terça-feira, dezembro 15, 2020

Sobre fascismo e vigentismo

Quase todas as manhãs leio o Expresso-curto. Tomo o pulso ao (meu) dia. Muitas vezes irrito-me, noutras acho que perdi algum tempo. Depende. E há vezes, raras, que acontece. Como hoje. Um enorme texto que é um grande texto. Ganhei o dia, ou ganhei-o para o meu dia:

GERMANO OLIVEIRA

(...) 

O QUE EU ANDO A LER

Sou filho de feirantes, à segunda tínhamos a feira de Espinho onde os meus pais conheceram o Germano Augusto de quem herdei esses dois nomes ao escolherem-no para meu padrinho quando nasci, foi uma circunstância que veio a ter uma coincidência - o restaurante que se tornou o meu preferido das minhas segundas-feiras de criança em Espinho chamava-se O Padrinho, a vida tem redundâncias tão bonitas; sou filho de feirantes, à terça não havia feiras para nós porque era dia de planear as seguintes e de fazer a contabilidade do que se ganhou nas anteriores mas à quarta era a feira dos Carvalhos, foi lá que o meu pai me deixou ir a uma loja subscrever a TV Cabo porque ele não tinha dinheiro para me levar ao mundo mas deixou que eu tivesse dezenas de canais para que o mundo se mostrasse a mim, a vida tem criatividades financeiras tão bonitas; sou filho de feirantes e à quinta era a feira de Pedras Rubras que tinha o nome do aeroporto que agora é Francisco Sá Carneiro e onde eu sonhava viagens naqueles aviões em que nunca pensei ter a possibilidade de entrar mas tive, a primeira vez que voei foi porque me tinha tornado atleta e era preciso um avião para me levar à competição e pagaram-me tudo, então o meu pai veio comigo para nos comovermos a voar sobre Pedras Rubras, a vida tem retribuições tão bonitas; sou filho de feirantes e às vezes não se ia a Pedras Rubras às quintas-feiras porque era necessário ir a Vigo comprar centenas de gomas e dezenas de brinquedos baratos para se venderem mais caros nas feiras de Portugal, eram excursões na camioneta do Sousa que seduzia sempre alguma mulher naquelas viagens, eu queria ser como o Sousa toda a gente queria, o Sousa era alto simpático elegante e conduzia depressa, a vida está cheia de Sousas que nos fazem querer ser mais bonitos; sou filho de feirantes e às sextas era a feira de Santana, enquanto o meu pai vendia bolos de teixeira eu metia-me dentro do velhinho minicamião Mitsubishi dele e fazia daquela cabine a minha feira do livro, Álvaro Magalhães Enid Blyton Ana Maria Magalhães Isabel Alçada, o mundo era uma aventura no Mitsubishi, a vida dá-nos memórias tão bonitas; sou filho de feirantes e ao sábados e domingos não se vendia nas feiras mas na Ribeira do Porto, a Rosa Manca e a Dolores eram as rainhas das vendas daqueles fins de semana e o meu pai o rei do pão, às vezes o Reinaldo Teles e o Pinto da Costa apareciam lá e chamavam Bento Padeiro ao meu pai e eu passei a fazer igual, em vez de pai chamava-lhe Bento, na verdade senhor Bento, sou um institucionalista desde cedo e a minha primeira grande instituição foi aquele padeiro-pai, a vida às vezes dá-nos laços de sangue tão fortes e bonitos.

Mas porque escrevo isto?, não há dramas nem convulsões no que expliquei até aqui, que interessa então?, “o homem moderno necessita de ruído, de excitação constante, quer satisfazer as suas necessidades. Como nos tornámos cada vez mais insensíveis, necessitamos de métodos mais grosseiros de satisfazer a nossa ânsia de estimulação. (...) Fomos intoxicados pela ideia de que tem de acontecer alguma coisa, estamos obcecados com a velocidade e a quantidade”, pois eu podia ter proporcionado isso se quisesse escrever sobre pistolas heroína roubos agressões detenções ou afins, as feiras onde cresci tinham disso tudo mas também o seu oposto, bondade solidariedade abnegação dignidade lealdade e qualidades afins, mas quando se cresce num contexto anormal procuramos ansiosamente agarrar-nos ao que há de mais normal, é uma questão de sanidade e sobrevivência, é escolher entre a serenidade ou a violência, e é por isso que qualquer detalhe banal se transforma num acontecimento fenomenal, a banalidade é tão subestimada então que se sobrestime, e é por isso que quando nos tornamos adultos depois disto ficamos tão necessitados do normal e ainda mais preocupados com o anormal, qualquer detalhe aparentemente inofensivo transforma-se num acontecimento repulsivo, veja isto que andei a ler:

a nossa constituição começa assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista”, é preciso chamar os regimes pelos nomes, fascista, isso, era fascismo sim, fascismo que na versão simplista dos dicionários online é “uma ideologia política ultranacionalista e autoritária caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia”, mas há um partido que pretende mudar a nossa Constituição para que ela comece assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime vigente”, reparem, o regime não era fascista mas vigente, o povo não mandou abaixo o fascismo mas o vigentismo, é uma suavização hostil feita de maneira subtil, “uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos”, não muda mas afinal trata-se de negacionismo estratégico, “em 2004, o eminente historiador americano e especialista em história do fascismo Robert O. Paxton publicou a sua notável obra The Anatomy of Fascism, onde sublinha que, no século XXI, nenhum fascista se designará a si próprio como tal”, portanto não o assumem agora tal como escondem os de outrora, não é atitude de gente livre, “a liberdade é a capacidade de um indivíduo se libertar da estupidez, do medo e do desejo, de utilizar a razão e de viver na verdade”, todas estas citações que tenho feito são de um livro que andei a ler, “O Eterno Retorno do Fascismo”, foi escrito pelo Rob Riemen e é uma edição de fevereiro de 2012 que parece sobre dezembro de 2020, “Paxton afirma que o fascismo, devido à sua angustiante falta de ideias e ausência de valores universais, assumirá sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Assim, o fascismo na América será religioso e contra os negros, ao passo que na Europa Ocidental será laico e contra o islão, na Europa do Leste católico ou ortodoxo e antissemita. A técnica usada é idêntica em toda a parte: um líder carismático, populista, para mobilizar as massas; o seu próprio grupo é sempre vítima (das crises, da elite ou dos estrangeiros); e o ressentimento orienta-se todo para um ‘inimigo’. O fascismo não necessita de um partido democrático cujos membros sejam individualmente responsáveis; necessita de um líder inspirador e autoritário ao qual se atribuem instintos superiores (as suas decisões não têm de ser justificadas), de um líder capaz de ser seguido e obedecido pelas massas. O contexto em que esta forma de política pode dominar é de uma sociedade de massas afectada pela crise que ainda não aprendeu as lições do século XX”, parece que não, há quem acredite que é possível moderar os vigentes ao trazê-los para responsabilidades governativas, eis outra história do século XX: “O facto de o fascismo ter chegado ao poder em Itália e na Alemanha deveu-se, em grande medida, à arrogância, bem como à cobardia e perfídia, das elites sociais. A arrogância, a sobrestimação do próprio poder, manifestou-se em 1932 quando, na Alemanha, o Bürgerliche Katholische Partei (partido católico) e o Deutschnationalen (partido nacionalista) se mostraram satisfeitos com a entrada no governo de Hitler e dos seus acólitos. Partiram do princípio de que, desse modo, o poderiam controlar e tirar partido dos erros que cometeria para o eliminarem politicamente. A cobardia e a perfídia manifestaram-se nos sociais-democratas alemães que, embora na oposição, lhe deram um voto de confiança por medo de perderem ainda mais votos. Na verdade, para todos os eleitores que não votaram em Hitler, e que foram a maioria, nenhum partido foi capaz de liderar a resistência contra o monopólio nacional-socialista. E isto teve tudo que ver com a deterioração das elites, que não tiveram coragem para defender os seus princípios e responsabilidades sociais”.

Na saída da autoestrada que me leva ao bairro onde vivo há dois cartazes políticos, são as minhas contrastantes mensagens de boas-vindas a casa, no primeiro o candidato presidencial do partido que acha que as Forças Armadas e o povo derrubaram o vigentismo em vez do fascismo diz que não tem medo do sistema, seja lá o que o sistema for, o segundo cartaz tem Francisco Sá Carneiro sorridente acompanhado de uma frase simples, “O meu sentimento? Define-se numa palavra: responsabilidade”, Sá Carneiro que considerava “essencial que os partidos, as pessoas, os movimentos, as associações assumam as suas responsabilidades e ponham de parte o clima de ataques demagógicos e irresponsáveis”, ele que acreditava que “a Constituição deverá consagrar os direitos fundamentais que aos portugueses foram negados durante o fascismo: liberdade de pensamento, de expressão, de reunião, de associação política e sindical, garantia da segurança pessoal, direito à educação, à saúde, à habitação”, repare como ele diz fascismo, o meu pai-padeiro viveu 34 anos disso e não de vigentismo, 34 anos é praticamente a idade que eu tenho sempre em liberdade de pensamento de expressão de reunião de associação política e sindical e com garantia da segurança pessoal e direito à educação à saúde à habitação, por isso: se o sistema é ter o que o senhor Bento não teve então eu admiro adoro amo extasio-me com o sistema, o sistema pode ter todos os defeitos mas há um que não tem, o sistema reconhece a diferença entre regime vigente e regime fascista, portanto: sou filho de feirantes mas também filho do sistema e às segundas terças quartas quintas sextas sábados e domingos quero usufruir da herança que o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, me deixou ao derrubar o regime fascista - a liberdade, mas a liberdade verdadeira: “A 3 de outubro de 1940, Thomas Mann dá uma conferência no Claremont College, em Los Angeles, sobre ‘Guerra e democracia’. Já estava exilado há sete anos porque não conseguia viver na Alemanha hitleriana. Antes vivera mais de trinta anos em Munique, onde testemunhara o modo como o movimento fascista conseguira chegar ao poder graças, em parte, a um domínio total da falsidade: as palavras eram isoladas dos seus significados e reduzidas a meros slogans. Vira com os próprios olhos, primeiro nos cafés e nos salões, e depois nas ruas e nas concentrações, como o povo se deixara convencer da existência de um movimento político e de um líder que lhe convinha. Um homem pronto a dedicar a vida às necessidades, interesses e liberdade do homem comum, que exprimiria e defenderia os valores do povo alemão. E uma das razões que o levaram a acreditar nesse líder foi o facto de ele não pertencer à classe política, ao establishment, mas ser um autêntico homem do povo, que falava a sua linguagem. Com base nessa experiência, Thomas Mann adverte o público americano: ‘Permiti-me que vos diga a verdade: se um dia o fascismo chegar à América, chegará em nome da liberdade’”.  



Publico-o tal e qual (tendo emendado uma gralha),
vou trabalhá-lo com (o meu) sentido gráfico...
é que, com o meu pai 
- que não era feirante mas parecido -,
andava, comigo, de tipografia em tipografia
e ainda guardo em mim 
o cheiro do chumbo e o gosto da composição

segunda-feira, dezembro 14, 2020

Seja clara!

 

Mensagem subliminar em prova prática

de autoria de conspiradora teórica

 

A jornalista Clara Ferreira Alves (CFA) tem, pelos serviços que presta e a quem, uma enormíssima responsabilidade cívica. Choca por isso a leviandade com que emite opiniões que, sabe-se, têm enorme divulgação. Mas, dir-se-á, são opiniões, e não é por se ser jornalista que se fica inibido de ter opiniões e de as exprimir à sua maneira.

No entanto, pode causar estranheza, ou até considerar negativo que, na apreciação de figuras públicas, se utilizem critérios que melhor estariam em confissões de alcova ou de romance cor-de-rosa como a de que um determinado protagonista político tem (ou tinha) “olhos azuis de aço afiado e magnetizado pelo chamado carisma”. Mas vá lá… pode remeter-se para uma questão de estilo. E o estilo é o homem… ou a mulher.

Ganha outra dimensão social se a prosa que se publica intenta tratar de tema da maior gravidade como foi um acidente (se acidente foi) que motivou a morte de 7 seres humanos, entre eles esse político e de 6 seus companheiros de viagem, entre eles um outro tinha elevadíssimas posições no aparelho de Estado, e fazer desse tratamento um esquisso de ensaio sobre teoria da conspiração.

Com o título Os mortos de Camarate e uma frase de chamada com esta importância para definir o tema do textoImaginar que foi atentado significa atestar que o Estado de direito falhou, a justiça falhou. O encobrimento venceu. Teorias da conspiração cada um tem a sua.”, deveria esperar-se um texto de enorme seriedade, apesar da possível atenuante da quase contradição de cada um poder ter a sua teoria da conspiração, como se fosse… “à escolha do freguês”.

É bem verdade que essa frase de chamada reflecte a lamentável e inaceitável posição do Presidente da República que, em posição pública sugere tudo o que CFA colocou na frase. E mais, o PdaR vai tão longe, ou tão abaixo da sua função, que afirma ter o que seria uma sua teoria da conspiração. No exercício do mais alto cargo do referido Estado de direito, o PdaR tem o dever de defesa e cumprimento da Constituição e não pode referir opinião pessoal (que qualquer um pode ter) sem que a leve até à comprovação. Na impossibilitasse, ou calar essa opinião ou dizer porque não a pode levar à prática.

A jornalista e editorialista não pega por essa ponta que enunciou em cabeçalho, pega pela outra (também enunciada) da sua/dela teoria da conspiração ilustrada com o caso Dominique Strauss-Kahn (DS-K), mais como manobra de diversão que introdução. É que, além do caso ser longe (em quilómetros) do nosso Estado de direito, que é o que está em causa, não meteu morte de homem (ou de mulher) e muito menos de 7 homens e mulheres! Ou até nisso deveremos demitir-nos da nossa soberania, e entregar a questão a Bruxelas se não a queremos encerrar?!

Passado o átrio de introdução ou diversão, CFA entra em Camarate e seus mortos e faz-se esquecida de que está a expor uma sua teoria de conspiração para se debruçar sobre o contexto em que se deu o acidente (se acidente foi, insisto porque outros insistem na dúvida e sinto-me em puro estado virgem de teorias de conspiração).

O desenho da situação nas vésperas do dia das eleições de 1980 que é feito por CFA é o seu, e apenas diria que cada um tem o seu desenho e o meu não coincide com o dela. O que é natural, e não tem nada de estranho. O que me traz à escrita, e nos deve trazer à reflexão é, veja-se lá, apenas uma palavra, um adjectivo, colocado como se nada fosse, como se não tivesse importância, como se fosse consensual: perigosíssimo!

A frase é esta: Na sombra, apoiado por Moscovo, o brilhante e perigosíssimo Álvaro Cunhal ainda esperava a hora de derrotar o 25 de Novembro de 1975.”


Mesmo quem pouco conheça (para além da “bengala” da wikipédia) da pseudociência de mensagens subliminares e de teorias da conspiração, não terá grandes dúvidas em descortinar que CFA fez um inqualificável exercício ou prova prática nessa área[1]. O que, no mínimo e com poupança de adjectivações, se considera execrável é a utilização de um facto histórico a exigir clareza (num Estado de direito) para a elaboração de um texto em que se mistura muito informação e opinião que se aceita ainda que deslocada para elaborar uma subliminar ficção em que há um carismático de olhos azuis de aço afiado e magnético vítima de brilhante e perigosíssimo (o superlativo é denunciador), que manobrava encoberto na sombra, e apoiado por forças do Mal, e esperava a hora da vingança de acto, data, responsáveis, que o tinham derrotado.

Poder-se-á argumentar que esta é interpretação eivada de complexos de perseguição. Noutra perspectiva e contra-argumentação, diria que não são complexos mas efectiva e muito real luta de classes.


[1] - o que uma inexcedível tentativa ou incasável esforço de compreensão e tolerância poderá considerar como talvez não consciente ou intencional

sábado, dezembro 12, 2020

OS ESTADOS UNIDOS LANÇAM 
A BUSCA E A DESTRUIÇÃO 
CONTRA AS NOVAS ROTAS DA SEDA
Como seria de se prever, o vulcão paranóico alimenta-se de uma mistura tóxica de arrogância e ignorância crassa sobre a cultura chinesa

 

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução: Patrícia Zimbres, para o 247

Sete anos após serem lançadas pelo Presidente Xi, primeiramente em Astana e em seguida em Jacarta, as Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), a cada dia que passa, tornam mais enlouquecida a oligarquia plutocrática norte-americana.

 A implacável paranoia quanto à "ameaça" chinesa tem muito a ver com a rampa de saída oferecida por Pequim a um Sul Global permanentemente endividado pela exploração FMI/Banco Mundial.

Na velha ordem, as elites político-militares eram rotineiramente subornadas em troca do acesso irrestrito das empresas americanas aos recursos do país, acoplado a esquemas de privatizações a toque de caixa e austeridade escancarada (os "ajustes estruturais").

Essa situação se prolongou por décadas, até a ICR se tornar o que há de mais novo em termos de construção de infraestrutura - oferecendo uma alternativa à pegada imperial.

O modelo chinês permite todos os tipos de taxação paralela de vendas, aluguéis, arrendamentos - e de lucros. O que significa fontes adicionais de receita para os governos anfitriões, com um corolário da maior importância: a possibilidade de eles se verem livres dos pesadíssimos ditames neoliberais do sistema FMI/Banco Mundial. É isso que está no cerne da estratégia chinesa de "ganho para todos".

Além do mais, o foco estratégico da ICR em desenvolvimento de infraestrutura, não apenas por toda a Eurásia mas também na África, traz um fator que vira totalmente o jogo geopolítico. A ICR vem colocando vastas regiões do Sul Global em condições de se tornarem completamente independentes da armadilha da dívida imposta pelo Ocidente. Para muitos desses países, essa é uma questão de interesse nacional. Nesse sentido, a ICR deve ser vista como o principal mecanismo pós-colonialista.

A ICR, na verdade, crepita com a simplicidade de Sun Tzu aplicada à geoeconomia. Nunca interrompa o inimigo quando ele está cometendo um erro - neste caso, escravizando o Sul Global por meio de dívidas perpétuas. E então use as próprias armas do inimigo - neste caso, a "ajuda" financeira, para desestabilizar sua proeminência.

 Pegar a estrada com os mongóis

Nada do que foi dito acima, é claro, vai apaziguar o vulcão paranóico, que continuará a cuspir uma enxurrada de alertas vermelhos tentando ridicularizar a ICR como sendo "mal definida, pessimamente administrada e visivelmente fracassada". "Visivelmente", é claro, só para os excepcionalistas.

Como seria de se prever, o vulcão paranóico se alimenta de uma mistura tóxica de arrogância e ignorância crassa sobre a cultura chinesa.

Xue Li, diretor do Departamento de Estratégia Internacional no Instituto de Economia e Política Mundiais da Academia Chinesa de Ciências Sociais demonstrou que "após a Iniciativa Cinturão e Rota ter sido proposta em 2013, a diplomacia chinesa mudou, deixando de manter um perfil discreto para se tornar mais proativa em questões globais". Mas a política de "parcerias, e não alianças" não mudou, e é pouco provável que ela venha a mudar no futuro. Mas o fato irrefutável é que o sistema de diplomacia por alianças preferido no Ocidente é escolhido por poucos países, e a maioria deles opta pela diplomacia não-alinhada. Além disso, em sua maior parte eles são países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina".

Os atlanticistas estão entrando em desespero porque o "sistema de diplomacia de alianças" está em franco declínio. Grande parte do Sul Global vem-se reconfigurando, com ímpeto renovado, como um Movimento Não-Alinhado (MNA) - como se Pequim houvesse encontrado uma maneira de fazer renascer o Espírito de Bandung em 1955.

Os acadêmicos chineses gostam de citar um manual imperial do século XIII, segundo o qual as mudanças políticas devem ser "benéficas ao povo". Caso elas beneficiem apenas aos altos funcionários corruptos, o resultado será luan ("caos"). Daí a insistência dos chineses do século XXI nas políticas pragmáticas, e não na ideologia.

Rivalizando-se aos paralelos informados das dinastias Tang e Ming, é a dinastia Yuan que vai trazer uma introdução fascinante ao funcionamento interno da ICR.

Façamos, então, uma curta viagem ao século XIII, quando o imenso império de Genghis Khan foi substituído por quatro kanatos.

Havia o Kanato do Grande Khan - que veio a se transformar na dinastia Yuan - que abrangia China, Mongólia, Tibé, Coreia e Manchúria.

Havia o Ilkanato, fundado por Hulagu (o conquistador de Bagdá) que governava Irã, Iraque, Azerbaijão, Turcomenistão, parte da Anatólia e o Cáucaso.

Havia também a Horda de Ouro, que governava o noroeste das estepes eurasianas, do Leste da Hungria à Sibéria, e a maioria dos principados russos.

E também o Kanato Chaghadaid (que levou o nome do segundo filho de Genghis Khan), que governava a Ásia Central, de Xinjiang ao Uzbequistão, até a tomada do poder por Tamerlane, em 1370.

Essa era assistiu a uma enorme aceleração do comércio ao longo das Rotas da Seda mongóis. Todos esses governos controlados pelos mongóis privilegiavam o comércio local e internacional. Isso se traduzia em um crescimento explosivo dos mercados, da tributação, dos lucros - e do prestígio. Os kanatos competiam entre si pelas mentes mais talentosas para o comércio. Eles montaram a melhor infraestrutura para as viagens transcontinentais (que tal uma ICR do século XIII?) E abriram caminho para múltiplas trocas transcivilizacionais Oriente-Ocidente.

Quando os mongóis conquistaram os Song do Sul da China eles expandiram as Rotas da Seda terrestres, criando as Rotas da Seda Marítimas. A dinastia Yuan agora controlava os poderosos portos do Sul da China. Assim, quando alguma turbulência ocorria em terra, eles transferiam o comércio para o mar.

Os principais eixos cruzavam o Oceano Índico, entre o Sul da China e a Índia, e entre a Índia e o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.

Os carregamentos iam por terra até o Irã, Iraque, Anatólia e Europa, e por mar, através do Egito e do Mediterrâneo, até a Europa e, partindo de Aden, até o Leste da África.

Uma rota marítima de comércio de escravos entre os portos da Horda de Ouro, no Mar Negro, e o Egito - gerida por mercadores muçulmanos, italianos e bizantinos - também estava em funcionamento. Pelos portos do Mar Negro passavam mercadorias de luxo que chegavam por terra do Oriente. E caravanas seguiam a rota terrestre, partindo da costa indiana durante as perigosas estações das monções.

Essa atividade comercial frenética foi uma proto-ICR, que atingiu seu auge nas décadas de 1320-1330, indo até o colapso da dinastia Yuan, em 1368, paralelamente à Peste Negra, na Europa e no Oriente Médio. O ponto-chave é que todas as rotas terrestres e marítimas eram interligadas. Os planejadores da ICR, no século XXI, se beneficiam de uma longa memória histórica.

"Nada irá mudar fundamentalmente"

Compare-se agora essa riqueza de comércio e intercâmbio cultural com a medíocre e provinciana paranoia anti-ICR e anti-China em geral existente nos Estados Unidos. O que temos é o Departamento de Estado comandado por Mike (Nós Mentimos, Nós Trapaceamos, Nós Roubamos) Pompeo soltando uma diatribe fuleira sobre a "ameaça da China". Ou a Marinha dos Estados Unidos recomissionando a Primeira Frota para a construção de uma base, provavelmente em Perth, a fim de "fincar um pé no Indo-Pacífico", e assim manter o "domínio marítimo em uma era de competição entre as grandes potências".

Num tom mais sinistro, aqui vai um resumo da colossal Lei de Autorização da Defesa Nacional (NDAA, em inglês), de 4.517 páginas, que aprova um orçamento de 740,5 bilhões de dólares e acaba de passar na Câmara de Representantes por 335 a 78 votos (Trump ameaçou vetá-la).

Esse é orçamento das verbas destinadas ao Pentágono no ano que vem - a ser supervisionada, em tese, pelo novo General da Raytheon, Lloyd Austin, o último "General comandante" dos Estados Unidos no Iraque, que administrou o CENTCOM de 2013 a 2016 para depois se aposentar, assumindo bicos do tipo porta giratória, como o conselho diretor da Raytheon e, o que é mais importante, o conselho da siderúrgica Nucor, poluente ultra-tóxica do ar, da água e do solo.

Austin é um personagem porta-giratória que apoiou a guerra do Iraque, a destruição da Líbia e supervisionou o treinamento dos "rebeldes moderados" sírios, também conhecidos como a al-Qaeda reciclada - que mataram um número incontável de civis sírios.

A NDAA, como seria de se esperar, prevê verbas pesadas para financiar "instrumentos para a contenção da China".

Entre esses instrumentos constarão:

  1. Uma assim-chamada "Iniciativa de Contenção do Pacífico", o que em código significa contenção da China no Indo-Pacífico por meio do fortalecimento do Quad.
  2. Operações maciças de contra-inteligência.
  3. Uma ofensiva contra a "diplomacia da dívida". Isso é pura bobagem: as negociações da ICR são voluntárias, em bases lucrativas para todas as partes e abertas a renegociação. Os países do Sul Global dão preferência a elas em razão dos empréstimos a juros baixos e de longo prazo.
  4. Reestruturação das cadeias globais de fornecimento que levam aos Estados Unidos. Boa sorte com essa aí. As sanções contra a China continuarão em vigor.
  5. Pressão total para forçar os países a não adotarem o 5G da Huawei.
  6. Reforço de Hong Kong e Taiwan como cavalos-de-tróia para desestabilizar a China.

John Radcliff, diretor da Inteligência Nacional, já deu o tom: "Pequim pretende dominar econômica, militar e tecnologicamente os Estados Unidos e o restante do planeta". Tenham medo, muito medo do malvado Partido Comunista, "a maior ameaça à democracia e à liberdade em todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial".

Entenderam? Xi é o novo Hitler.

Portanto, nada irá mudar fundamentalmente após janeiro de 2021 - como oficialmente prometido por Biden-Harris: vai haver novamente a guerra híbrida contra a China, atacando na totalidade do espectro, como Pequim já entendeu perfeitamente.

E daí? A produção industrial da China continuará a crescer, enquanto a dos Estados Unidos continuará em declínio. Os cientistas chineses chegarão a novas descobertas revolucionárias, tais como a computação fotônica quântica - que conseguiu comprimir 2,6 bilhões de anos de computações em 4 minutos. E o espírito da dinastia Yuan continuará a inspirar a Iniciativa Cinturão e Rota. 

quinta-feira, dezembro 10, 2020

Cadernos de aponta mentes-3 - Abel Salazar e a A crise da Europa

Este foi o 3º dos cadernos de aponta mentes. Preparado em 2013, recuperava um prefácio pedido e não aproveitado (por fim de financiamento à edição das Obras Completas de Abel Salazar...), e parecia muito oportuno em tempo de eleições "europeias",
Mais oportuno ainda porque um de apelidos Durão Barroso vira na edição de A crise da Europa (de 1942!) uma oportunidade (própria dos que estão sempre à tocaia) para interpretar às avessas (em edições em inglês e em francês!) o que Abel Salazar escrevera numa perspectiva histórica em que muito se aprende. 
Não teriam sido suficientes as mais que sobrantes razões para que Abel Salazar viesse, com o que escrevera em 1942, acertar o passo com a História (e a leitura que fazia há 60 anos), editado em 2013/14  em circuito para informar, esclarecer, divulgar.
Por isso, depois de baldados esforços, publicou-se em circuito restrito (para oferta e a expensas próprias), no começo de 2014, e a tempo de distribuição restrita (300 exemplares, de que muitos sobraram que estão aí à disposição de quem estiver interessado).



As eleições na Venezuela e quem lá esteve

  - Edição Nº2454  -  10-12-2020


Venezuela bolivariana celebra triunfo nas eleições legislativas

VITÓRIA O Grande Pólo Patriótico venceu as eleições legislativas venezuelanas do passado domingo, 6, obtendo ampla maioria no parlamento, que entrará em funções em Janeiro.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, celebrou a vitória do Grande Pólo Patriótico nas eleições realizadas no domingo, 6, para a Assembleia Nacional. Num discurso no Palácio de Miraflores, sede do governo, em Caracas, Maduro qualificou a jornada eleitoral como uma grande vitória da democracia, em que o povo elegeu os seus representantes no órgão legislativo para o período 2021-2026, depois de cinco anos de legislatura dominada por sectores da extrema-direita.

A presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Indira Alfonzo, indicou na terça-feira, 8, que, com 98 por cento das actas escrutinadas, o Grande Pólo Patriótico obteve cerca 68 por cento dos votos (quatro milhões, 277 mil e 926 votos). Em segundo lugar ficou a Aliança Democrática, oposicionista, com 17,52 por cento (um milhão, 95 mil e 170 votos). A Alternativa Revolucionária Popular, que integra o Partido Comunista da Venezuela conquistou seis lugares.

PCP solidário

Em nota de dia 7, o PCP destaca que estas eleições, «realizadas sob o impacto de um cruel bloqueio económico e financeiro», constituíram uma afirmação «em defesa do caminho de soberania e independência nacional, de justiça e progresso social, de desenvolvimento e cooperação por parte do povo venezuelano».

Ao mesmo tempo, denuncia operações em curso visando retirar legitimidade ao acto eleitoral, «recuperar a oposição fantoche e persistir na ingerência e violência golpista».

Reafirmando a sua exigência do «fim imediato das criminosas acções de desestabilização, sanções e bloqueio económico e financeiro» contra a Venezuela e o povo venezuelano, o PCP insta ainda o Governo português a adoptar um posicionamento «consentâneo com os princípios da Constituição da República Portuguesa e os interesses do povo português – incluindo a comunidade portuguesa na Venezuela –, dissociando-se da política de ingerência e agressão promovida pelos EUA, com a cumplicidade da UE».

Sandra Pereira: «Estas eleições foram uma grande prova de resistência»

Em que contexto é que a tua deslocação à Venezuela se realizou?

O convite para acompanhar as eleições partiu do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela e do Comando Nacional de Campanha «Darío Vivas», que congrega os partidos que integram o Grande Pólo Patriótico «Simón Bolívar», nomeadamente o Partido Socialista Unido da Venezuela. Surge na sequência de tentativas das autoridades venezuelanas garantirem a presença de observadores internacionais, incluindo da União Europeia (UE).

Foi como deputada do PCP no PE e como vice-Presidente da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana (EUROLAT) que o convite foi dirigido, endereçado também a outros deputados no PE, nomeadamente do Grupo Confederal GUE/NGL. Acompanharam as eleições cerca de 300 representantes de forças sociais e políticas, jornalistas, deputados e outras personalidades da América Latina, África e Europa. Numa clara posição de boicote prévio às eleições, a UE decidiu em Setembro não enviar observadores.

Durante a tua estadia na Venezuela que contactos políticos e partidários mantiveste?

Nos vários encontros, expressámos a nossa solidariedade com a luta do povo Venezuelano pela defesa da sua soberania e contra as ingerências e agressões externas de que é alvo.

No plano institucional, destacaria o encontro com o presidente Nicolas Maduro, no dia anterior às eleições, no Palácio de Miraflores, e as reuniões com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, que expressaram o reconhecimento pela presença dos acompanhantes internacionais. Ainda no plano institucional, realizámos um encontro com a primeira vice-presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Tania Rodriguez, e creio que é justo destacar, ainda antes da chegada à Venezuela, o apoio e cuidado dos embaixadores da Venezuela em Portugal, e também no México (onde fizemos escala).

No plano partidário, contactámos forças revolucionárias e progressistas venezuelanas. Foi o caso dos encontros realizados – antes e depois das eleições – com Carolus Wimmer, responsável pelas relações internacionais do Partido Comunista da Venezuela, bem como dos encontros com dirigentes do PSUV, nomeadamente Jorge Rodriguez, do comando de campanha «Darío Vivas» e candidato às eleições.

Na segunda-feira após as eleições, participámos na conferência Diálogo entre Civilizações, onde estavam Jorge Arreaza, Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador), com quem reunimos posteriormente para abordar a situação no Equador e as perspectivas para as próximas eleições, em 2021.

Que balanço fazes do processo eleitoral?

As eleições decorreram normalmente, ainda que num contexto de bloqueio económico e financeiro dos EUA e no quadro da epidemia, que naturalmente cria limitações. Podemos afirmar que as condições para o povo venezuelano se poder expressar livremente estavam garantidas. Isso foi visível nos vários postos eleitorais que visitámos em Caracas, Caraballeda e La Guaira.

Nas várias mesas havia representantes de diferentes forças políticas que também nos foram garantindo que estava tudo a decorrer de forma organizada e democrática. Em alguns postos havia filas e as pessoas falavam connosco, agradecendo a nossa presença e sublinhando a sua importância, nestas eleições. Foram vários os que se nos dirigiram para ligar a realização das eleições à defesa da soberania e independência da Venezuela.

Que consequências terão estes resultados eleitorais no futuro imediato da Venezuela?

Com estes resultados, há uma maioria de deputados na Assembleia Nacional favorável ao processo bolivariano, e isso poderá garantir maior estabilidade. Esta maioria permitirá ao governo desenvolver políticas económicas e sociais, necessárias para fazer face a vários problemas, muitos deles decorrentes das sanções e do bloqueio. E o que acho notável é que apesar de reais dificuldades, continua a haver avanços sociais, como por exemplo o transporte público, que passou a ser gratuito, ou a continuada política de garantia do direito à habitação – ainda recentemente, foram entregues mais habitações, perfazendo já no total três milhões e 300 mil.

Apesar da recusa em enviar observadores, a UE poderá reconhecer os resultados eleitorais?

Logo na segunda-feira, o denominado Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Joseph Borrel, anunciou que a UE não reconhece os resultados desta eleição. A declaração não é surpreendente, uma vez que a recusa em aceitar participar com observadores já previa uma posição destas, a estratégia era essa. O desrespeito pela soberania deste país chegou ao ponto de a UE tentar impor o adiamento das eleições, ou seja, que o governo da Venezuela desrespeitasse a Constituição que jurou cumprir. Também não surpreende a posição do Governo português que, ao pedir a repetição das eleições, confirma a sua inaceitável submissão à cartilha dos EUA e da UE. Posição que, é importante sublinhar, contraria os interesses da comunidade portuguesa na Venezuela.

Com a eleição de uma nova Administração nos EUA, há na Venezuela alguma expectativa de melhoria das relações entre os governos venezuelano e norte-americano?

Não sentimos que os venezuelanos acreditem que a política externa dos EUA vá mudar relativamente ao seu país. Mas o fim do bloqueio e das sanções reafirma-se como uma exigência fundamental, de modo a facilitar o progresso social dos venezuelanos e da comunidade portuguesa.

Daquilo que é conhecido até agora, creio que, infelizmente, o sentimento dos venezuelanos está correcto. A alteração da posição dos EUA, da UE e do Governo português vai depender essencialmente de dois aspectos: a capacidade de resistência daquele povo – e estas eleições foram uma grande prova de resistência – e a nossa solidariedade, que tem de continuar e intensificar-se.

terça-feira, dezembro 08, 2020

Reflexões lentas - com vacina(s) no mercado

 Sem em nada diminuir a gravidade da situação derivada do surto epidémico, chega a ser grotesco o espectáculo dos interesses privados (e de quem tem de os salvaguardar… ó da guarda!) a lidar com o real problema, e a rir até às lágrimas com o aproveitamento dele feito por bons profissionais do humor como Ricardo Araújo Pereira, que deve estar com enorme audiência.

A alternativa saúde-economia é uma falsa questão que esconde a verdadeira, que é a que se pode equacionar (acho eu!) com o dilema saúde pública-ganância de privados.

Vivemos num tempo e espaço em que, na correlação de forças sociais dominam os interesses privados, de classe e de grupos, não sendo, de modo nenhum, despicienda a força do colectivo, sindical e político, da outra força da correlação (embora desconhecida, ou não consciente, por muito das massas que a compõem).

A maneira como chega aos receptores da informação quase obsessiva que se fornece, no meio de anúncios a que só dá ganas de fugir até porque são produto de uma verdadeira devassa dos nossos gostos ou tendências (algumas que se procuram combater) ilustra… o mercado em que uma parte do mundo e de gente se tornou e se pretende que todo o mundo (e toda a gente) o seja!

Mas o que mais impressiona – e assusta! – é que tudo é mercado para quem domina a correlação de forças (e a informação que serve quem a domina), e nesse tudo se incluem as vacinas, esse produto tornado miraculoso antes sequer de existir no mercado… e mercantilizável.

Quantos milhões de milhões já se movimentaram em jogos de bolsa, em publicidade enganosa, em compras antecipadas e sem garantia se existirá(ão) o(s) produto(s) e se cumpre(m) os necessariamente exigentes requisitos relativamente à saúde pública?

 Cito (ou re-cito) Álvaro Cunhal no prefácio a O caminho para o derrubamento do fascismo, edição de 1997, sobre o IV Congresso do PCP, de 1946:

O capitalismo ter-se-ia superado a si próprio. Teria deixado de ser capitalismo, para ser agora «economia de mercado». Já não haveria capitalistas mas «empresários». Seria um «capitalismo civilizado», sem classes antagónicas, um capitalismo sem proletários, sem luta de classes, nem natureza de classe de governos e políticas, seria uma sociedade nova definitiva e final constituída por cidadãos conscientes, cordatos e mutuamente solidários, aceitando, assinando e cumprindo «pactos de regime», «pactos sociais», «pactos» e mais «pactos» pelos quais os cidadãos trabalhadores (agora dizemos nós) aceitariam renunciar a direitos fundamentais e vitais. Ou seja, ser explorados pelos cidadãos capitalistas e os cidadãos capitalistas continuar a explorar os trabalhadores e a justificar-se perante a opinião pública através dos seus fantasiosos teorizadores.”.

É certo que nem em todo o lado será, há populações bem numerosas em que o surto epidémico e a vacinação não foram oportunidade de negócio. Mas dessas situações e lugares nada ou pouco (só o impossível de calar) se fala, embora andem nas "bocas" deste "nosso" mundo por outras e perversas razões, como as de manobras militares ameaçadoras em sua intenção por não se terem submetido ao mercado globalizado.

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Resultados das eleições na Venezuela

apenas informação (?)

DA

 

LUSA


A aliança de partidos que apoiam o Governo do Presidente venezuelano Nicolás Maduro venceu as eleições legislativas de domingo, com 67,6% dos votos, quando foram contados 82,35% dos boletins, anunciou esta segunda-feira o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
Até agora, foram contados 5.264.104 votos, dos quais 3.558.320 foram para o Grande Pólo Patriótico (GPP), em eleições contestadas pela oposição, que apelou ao boicote.
Uma aliança liderada pelos partidos tradicionais Ação Democrática (AD) e o Comité de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) ficou em segundo lugar, com 944.665 votos (17,95%), informou a presidente do CNE, Indira Alfonzo.
Tanto o AD como o Copei sofreram a intervenção do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), que impôs como líderes de ambos os partidos antigos militantes que foram expulsos e acusados de corrupção pelos seus antigos colegas.
Apesar de os políticos que lideram estes partidos por escolha dos seus membros terem optado por não participar nas eleições, incluindo o grupo liderado por Juan Guaidó, os responsáveis nomeados pelo STJ decidiram ir às urnas.
Em terceiro lugar ficou outra aliança liderada pelo Vontade Popular (VP), o partido de Leopoldo López e Guaidó, que também sofreu a ingerência do STJ, e que inclui ainda o Venezuela Unida (VU) e o Primeiro Venezuela (PV). Esta aliança obteve 220.502 votos, o que representa 4,19%.
O Partido Comunista Venezuelano teve 143.917 votos (2,73 %), enquanto o resto das formações obtiveram 357.609 votos (6,79 %).
A taxa de participação, de 31%, segundo o CNE, é ligeiramente superior à de 2005, quando a oposição tradicional também não participou e o 'chavismo' conquistou a maioria absoluta dos lugares por um período de cinco anos.
Nas eleições de domingo disputavam-se 277 lugares no parlamento, mais 110 do que nas últimas eleições parlamentares, e ainda não se sabe quantos representantes cada lado ganhou, embora seja claro que o partido no poder obteve uma clara maioria.
Para dominar a última instituição que escapa ao seu controlo, Maduro precisa de pelo menos 185 deputados na nova Assembleia Nacional, que tomará posse no dia 05 de janeiro, para ter a maioria qualificada de dois terços, com a qual pode assumir o controlo total da Câmara e exercer todos os poderes legislativos.
Nas últimas eleições parlamentares, ganhas pela oposição, 74,25% das listas eleitorais participaram, naquelas que foram as votações legislativas mais concorridas da história do país sul-americano. Desde então, a tendência abstencionista tem vindo a crescer, devido à desconfiança na votação.
As normas venezuelanas não estabelecem um mínimo de participação, pelo que a elevada abstenção, a que a oposição, liderada por Juan Guaidó, tinha apelado, não põe em causa a legalidade das eleições, ainda que não sejam reconhecidas pela União Europeia (UE) ou pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
As mesas de voto deveriam ter fechado às 18h (22h em Lisboa), mas o CNE prorrogou a abertura por mais uma hora ou até que não houvesse pessoas à espera na fila.
Apesar disso, o dia foi marcado por uma forte abstenção, a rondar os 69%

Brevíssimo comentário (outros ficarão para mais tarde):
 apenas a lembrança de que,
 em Portugal,
 tem havido altas percentagens de abstenção,
 como nas últimas para o Parlamento Europeu
 que foram superiores
 às tão sublinhadas para a Venezuela.

domingo, dezembro 06, 2020

Eleições na Venezuela

Entre muita outra coisa que acontece no mundo (este mundo não pára, à roda de si e à volta do sol…), hoje é dia de eleições na Venezuela.

Referi-me a esse acontecimento, sublinhando o silêncio anterior e todo o ruído que se esperava após.

Pois aí está: hoje, o Público publica duas páginas em que, facilmente, se descortinam quais as linhas de ataque, e em que se irá insistir, no inevitável noticiário que se seguirá às eleições.  

Logo se vê pelos títulos, sub-títulos e destaques:

·       Chavismo procura consolidação com eleições sem oposição

·       Boicote às eleições-“O maior aliado do Governo foi a oposição”

·       O que irá fazer Leopoldo López?

·       O regime de Nicolás Maduro fez tudo ao seu alcance para recuperar a maioria na Assembleia Nacional controlada nos últimos cinco anos pela oposição”

·       Datas-chave da crise na Venezuela.

A “encomenda” feita ao colaborador do Público foi bem desempenhada (embora com falhas que adiante mostrarei), e o quadro parece claro: que as eleições são uma manobra do “chavismo” que ganhou todas as eleições (e muitas foram), com excepção de uma; que a oposição decidiu boicotar estas eleições, o que teria sido um erro; que o seu resultado vai ser mais uma vitória do partido no poder, simbolizado por Maduro; que a força que se pode opor à actual situação (desenhada catastroficamente) é a pressão externa, quaisquer as formas que tome ou venha a tomar.

Esta pressão externa tem sido dificultada por “laços com países como Cuba, China e Rússia, cujo apoio diplomático permite a Caracas evitar o isolamento total”, e é salientada a notícia de que “no mês passado, a Reuters revelou que a China voltou a adquirir petróleo venezuelano” como sendo algo escandaloso, não o sendo que outros países (em que Portugal se inclui) não paguem (ou não permitem que se paguem)  dívidas que ajudam a garrotar a economia venezuelana e a provocar uma situação muito difícil para os venezuelanos, não só o presidente eleito com 68% dos votos e quem o apoia, mas, e sobretudo, toda a população.

Como capa ou montra da situação clama-se por diálogo, mas esse diálogo falta, sobretudo na oposição interna, em que uns são pela participação nas eleições (Capriles) e outros por uma “consulta popular” repudiando as eleições (Guaidó) e outros ainda (Leopoldo López, em Espanha) na expectativa (os três fotografados na notícia-reportagem).

Apesar do esforço de quem fez o trabalhinho, para além do evidente propósito de preparar o pós-eleições, sublinha-se, por exemplo, a incongruência de, nas “datas-chave de crise” (provocada por quem?, e como?), é referida data de 4 de Agosto de 2017 como a da tomada de posse da Assembleia Constituinte e, depois, na de 11 de Janeiro de 2019, em que a Assembleia Nacional nomeia (!) Guaidó, seu presidente como chefe de Estado interino (curiosa auto-nomeação contra resultados eleitorais, com ainda mais curioso e colorido reconhecimento, imediato ou pressuroso, por vários países e organismos), “o que parece dar um novo fulgor à oposição, que viu o seu pouco poder totalmente esvaziado com a criação da Assembleia Constituinte”.  

Com a criação?... deixa de ser curioso para ser estranho que se cite como “criada” para esvaziar o poder de um golpe (aliás, com imitação e/ou semelhanças noutros lugares como Bielorrúsia) uma instituição (ou estrutura institucional) criada e em funções dois anos antes.

Esperemos pelos resultados das eleições de hoje.

Bolívia!


    BOLÍVIA APOSTA 
    NA REACTIVAÇÃO ECONÓMICA 
    DO SECTOR CULTURAL 

    Sabina Orellana a tomar posse como ministra; à esquerda, o presidente da República, Luis Arce (MAS), eleito com mais de 55% dos votos na primeira volta das eleições celebradas em 18 de Outubro último Créditos / comunicacion.gob.bo
    Sabina Orellana, ministra das Culturas, Descolonização e Despatriarcalização da Bolívia, afirmou que a primeira tarefa do seu Ministério, recentemente criado, será a da reactivação económica do sector.


    Orellana explicou que, desta forma, pretende dar resposta à má gestão do governo golpista, cujo desinteresse pelas políticas culturais provocou uma crise que afectou profundamente o sector.

    «A primeira tarefa que nos pediram foi a da reactivação económica do país no sector da Cultura, porque os decretos supremos do governo anterior prejudicaram-no muito», disse a ministra ao canal de televisão Red Uno, citada pela Prensa Latina.

    «O actual governo sabe da importância da Cultura para o desenvolvimento do país, por isso o presidente Luis Arce assinou o Decreto 4404, que permite a realização de actividades culturais respeitando o cumprimento das normas de segurança», destacou.

    Orellana afirmou que o Ministério que dirige terá o diálogo como principal instrumento de trabalho. «Cabe-nos ouvir o povo, vamo-nos reunir com as autoridades departamentais. Isto não significa que apenas o Estado deva trabalhar, será antes em coordenação com os departamentos e os municípios, e a população», frisou.

    Nas declarações à Red Uno, a ministra disse que a tutela assume a tarefa de criar políticas culturais e de ampliação das infra-estruturas do sector, aumentando o investimento e coordenado as iniciativas com os ministérios de Economia e Finanças, Turismo, e Desenvolvimento Produtivo e Economia Plural.

    Orellana lembrou que apoiar a cultura é um investimento, e isso não deve ser visto como uma despesa desnecessária ou absurda – o argumento utilizado pelo governo golpista de Jeanine Áñez para acabar, em Junho último, com o então designado Ministério das Culturas e Turismo.

    Sabina Orellana tomou posse no passado dia 20 de Novembro e já nessa ocasião tinha sublinhado a importância das políticas culturais para o desenvolvimento social e económico do país.

    «Descolonizar e despatriarcalizar é reverter a desigualdade entre nacionalidades, assim como entre homens e mulheres, é quebrar a hegemonia de uma cosmovisão unívoca que subordina a outra», disse também na tomada de posse, acrescentando que irá trabalhar para acabar com o racismo.

    Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

    https://www.abrilabril.pt/internacional/bolivia-aposta-na-reactivacao-economica-do-sector-cultural

    sábado, dezembro 05, 2020

    O presidentinado!

    Um pouco (ou muito…) à boleia da assinalação da morte de Sá Carneiro, que tem esgotado tinteiros (expressão que não perdeu actualidade, pois as impressoras ligadas aos computadores usam, e gastam, tinteiros), também muito se falou dos 50 anos da SEDES – Associação para o Desenvolvimento e Social – criada como associação interveniente na vida pública portuguesa agitada pela substituição de Salazar por Marcelo Caetano.   

    Lembro-me bem desse nascimento, cheio de esperanças e ambições (ou de ambições e esperanças…) para alguns.

    Posso dizer que andaria eu então a surfar na crista das ondas. Naturalmente, a criação da  SEDES não me foi indiferente e, também naturalmente, não fui indiferente para a SEDES, em cuja formação e actividades estavam colegas meus, alguns com que “me dava” e tinha boas relações.

    Já com uma prisão, julgamento no plenário fascista e cumprimento de pena, a minha actividade e posições que não escondia (embora algumas bem me esforçasse para que não fossem conhecidas… pela PIDE).

    Estas circunstâncias fizeram com que da SEDES me tivessem convidado para participar em algumas das suas actividades, decerto como putativo intérprete de uma área de pensamento bem demarcada e, então – como sempre, e mau grado os esforços de outros, de outra classe – relevante, a dos marxistas (a que alguns juntariam, e acertando!, o pos-fixo de leninista).

     De algumas iniciativas me lembro, mas de uma me recordo particularmente, sobretudo quando vejo o actual Presidente da República participar nas comemorações dos 50 anos da SEDES, anunciando que a associação será condecorada. Isto porque me lembro de uma iniciativa promovida, directa ou indirectamente, pela SEDES na sacristia da Igreja da Rua do Patrocínio, à Estrela, para que me convidaram… e eu fui, claro.

    E o que, de vez em quando, me recorda essa iniciativa – em que nem sei se cheguei a intervir ou não –, foi a presença e intervenções de um jovem de nome Marcelo, que me identificaram como filho de Baltazar Rebelo de Sousa.

    A este, eu costumava citar como Baltazar (com Z) Rebello (com dois L) de Souza (com Z), por ter visto, no seu gabinete no Ministério da Educação, de que era Secretário de Estado, três volumes dos seus discursos como dirigente da Mocidade Portuguesa em excelente encadernação com o nome assim gravado, volumosos volumes mas, outra curiosidade que me chamou a atenção, progressiva e notoriamente menos volumosos à medida que o autor subia na hierarquia fascista.

    Tive acesso a estas curiosidades porque frequentei, embora nada agradado nem frequente, o dito ministério, sendo Ministro F. de P. Leite Pinto (professor em Económicas, como dirigente associativo, primeiro nas Associações de Estudantes e depois no CDUL, guardando esta foto da apresentação, pelo Inspector Nacional do Desporto Universitário (INDU), Armando Rocha, da delegação à Universíada (Jogos Mundiais Universitários) de 1959, em que fui o representante dos estudantes portugueses das 3 academias aos Jogos e simultânea assembleia geral da FISU.

    Com B.R.S., A.R. e José Machado e outros desportistas

     O que eu guardo dessa deslocação a Turim em 1959!… mas o que estou a lembrar é o filho de B.R.S., Marcelo Rebelo de Sousa.

    E entre as fotos que por aqui se acolhem nos meus ficheiros, há uma em que estão os dois, pai e filho (e mais um mano), quando o outro Marcelo (Caetano) colocou o eventualmente afilhado ou o pai do eventualmente afilhado como Governador de Moçambique, antes de o recuperar para a Metrópole para mais de um ministério antes do 25 de Abril de 1974.


    Dada esta (grande) volta, pouco espaço resta para o pouco a dizer da sessão SEDES na sacristia da Igreja da Rua do Patrocínio. Apenas me lembro de, ao ouvir o jovem Marcelo (nos seus vinte e poucos anitos), eu (do alto dos meus trinta e mais alguns bons anos) ter comentado: este puto vai longe, vai, vai!…

    E, de vez em quando, ao lembrar esse comentário, vem logo um complemento… Marcelo Rebelo de Sousa foi um predestinado, isto é, um pré-destinado a ser uma figura de topo, qualquer a base desse topo, tanto assim que se pode dizer que é um presidentinado…

    Há gente assim… nasceu para serem ministros… ou mais (ou menos). 

    Eleições na Venezuela, amanhã!

     Amanhã, dia 6 de Dezembro vai haver eleições na Venezuela, mas o conhecimento desse facto aparentemente muito relevante, não aparece na nossa (ou melhor: na “deles”) comunicação social.

     No entanto, ela (a comunicação social) deve estar de atalaia para tratar do assunto “à maneira”.

    Já se estava atento, e mais desperto ficou quando, na última leitura do dia, na última página do ávante!, apesar do exemplar ser quase todo dedicado ao XXICongresso:

    Aliás, também ontem, em   


    podia ler-se 
    :


    INTERNACIONAL|VENEZUELA

     Venezuela repudia relatório «intervencionista»

    da OEA sobre direitos humanos

    AbrilAbril

    4 DE DEZEMBRO DE 2020

    Jorge Arreaza recordou que a Venezuela não é membro da OEA e acusou o seu secretário-geral, Luis Almagro, de «liderar a ofensiva» contra o país sul-americano, a poucos dias das eleições parlamentares.

     

    Num comunicado emitido esta quinta-feira, o governo da Venezuela rejeita de forma categórica um relatório apresentado no dia anterior pela Organização de Estados Americanos (OEA) sobre alegadas violações de direitos humanos no país caribenho, e no qual se critica a «inacção do Tribunal Penal Internacional» (TPI).

    O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, denuncia que o relatório da OEA foi elaborado com o objectivo de questionar o trabalho do TPI, tendo como base difamações não fundamentadas em matéria de direitos humanos na Venezuela.

    «O referido informe, elaborado sem qualquer tipo de verificação no terreno e a partir de fontes secundárias que não configuram provas dos alegados factos enunciados, pretende interferir de forma tendenciosa, extorsiva e inaceitável no funcionamento independente do TPI», lê-se no comunicado emitido pelo Ministério.

    A diplomacia venezuelana acusa «o indivíduo que exerce o cargo de secretário-geral da anquilosada OEA de não perder a oportunidade para mostrar o seu desprezo pelos direitos humanos e aplicar um descarado [princípio] selectivo [de] dois pesos e duas medidas, com fins meramente intervencionistas».

    Refere ainda o governo venezuelano que o documento publicado carece de «qualquer base jurídica relativamente à situação dos direitos humanos na Venezuela», «constitui uma evidente operação de propaganda contra as instituições e as autoridades» do país sul-americano, e «confirma perante a comunidade internacional a prática infeliz e recorrente do desgastado secretário-geral da OEA de levar a cabo acções que violam a Carta constitutiva da OEA».

     Nova «lição de soberania»

    «O Governo da República Bolivariana da Venezuela lembra que a OEA e a sua Secretaria não possuem competências jurisdicionais para se apresentarem como um tribunal internacional de direitos humanos, nem para recolher informações que induzam à determinação de responsabilidades penais internacionais em qualquer dos estados-membros», sublinha o texto.

    Afirmando que a Venezuela não é um país membro da OEA, «nem voltará jamais a pertencer» a esse organismo, a diplomacia venezuelana sublinha que esta acção é mais uma das tentativas para boicotar e deslegitimar as eleições parlamentares marcadas para o próximo domingo, com vista à renovação da Assembleia Nacional, que se encontra em situação de «desobediência» desde 2016, por não reconhecer os restantes poderes do Estado.

    «No entanto, no próximo dia 6 de Dezembro, o povo venezuelano dará outra lição de soberania democrática ao mercenário-geral da OEA, bem como a qualquer agente externo que pretenda interferir nos assuntos internos da Venezuela», destaca o comunicado.

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    Em contrapartida, na manhã de hoje, no que por hábito se consulta (Público e outras “fontes”) a Venezuela está ausente… mas decerto não estará nos dias seguintes as eleições, e talvez com referência ao TPI, à OEA e, eventualmente, a Pepe Mujica.

    Veremos!

    sexta-feira, dezembro 04, 2020

    Ridículo

    No começo do dia passam-se os olhos pela "informação".

    Tropeça-se no ridículo tal é a sanha (ou a senha?) que se revela, se salta das letras ou do que é dito, ou como é dada a "notícia".

    Do Expresso-curto:

    "Costa prepara um 'bónus' para o PCP com um aumento do salário mínimo superior ao que tem estado em cima da mesa.»

    O aumento, a vir a concretizar-se, resultará de negociações em curso decorrentes ao OE21 e irá beneficiar quem?

    O PCP?

    O PS?

    Ou os trabalhadores que a medida abrangerá?!

    Ridículo e vexatório, como se dizia noutros tempos!

    quarta-feira, dezembro 02, 2020

    Caderno Escolar RESTAURAÇÃO

     Ainda no dia de hoje, neste tempo estranho em que os os dias parecem todos iguais a não-dias, em que alguns, felizmente muitos, teimam em dizer que, apesar de todos os cuidados, há que continuara a viver e a defender direitos, sobretudo aqueles direitos que, em nome de uma coisa a que chamam oportunidades não passa de oportunismos, procuram a ganancia e reforçar a exploração, neste tempo hoje é o dia 1º de Dezembro.

    E lembrei-me, como tantas vezes me lembro, de meu pai que, no seu pequeno comércio, criava, - "produzia" - produtos, a que dava os nomes e as gravuras de que gostava mais (como Ourém, Sérgito, Miúdo), também se lembrou de um Caderno Escolar Restauração

    Foi uma homenagem sincera, curiosa e um tanto criptadas aos Restauradores, homenagem que hoje me faz sorrir e, ao mesmo tempo, me enternece com a lembrança que este dia, que já foi tão diferente do de hoje, me trouxe.