanar fazendo o primeiro gesto.
Shakespereana foto aposta, fica posto o fa(c)to*** feito.
Pré-feito e perfeito! (é como quem diz, ou quem a si dá dez...)
_________________________
* - Não se muda, cambia-se se for de câmbio a letra.
** - Ah!, vem bista esta, não esta´?
*** - Quando acordo eu para o acordo ortográphico?

As eleições para a Presidência da República - reflexão 1

As eleições para a Presidência da República são em um candidato e regem-se segundo normas que nem todos conhecemos bem.
Há candidatos e há um eleitorado.
Os candidatos são individuais mas não são, de modo algum, independentes de uma posição e de um projecto político. O eleitorado não vota numa pessoa, vota na avaliação que faz do que cada candidato tem sido na vida política e do modo como se propõe desempenhar do cargo a que se candidata.
Pode dizer-se, simplificando, que já há candidatos que se afirmam “de esquerda” mas o que mais importa é que há um eleitorado “de esquerda” que não pode, de modo algum, rever-se na candidatura de quem sempre protagonizou o projecto político de direita que, em alternância, tem sido levado à prática, com mais de uma década como primeiro-ministro e com um mandato de PR em que deixou clara a sua posição, mesmo quando, por cálculo, promulgou contra a sua explícita e expressa vontade.
Nas últimas eleições, de 2006, a candidatura de Jerónimo de Sousa, sem nome do PCP, contribuiu decisivamente, contra o que outros fizeram, para quase impedir que Cavaco fosse eleito à 1ª volta. Porque mobilizou massas, porque foi esperança combativa, porque venceu muita resignação, muita desesperança, muita desorientação nalgum eleitorado.
Os números confirmam-no.
Em 2006, apesar desse enorme esforço e mobilização, do universo eleitoral, abstiveram-se 37,5%, votaram 62,5%, e 1,2% desse universo total, ou votaram em branco ou votaram votaram nulo, e muitos mais teriam sido sem essa candidatura e campanha.
Apenas contaram para a passagem à 2ª volta 61,4% dos eleitores possíveis. Cavaco Siva recolheu 30,7% do total do eleitorado, o que dá precisamente 50% dos votos que contaram para a passagem à 2ª volta, ou seja, daqueles que exprimiram o seu voto escollendo um candidato.
Bastaria que, com a mesma abstenção, 1/3 (um terço!) dos votos brancos e nulos tivesse votado (e não em Cavaco) para que tivesse havido 2ª volta!
É fundamental, para derrotar Cavaco, que o eleitorado "de esquerda" não se abstenha, tenha onde votar, isto é, tenha quem mereça a confiança do seu voto, que esse eleitorado, tantas vezes mal informado, tantas vezes flutuante, não se resigne à abstenção, ao protesto branco ou nulo, que é a forma de votar contra si!
Como afirmou Francisco Lopes, na sua apresentação de candidatura: “Há que transformar desânimos e resignações em esperança combativa!”
(Continuarei com mais números,
em cenários para 2011)

5 de Outubro e a República Portuguesa – 1

O Militante de Setembro/Outubro de 2010 publica um artigo de Octávio Teixeira sobre A República e as questões sócio-económicas.
Trata-se do texto-base da intervenção de O.T. mo âmbito dos colóquios “Falando da República”, promovidos pela Assembleia Municipal de Bragança, neste ano em que se comemora o centenário do 5 de Outubro de 1910.
Em três páginas da revista (era tão importante que a nossa imprensa fosse lida e discutida por nós!…), O.T. traça o contexto das questões económicas e financeiras e das questões sociais que antecederam e foram contemporâneas da implantação da República em Portugal.
Sublinha-se a semelhança de algumas situações com a actualidade, como a situação de endividamento e de dependência financeira, a importância da banca, a especulação, a corrupção. Também anoto a referência à forte emigração que antecedeu a “revolução”, emigração então para o Brasil e com a diferença de representar um corte dadas as condições de comunicação de então.
De qualquer modo, ao ler este e outros trabalhos sobre a data histórica de há 100 anos, aparece a característica não de repetição da História mas a sua evolução "helicoidal" que faz com que pareçam repetir-se os tempos e as situações.
Apenas ainda anotaria, e não como crítica, que mesmo num artigo tão necessariamente curto falta uma referência ao papel da Maçonaria, - sobretudo da associação secreta Carbonária a ela ligada -, com grande influência nos acontecimentos do começo do século XX, e que, neste centenário, parece querer assumir, à sua maneira, algum protagonismo.
Voltarei a estas comemorações, até porque na procura de outras fontes para outros trabalhos “entre mãos”, encontrei um interessante trabalho publicado no nº 1 da edição portuguesa da revista Ciências Sociais da Academia das Ciências da URSS, de 1978, com o aliciante título “A revolução de 1910 em Portugal”, que, aliás, como Octávio Teixeira refere e cita ,mereceu a atenção de Lenine.