Não, e a minha ignorância talvez não devesse existir, ao que me parece. Aquela mancha é, como se calhar toda a gente sabe…, uma “nódoa negra” resultado da fricção da testa no tapete em que se fazem as muitas orações do dia.
Passei a ver, naquele sinal, uma indicação do grau de fervor religioso de quem o mostra. Falei, vagamente…, deste assunto com o guia que nos mostrou 8 horas de Cairo, almoçou connosco uma excelente refeição, partilhada também com o motorista, um simpatiquíssimo e bonacheirão Mohamed, com quem fizemos a viagem até Alexandria.
O jovem disse-nos da sua fé – que ainda não deu para mancha na testa… –, e teceu algumas considerações curiosas sobre religião. É crente, faz as suas orações, e diz que não quer cá intermediários para as relações com o seu deus (logo existe…). “Vocês é que se confessam e pedem perdão dos vossos pecados a quem terá pecado mais que vocês… eu não, é tudo directo com quem não peca, só Ele me pode perdoar.” (a maiuscula é dele e respeito-a...). Não estava mal visto, respondi-lhe eu, mas esclareci-o que não tinha esse problema, que para mim nem deus, nem padre, um pouco como os do “ni dieu, ni maître”. Mas só um pouco.
E ficaram por aí as nossas conversas teológicas.
Respira-se religiosidade por aquelas bandas. Mesquitas em grande quantidade, algumas igrejas (uma de S. Sérgio, ora tomem!, que resistiu aos romanos que perseguiam os católicos), umas sinagogas. Mas os tapetes e a reza na rua, as setas para Meca nos hotéis, sobretudo o apelo à oração, enchendo de um som ondulante e quase anestesiante as ruas, criam um certo ambiente.

– no museu da Biblioteca, por exemplo –, ele tem o sinal bem visível, quase ostensivo. O que não encontrei em Nasser ou em Mubarak. Daqui, não se tirem quaisquer ilações. Já não diria o mesmo do facto de Sadat ter sido vice-presidente de Nasser, que substituiu em 1970, e ter sido substituído por Mubarak, que era seu vice-presidente em 1981. Mas isto já são coisas da área da política….

É um artigo de leitura necessária, indispensável.
A segunda, para dar conta de um louco mergulho numa multidão a fazer compras numa estreita e comprida rua. De loucura! Tínhamos pensado que, por ser domingo seria mais calmo que o que nos diziam. Mas nunca poderá ser mais do que o que vimos e aquele banho em que estivemos metidos! Ou é sempre assim. ou foi por este domingo terem começado as aulas. Na verdade, o que mais se mercava eram artigos escolares, cadernos, lápis, borrachas… tirando tudo o resto.


editado pela Prelo, que tinha a intenção bem explícita «… talvez mais do que qualquer outro (…) ser simples, directo, o contrário do especulativo. E curiosamente (ou, talvez…, dialecticamente) aparece aliciante a oportunidade de, por forma complexa, apresentar o simples, de, por hipérbole, afirmar o directo, de, com especulações, se negar a intenção especulativa.»
Há uma cidade cinzenta, degradada, empoeirada, há a “cidade dos mortos”, um extensíssimo cemitério com 200 mil vizinhos habitantes vivos, ou ainda sobreviventes, há a cidade dentro das mesquitas, onde se manifestam com grande aparato policial às portas para que de lá não saia a manifestação, há, do outro lado das pontes, uma cidade que parece europeia (burguesa)… observámos nós. Não estou, evidentemente, a fazer uma crónica de viagem, mas tão-só a trocar umas impressões convosco. É impressionante, melhor: é impressivo este sentimento de estar num outro mundo. Fiquei marcado por aquela informação de que este ano é o ano 6 mil e tal de um talvez primeiro calendário, eu que tão orgulhosamente refiro 8 séculos de (nossa) História.

E que posição (de classe) tomar?
