Fui "agarrado". Só me lembro de igual situação aquando de Gabriela, Cravo e Canela. Embora, nessa altura - há muitas décadas - fosse mais difícil porque era precisa muita "ginástica" nos horários para não se perderem os episódios. Agora, a "ginástica" é outra, embora também de horários, mas serão horários de sono, de sono roubado para não se perderem os episódios gravados.
Borgen é a minha "telenovela" deste tempo de hoje (e de alguma outra gente que conheço...). Uma série dinamarquesa sobre política. Hoje.
Muito bem feita. Verdadeiramente aliciante, "agarradora", jogando com os ingredientes todos - casos do presente ficcionado, afectos e relações, vida pessoal e familiar em atrito com carreira profissional, as mulheres na política, questão do género, doenças malditas porque carregadas de fantasmas, tudo num ambiente em que predomina a... política -, como acontece na vida porque política é tudo e está em tudo da vida... E decerto sobretudo na vida dos que o desconhecem, ou não o querem aceitar ou até o rejeitam autisticamente.
Dir-me-ão que poucos são os que vêem a série, que só uns raros - dos que não estão presos às outras telenovelas, aos concursos (de dança, de canto, de "talentos"), à inominável "casa dos segredos" - é que, como eu, qualquer a hora já da madrugada a que cheguem a casa ou se libertem de outras coisas, adiam a ida para a cama dormir para depois de verem a gravação do episódio do dia. Dir-me-ão... e assim será, mas parece-me que vale a pena falar disto.
Aderi à série? Conquistou-me por empatia? Anulou ou diminuiu o meu sentido crítico relativamente à sociedade, à política?
Não! Bem pelo contrário. Animou esse espírito critico, a partir de uma realidade muito bem ficcionada, aqui e ali simplificada ou redutoramente (a)mostrada, mas sempre preenchida por gente como nós, por humanidade. Tal como a sociedade está politicamente organizada e condicionada. Ali. Na Dinamarca e por outras paragens.
Na série, a política apresenta-se como um jogo. Um jogo jogado num enorme tabuleiro onde se movem as peças. Que são seres humanos que têm a profissão de o jogarem, de serem políticos. Seres humanos num jogo em que, na aparência, só aqueles é que jogam. Mas em que os outros estão lá, passivos, receptores das políticas que, entre si, essas peças activas congeminam e entre-comprometem. Como se a outras peças, invisíveis, só servissem para, de vez em quando, serem chamadas a escolher as peças activas, em que lugar e com que força podem jogar.
À semelhança do parecido jogo de xadrez, ele há reis, ele há raínhas (primeiros-ministros... ou primeiras-ministras), ele há bispos, cavalos e torres (ministros, directores-gerais e outros que tais). São estes que "fazem política". São os profissionais. Como se a política se resumisse "àquilo". Com os peões imóveis e invisíveis (e distraídos, e tendenciosamente informados).
Se fosse esse o jogo (e é...), a série seria perfeita. Até porque não esconde outras influências no "jogo político", como a do poder económico-financeiro, que determina as jogadas que lhe convéem, como a enorme importância da comunicação social (jornais, rádio, televisão), que entra no jogo de forma a condicionar, por vezes decisivamente, as imagens, os comportamentos, os compromissos.
E este "peão" tele-ouvinte, saboreando o jogo e as jogadas, admirando a qualidade artistica-comunicacional (que admiráveis actores!), sente a necessidade de estar atento às limitações da série, ao menos(ou até des)prezo pelas peças que menos parecem valer que os peões no xadrez, e que são as que têm o poder real da política: as massas, o povo!
Escreveria mais, muito mais..., a partir de Borgen. O que revelará (para minha exclusiva avaliação) o quanto vale a série.
Para exemplo do que fica por dizer, e talvez o venha a ser..., fica sem comentário (por agora) a importância insinuada, neste jogo - tal como apresentado -, do desaparecimento dos países socialistas europeus, as orfandades que esse desastre (histórico) provocou, a ausência de verdadeiras alternativas de sociedade que deriva do vazio ideológico resultantes de se ter atirado fora o bébé com a água suja do banho. No entanto, sem talvez disso se aperceber, na série pressente-se que o bébé sobrevive. Talvez não pelos reinos da Dinamarca (menos de 6 milhões de europeus, na União Europeia... embora sem €uro), mas há mais de 7 mil milhões de seres humanos (e vivos, hoje).
E há o tempo Que, como lembra bem a Birgitte do Borgen, é dimensão fundamental em política. E não pára!