quinta-feira, novembro 13, 2014

NOS BICOS DOS PÉS - uma crónica-comentário de Correia da Fonseca

Todos os canais da televisão portuguesa participaram, ainda que porventura com intensidades desiguais, nas festivas comemorações mediáticas da chamada Queda do Muro de Berlim em 1989
Foi, naturalmente, o momento perfeito para a reedição de todas as falsificações debitadas ao longo dos anos, antes e depois de 89, acerca do Muro, com ocultação das razões que levaram à sua construção, das movimentações políticas que precederam o seu derrube e do significado de tudo quanto se lhe seguiu e foi muito. 
Com muita razão, a Queda do Muro foi entendida como acontecimento emblemático da derrota da União Soviética e do projecto que a caracterizava perante o capitalismo imperialista, e isto de tal modo que pedaços do muro derrubado foram distribuídos como trofeus um pouco por todo o mundo, estando um deles, por infeliz sinal, guardado em Fátima, talvez ao lado de relíquias de santos, pelo menos com um estatuto de sugerida equiparação, o que pode colidir com o estatuto de apolitismo que tão bem fica à Igreja de Roma e suas filiais. 
Escusado será sublinhar que a devoção dos “media” ocidentais pelo pluralismo e pela abertura a entendimentos contraditórios não foi tão longe que tenha agora referido, sequer fugazmente, as razões que impuseram à República Democrática Alemã, estado reconhecido por toda a comunidade internacional e com assento na ONU, a construção de uma barreira física que permitisse o controlo eficaz da sua fronteira ocidental, por onde diariamente se infiltravam os diversos meios e agentes que trabalhavam para a sua eliminação. 
Mas houve muitas imagens, algumas actuais, outras com vinte e cinco anos de idade, todas exuberantes e significativas. Era a História escrita pelos vencedores, neste caso no plano audiovisual.

As duas vitórias

É preciso registar também, contudo, que alguns dias antes ocorreram episódios, dois pelo menos, a que não será excessivo conferir significado histórico ainda que apenas no âmbito da História deste nosso país à beira-mar plantado, como se dirá repetindo um chavão antigo. A avaliar pelo relevo que a televisão lhes deu e também pelo tom solene lhes foi dispensado por altas figuras do Estado, tratou-se de feitos notáveis que sem que déssemos por isso aconteceram praticamente nas nossas barbas, digamos assim. 
Um deles foi o da acção vitoriosa da nossa Força Aérea que repeliu pronta e eficazmente uma incursão invasiva de bombardeiros russos que penetraram não no espaço aéreo português, é certo, mas que se atreveram a sobrevoar o Atlântico Norte que, já se vê, é área que a NATO (repare-se: OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte) decidiu encarar como seu domínio, ainda que tratando-se de espaço internacional. 
Na verdade não chegámos a ser informados de pormenores, mas é de crer que os aviões russos, que para mais tinham o descoco de exibir nos lemes de direcção a estrela vermelha do internacionalismo proletário, coisa de todo em desuso, tenham ficado espavoridos ao avistarem a nossa força aérea pelo que imediatamente retiraram. É, pelo menos, uma cena assim que se adivinha do óbvio orgulho que transpareceu das palavras do senhor ministro da Justiça ao dar ao país informação do recontro havido. 
Quanto ao segundo episódio histórico recentemente ocorrido, tratou-se da incursão de um navio russo não em águas territoriais portuguesas, em verdade, mas em zona que lhes é próxima e por isso está confiada à vigilância lusa. Não era exactamente um couraçado ou um porta-aviões, nem sequer era um navio de guerra mas sim um navio de estudo hidrográfico, mas bem se sabe como os russos não são de fiar e portanto, zás!, logo ele foi enquadrado por elementos da esquadra portuguesa até que tenha ficado suficientemente longe. 
Era, em poucos dias, a segunda vitória portuguesa sobre elementos, militares ou não, comandados por Putin, o que foi funcionário da URSS e não se sabe bem se chegou a pedir a demissão. Era, pois, sobejo motivo para que na televisão portuguesa surgissem cavalheiros em metafóricos bicos dos pés. E eles, naturalmente, não deixaram de acorrer à patriótica chamada. 

Correia da Fonseca