sexta-feira, janeiro 20, 2012

Até onde eles irão?

Há que ler crónicas como esta!

avante!
crónica internacional


Escalada de guerra

A escalada de agressão (nas suas dimensões política, económica e militar) que os EUA (e os seus aliados) levam a cabo contra os povos do Médio Oriente atingiu um sério e perigoso patamar, perante as ameaças de intervenção militar na Síria e de confronto directo com o Irão.
Acompanhando o anunciado e previsível termo da missão de observadores da Liga Árabe – que não terá cumprido, até ao momento, o papel de ingerência e de deturpação da realidade como era intenção dos EUA e dos seus aliados da NATO e do Conselho do Golfo –, é abertamente colocada, pela voz do Emir do Qatar, a intervenção militar directa na Síria.
Dando mais uma machada nas Nações Unidas e nos princípios consagrados na sua Carta, Ban Ki-moon, que ocupa o lugar de secretário-geral desta organização, incita «convenientemente» ao branqueamento e ao apoio do Conselho de Segurança à agressão contra a Síria – o que é correctamente rejeitado pela Rússia e pela China.
Por seu lado, a Rússia denuncia os planos de intervenção militar na Síria, que terá origem e base de apoio na Turquia, país membro da NATO que já assume um papel fundamental na operação de ingerência, de desestabilização e de agressão à Síria.

Neste quadro, o governo sírio implementa medidas com o objectivo de promover o diálogo e assegurar a unidade nacional, enquanto grupos armados continuam a boicotar qualquer solução negociada, perpetrando sabotagens e atentados contra objectivos económicos, contra a população e contra as forças sírias, procurando criar o caos e a insegurança e, se possível, a situação que possa ser utilizada para camuflar a intervenção militar directa desde há muito planeada pelos EUA e apoiada pelos seus aliados da NATO e na região.
Ao mesmo tempo, os EUA adoptam novas medidas contra o Irão, legislando a imposição de sanções (dentro de seis meses) a qualquer empresa ou país que efectue pagamentos através do Banco Central do Irão, nomeadamente para a aquisição de petróleo a este país – o que representa, para todos os efeitos, uma declaração de guerra no plano económico e uma manobra com profundas e imprevisíveis consequências para a situação económica de diversos países e ao nível mundial.
Não esperando pelo inicio do Verão, a administração norte-americana procura desde já o apoio da União Europeia e do Japão para o isolamento económico e o asfixiamento financeiro do Irão, advertindo e ameaçando com sanções os países que não acatem o seu ditame. No entanto, esta medida não tem o apoio da Rússia, da China (país a que os EUA já sancionaram uma empresa ao abrigo desta nova medida), da Turquia (que importa do Irão grande parte do petróleo de que necessita) e de outros países.

Sublinhe-se que os EUA adoptam esta nova medida contra o Irão no momento em que concentram (com os seus aliados da NATO) enormes meios militares no Golfo Pérsico – isto é, junto ao Irão –, e em Israel (único país que possui armas nucleares no Médio Oriente) e fornecem significativo e moderno equipamento militar aos seus aliados do Conselho do Golfo. O Irão é ainda confrontado com todo o género de provocações e ilegalidades, de que são exemplo o assassinato de cientistas ligados ao seu programa de energia nuclear – que assegura ter fins pacíficos e ser seu direito desenvolver – ou a violação das suas fronteiras por drones de espionagem dos EUA.
No fundo, os EUA procuram encurralar o Irão, arquitectando o pretexto para mais uma etapa da guerra imperialista, que visa o domínio da Ásia e do Pacífico.
No momento em que se confrontam com a agudização da sua profunda crise, a escalada de guerra promovida pelos EUA no Médio Oriente representa uma ameaça não só aos povos e países que não se submetem nesta região, mas a todos os povos do mundo que reclamem o direito ao exercício da soberania e ao desenvolvimento económico dos seus países – pelo presente e pelo futuro há que detê-la!

Pedro Guerreiro

... e responder com o nosso contributo,
por ínfimo que seja.
Nem que seja, apenas, o de informar,
de fazer circular informação

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Brevíssima - Biltre

A argumentação de João Proença na rádio, ao "fugir com o rabo à seringa", tem muitos nomes.
Agora ocorre-me o de biltre!

Hoje é 5ª feira!


Breve - O homem está no mercado desde há décadas

Em artigo inqualificável (desde que se usem critérios éticos ou de decência, e que apenas se justificaria como defesa em "julgamento em tribunal"...), assinado por Eduardo Catroga no Diário Económico, o homem escreve, por exemplo, sobre o "... meu (dele mesmo) valor de mercado, o qual é de nível internacional desde os meus 31 anos, quando fui escolhido (ele mesmo) exclusivamente pela minha  competência (dele mesmo) para Administrador da CUF (então o maior grupo económico português) antes da sua destruição pelo processo das nacionalizações". (faltam aqui vírgulas... mas a prosa é dele mesmo!)

É a praça de jorna, mas no segmento dourado... e internacional! Que o "famigerado" processo das nacionalizações veio  prejudicar gente como ele, e que gente como ele não se cansa de tentar repor por todos os meios (quaisquer que sejam)!

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Arte de Furtar

O convite, já aqui referido, para colaborar com uma turma de escola cá do sítio, teve consequências.

Para falar, documentadamente, de honestidade, lembrei-me de usar um dos livros a que dedico maior afeição. Que são muitos. Mas este...


Trata-se de Arte de Furtar, da autoria do Padre António Vieira (o que é muito discutido... mas não vou por aí), primeira edição de 1652.
Arte de furtar, espelho de enganos, teatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral, é oferecido a D. João IV e parece ter incomodado bastante o Santo Ofício. É natural.
Serviu-me para falar de honestidade, aproveitando um trecho da apresentação (não assinada) da edição que tenho (da Estúdios Cor).

«"Ora a "Arte" é um panfleto, uma sátira, um protesto. Aponta os que se vendem por pouco e desmascara aqueles que exigem muito no negócio. Se um mendigo finge uma chaga para comover o passante e abrir-lhe a bolsa com a gazua da piedade - logo a "Arte de Furtar" lhe dá um lugar no catálogo. Mas também lá estão os largos espaços necessários à grande burla, à venalidade do alto funcionalismo, à viciação dos despachos ou dos processos judiciais...»

Dá-me muito prazer folhear esta edição. Um "objecto" da maior qualidade, com ilustrações de João Abel Manta.


São 70 (LXX) capítulos e uma conclusão (por exemplo, o capítulo XL é aquele em que Responde-se aos que chamam visco ao fisco), e é uma escrita denunciante e encantatória. Nalguns trechos de uma chocante actualidade!

Ofereci-o a meu pai, nos seus 80 anos, há 34 anos, com uma dedicatória em que sublinho a sua qualidade de "comerciante por errada vocação", por ter sido, intransigentemente, contrário ao que este livro tem por título.
Percebe-se, acho..., porque razão este convite - e a resposta que lhe dei - mexeu tanto comigo. Se com ele comecei o dia, preencheu-o e com ele acabo.

A foto e o desenho

18 de Janeiro - Marinha Grande


Discurso do Alvaro Cunhal no comício do PCP,
a 18 de Janeiro de 1975,
na Marinha Grande,
nas primeiras comemorações em liberdade do 18 de Janeiro

A coragem, a determinação, a generosidade dos combatentes de 18 de Janeiro, permanecem desde então na memória colectiva dos trabalhadores e do povo da Marinha Grande.

A feroz repressão que se abateu sobre os revolucionários do 18 de janeiro, o movimento sindical e o Partido Comunista Português, tornaram mais difícil o prosseguimento da luta, mas o fascismo jamais conseguiu eliminar a aspiração dos marinhenses à liberdade, a poderem construir uma sociedade onde a opressão e a exploração, não tenham lugar. ...

Vanguarda na luta contra a fascização dos sindicatos, a Marinha Grande continuou a sê-lo durante a longa noite da ditadura.

Fiéis ao legado dos operários vidreiros que em 18 de janeiro de 1934, pela sua acção heróica escreveram uma das mais importantes páginas da luta dos trabalhadores portugueses contra o fascismo, sucessivas gerações de marinhenses deram, com a sua luta perseverante, uma inestimável contribuição para que o povo português, derrubada a ditadura em 25 de Abril de 1974, pudesse finalmente viver em liberdade.

A classe operária e o povo da Marinha Grande pagaram um pesado tributo pelo seu espírito indomável, pela sua fidelidade à causa dos revolucionários do 18 de Janeiro, pelo seu apego à liberdade e ao socialismo.

Marinha Grande é um nome escrito a ouro na história do movimento operário português. Melhor se pode dizer: escrito com lágrimas e sangue.

Porque a luta dos trabalhadores da Marinha Grande ao longo de 50 anos de fascismo foi paga com pesadas perdas, com perseguições, torturas, prisões, com o assassínio e a deportação de muitos dos seus melhores filhos, com séculos passados nas masmorras fascistas por muitos anos, com privações e sacrifícios silenciosos e anónimos das famílias dos militantes, educadas na mesma escola de elevada consciência de classe e incansável combatividade.

As tradições de luta do proletariado da Marinha Grande são inseparáveis da actividade dos comunistas. A classe forjou a sua vanguarda revolucionária – a vanguarda revolucionária (os comunistas) soube estar à altura da classe.

Marinha Grande pode orgulhar-se de muitos combatentes de vanguarda que tem dado ao movimento operário. Pode orgulhar-se dos seus mártires e dos seus heróis. E a vinda para a sua terra natal, hoje, nesta data, dos restos mortais de um militante comunista que deu toda a sua vida à luta pela liberdade da classe operária e do povo português – o camarada José Gregório – é, ao lado de outros nomes gloriosos, um símbolo das qualidades e tradições do proletariado da Marinha Grande e do papel da sua vanguarda revolucionária – o Partido Comunista Português.

Stiglitz - um argumento que desautoriza o autorizado autor

Ia comentar "isto"... mas houve quem me dispensasse de o fazer (e melhor que eu o faria), num comentário por aqui deixado, e que seria mal empregado se por ali ficasse:

Mais valia estar calado e falar do que conhece... 

«"Portugal enfrenta um período muito difícil", disse. "Mas há coisas boas a acontecer. O acordo de ontem [entre Governo e parceiros sociais] é uma delas, é uma política no bom sentido. Não pode ser só austeridade e parece-me que o Governo sabe disso".
(...)
E deixou um alerta: cortar salários - uma solução que chegou a ser posta em cima da mesa em Portugal - não é solução, porque deprimiria ainda mais a procura, afundando a economia. "Seria contraproducente", disse o Nobel de 2011.»
in Negócios Online [«Stiglitz elogia acordo entre parceiros sociais para reforma laboral», 18 de Janeiro de 2012 - 14:22]

Quando era pequeno, ao domingo [na altura, tanto o meu pai, engenheiro, e a minha mãe, professora, trabalhavam ao sábado] sentados na «casinha» a almoçar peixe fresco era frequente ouvir:
- Fecha a boca que ainda entra mosca...
No entanto, ainda bem que Stiglitz não conseguiu calar-se, e disse o que disse permitindo que a assistência [o congresso da APED - Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição] desse o tempo por bem empregue.

Ricardo O.

Não havia por lá moscas.
O ambiente era climatizado contra moscas
e outros insectos voadores,
o que não impediu que saísse (meia) asneira,
o que em estilo Nobel é mais interessante!

Obrigado, Ricardo!


Brevíssima (com foto)

Ao tomar conhecimento de algumas das coisas acordadas (falta junto a uma ponte, 4 dias de castigo...), tenho a sensação de estar a ler um regulamento prisional, ou de uma casa de correcção de corrécios, que seriam os trabalhadores, claro,

entre|palavras

Por pedido de uma professora, fui "dar uma ajuda" a uma turma de escola da minha terra que está a concorrer a uma iniciativa do Jornal de Notícias, cheia de boas (palavras de) intenções, chamada entre|palavras.
Como, para tal fazer, me fui informar à fonte, a edição deste ano, a 8.ª, «contará com uma comissão de honra, mais uma vez apadrinhada pela jornalista Fátima Campos Ferreira e por outras personalidades conhecidas da nossa sociedade. Os temas para este ano são:
"Poupança"
tese: "A poupança é uma atitude, uma forma de estar na vida, pratica-se diariamente nos gestos mais simples – no apagar da luz; no uso dos transportes públicos; no tipo e quantidade de alimentação que fazemos, etc."
"Honestidade"
tese: "Para quê ser honesto quando à nossa volta tudo é corrupto e parece que os desonestos é que têm sucesso?"
"Criatividade".
tese: "A criatividade tem mais a ver com a motivação do que com a inteligência, sendo essencial para a resolução de problemas!"»

Depois de ler "isto" (a Fátima Campos Ferreira a apadrinhar uma comissão de honra formada por outras personalidades conhecidas da nossa praça!, e - mais importante! - as palavras escolhidas e as teses enunciadas...), hesitei em responder ao convite... mas fui.
Foi uma excelente manhã.
Se o que me era pedido era pôr a minha experiência parlamentar a ajudar um grupo de 20 jovens de 12 a 15 anos a exercitar debate e argumentação, acho que fiz muito mais que isso.
Conversámos sobre aquelas palavras, com base no que considerei o oportunismo da escolha de uma delas - poupança - e o carácter manipulador dos enunciados das teses.
Sobre poupança, procurei alertar para a diferença entre o conceito (keyneseano) de poupança - o que sobra do consumo e pode transformar-se em investimento - e a ideia de desperdício e de irracionalidade no uso dos recursos que nos satisfazem as necessidades;
sobre honestidade, sublinhei que ela começa por sermos honestos connosco próprios, e contei histórias do meu pai e do livro que lhe ofereci nos seus 80 anos, a ele, pequeno comerciante com valores e princípios inabaláveis de honestidade enquanto respeito pelos outros, e que considero que teve uma vida de... sucesso (e o que é isso?, como se mede?, em euros?).
sobre criatividade, conversámos sobre a actividade criativa como algo que não se limita a repetir e a imitar actividades de otros e de antes.

Atirei as minhas opiniões (e vivências) para o debate, e tive hora e meia de convívio e conversa animada e atenta (de parte a parte), que me deu grande satisfação.
Eles querem que eu lá volte, fizeram-me chegar, com insistência, que querem conversar mais comigo. Fiquei mesmo contente, porque a vontade é recíproca.    

terça-feira, janeiro 17, 2012

Para arquivar e rever sempre que oportuno

Contra a involução social, depois da contra-revolução política


Quando é que acordamos?

Repete-se a cena. Como em “remakes” de filmes de terror, o último sempre pior que o anterior.
Festeja-se o acordo. Como os anteriores. Houve vezes, em que até se bebeu champagne…
“Bestial, pázinhos… ca g’andácordo!”.

Agora é que vai ser. O emprego, o crescimento da economia, a credibilidade externa.
Agora é que vai ser!
Zurze-se em "o que não assinou". Desvaloriza-se, quando não se despreza, "o que (diz-se que) diz sempre que não”, "o que (diz-se que) não assina acordos”. "O que" não assinou porque este acordo não vai dar em emprego, em crescimento da economia, em credibilidade externa (aliás, quem são os credibilizadores?, as “agências de rating”?, os mercados?) como "eles" dizem.

"acordo terá efeito “mais global
do que a descida da TSU"

Entretanto, o desemprego vai aumentar, a economia vai decrescer, o descrédito externo engrossará a voz. E "eles", se lhes dermos possibilidades, ass(ass)inarão um novo acordo. (E nós a dormir?)

Veja-se só esta pérola, ao que parece dificilmente acordada:

«… Ficou ainda estabelecido no acordo, em que caiu a proposta de mais meia hora de trabalho, uma bolsa de horas grupal de 200 horas e uma individual de 150 horas que o empregador poderá aplicar de acordo com a necessidade de produtividade das empresas…».

Quer-se algo que, sendo tão confuso, possa ser mais claro?

Entre os festejados (e mal dormidos) acordadores está a UGT, cumprindo o seu papel. Que, por vezes, é obrigada, pelos trabalhadores que ainda iludem (e para que continuem a ser iludidos) a hiatos, ou a soluços, ou a ir a reboque de greves gerais.
Entre as reacções, está a do PS, que “ainda não leu...” mas que vai chegar ao "sim! ... mas também não!" ou, violentamente!, ao “não!… mas porque… prontos... seja sim!”.

Mas quando é que acordamos?!
A luta continua, mas espera por mais a 11 de Fevereiro!

Adenda à mensagem sobre o catrogueiro défice tarifário

Recebeu-se este comentário que, a nosso critério, merece ser mensagem:

É a desonestidade habitual do tipo gato escondido com rabo de fora ou numa versão mais familiar: «[escondida atrás do muro, junto ao monte de areia do avô, ela, encolhida, desculpava-se] oh! Senhor! não fui eu, meu senhor!»

Então as rendas que a EDP recebe pelas barragens, pela cogeração nas centrais térmicas, pela eólica, etc. não beneficiam do tal défice tarifário? E a separação entre produção, transporte, distribuição e venda a retalho não está na origem do tal défice tarifário? E desta «nova» cadeia de produção a EDP não benefícia desse tal défice tarifário? É que apenas o transporte não está nas mãos do monopólio privado EDP (ou quase monopólio, para ser mais preciso).

Por acaso Catroga (que há algum tempo é conselheiro da EDP, privatizada) queixa-se de toda a produção da EDP ser adquirida pela REN, a preço pré-estabelecido?

Por acaso Catroga queixa-se do monopólio natural que a distribuição de energia em média e baixa tensão representa para um grupo privado?

Por acaso Catroga queixa-se da liberalização da venda de electricidade - um bem de primeira necessidade, um bem totalmente inelástico com muito fraca sensibilidade da procura às alterações do seu preço - quando fala de uma empresa que cujo negócio não pode ser encarado como uma normal cotnratualização entre dois agentes onde existe informação assimétrica?

Por acaso Catroga queixa-se do poder de mercado, mas também do poder político que a EDP detém, por razões históricas e não por qualquer mérito (tal como é defendido pelas teses neo-liberais)?

Bom, para já, resta-me concluir que o défice tem costas largas e pesa muito... nos lucros da EDP à custa da carteira dos trabalhadores.

Ricardo Oliveira

(Obrigado, Ricardo
S.R)

O défice tem as costas largas

Há palavras assim. Com as costas largas. Défice é uma delas.
Em tempos não muito recuados, défice quase só servia com os acrescento de comercial e de externo, sendo aquele um componente deste. Mas as coisas lá se iam equilibrando com as remessas dos emigrantes e as receitas do turismo a compensarem os custos da guerra colonial. De défice orçamental, Salazar não queria que se falasse sequer, nem que para isso a economia estagnasse e os portugueses tivessem de fugir/emigrar. Assim se ia vivendo e aprendendo economia.
Nestas fases tão recentes, que são, sobretudo, das três últimas décadas, e em crescendo, veio o défice quase dispensando que se dissesse orçamental. Embora houvesse, e haja, quem insista em dizer que este deriva, no fundo, dos défices comercial e externo por não se produzir internamente para as necessidades emergentes, e que há um défice que é mais importante que todos os outros que é o défice alimentar.
Pois agora, lendo a entrevista do "electricista-vedeta" Catroga, no Expresso, somos alertados, e em termos dramatizados de "de bomba-relógio", para um outro défice, origem de todos (ou de muitos) males: o défice tarifário. Que ele diz o que é, exemplificando com as electricidades a que (parece) se vai dedicar a tempo inteiro (de reforma volumosa e em acumulação com o seu quê de escândalo).

Pois, segundo Catroga, depois de alguns "mimos" dedicados a Sócrates com uma "delicadeza" e falta de... desportivismo, que até a nós, que nunca tivemos por tal personagem a menor simpatia, incomodou, "... há vários factores a contribuir para o défice: garantias de potência de cogeração, renováveis, subsídio para a Madeira e os Açores, pagamento às câmaras municipais pela travessia de redes eléctricas, etc. Tudo isto faz com que 52% do preço da electricidade seja custos de interesse económico geral, ou seja, custos políticos, só os restantes 48% são custos directos do sector. Este problema tem de ser resolvido."
Duas observações:
  • Não sabendo se os meter em custos de interesse económico geral ou particular, mas decerto custos políticos, haveria que referir os gastos com o Conselho a que Catroga vai presidir como custos não directos do sector, nomeadamente as suas chorudas remunerações (estão no etc....);
  • Não se deixa passar o "gato escondido com o rabinho de fora" da insistência na inculcação da ideia (que se quer "ideia feita" mas é necessário desfazer) de que as tarifas de determinadas utilidades - como as taxas moderadoras na saúde, ou as propinas na educação, ou os bilhetes dos transportes públicos - deverão responder aos "custos directos dos sectores", quando deverão ser, isso sim, tarifas de serviço público, taxas tão-só moderadoras e tão-só propinas, ou tão-só bilhetes de transporte público e não preços que pagam custos. É para pagar os custos  do que são direitos dos cidadãos que se pagam impostos (e se deve combater a fuga a pagá-los) e não para outras coisas.
E, para terminar, um conselho ao presidente de um Conselho formado sem o seu conselho sobre os membros sob sua presidência: "Ó homem, cale-se!... 'inda vai ter dissabores por falar demais e não se preocupar com... pormenores."

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O essencial e a falta do essencial

Este vídeo informa e faz pensar. Informa, em 300 segundos. Conta-nos coisas essenciais da nossa história de humanos. É o ser humano perante as coisas. Usando-as, transformando-as, esquecendo-se de que faz parte delas. Das coisas.
Faz-nos pensar. Confronta-nos com a irracionalidade dos seres racionais. 
Mas... não nos conta tudo. E não por falta de tempo!
Porque não há a mínima referência à relação dos seres humanos entre si, às relações sociais? E porque nada diz da divisão do e da cooperação no trabalho? Das classes sociais? Da luta de classes que é a história desde que há classes?


Este vídeo é útil. Porque é pedagógico.
É perigoso. Porque, dizendo coisas essenciais, cala coisas essenciais.
É útil porque alerta, para a mudança que é urgente e vital.
Mas... mudança vinda de onde, feita por quem, contra quem (ou contra que interesses de quem)? Porque obra e graça de que espírito santo?
Conheçamos o mundo pelo conhecimento da relação do ser humano com as coisas. Reflictamos sobre essa relação! Filosofemos, até, porque alguns de nós têm tempo para pensar o mundo. 
Mas, para o transformar, temos de intervir na relação dos seres humanos com os seres humanos, temos de mudar as relações sociais.
Se temos de acabar com a exploração irracional da natureza de que somos parte, só o conseguiremos acabando (e vem o "grande final" que nos querem impedir de traduzir nestas palavras, até por auto-contenção sentindo-as desusadas:) com a "exploração do homem pelo homem", a partir da luta dos seres humanos explorados! 

Adenda à anterior mensagem

Um anónimo veio comentar o "post" anterior e assinou - julgo que por "graça"... - Vitor Gaspar. Abri uma excepção, e respondi directamente a este anónimo, porque coloca, e com toda a correcção, uma questão interessante:

Meu caro, há aqui confusão e o NS viu mal o filme: se o deficit externo diminui, mesmo através da maquiavélica diminuição do consumo de coisas importadas acompanhada de aumento de exportações, o PIB sobe, ou não?

Na resposta, pedi-lhe para, por favor, olhar para as equações que acompanhavam o meu "post" e adiantava algumas hipóteses (ou cenários):

Se o PIB (produto, igual a soma de valores acrescentados pelo "trabalho" mais o "capital", como "factores de produção" na terminologia da economia política capitalista) diminui, como está previsto e resulta da "estratégia", e se se consegue o objectivo de aumentar as exportações, o equilíbrio apenas se estabelece se, mantendo-se a procura interna (consumo mais investimento), aumentarem as importações aumentarem mais que as exportações por forma a que a procura externa líquida (exportações menos importações) também diminua.
Claro que não é isso que, na "estratégia" troika-governo, se pretende porque daqui resultaria maior défice externo com todas as decorrentes consequências financeiras.
Então, o que se pretende é juntar à queda do produto e ao aumento das exportações a descida das importações
 
Assim sendo, diminuindo o primeiro termo da equação, e aumentando, no segundo termo da equação, as exportações, só há equilíbrio com a diminuição do consumo mais o investimento, isto é, da procura interna.

No entanto, isto, se certo do ponto de vista formal, está de pernas para o ar. Está em pino.
A "estratégia" é a de intensificar a exploração, de concentrar riqueza, de dominar financeiramente. Pelo que o filme deve ser visto da frente para trás.
Atacam-se os salários e as condições dos trabalhadores,  logo o consumo, dificulta-se o investimento. E como daí resulta uma quebra no produto e nas importações, o cenário implica a necessidade de exportar. Mas exportar o quê se não se produz e se se contem as importações. E para quem?

Becos sem saída? Neste sistema, parece claro. Voltemos a ver o filme, na ordem certa das coisas, começando por procurar aproveitar os recursos (antes de todos os humanos) e incrementar a produção. É isso, essa ordem das coisas..., possível com estas relações social?

Desculpem a explanação árida,
decerto enfadonha, 
mas apesar de demitido de economista,
estou sempre em reciclagem
e a tentar fugir às armadilhas financeiras
(ou dos financeiros...)

Sobre as notícias no "reino do Gaspar" - 2 - a boa (?)

... então o Sr. Nicolau Santos, ao lado da D. Natália Correia (esta coisa da poesia, e as suas escolhas, dão que pensar), lá termina a sua crónica sobre o "reino de Gaspar" com o que chama "uma boa notícia", embora o resultado seja uma enorme "cabazada" (em parágrafos: "más notícias" - 6; "boas notícias" - 1).
Aliás, é só uma "boa notícia", em curto parágrafo que acaba em drama. Transcreve-se:

"Mas há boas notícias. O desequilíbrio externo está a reduzir-se rapidamente. A balança corrente e de capitais passa de um défice de 6,8% para 1,6%, e a balança de bens e serviços cai de -3,7% para -0,3%. O peso das exportações no PIB também vai crescer. Mas tudo isto está a ocorrer não porque estejamos a produzir e a exportar mais mas sim porque o nosso PIB está a encolher. É esse o drama."

E esse é mesmo o drama! Aliás, há quem ande em campanha, há muitos meses, a defender que é preciso pôr Portugal a Produzir.

No entanto, a nossa incurável deformação profissional (de docente...) obriga-nos a vir corrigir N.S.
  1. A notícia não pode ser catalogada como boa, quando é o próprio catalogador que refere a melhoria do desequilíbrio externo a uma evolução dramática; 
  2. por outro lado, se, com esta "estratégia" (?). o PIB vai encolher (discute-se é quanto), esta "encolha" tem o resultado auto(mate)mático de fazer aumentar o peso das exportações no PIB, mesmo que as exportações não cresçam ou até diminuam proporcionalmente menos que o PIB.
Há que sublinhar que sempre que, numa fracção, diminui o denominador (no caso, o PIB) o resultado da fracção aumenta se o numerador (no caso, as exportações) não diminuirem proporcionalmente mais que a diminuição do denominador.
A grande questão é que não só se vai produzir menos como se vai, também, diminuir a procura interna, não só no que respeita ao consumo (quebra brutal do poder de compra dos extratos com maior propensão para o consumo dado o baixo nível de satisfação das suas necessidades) com também em relação ao investimento (do que resultará continuidade na queda do produto).


Há que inverter este rumo!
Falar de "internacionalização da economia portuguesa" não pode ser um mote demagógico com glosas ridículas, protagonizadas por um ministro (da economia!...) que envergonha. 
       

domingo, janeiro 15, 2012

A China!

A China!

À boleia do leilão-venda a uma empresa estatal chinesa de parte substancial da EDP, muito há a reflectir.
Ainda a quente, vieram as nomeações para o Conselho (de quê?...), com os nomes conhecidos, as razões inconfessadas, os salários escandalosos, a desfaçatez de uns senhores desde um Ricardo Salgado, que fala como se fosse dono do BES, de Portugal, do Mundo, ao propriamente dito Eduardo Catroga, que se prefigura como boneco bordaliano, a antítese do Zé Povinho, com o manguito com o endereço invertido.
Mas não faltam também as referências estratégicas, com destaque para a “estratégia chinesa”, algo confusas ou confundidas, mesclando admiração, medo, menosprezo.
Uma porta de saída de recurso, daquelas que se conhecem por "saídas de emergência", é a de que a China está completamente convertida ao capitalismo, que a sua estratégia é capitalista.
Procurando vencer o nosso inato eurocentrismo na avaliação de todas as situações, como se fossemos, europeus, centro do mundo, e cada um de per-si, o umbigo desse centro barrigudo, começaríamos por afirmar que a avaliação da estratégia chinesa cabe, antes de todos, aos… chineses. E são em número que chega (1,3 mil milhões, mais chinês menos chinesa).

Passou a China a ser capitalista por estar… no mercado? [por ter entrado para a OMComércio, mantendo-se a dúvida se a OMComércio entrou no espaço imenso (social e económico) da China]
Parece-nos simplista a conclusão. Até porque as premissas antes da conclusão são inúmeras.
Há uma questão quase preliminar, a partir de base teórica em que assentamos:
  • sendo o capital uma relação social de produção em que a classe predominante impõe o objectivo de acumular capital-material sob a forma dinheiro, passando de dinheiro no início a mais dinheiro no final, tenha este fundamento material ou seja ele simbólico, fictício, creditício, é esse o objectivo estratégico da China?,
  • ou continua a ser, desenvolver a economia da China, a partir de uma situação de partida de desmesurado subdesenvolvimento, tendo como início e final do processo a satisfação de necessidades de seres humanos que se contam por dezenas de milhões?

Fica como reflexão. Lenta. Nada apressada. Com séculos e milhões antes, e igual tempo para a frente. Atrevo-me a dizer – atrevidamente… - "à chinesa".

Guantanamo - um livro e mais umas notas

É (quase) sempre assim. Vai-se à procura de um livro, para servir de apoio a um trabalho ou para responder a uma dúvida, e ele parece que fugiu. Não está lá! 
Em contrapartida, encontram-se outros que foram procurados noutra ocasião e não encontrados, ou salta-nos um que parecia estar à nossa espera para continuar uma abordagem.
Ficou aqui, ontem, um "post" sobre Guantanamo, e hoje, à procura de outro livro, aparece este


injustamente esquecido, ou, pelo menos, não lembrado ontem, como teria sido oportuno.
Mas não se perde a oportunidade.
É um livro-documento, de 1990, que faz a história desde 1823 da doutrina Monroe, em particular daquela ocupação, como base militar dos Estados Unidos desde 1959, resquício da situação colonial de um país que foi colónia e passou pela dependência dos Estados Unidos até se tornar independente, em todo o território menos nessa base que se mantém, apesar de todas as denúncias e, até, dos acordos que não são cumpridos, continuando uma vergonhosa ocupação. Ocupação agravada, desde 2002, por se ter tornado numa prisão, num campo de concentração, em território ocupado de um país independente e sujeito a um cerco e a um bloqueio que a comunidade internacional condena inequivocamente (vejam-se as assembleias das Nações Unidas em que os votos dos Estados Unidos e de Israel são os permanecem impedindo a unanimidade do repúdio de tal situação.
A releitura do livro de Toste Ballart - de 1990 - veio lembrar que, aquando da chamada crise dos misseis de 1962, houve negociações e acordos, em que o ponto V estabelece "... a retirada da base naval de Guantanamo e devolução do território ocupado pelos Estados Unidos"!

Citam-se dois declarações de Fidel Castro:  
  • Uma, de 26 de Julho de 1962: "Essa base é um punhal cravado no coração da terra cubana (...) que não vamos recuperar pela força, mas é um pedaço de terra nossa a que nunca renunciaremos!";
  • outra, de um discurso no 1º de Maio de 1980: "Os Estados Unidos ocupam um pedaço do nosso território pela força e contra a vontade do nosso povo. E em que doutrina, em que princípios, em que lei, em que legalidade se pode basear o facto de se manter uma base naval no território de um outro país contra a vontade do povo? Isso não tem nenhuma base legal, nem jurídica, nem moral, nem em quaisquer princípios: é simplesmenete um acto de força!" e juntou "É legal o bloqueio ao nosso país?, é legal ter uma base naval no nosso território?, é legal violar o nosso espaço aéreo? Não!"

Sobre as notícias "no reino de Gaspar" - 1 (sobre as más)

Não obstante a declaração formal da decisão de nos demitirmos de “economista”, dada a péssima frequentação dessa categoria profissional, continuamos a ler e a reflectir como economista. É talqual um vício ou andar de bicicleta…
Mesmo nos meios de comunicação generalistas, é pelas secções económicas que mais nos perdemos, nesta prática quotidiana do vernáculo a que esta “informação” ao serviço do capital financeiro nos vai obrigando. Na verdade, por exemplo (e para mau exemplo...) abre-se a televisão para "ouver" os noticiários e não tarda nadinha estamos a clamar alto e bom som aquilo que as nossas mãezinhas nos castigavam por sequer pensarmos em voz baixa.
Adiante…
Íamos dizendo que nos perdemos pelas “informações económicas”. No nosso caso concreto, expressamente habituados a folhear um semanário, deixámos de ler quase tudo (além dos títulos), mas continuamos a ler Nicolau Santos. Que, de vez quando, acerta. E até nos faz lembrar aquela anedota do fulano que para responder à acusação de que “dava umas no cravo, outras na ferradura” dizia “… pois, eles nunca estão com os pés quietos…”
Acontece que, neste último Expresso, e não para nos dar razão, sob o título de “Boas e más notícias no reino de Gaspar”, NS arrola uma série de más notícias, e que o são mesmo, quer na perspectiva estritamente técnica (haverá disso?), quer do ponto de vista da economia e da sociedade portuguesas, acabando a colocar uma dúvida crucial (e, para ele, existencial) “como é que esta receita (atrás enunciada) conduzirá a um país mais justo, dinâmico e competitivo, é um mistério que transcende a teoria económica”. Pois é, e a solução do "mistério" está no cadinho da economia política (do capitalismo em fase de financeirismo transnacional).
No entanto, não acaba aqui o artigo de NS, cujo ele, depois de 6 parágrafos (longos) sobre as "más notícias no reino de Gaspar", se sentiu na obrigação de acrescentar um parágrafo (curto) sobre as "boas notícias".
Começa assim: “Mas há boas notícias”. A elas (que é uma só, nos referiremos em próxima mensagem. Porque acordou o economista (e docente decente) precariamente demitido que vive em nós, num nó apertado…