domingo, agosto 19, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 12

Entrementes, em Lisboa
ela continuava no seu tecer…

Ela regalava-se com o sucesso da sua “teia”.

Os “chefes” já estavam à espera da sua resposta para a proposta (deles!) de ir à reunião de Roterdão, por causa de uma encomenda relacionada com aquele porto monstruoso.

E tinham acertado, entre chefias, que o que convinha mesmo - como vieram a propor-lhe sem saberem como tinham sido bem manipuladas… - era precisamente na quinta‑feira daquela semana que estava no centro das suas manobras e contra‑manobras.

Que gozo!

Ele,
nos meandros da sua “conspiração”

Ele, pelo seu lado, já avisara o Partido das decisões que tomara quanto a viagens. E pediu ao gabinete de Lisboa que lhe marcasse para aquela semana algumas entrevistas e reuniões que estavam pendentes, porque não valia a pena ir a Bruxelas uma vez que não haver razão de trabalho que justificasse a deslocação.

Teve alguma dificuldade em convencer os camaradas, por causa da “massa” das diferenças relativas às indemnizações de viagem que os deputados daquele partido entregavam como regra militante, mas o interesse das entrevistas e reuniões – e a sua convincente argumentação – prevaleceu.

sexta-feira, agosto 17, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 11

Ele, em Bruxelas,
na semana antes de

As tarefas não lhe davam grandes folgas.

Mas viveu essa semana numa ansiedade que lhe roubava tempo de sono, substituído por preparativos (os tais pormenores a afinar…), e dúvidas, e interrogações.

Porquê aquela insegurança? Tinha do amor uma concepção de relação de entrega, de reciprocidade, de confiança mútua. E sabia, ah!, sabia..., que ela só estava naquele amor porque também assim o entendia e queria.

O narrador também sabe (por portas travessas) que a vida os ensinara, e que ela o “educara”, lhe dera uma exacta dimensão de amor. Ter de ser tudo mas, também, de não ter de ser absoluto, doentio, “dois num só” e esses extremos idealizados, apenas (e tanto!) eu e tu sem se apagarem no nós que queriam ser. Enquanto.

Canto o encanto enquanto, lhe respondera ele um dia.

Pois é… mas não era fácil. Às vezes, custava-lhe suportar que houvesse uma parte de ela que não se apagava no nós, que houvesse zonas da sua vida em que, sabia, ele não entrava (ah!, os jardins secretos…).

Por isso, algumas reacções, algumas dúvidas, a insegurança.

Ciúme? Talvez. Mas não. Ciúme, não. Porque isso seria desconfiança.

De qualquer modo, o que era preciso naquele momento era preparar muito bem a “surpresa”.

Lá estás tu...



no Ávante! de ontem

quinta-feira, agosto 16, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 10

Ela,
em contrapartida (de ping-pong)

Em resposta à “aliciante” compensação de acordarem ao lado um do outro no dia em que deviam jantar, ela resmungara qualquer coisa como:

"… sabes como eu sou ao acordar, talvez até fosse bom que não me acordasses nesse dia que já está estragado... depois a gente vê...",

e contra‑atacara com a resignação (“também não podemos fazer o fim-de-semana?... paciência!”).

Ele, inseguro,
mas determinado

A essa estocada (ping-pong ou esgrima?) ele procurara não ligar, não tomar por desinteresse o que o vírus da desconfiança de pronto lhe viera segredar, perfidamente.

E recuperou(-se) na determinação de levar a estratégia por diante. Aguentar firme, até ao fim!

E assim se separaram nas suas separações após fim-de-semana, e ele partiu para os aeroportos como se fosse descer e subir estações de metro.

E, nas alturas – para lá e para cá – foi afinando pormenores

Parabéns, Dimitri




Um abraço para este grande amigo, que hoje faz 40 anos e que comecei a conhecer há tantos anos...

quarta-feira, agosto 15, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 9

Ela, sempre em Lisboa,
entre casa e escritório

Em Lisboa, tudo se passava aparentemente mais lenta e subtilmente. Menos operação e acções de campanha.

Ela já insinuara aos decididores, ou aos que tal se julgavam, a proposta da reunião e da viagem que lhe convinha para o "tricot", ou para a teia que urdia.

Ficou à espera que "os chefes" lhe viessem pedir que fizesse o que ela teria de fazer para que o seu plano se realizasse.


Em trânsito (ele),
e os dois em Lisboa

Na viagem de regresso, depois na estadia em Lisboa, em casa, nos encontros e nas reuniões, em todos os momentos, com notas, horários e gráficos, em pedaços de papel logo depois destruídos, ele avançava com o plano estratégico.

Com escondido gozo, lá a ia avisando – "que chatice, mais uma..." – de coisas que congeminara no imaginativo labor conspirativo:
· do convite para colóquio na associação de emigrantes;
· que seria precisamente no fim-de-semana que se seguia ao que deveria ser o "dia deles", o do 20° aniversário;
· pelo que teriam de adiar a ideia do fim-de-semana que viria compensar a falta do jantar;
· no entanto, na semana fatídica não iria no voo de 2ª – "pobre compensação...", acrescentava com ar pesaroso;
· partiria no voo de 4ª, para, pelo menos, poderem acordar ao lado um do outro no dia em que deveriam jantar juntos “se não fosse o azar que se costuma dizer ser dos Távoras…”.

postalinhos

Antigamente, em tempos que já lá vão, eram os Estados que injectavam dinheiro para gerir, bem ou mal - mais mal que bem -, as economias nacionais.
&-----&-----&
Hoje, são o BCE (banco central europeu) e o Banco Nacional do Japão que injectam dinheiro, como terapêutica para o dolar com problemas...
&-----&-----&
... e inevitáveis consequências pandémicas para os trabalhadores precarizados.
&-----&-----&
Mas só como efeitos colaterais.
&-----&-----&
Alguém havia de querer mal às pessoas, coitadinhas...
&-----&-----&
Há que fazer um caso da ausência governamental da assinalação dos 100 anos de Miguel Torga?
&-----&-----&
Não se fosse só um caso.
&-----&-----&
Haveria, apenas, que lamentar.
&-----&-----&
Junta-se é ao resto.
&-----&-----&
E é mais um signo sinal de insensibilidade, de menosprezo pela cultura, pelo social, pelo trabalho.
&-----&-----&
Sempre, e apenas, ao serviço dos poderosos.
&-----&----&
Pelo único critério do dinheiro possuido, tido ou retido.
&-----&-----&
Às vezes, o balido do bezerro de ouro é ensurdecedor.
&-----&-----&
Q'ais Torgas?! Não se ouve nada...

ruas, gente, paisagens, arte






admirando Júlio Resende em tapeçaria (e o muro de pedra)

excertos



Cada país, por mais pequeno que seja, é inesgotável.
Pode ser este, o nosso.
Poderíamos já o ter percorrido todo…
… haveria sempre coisas (e gente) para ver e descobrir.
Ou para ver de novo e redescobrir…
… e fotografar.
<-- museu de tapeçaria de Portalegre







exposição de José Mouga em Castelo de Vide -->

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 8

Ela, em Lisboa,
nos mesmos dias, mês, década, século

Enquanto acontecia o que em Estrasburgo aconteceu, ela, em Lisboa, congeminava.

No intervalo de duas reuniões e de três telefonemas multilingues, começara a tricotar um plano secreto, que melhor lhe chamaria contra-plano se adivinhasse o que em Estrasburgo originara aquele eureka.
Sorriu‑se quando lhe veio a ideia.

"Ele ia ver...oh!, se ia…".

Ele, Sua Excelência, o senhor deputado, que tinha a mania que dispunha de muita capacidade de manobra e argumentação… nem sequer fora capaz de conseguir adiar uma reunião em que, ao que dizia, não podia deixar de estar presente.

"Ele ia ver... ai ia, ia...".

Ele,
ainda em Estrasburgo

Em Estrasburgo, ele, o deputado, programava a sequência das operações, entre uma intervenção num debate, uma declaração de voto, uma reunião do grupo, uma gravação para a televisão.

Acção prévia: organizar os seus passos em articulação com uma informação e uma publicidade (só dirigidas a ela) sobre uma sucessão de acontecimentos fictícios... e credíveis.

Cautelas a tomar: sobretudo, aguentar os próximos “quinze dias” sem fugas de informação, sem "escorregadelas". Tinha de se controlar nos telefonemas e nas conversas "ao vivo" nos fins-de-semana. Nada fácil, nada fácil...

terça-feira, agosto 14, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 7

Foi uma noite agitada

Passou a noite meio desperto, entre dúvidas e contradições.

De manhã, meteu‑se no duche como quem procura uma terapia que o desperte para um dia novo, lavado da insónia, limpo das teias de aranha com que as noites mal ou não dormidas enchem as cabeças.

Mais uma vez, como gostava de fazer, ele interpretava aquela subtileza linguística que valoriza o português face ao francês. É que, enquanto os franceses não fazem mais que "se laver les cheveux", os portugueses lavam é a cabeça. Às vezes com tanta força que até o fazem por dentro... Como ele o fez naquela manhã.

De repente, do meio da espuma espalhada pelo cabelo, barba e resto do corpo, saiu o eureka tantas vezes repetido desde que um grego - parece que filósofo - o gritou no banho de imersão em que flutuava sem saber porquê até esse tal eureka que o fez saltar da banheira.

Foi depois desse preciso, concreto e aportuguesado eureka, soltado do duche e não do banho de imersão, que começou a lenta e laboriosa montagem de um plano, peça por peça, como se fosse um assalto a um comboio-correio. Ou uma conspiração. Como, no “antigamente”, participara em algumas.

"Ela ia ver... ah!, ela ia ver...”

domingo, agosto 12, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 6

Durante o dia,
que se prolongou pela noite

Durante o resto do dia, no turbilhão do trabalho - que muito era sempre, e ele ainda lhe somou aquelas "habilidades" -, distraiu a vontade de telefonar e, quando chegou a noite, quando finalmente falou para ela, não lhe disse nada da mudança. E ficou surpreendido e irritado.

Primeiro, por ela nada lhe ter perguntado. Depois, por ele próprio ter calado o que não lhe saía da cabeça.

Na cama do hotel de Estrasburgo, o sono não queria terminar aquele dia, como o cansaço habitualmente o apressava.

Até lhe viria a parecer que não teria mesmo chegado. Dormia, se dormia, pouco e mal. E, se não tinha razões para isso, foi‑as inventado.

Magoava-o, sobretudo, o desinteresse dela, o não lhe ter perguntado se ele conseguira alguma coisa com os esforços que lhe dissera ir fazer. Custava-lhe que ela não lhe tivesse perguntado se ele conseguira o que, afinal, conseguira mesmo.

Sentia irritação e amuo. Só atenuados, ou impedidos de crescer, por se lembrar vagamente que lhe teria dito, antes, no telefonema anunciador da “catástrofe”, que seria quase impossível vir a ter bons resultados nessas eventuais tentativas, que nem valia a pena esperar.

No entanto…

Miguel Torga

Em tempos que vivemos, sabia este poema de cor e, de vez em quando, gritava-o! Porque não queria chorar, porque não sabia cantar, porque recusava fugir.
Também hoje, neste tempo que vivemos, por vezes apetece cantar, apetece chorar, apetece gritar, apetece fugir. Mas, nesses tempos que vivemos como neste que estamos a viver, há que gritar, há que chorar, há que cantar. Há que lutar, seja cantando, ou chorando, ou gritando!

Dies irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga

sábado, agosto 11, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 5

Assim estavam as coisas

Ora, estando assim as coisas, na manhã do dia seguinte, em conversa com o presidente da dita comissão especializada, conversa que ele provocara para trocarem impressões sobre emendas a um relatório em votação naquele plenário de Estrasburgo, descortinou uma aberta inesperada numas reticências processuais.

Com argumentação algo capciosa, apoiou o “caro colega presidente” nessas reticências, e tomaram a decisão de cancelar a tal reunião de Bruxelas ("desde que os outros não tivessem objecções, obvuamente...") em que se iria discutir e votar o relatório que tanto o perturbava (por razões não trazidas à conversa, que não tinham nada de a ela virem, claro), incluindo‑a na ordem de trabalhos da reunião ordinária já antes calendarizada.

Foi ele mesmo que andou numa roda-viva, de deputado em deputado, arranjando tudo, e que foi ao secretariado anunciar e dar instruções para o cancelamento da reunião extraordinária. "O caro colega presidente que não se incomodasse..."

Tudo tratado, libertado daquele compromisso, quase eufórico, a sua primeira reacção foi a de ir telefonar para ela, dar‑lhe a boa nova.

Mas não quis precipitar‑se uma segunda vez, reconhecendo que a má notícia fora dada cedo demais, sem ter esperado sequer pelos eventuais resultados da sua própria capacidade de iniciativa e manobra.

Sobre o "estado da blogosfera"

Está-se quietinho no seu canto, fazendo as matinais incursões pelos "favoritos". Blogosfera-se em circuito fechado. Até que, numa dessas quotidianas passagens, se encontra um "aqui" que convida a ir "lá fora", a sair do circuito. E "ali", naquele primeiro "aqui" encontra-se outro "aqui" também convidativo. E assim sucessivamente.
Regressa-se, assustado, ao canto. O "estado da blogosfera", reflectindo o "estado da nação (e do mundo)", é assustador. Ainda mais ilustrativo que aqueles programas de rádio que dão a palavra ao ouvinte, como se isso fosse... a democracia.
Tanta gente cheia de saber coisa nenhuma a ter opiniões definitivas sobre tudo, apenas informada pelo afinado "aparelho ideológico" do capitalismo global usando os grandes meios, mal compensada informação (ainda) pelo que é a sua/nossa experiência de vid(inh)a.
Bem difícil é o caminho da tomada de consciência para a chegada ao "reino da liberdade".

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 4

Ela,
em Lisboa

Ao telefone, emprestando boa voz à má fortuna, ela respondeu que também não tinha grande importância – "deixa lá…" –, jantariam dois dias depois, até se metia o fim-de-semana a seguir, e podiam pensar num programa mais interessante e repousante.

Ele,
em Estrasburgo

Com mais umas blasfémias, em que vários presidentes, funcionários do secretariado e deputados de outros partidos não foram muito bem tratados, ele fugiu a reagir à relativa irritação que lhe provocara a calma aceitação, por parte dela, de algo que o estava a perturbar e a estragar planos comuns.
Mas, nessa fuga a falar do que não queria, acrescentou que ainda faltavam duas semanas, com dois fins-de-semana em Lisboa, e uma ida a Bruxelas.

Os dois.
um em Lisboa, outro em Estrasburgo

“Logo se verá”, disseram os dois.

No entanto, antes de desligarem, ainda a ele lhe escapou um comentário muito rápido, a modos de resmungo, "parece que não tiveste grande desgosto... ainda bem!".
Ela fingiu não notar, sabendo que melhor seria não atirar achas para a fogueira da irritação daquele cavalheiro que tão bem conhecia.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Conversas à soalheira

- Não percebi nada daquilo de Timor?
- Pois é… só metendo explicador!
- Ajuda-me…
- Vou tentar… com um suponhamos.
Então é assim, suponhamos que em 2009, a nível nacional, se repetiam os resultados para a Câmara de Lisboa:
  • 35% de mandatos para a lista do PS
  • 20% para uma lista “dissidente” do PSD
    18% para a lista do PSD
    10% para a lista da CDU
    9% para uma lista de cidadãos “independentes”
    5% para a lista do BE
    3% para a lista do PP
tendo ficado sem eleitos, isto é, sem mandatos, 6% dos votos distribuídos por várias outras listas…
- … em Lisboa não foi bem assim…
- Foi mais ou menos (se reparares 6 vereadores em 17 é 35% e não 29% como foi a percentagem de votos no PS). Aliás, isto é para arredondar, e tem a ver com o facto da distribuição dos mandatos, no caso das legislativas não só não coincide com a da votação mas é distorcida pela implantação distrital… De qualquer modo, isto é só um suponhamos.
- Continua, continua…
- Depois de consultas, negociações e outras manigâncias e manipulações com promessas de distribuição de ministérios e de outras prebendas, suponhamos que o PR, o inefável Cavaco Silva, tomava a decisão de encarregar da formação do governo o presidente do PSD, sabendo que este teria o apoio dos seus dissidentes (ou dissid’antes), dos cidadãos eleitos na lista dos “cidadãos” ("independentes" e chateados com o PS por não os terem metido nas suas listas, assim regressando alguns à “casa de partida” com uma secretaria de Estado ou mais) e do em vias de desmascaramento total BE, desta forma alcandorado ao desejado estatuto de oposição por dentro… de um ministério (ou mais).
- 'Tou a ver..
- Pois ‘tás… e pega na máquina de calcular: 20+18+9+5 igual a 52% de mandatos e 46+41+20+12 deputados igual a 119 em 230 deputados... isto é, maioria absoluta e ainda com os 3% e 7 deputados do PP de reserva.
- E assim o PS, com mais votos, clara maioria relativa e larga maioria relativa de deputados (81!, seguido de 46 do PSD a quem se atribuía a formação do executivo) ficava fora do governo da nação.
- Claro…
- Pois é… e os 20 deputados do PCP e mais os 3 dos Verdes eleitos na CDU, e representando 10% dos mandatos não contam?
- Ah! isso representaria outra enorme vantagem desta “solução democrática”: não ser preciso contar, para a solução institucional, nem com os comunistas nem com os "verdes", não obstante a sua real implantação na vida social portuguesa.
- Coisas da democracia ocidental…
-… burguesa, burguesa…
- Dizes bem…
- Pois é… até porque também é oriental… e não nos esqueçamos de Timor que era o começo da conversa.
- Tens razão… mas é fácil: é só mudar alguns nomes e designações. Experimenta: vê lá onde hás-de pôr Ramos Horta, Xanana Gusmão, Fretilin.
- Não há-de ser difícil…
- E acrescenta petróleo e Indonésia e Austrália... EUA não vale a pena acrescentar porque esses estão em todo o lado.
- ‘Tá feito.
- ‘Tamos mas é feitos!

(ajudado, ou inspirado…, pelo Imaginemos do Henrique Custódio no Avante! de ontem)

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 3

Ele, em Estrasburgo,
nuns dias quaisquer
de um mês que não importa,
na primeira metade da década de 90 do século xx

Mas o que os homens fazem ou sonham, o Parlamento Europeu pode desfazer, e, na sessão plenária de Estrasburgo a que ele fora, como deputado no Parlamento Europeu, foi desfeito o que sonho era e projecto se ajustara à partida de Lisboa.

E desfeito foi porque, entretanto, lá num dos intervalos do plenário, se marcou para Bruxelas uma reunião de comissão, com discussão e votação importante para o seu trabalho, e precisamente para a manhã do dia seguinte à noite do desejado jantar.

Ele viu logo que não havia maneira (ou avião!) que lhe possibilitasse jantar em Lisboa e estar em Bruxelas antes do meio-dia. Logo naquela semana em que não tinha outras reuniões que exigissem a sua presença em Bruxelas e que, por isso, vinha mesmo a jeito para o “tal” jantar.

Correu a telefonar‑lhe a notícia, praguejou como fazia frequentemente nos últimos tempos, disse que ainda ia ver se conseguiria alterar as datas para poderem jantar juntos nesse dia querido.

Mas foi avisando que lhe parecia quase impossível, pois já não haveria qualquer reunião da comissão até à que se iria realizar em Bruxelas, naquela fatídica manhã. E acrescentou coisas sobre a “pontaria destes gajos”, gajos que ele nunca se cansava de etiquetar com palavras mais pesadas.

quinta-feira, agosto 09, 2007

6 e 9 de Agosto de 1945

A Maria, de O Cheiro da Ilha, no dia 6 de Agosto lembrou-nos a "Rosa de Hiroshima" para nos lembrar Hiroshima. Fez bem. Agradeci-lhe e saudei-a. Retomo, hoje, a lembrança.
Hoje, e sei porquê, aqui voltei
Hoje, e sei porquê, de novo ouvi os Secos e Molhados
e de novo ouvi o Ney Matogrosso cantar Vinicius de Moraes
Hoje, e sei porquê
Hoje, porque não chegava Hiroshima,
Hoje, 9 de Agosto,
porque ao horror de Hiroshima se quis juntar o horror Nagasaki
Hoje, e sei porquê,
porque é hoje - também - que é preciso dizer "oh não se esqueçam"!



Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexactas

Pensem na mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioactiva

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atómica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

postalinhos...

(fresquinhos... já de hoje):

No noticiário das 9: a Galp aumentou os seus lucros em x-por-cento (muitos!).

&-----&-----&

(Ontem, e anteontem, e transanteontem, foram outras, dos seguros e da banca, que aumentaram – e muito – os seus/deles lucros).

&-----&-----&

Ainda na rádio, e parece que apropósito…, ficámos a saber que o preço dos combustíveis deve aumentar.

&-----&-----&

Tirei os olhos do computador e fiquei a pensar, perplexo…

&-----&-----&

Ah! já sei… é a teoria dos vasos comunicantes… para que umas coisas aumentem, outras têm de diminuir.

&-----&-----&

Era assim a teoria?

&-----&-----&

Sei lá… é assim a realidade.

postalinhos...

(do caderno VII "os primeiros dias segundos", ontem):

Fui almoçar ao Borsalino.

&-----&-----&

"Borsalinadas", claro, na toalha de papel…

&-----&-----&

A diferença entre os homens!

&-----&-----&

Como os homens são diferentes!

&-----&-----&

Uns, falam alto, tão alto que todos à volta os ouvem…

&-----&-----&

… até os que não os querem ouvir!

&-----&-----&

Outros, falam baixo, tão baixo que nem os mais próximos os ouvem…

&-----&-----&

… mesmo os que têm de os ouvir!

&-----&-----&

Vivemos o tempo (histórico) da narcotização global.

&-----&-----&

As questões fulcrais:

&-----&-----&

1. Que mundo nos recebeu?

&-----&-----&

2. Que mundo ficará para depois de nós?

&-----&-----&

3. Que fizemos nós no intervalo?

&-----&-----&

4. Para que contribuímos?

&-----&-----&

5. Gozámos ao menos a nossa vid(inh)a?

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 2

Parte 1
PRIMEIRO DESENCONTRO
POR AMOR DE DOIS


Intemporal
ou uma história do que é eterno enquanto existe

Não era igual. Não podia ser igual ao que tinha sido há 20 anos.

Mas continuava a ser amor.

Tinham, ao longo dos anos, criado o hábito de jantar num dia certo do ano no mesmo restaurante em que, há 20 anos, os juntara os primeiros convite e aceitação. Nunca falhara, apesar das idas e vindas, de dificuldades várias.

Não se tratava de comemoração, diziam, até porque houve anos em que alargaram o jantar a amigos porque dera jeito, sem que lhes tivessem comunicado alguma razão especial para aquele jantar, ou para que o jantar fosse só (ou particularmente) deles.

Mas, talvez porque 20 é um número redondo, naquele ano esperavam a data com alguma relativa ansiedade.

Talvez porque havia alguns problemas na vida de cada um que se reflectiam numa certa necessidade de se refugiarem na vida que deles era. Talvez porque novos trabalhos e outras tarefas mais os afastassem e fizessem sentir saudades do que continuava a ser.

Assim se disseram, e assim pensaram fazer.

Tendo falado disso com uma inabitual antecedência, naquela despedida que, como todas, semana a semana, já preparava o regresso.

quarta-feira, agosto 08, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS

PRÓLOGO

Nada do que vai ser contado aconteceu.

Ou melhor (para que melhor se conte):
o que vai ser contado não aconteceu… mas podia ter acontecido!

Aliás, já está contado em várias formas e formatos. Mas apenas para “consumo interno”. Isto é, em círculo muito restrito. Entre os dois (quase) protagonistas.

Agora, vai sê-lo na versão folhetim-blog.

Novo, inovador? Não, decerto. Mas talvez sim…

Um episódio por dia (se não houver falhas…), durante 20 dias.

Com eventual prolongamento.

Duas informações

1.- No "blog" som-da-tinta continua a viagem no "cavalo de pau com Sancho Pancho". Atravessam-se, agora, as difíceis passagens dos encontros que, segundo Aquilino, Cervantes teria tido com o Santo Ofício, entre a 1ª e a 2ª parte do D. Quixote. São conversas muito interessantes, de que se retiram curtos (?!) excertos, a partir do que Cervantes escreveu, analisado à lupa por aquele Tribunal, e como estas conversas teriam condicionado, dado Cervantes ser homem de "cautelas e manhas", a 2ª parte de D. Quixote. Sei que não estou a fazer a viagem sozinho mas, ainda que o estivesse, bem compensado me sentia...

2.- A partir de hoje, do próximo "post", e durante 20 dias, vou publicar o (meu) primeiro folhetim-blog. Será a 1ª parte de UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS, que terá 2ª parte ou não. Depende.
É uma história que estava há longos anos (para aí uma década) na gaveta, e tem tido vários tratamentos formais. Vamos ver o que vai dar este...

terça-feira, agosto 07, 2007

Quem é que ganhou?...

- Então… como foi o jogo?

- Ahnn… não percebi lá grande coisa…

- Mas quem é que perdeu?

- Neste jogo os que perdem não jogam…

- ‘Tá bem… então, quem é que ganhou?

- Os que ganham sempre… aliás o jogo não acabou.

- Ah não!, porquê?

- Por avaria técnica… tudo muito esquisito...

- E agora?

- Agora, o jogo continua… isto é um verdadeiro casino!

- ... e sempre os mesmos a perderem sempre e sempre os mesmos a ganharem sempre.

- 'Pera aí... não foi o James Bond que disse nunca digas sempre?... ou foi o Jardim Gonçalves?... Se calhar foi o outro...

- Olha que não, olha que não... se calhar foi o Marx...

postalinhos...

As fotografias entraram-me pelos olhos dentro, li os títulos, passei adiante.

&-----&-----&

No actual estado de cousas, não é tema que estime prioritário.

&-----&-----&

Apesar da questão tornada central serem mais de 20 mil euros por mês (e quantos meses?)… isto são apenas trocos.

&-----&-----&

Bem mais no cerne, no osso, estão os milionários lucros dos bancos, das seguradoras e etc. e tal, em confronto com o papel que se quer atribuir ao Estado e aos seus trabalhadores, aos directores-gerais e… aos outros, à ralé.

&-----&-----&

Aliás, as fotografias não me foram agradáveis à vista – o homem não é fotogénico (do que não tem culpa nenhuma… nem o fotógrafo) – e não gosto de dedos espetados.

&-----&-----&

E os títulos, se escolhidos para serem atractivos, repeliram-me.

&-----&-----&

Tal como não gosto de dedos no ar em frente do nariz, aquelas coisas do estilo “o erro está…”, “a maior doença é…”, “os piores ganham demais” são demasiado afirmativas, pesporrentas, para meu gosto, repelem-me.

&-----&-----&

Agridem-me.

&-----&-----&

Entretanto, e talvez pelo último título citado e pela aparente consensualidade que rodeia as frequentes afirmações e aparições públicas do senhor, dei por mim a querer reagir.

&-----&-----&

Não que sinta qualquer acicate (ou invejinha) por o trabalho do homem ser tão excelentemente remunerado (mais em 1 mês que em 4-anos-4 de salário mínimo, quase tanto em 1 ano como em 30-anos-30 de um salário de 1000 euros mensais!)

&-----&-----&

Não que defenda qualquer forma de igualitarismo e de menosprezo pelos méritos de cada um.

&-----&-----&

O que me faz reagir é que defendo, defendi e defenderei, uma organização da sociedade em que, havendo direitos – à vida, ao trabalho, à saúde, à educação – que são universais, isto é, de todos, tal como há o dever de cada um contribuir para a satisfação deles à medida das suas capacidades, a partir desses pressupostos os seres humanos devem ser compensados proporcionalmente ao seu contributo para o bem-estar colectivo.

&-----&-----&

E, depois, quando o “reino da liberdade” puder substituir o “reino da necessidade” porque haverá abundância, cada um deverá ter acesso ao que lhe satisfaça as suas necessidades, entre elas, claro, a de trabalhar e de ser útil a todos.

&-----&-----&

Não que defenda a aplicação mecânica de fórmulas que, pela sua simplicidade, se podem tornar simplistas, mas, no caso e com as ditas reservas, parece-me oportuno lembrá-las.

&-----&-----&

Se não, a sociedade assemelhar-se-á a uma selva de individualismo e competitividade.

&-----&-----&

Haverá quem goste… enquanto se sentir com força predadora.

&-----&-----&

Por mim, opto pela solidariedade.

&-----&-----&

Feitios…

segunda-feira, agosto 06, 2007

Eu queria responder ao Marquês...

... mas o Marquês, recolhido no albergue dos danados, não se deixa comentar. Aliás a minha resposta à pergunta seria uma pergunta: Qual Guadalupe Müller tem a ver com a máquina dos flippers (ou com os matraquilhos?), a Vanina, a Beatriz ou outra qualquer?.
Poupa-me, pá!

Leituras na madrugada

"Um sistema que se baseia na corrupção de figuras públicas não pode tratar bem figuras públicas que se recusam a ser corrompidas".
(Confissões de um mercenário económico - a face oculta do imperialismo americano, John Perkins, ed. GESTÃOplus, Cascais 2007)
... e tão mal as trata que, por vezes, as (consegue) assassinar... como o autor tão bem sabe e, confessando, o conta...

domingo, agosto 05, 2007

Informação

No blog Som-da-Tinta "postaram-se" mais dois pequenos (?) excertos de No cavalo de pau com Sancho Pança, os 45 e 46 da série, estes sobre justiça e juízes no caminho percorrido por Aquilino Ribeiro (e nós com ele por excelente companhia) para chegar à governação como forma de arbitrar equidade, como exemplificou Sancho Pança enquanto Governador da Baratária.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Postalinhos...

Algumas notas (postalinhos) tomadas no "expresso" para Lisboa:

O BE tornou explícita uma ligação com o PS. Esta, na Câmara de Lisboa. Saúda-se a transparência. Não os transparentes… à força.

&-----&-----&

Em Timor-Leste (Lorosai) também é tudo transparente, a começar onde acaba, no sr. Ramos Horta, e a acabar onde começa, no sr. Xanana Gusmão. É tudo muito simples.

&-----&-----&

É tudo e todos e sempre contra a Fretilin.

&-----&-----&

Porque será?

&-----&-----&

Terá havido alguém, em grupo privado, restrito, e em comentário aparte, a usar expressões susceptíveis de serem consideradas ofensivas.

&-----&-----&

Terá havido outro alguém – desse grupo privado e restrito – a ir delatar a um “superior hierárquico” o que disse esse primeiro, e o “superior”, do cimo do seu poder(zinho), terá punido.

&-----&-----&

Não sei se estamos perante um caso de “liberdade de expressão”, ou de “direito de opinião”, ou de “censura”, ou dessas coisas assim.

&-----&-----&

Parece-me que não.

&-----&-----&

O que eu sei é que houve “bufaria”, o que eu sei é que, com base nela, houve um “superior hierárquico” que julgou e castigou.

&-----&-----&

Face à celeuma que tal encadeado de factos desencadeou, “superiores hierárquicos” do “superior hierárquico” tentaram remediar a situação criada, a modos de quem põe remendos em ruim pano.

&-----&-----&

E deu-se um significativo volte-face na abordagem mediática do incidente, ou sucessão de incidentes.

&-----&-----&

Apagou-se o delator e o acto de delação, apagou-se o “superior hierárquico” e o acto de punir com base na delação.

&-----&-----&

Ficaram, como únicas relevâncias, os protagonistas e os actos das extremidades: aquele que veio a ser punido e a sua evidente má-criação que está na origem da punição, aqueles que vieram remendar a situação sem a colocarem, obviamente, na posição anterior à delação e à punição.

&-----&-----&

Para mim, importante é o que se quer apagado, a delação e a punição.

&-----&-----&

O resto são diversões…

terça-feira, julho 31, 2007

Depende do estado de espírito...

Quando, esta manhã, resolvi terminar com esta série final (não definitiva...) de No cavalo de pau... tinha duas ilustrações "em carteira". Dependia dos textos de acompanhamento dos parágrafos finais de Mestre Aquilino que saíssem. Sairam aqueles... E, por isso, saiu aquela/esta fotografia, da edição da Bertrand, que não refere a autoria das gravuras.
A que estava em alternativa, seria a que vai abaixo, de Dom Quixote contado às crianças (por Rosa Navarro Duran com ilustrações de Francesc Rovira, tradução de António Rebordão Navarro, edição da Campo das Letras). Mas o estado de espírito era outro... embora, por vezes muito com esta mais me identifique (e a que gosto de chamar "as tresleituras"... de que sou sujeito e atreito).



No cavalo de pau com Sancho Pança - antecipação 5

Aquilino, ao assumir a tarefa de fazer dessa obra monumental que é D. Quixote uma versão - portuguesa - que a não desmerecesse, não se ficou por aí. Juntou-lhe um ensaio em que os povos e as nações se encontram nas diferenças que o tempo foi construindo e cimentando. Se "Cervantes leu o horoscópio da sua pátria numa hora de iluminado. E posto a pintar um louco sublime com tintas facetas, saiu-lhe, sim, a Espanha grandiosa e trágica", como termina "No cavalo de pau com Sancho Pança", Aquilino também teve a sua hora de iluminado (muitas teve...) e pintou o povo português, talvez "hispano europeizado", sempre europeu porque aqui nasceu, nunca espanholado por integração espúria. Apesar do garrote da economia e das finanças.
_____________________________
A nós, os portugueses, Keiserling não achou melhor que classificar-nos de espanhóis degenerados. Não é bem assim. Somos hispanos europeizados, ou evolutivos. Em verdade, a nossa terra apresenta grande unidade étnica. Se essa unidade se expressa, acima de tudo, por univalência psíquica, direi que o minhoto se parece tanto com o alentejano como o algarvio se diferencia do galego.
O bocado de massa que não levedou ao fermento castelhano, na grande masseira que é a Península, adquiriu personalidade distinta de estrato antropológico.
_______________________________





São os últimos parágrafos de No cavalo de pau... Acabo esta viagem. A ela voltarei porque apenas antecipei o seu final. Ao prazer que a viagem me foi dando (e a que regressarei quando a retomar), veio juntar-se alguma pena, algum amargor. São assim as viagens... Nunca sempre por caminhos em que só se olha em frente ou só para o que é belo e gozo nos dá.

segunda-feira, julho 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - antecipação 4

Assim se chega, passo a passo, ao penúltimo passo. Nesta antecipação a que nos trouxe uma recente provocação que mais oportunas tornaram estas páginas do ensaio de Aquilino sobre D. Quixote . Talvez amanhá se publique a última (nota e página) para, depois, no blog Som-da-Tinta se retomar a tranquila que até aqui, depois nos trará de novo. E não será viajar estar sempre à procura dos lugares em que já estivemos ou quisemos ter estado?
________________________________________
Adeus, de Espanha nem bom vento nem bom casamento. O vento são as ideias particularistas, de alor filipino, as opiniões próprias o modo de ver o mundo. Não nos convém. Somos um povo pacato, incaracterístico, inimigo do absoluto, ao contrário do espanhol. Tudo entre nós é comedido, se quiserem, água de rosas e papas de linhaça. A Espanha é o D. Quixote, um homem eminentemente perigoso, como dizia o Canhoto estalajadeiro. Nada de tirar palhinha nem fraguar com ele. Exclamava Unamuno, num hotel vesgo de Hendaia: Temos de matar D. Quixote para que viva Alonso Quixano, o Bom. Então a Espanha entrará a valer no concerto das nações.
Cada espanhol traz dentro de si, pequeno ou grande, um Engenhoso Fidalgo, mais disfarçado, menos disfarçado. Toda a história de Espanha é a aventura do cavaleiro manchego. Está compendiada nas suas três surtidas. Escreve Manuel Pinheiro Chagas, com lúcida compreensão: “E a Espanha sente bem ali no D. Quixote a sua própria imagem. Ri-se dos seus entusiasmos mas sabe que pouco basta para lhos despertar de novo”.



_________________________________
Não (nos) parecerão muito agradáveis as ideias que, No cavalo de pau com Sancho Pança, Mestre Aquilino deixa dos portugueses. "Águas de rosas e papas de linhaça"... que é lá isso? empertigar-se-á o orgulho luso. Releve-se que é, apenas, para fazer o contraste com o absoluto dos nuestros hermanos, com o sempre eminente perigo que são, com a panela de ferro de que nos deveríamos precaver em vez de contra ela arremetermos, "panela de barro" que seremos. Como inimigos? Não. Como irmãos e vizinhos.

sábado, julho 28, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - antecipação 3

Lisboa ao tempo da escrita de D.Quixote
- cidade e quase-capital da Ibéria
Mais um pequeno percurso, até à página 331, e quem sentiu em cada passo dado a vontade de parar, aqui não pode deixar de o fazer. Em duas pinceladas alguns traços (coloridos) sobre o povo português e a questão essencial da língua. Sem faltar o toque, leve e essencial, sobre o lusitano-galaico.
______________________________________
Não existia povo, no sentido de corpo social com sentimento de que vivia por virtude própria e segundo leis adequadas, mas uma rebanhada de famintos, espoliada primeiro pelos reis nacionais, sobretudo por D. Sebastião que precisou de dinheiro a todo o custo com que equipar o exército de África, e o cardeal-rei, que lançou derramas sobre derramas para resgatar fidalgos do cativeiro, nanja os mecânicos, que esses ou se naturalizaram moiros ou apodreceram cristãmente na escravidão, finalmente por Filipes e quadrilha, não menos rapaces que os governantes das dinastias legítimas.
Operou-se de novo a bipartição e julgamos que para todo o sempre. A datar daquele ano, as duas nações cada vez se apartaram mais em carácter, tendências e gostos. Na língua acima de tudo. (…)
A melhor forma de cimentar a etnicidade de um povo consiste na posse e uso de um idioma próprio. Ora dia a dia, com a evolução que se foi efectuando inelutável e profunda, mais o português se tornou português, tão longe do espanhol, repetimos, como do francês ou italiano. Longe vai a conjunção em que o castelhano se podia prevalecer do nosso idioma, como de um dialecto, o dialecto lusitano-galaico. Escapámos ao amplexo da boa-contrictor e só é pena que, derruído o solar da mãe celta, os dois filhos mais ocidentais, Portugal e Galiza, se olhem por cima de muros.
__________________________________
Por isso, se à Galiza fores em funções ou passeio (e vale bem a pena), português podes (ou deves?!) falar. Estarás em Espanha mas és português, e entender-te-ão esses espanhóis que, como galegos que são, até te agradecerão. E não farás a figura ridícula, em que os portugueses são contumazes, de arremedar outras línguas falando um português adulterado.

sexta-feira, julho 27, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - antecipação 2

Dei, em cima do cavalicoque, um pequeno salto. Passei à página 329. Pensando como se ajusta bem a história da panela de ferro e da panela de barro. Tendo os dois países negociado a um mesmo tempo a adesão às Comunidades Europeias, as negociações foram muito diferentes, e dessa altura, meados da década de 80, não me canso de lembrar a advertência de que a negociação nossa não salvaguardava os nossos interesses (especificidades lhes chamávamos), e que corríamos o risco não de nos "europeizarmos" (como se dizia) mas de nos "iberizarmos"... e como panela de barro. Até porque, da parte da Espanha, não foi assim, nunca foi assim. E continua a não ser. Não receiam ser "maus alunos".
___________________________________________
Cá e lá repetem-se horas por horas, cuidados por cuidados, ânsias por ânsias, como a água que corre nos dois territórios. Quando o Engenhoso Fidalgo se joga contra os rebanhos de carneiros que na sua fantasia alucinada toma pela hoste do soberbo Alifanfarrão, Sancho arranca do fundo do peito: Mal haya yo! O Zé Povinho usa de igual expressão nos desesperos e arrelias: - Malo haja!
Em que divergem? Pois, e profundamente, no psíquico. Parecendo-se de modo flagrante, todavia não são os mesmos. Isso que é imponderável, imensurado, inapreensível ao espéculo, germinou, cresceu, dispartiu-se de todo e formou tipos diferentes. Como? Vá lá saber-se como elaboram os cadinhos subterrâneos em matéria de antropologia! A pequena molécula bioquímica cá e lá, bafejada por ventos morais, desenvolveu-se noutra direcção. O português em suma não é o espanhol.
Portugal estaria para Cervantes no conceito de província que andara escapa à soberania do seu rei e voltava ao redil.
________________________________
Depois, Aquilino discorre de maneira admirável sobre o Tajo (gutural e incisivo, bruto) e o Tejo (doce e morna palavra, povoado por Cervantes com ninfas e dríades... e não tem tudo de ninfa Dulcineia?). Mas não se pode transcrever tudo! Por hoje, ficam estas duas antecipações.

No cavalo de pau com Sancho Pança - antecipação 1

No blog Som da Tinta tenho vindo a fazer uma "viagem", daquelas que muito gozo dão. Depois de uma releitura em livro descoberto num alfarrabista, comecei a transcrever trechos do ensaio de Aquilino Ribeiro, No cavalo de pau com Sancho Pança, e de alguns vim aqui trazer amostra. Já vou na "etapa" 44 e só ainda cheguei à página 208. E comecei a impacientar-me. E a procurar pôr o cavalicote a galopar. Porquê? Porque sabia que as últimas páginas vinham "mesmo a matar" para uma celeuma que aí se levantou... Por isso, resolvi aqui trazer essas últimas páginas, em antecipação, vindo a retomar o seu lugar no Som da Tinta quando chegar a altura. Serão 5 antecipações, e logo pela primeira se verá a razão desta pressa. Na página 327, dizia-nos Mestre Aquilino:
___________________________________________
Nós, que somos hispanos, no bom significado do termo latino e medieval, mas não espanhóis, como pretende Madariaga, quebrámos os vínculos políticos com Espanha em 1640, e não há que rever, nem por sombras, o gesto decidido dos nossos avós.
Para o castelhano das três dimensões, homem de touros e zarzuela, nunca se desvaneceu o sonho da união ibérica. Livrem-nos os fados de tal conjuntura! Alianças ou conúbios destes seriam como os da panela de ferro e da panela de barro, levadas na corrente de um rio. Nós, dum momento para o outro, poderíamos ficar escaqueirados. Olho no monstro: ainda quando nos aparece como filósofo salvador é sempre Caliban. Sem dúvida que aparentou sempre discursador da beatitude terrena em Deus do Céu.
Com Espanha – dizia Mazarin – são de desejar todas as boas relações de vizinhança. Mas fique-se na cortesia. Se ides mais longe, às duas por três, sem vos consultar, nem dar cavaco, o vosso aliado manda queimar as naus. Não que o faça sempre por trancafio, mas por orgulho, indómito orgulho, e que mais não seja para exercício da vontade, ou pôr à prova o estado da senhoria que lhe é visceral.
___________________________
Que tal? É apenas uma amostra. Amostra de um tema que, a propósito de vários momentos do livro de Cervantes, é abordado por Mestre Aquilino. Naturalmente. D. Quixote foi escrito e editado no período em que os Filipes eram reis de Portugal...

Assim sendo...

“Foi assim”, diz elaZita.
Ah! Foi? E terá sido assim que foi, para esta que ela é hoje, tão outra relativamente ao que ela era quando teria sido assim?
Por isso, assim conta que foi assim. Como se tivesse sido.
E há uma corteZita boba a acenar com a cabeça, a fazer vénias e salamaleques, a aproveitar-se do que ela escreve para dizerem: vêem como foi? Foi assim!
Mas… para quê gastar tanta cera com tão ruim defunta?
Talvez lá tenha de ser, como reacção necessária a toda a cera que é gasta para alumiar a defunta e tornar útil uma múmia.
Talvez.
Será que ao coro dos coiros há mesmo que responder com a verdade das coisas? E, por outro lado, a indignação perante certos comportamentos também não resiste a vir manifestar-se com veemência.
Cá por mim, para este consumo interno, e depois de tanto ter lido e ouvido, apenas deixo uma constatação e uma lembrança muito pessoal.
Foi assim comprovado que D. Zita, ao tempo em que assim teria sido alta dirigente do PCP, conspirava em reuniões e jantares em sua casa, às quartas-feiras com o Sr. Vital Moreira, que era já putativo secretário-geral, escolhido à revelia das regras estatutárias e democráticas de que o PCP se orgulha, noutros dias “em plena dissidência, jantava tudo lá em casa”, segundo disse na RTP1, que não lhe poupa antena.
E para que conspiravam?
Pois “para evitar o declínio sem remédio do PCP”, dizi(t)a ela; pois para “a superação da crise que, sem aquela (renovação do Partido), o conduzirá, a breve prazo, a um irreparável definhamento”, escreveu o vital Moreira.
Assim se explicará a enorme contrariedade que sofrem e denotam os então conspiradores por não verem comprovados, como tanto desejariam, o “declínio sem remédio”, o “irreparável definhamento” do PCP.
E assim se compreende que tanto se continuem a esforçar para que eles – "o declínio" e "o definhamento” – aconteçam.
Ainda acrescento, por mero desfastio, uma lembrança muito pessoal: como militante de base, participei, há uns 25/30 anos, numa iniciativa do PCP, em que a dirigente Zita Seabra coordenava uma secção, e coube-me a tarefa de ir para a mesa e de a secretariar.
Foi a única vez que nos cruzámos em tarefas partidárias, e foi uma experiência penosa.
Sempre convivi mal com o autoritarismo, a falta de respeito pelos outros, a prepotência, e mais ainda quando a postura “muito dura mas relações humanas”, “a frieza de um revolucionário” (“qualidades” para si invocadas por Zita Seabra em Foi assim!) são uma espécie de máscara que esconde a fragilidade de convicções, a falta de caboucos ideológicos, a ausência de um “gostar dos outros” que, estas sim, são – a meu ver, claro – as qualidades de quem quer ser revolucionário. Toda uma vida. Com os erros e as fraquezas que inevitavelmente a preencherão.

terça-feira, julho 24, 2007

Extracto (adaptado) de uma espécie de diário

(...)

Da Constituição de 1976, uma das coisas que retive, eu que era – e sou – leigo e fui atento admirador de quem teve a tarefa de a redigir e aprovar, foi que, dada a existência de vínculos entre empregadores e trabalhadores, e havendo o pressuposto – dado o sistema em que se vivia … e vive – de, nesse vínculo, a parte mais frágil ser a que está na posição de “empregado”, se constitucionalizou que a essência das normas deveria proteger essa mais desfavorecida parte da relação contratual.

&-----&-----&

Era, digamos, a “filosofia”.

&-----&-----&

Entretanto, a vida correu, a recuperação de privilégios foi uma cavalgada, pouco a pouco, legislação do trabalho a legislação do trabalho, se veio desvalorizando e precarizando o vínculo, sempre em prejuízo dos trabalhadores, na fronteira ou nos limites consentidos por essa “filosofia constitucional”.

&-----&-----&

Agora, os “patrões” das confederações patronais jogaram uma carta, uma carta forte, aproveitando o ambiente reformista (?) do poder político, deste governo: subverta-se, de vez, a Constituição e a sua “filosofia”.

&-----&-----&

Sob a capa falaciosa de uma igualdade contratual (ou de que as partes do vínculo têm a mesma força), exige-se que se protejam os empregadores, que se permita que se tratem os trabalhadores – a sua força de trabalho – como uma mera mercadoria.

&-----&-----&

Pior: que se faculte o despedimento da “mercadoria” pela justíssima causa de ter opiniões, opções político-partidárias, de tomar posições cívicas, de fazer greve, de se manifestar, de se sindicalizar (em certos sindicatos, claro…).

&-----&-----&

Onde é que já se viu uma mercadoria pensar! "Reprima-se a mercadoria que pense!"

&-----&-----&

"Mude-se a Constituição. Se for preciso…"

&-----&-----&

Há constitucionalistas prontos para essa tarefa. Ou frete.

&-----&-----&

E o sr. ministro do trabalho está a ver em que param as modas.

&-----&-----&

Atento, venerador e obrigado.

&-----&-----&

Tudo a bem da Nação!

No cavalo de pau com Sancho Pança - 43 (versão para anónimo do séc. xxi)

Por outras paragens continuo esta viagem. Por ela me perdendo e achando. Agora ando por onde Mestre Aquilino, no seu ensaio, nos vem contar das "controvérsias a quatro" que antecederam e acompanharam as aventuras do engenhoso fidalgo quando Alonso Quixano era ou a ele voltava para recuperar de tanta tareia que D. Quixote levava. Conversas com o bacharel (Sansão Carrasco), o barbeiro (Mestre Nicolau) e o cura (Pero Pérez). Controvérsias que assim contadas - sobretudo as que entretinham o cura e o bacharel, que o sempre futuro D. Quixote, "menos lido em teologia do que em novelística", coçava o toutiço que tantas voltas dava, e o barbeiro quase só ouvia - estariam bem em qualquer lugar (do livro) e em qualquer tempo (da história). Como neste estão.
________________________________________
A Alonso Quixano preocupava-o sobretudo o problema do mal (...) Simão Carrasco, um dia, à puridade, com brusquidão formulou o terrível raciocínio: bem e mal em si não existem. Bem e mal são os termos em que se processa a luta pela vida. (...) Ter mesa farta, fêmea ou fêmeas para o gozo, a habitação que convém, vestir-se condicentemente com as estações, ser respeitado e temido, eis grosso modo os requisitos que na vida da espécie e, gradativamente, na do indivíduo, determinam os actos do bem e do mal. Ora no dia em que o homem encontre a satisfação das necessidades fundamentais, sem recorrer à violência, ao suborno, ao esbulho mercê de qualquer espécie de predomínio, está esconjurada a peste do mal humano. O homem não será anjo, mas poderá chamar irmão ao seu semelhante.
- E o meu senhor que faz dos templos? - observou sem acrimónia, mas com ar dissaborido, o licenciado Pero Pérez, que ainda ouvira o resto da proposição.
- Resta sempre na vida muito de impenetrável que fornecerá ao homem um pretexto plausível para continuar a tremer maleitas metafísicas - respondeu Sansão Carrasco, com humor.
Para Alonso Quixano, admitindo que o homem, segundo a lição do Resgate, tivesse recuperado o gozo do livre arbítrio, desligado por conseguinte da condenação primeira, certas pessoas eram mais responsáveis do que nunca pelo mal que continuava a lavrar à superfície da terra. Sobretudo os poderosos, os fortes, esses que faziam a lei e articulavam a justiça, e os seus executores, que de coração venal ou leviano cometiam os maiores atropelos contra a humanidade.
Por isso mesmo Alonso Quixano, o Bom, se sentia impelido para a missão augusta que os livros de Cavalaria inculcavam.
_____________________________
Mas que estou eu a fazer? Não posso tanto transcrever. E estas são "viagens" para abrir apetites para leitura. Por isso me forcei a parar. E fui à vida. A outras vidas. Tão torto está o mundo, e eu deleitado à desmedida com a escrita sobre quem ensandeceu por tanto o ter querido endireitar. Na versão aquilina. Irresistível.

sábado, julho 21, 2007

Há coisas que muito esquecem a quem não aprendeu

O sr. José Pinto de Sousa, vulgo “primeiro ministro” e conhecido (embora não lá muito reconhecido) como “o engenheiro Sócrates, veio, com a sua arrogância peculiar, afirmar que não recebe lições sobre liberdade dos comunistas portugueses.
Já cá se sabia que “o engenheiro Sócrates” é avesso a receber lições, sobretudo dos comunistas portugueses. Aliás, ele faz parte daquela elite que não tem nada a aprender. Que, se calhar, nunca teve…
Mas é mesmo pena!
Esses tais comunistas portugueses têm muito a ensinar aos engenheiros Sócrates deste País sobre o que é a liberdade, como se luta por ela, o que se sofre ao perdê-la por por ela se lutar.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 39

Aqui vou. Cavalicando. Contente por estar indo. Procurando o passo certo. Tanto caminho já feito e tanto caminho ainda falta. Vou na página 184 e não quero (porque não posso) transcrever todas as mais de 330 deste livro de maravilha(s).
_________________________________________

D. Quixote, não obstante as jaças de que está mareado, jaças observáveis num belo mármore se o examinarmos à lupa, é um livro eterno. Eterno como o herói, embora forjado com metal único, metal que só se encontra no subsolo psíquico de Espanha. E, por muito que o submetamos à pedra de toque gramatical, léxica, literária, fica pairando imune à análise mais severa e meticulosa. É que cavaleiro, não obstante os vínculos locais, está completo dentro de qualquer homem. Bastas vezes, sopitado como Durandarte sob os filtros de Merlim. Não raro, imóvel no fundo da jaula convencional, contemptor das leis morais e cívicas, e inveterado endireita do mundo torto.
_________________________________________

Por aqui paro. Não por longo ter sido o percurso, mas porque a frase "inveterado endireita do mundo" me obriga a parar. E a apear e a ficar uns momentos a reflectir sobre o mundo torto e a vontade (inveterada) de o endireitar.

(de O Som da Tinta)

Profecias e aleivosias

Como seria inevitável, até porque Saramago o quis provocar, as "profecias" do não-profeta sobre a integração de Portugal numa futura Ibéria, deram especulação e escândalo.
Por mim, tenho pena.
E pronto.
Ponto final seria.
Como nunca gostei de responder a provocações, também a esta (que, evidentemente, me não era dirigida) não reagiria.
Mas se se quisesse discutir o tema num plano sério de dinâmica macro-estrutural, do que representou como iberização o modo como foi negociada a adesão de Portugal às CE, de como assim se desserviu o povo português, estaria disposto, e até gostaria, porque é uma das minhas predilectas (pobres) reflexões.
Agora assim!...
O chorrilho de disparates e de abusos interpretativos que provocou a provocação, só por si tê-la-iam bem dispensado.
A título de exemplo, o Jornal de Leiria, na sua 3ª página, do Fórum (e editorial), escolheu para “Facto da semana” "Saramago defende que Portugal passe a ser província espanhola", o que é uma interpretação abusiva do que Saramago disse, e em resposta a uma pergunta.
E, entre os convidados a comentar a “ideia defendida por Saramago”, um senhor muito conhecido, muito mediático – Loureiro dos Santos, general – saiu-se com esta “(…) Em relação a essa posição de Saramago, ele fá-lo por razões de interesse próprio, o que aliás vem ao encontro da teoria leninista-marxista que ele professa. (…)”.
Se acho não merecerem discussão as "profecias de Saramago" (que se afirma "não-profeta"), incomodam-me as manifestações de ignorância arrogante como as do sr. Loureiro dos Santos, general.
E tudo isto, esta falta de seriedade, me faz pena.

quarta-feira, julho 18, 2007

Postalinhos de ontem...

...hoje (ontem...) foi um dia em que senti necessidade de escrever.
&-----&-----&
Mas não tive oportunidade.
&-----&-----&
Só agora, depois da reunião de direcção do JO, é que consegui alguma disponibilidade, mas queria ver se não entrava pela madrugada dentro.
&-----&-----&
Ando com um peso efemérico…
&-----&-----&
Durante o fim de tarde que estive na Som da Tinta, anotei o que chamei “temas”, e o primeiro de todos era sobre "aquilo que fui... quando me não reconheço no que era."
&-----&-----&
É que estive “entretido” – antes de (e sem conseguir) passar à escrita – a tropeçar em fotos do "tempo efemérico" (há um ano, precisamente…)
&-----&-----&
Não é fácil!...
&-----&-----&
A isto voltarei.
&-----&-----&
Porque a efeméride se prolonga…
&-----&-----&
Entretanto, mais temas tinha nas “notas”, a começar pela “grande vitória socialista” nas eleições em Lisboa.
&-----&-----&
É que o ambiente forjado de “grande vitória” agride a inteligência… de quem se quer minimamente informado.
&-----&-----&
A lista do PS teve menos de 30% (com mais de 62% de abstenção), de certo modo se repetindo a “cena” das presidenciais, com uma Helena Roseta a fazer o papel de Manuel Alegre.
&-----&-----&
(Ou terá sido o contrário?!)
&-----&-----&
Esta “gestão Sócrates” polariza em si (bemol?) e divide os exércitos próprios, promovendo o aparecimento de “independentes”.
&-----&-----&
E, por isso, para quem se propunha a maioria absoluta, que só com 9 vereadores, ter conseguido 6 é uma "g‘anda vitória", não há dúvida!
&-----&-----&
Além de que não ter conseguido que a sua “independente”, tivesse mais do 10,2% e 2 vereadores, o que não dá para conseguir maioria (6+2<9!)
&-----&-----&
No entanto, a "g’anda vitória" foi a enorme derrota do PSD, com o seu candidato oficial a não conseguir melhor que ser 3º, depois do seu candidato "dissidente" (o que é pior – para o respectivo partido – que candidato “independente”) tendo, os dois, 3+3 vereadores…
&-----&-----&
… e, também, a ainda maior derrota do PP ao quadrado, isto é, Partido Popular/Paulo Portas, com uma votação minúscula e 0-vereadores-0.
&-----&-----&
Pergunta-se ele, o PP2, como é que, em Portugal, se pode ser oposição, e vdiz que ai reflectir sobre isso!
&-----&-----&
Que estranha reflexão.
&-----&-----&
De qualquer modo, nós não o podemos ajudar, nós, os únicos que, como partido, soubemos responder quando, em Portugal, ser oposição era outra coisa… era ser resistência ao fascismo!
&-----&-----&
Daqui o que fica, tirado o folclore BE e do seu “Zé” que apregoava que fazia falta, e mais outros que tais?
&-----&-----&
Um resultado muito significativo da CDU, acima de 9,5% (que pena não se ter chegado aos dois dígitos!) e mantendo dois vereadores!
&-----&-----&
O que foi conseguido após uma campanha em que, talvez como em nenhuma outra, por razões circunstanciais a juntar às razões essenciais de sempre e cada vez mais presentes, se silenciou a campanha do único partido que está "fora do jogo", que “é esquerda”.
&-----&-----&
Num sentido claro para esta coisa de “ser de esquerda”, e que tem a ver com a raiz da expressão que a faz assimilar a ser de “outra classe” que não da que está no poder…
&-----&-----&
Desta, “da classe que está no poder”, são todos os outros, estejam em partidos, repartidos, independentes e dissidentes.
&----&----&
Havia mais "notas" e "temas", e mais escrevi, mas, para aqui e para agora, ficam estas.

sexta-feira, julho 13, 2007

A frase do dia

(já na madrugada...):

são tão piores uns como os outros!

segunda-feira, julho 09, 2007

Boas leituras!...

O psicanalista, professor, Osvaldo Campos de seu nome, tomou para si os males dos pacientes (e dos impacientes) e, por eles, os males do mundo.
Sentiu que agir era preciso. E veio logo a pergunta como agir?
A acção é a primeira regra. Depois, há a do tempo e a do modo, e surge logo a regra do perigo. Entretanto, insinuou-se a regra do dolo formando as cinco regras. Mas foi-se impondo uma última regra, que “eles” queriam definitiva, a regra do silêncio. Da sombra. Por isso, combateremos a sombra.
No entanto, o leitor lembra que há mais regras. Porque é preciso ir mais fundo na acção para que, no tempo e no modo, se vença o dolo quando se afronta o perigo e se querem quebrar o(s) silêncio(s).
Duas outras regras são indispensáveis: a da história, isto é, a da luta de classes (desde que e enquanto); e a do colectivo, a de tomar partido, a que Maria London grita para fazer coro com os passos batendo no chão do cemitério: “Deixem-me abraçá-los, milhões!”.
Assim é preciso. Para que não fique tudo como o agir "duma bondade defeituosa, uma bondade de parvo, uma justiça de doido”. De um homem só, psicanalista, professor. Só. Apenas com a companhia da ficção literária combatendo a sombra.

Quanto pesa uma alma?

Procurando outras perguntas, Combateremos a Sombra.


quarta-feira, julho 04, 2007

Postalinhos

“Dantes, o roteiro da arte moderna terminava em Madrid.
Agora começa em Lisboa”,
Sócrates dixit, eufórico, desbragado,
na entrega da colecção Berardo.

&-----&-----&

(quem e o quê se entregou a quem?!)

&amp;-----&-----&

Há gente assim!

&-----&-----&

Antigamente, gente desta pensava que depois de mim, o caos.

&amp;-----&-----&

Agora, gente desta também pensa que antes de mim, o deserto.

&-----&-----&

Construamos a frase:
EU sou o TUDO,
depois do NADA, do DESERTO,
e antes do CAOS, do NADA!

&amp;-----&-----&

Tanta ignorância e soberba incomoda,
mas não só.

&-----&-----&

Faz mossa.

&amp;-----&-----&

Porque há poderosos (e seus interesses… de classe)
que dela se aproveitam,
tornando os seus portadores e usufrutuários
em seus serventuários.

domingo, julho 01, 2007

Algumas "máximas" minimamente contraditadas - 3

(continuação)

Diz-se cada coisa… São o “máximo”! Vêm do “pinsamento” de Sócrates (e de quem o segue... ou de quem ele segue). Passam por verdades absolutas de tanto se repetirem. Mas têm de ser contraditadas por vezes à maneira de perguntas. O que se faz minimamente (em itálico, quando o que apetecia era soltar o vernáculo…).
.
O mérito, claro: o mérito! O mérito, e só o mérito. Que é lá isso da antiguidade ser um posto?! Já nem na tropa… (Mas quem avalia o outro, quem decide do mérito dos trabalhadores?) Ora quem haveria de ser? Os chefes. (Insisto: mas teria de haver critérios de avaliação do mérito alheio e aquilo que parece mais importante é fixar quotas. Só 5% podem ter desempenho excelente…) Claro! Se não fosse assim acontecia o que é costume: todos, ou quase todos, os trabalhadores a terem notação de excelente. (… dada por quem?) Ora… pelos chefes! (Quer dizer: os chefes, desde que tenham quotas são criteriosos na avaliação dos subordinados, sem quotas são maus avaliadores; ou seja, só são bons avaliadores se forem maus… para os trabalhadores!).

(continua)

Algumas "máximas" minimamente contraditadas - 2

(continuação)

Ouvem-se…) coisas que são o “máximo”. São ditadas pelo “pinsamento” de Sócrates (e “pinsadores" da mesma “escola”) reflectindo a epiderme da realidade. Há quem as aceite como se fossem a realidade profunda. Mas não o são! O que, minimamente que seja (o que se faz em itálico, embora apetecesse fazê-lo em vernáculo…) , tem de ser dito.

Aquilo que campeia, hoje, é a “calanzisse” dos trabalhadores, que só pensam em enganar os empregadores, acabado que foi, evidentemente, o tempo histórico da exploração do homem pelo homem (mas estes são pressupostos que a realidade desmente em toda a evidência!). Os empregadores não exploram os trabalhadores, estes é que estão sempre a tentar enganar os empregadores (sejam os privados, seja o Estado) [Do que não há dúvida é que, para se continuar a explorar, e para mais e melhor se explorar, há que convencer os cidadãos (a começar pelos trabalhadores por conta de outrem ou do Estado) que os trabalhadores só com bastão e cenoura é que funcionam, em particular os "funcionários públicos", como "eles" dizem. O bastão do desemprego e da precariedade, a cenoura das progressões por mérito!].

(continua)

Algumas "máximas" minimamente contraditadas - 1

Dizem-se (e ouvem-se…) coisas que são o “máximo”. Sobretudo a partir do “pinsamento socrático” (e de discípulos da “escola”). E passam por verdades absolutas de tão repetidas são. Mas há que as contraditar. Minimamente que seja (o que se faz em itálico, quando o que apetecia era fazê-lo em vernáculo…).

Reformar é preciso (mas não os trabalhadores, aqueles que à reforma tenham ganho o direito…). Uma reforma decisiva é a que substitui promoção por progressão nos trabalhadores da função pública. A primeira é consequência do tempo na carreira, a segunda é fruto do mérito. Progresso, sim!, promoção, não! (… mas não se deveriam complementar em vez de uma substituir a outra? Pelo tempo na carreira, e como um direito, ser-se-ia promovido; por mérito, progredir-se-ia!).

(continua)

sexta-feira, junho 29, 2007

A pouca vergonha

Lá que a vergonha era pouca já se sabia.
Agora que seja tão grande a pouca vergonha não se podia esperar!

A ignorância atrevida e arrogante

Convivo com muita gente que nada (ou muito pouco) sabe de coisas que eu sei porque a vida me proporcionou aprendê-las (também é verdade que nada sei de outras coisas que eles sabem...). Não é por isso, por não saberem de coisas que eu sei, que lhes chamo ignorantes.
Mas já chamo ignorante atrevido e arrogante ao "coleccionador de arte" que faz alarde, o alarve, de ter começado a sua caminhada de décadas e milhões a juntar obras de arte quando foi enganado ao comprar uma cópia da Mona Lisa que julgava ser um original, sem saber quem era o autor, nem querer saber, mostrando continuar a não se importar com isso. E nada revelar que tenha um pingo de consciência (e de pena) do ignorante que é.
Incomoda-me, pronto, o atrevimento, a alarvidade, a arrogância, e também - e mais - a vassalagem que é feita àquele ignorante a arrotar euros. Incomoda-me, pronto, coitado de mim, que sou pior que ignorante (e em tanta coisa o sou )... que serei intelectual, como ele diz quando quer ofender alguém. Mesmo que esse alguém só saiba ler e escrever...
Ah!, e não ponho nenhuma fotografia do dito comendador porque já nem o posso ouvir ou ver a cara estanhada.

quarta-feira, junho 27, 2007

Às vezes, lembram-se de mim. Aveiro, 26 - 3

As "orações" introdutórias terão cumprido a sua função. Até com uma de um alemão que falou em inglês e foi traduzido para português.
Disseram-se coisas interessantes. Das que eu disse não escrevo... mas não me senti envergonhado com o que disse, embora tivesse a perfeita convicção que estava ali a dizer coisas que não são para serem ditas. Porque não querem ser ouvidas. Paciência... Convidaram-me!Como de costume, foi muito agradável e sempre útil ouvir o prof. Adriano Moreira. É um senhor e fala com fundamento e reflexão. Pode haver, aqui ou ali, algumas coisas que suscitariam outros caminhos porque por alguns ele não quer ir, mas aprende-se ouvindo-o.
E é reconfortante (embora não dê alegria) que um dos argumentos mais levianamente usados para provar os benefícios da "Europa" (quando se deveria dizer União Europeia), que é o da paz inatacável e duradoura que veio trazer ao Velho Continente, sempre por nós combatido por ser falso, falaccioso, seja assim desmantelado pelo prof. Adriano Moreira:
"... o programa dessa unidade manifesta duas insuficiências de concepção e até apoios ideológicos contestáveis. Começando por estes (...) insistir na paz no espaço europeu implica esquecer que não foram resolvidas as questões da ETA e da Irlanda, que a absorção dos problemas da desagregação da Jugoslávia é desafiante, que Chipre inquieta, que a memória da questão dos sudetas está viva, que as questões das fronteiras exigem cuidados. Finalmente, a definição da política de alargamento apropriou o conceito da NATO - levar a liberdade do Atlântico aos Urais - para estabelecer os limites geográficos pressentidos. Não se conhecem estudos de governabilidade que tenham antecedido alargamentos, conhece-se o trajecto contrário que é o de o alargamento exigir pensar na governabilidade, esta a dominar a tema da Constituição."

E mais se poderia transcrever. Com e sem acordo, sempre com utilidade.

Às vezes, lembram-se de mim. Aveiro, 26 - 2

A comissão dos assuntos europeus da Assembleia da República decidira que a conferência sobre a PESC, integrada no ciclo sobre os desafios do futuro da Europa seriam na Universidade de Aveiro.
Éramos três os oradores. Ou melhor: os "artistas convidados". Depois, seguia-se intervenção dos representantes dos grupos parlamentares, pausa para café antes do debate e do encerramento.
Era assim que estava no programa. E assim foi, com as tolerâncias horárias excedendo as ditas académicas, num excelente anfiteatro, desoladoramente com muito mais lugares vagos que preenchidos, demonstrando que não basta ir aos sítios... E, no caso, o lugar era indicado para se falar do assunto, ou do tema, ou dos desafios, ou do que se lhes queira chamar.

programa
09h00 Recepção dos participantes e entrega de documentação
09h30 Sessão de Abertura -Presidente da Comissão de Asssuntos Europeus, Deputado Vitalino Canas
Oradores
09h45 Adriano Moreira
10h05 Volker Heise
10h25 Sérgio Ribeiro
10h45 Intervenções dos Grupos Parlamentares:
Armando França (PS)
Jorge Tadeu Morgado (PSD)
Honório Novo (PCP)
Nuno Magalhães (CDS-PP)
Alda Macedo (BE)
11h15 Pausa para café
11h25 Debate
12h45 Encerramento da Conferência
Presidente da Comissão de Asssuntos Europeus, Deputado Vitalino Canas

Às vezes... lembram-se de mim. Aveiro, ontem - 1

Tenho andado num virote. Até porque, às vezes, lá das assembleias republicanas por onde andei anos a fio, se lembram de mim. Nunca fui de fazer muito barulho ou de me mostrar muito. Até porque nunca fui, só estava. Por só estar (e muito era) querer estar. E em tarefa (do partido que tomei e de representante democrático). Mas... às vezes lembram-se de mim. E lá vou. Há umas semanas foi sobre a produtividade, ontem foi sobre a PESC.
Isto que acima foi dito não serve, apenas, para justificar ausências mas para vir contar coisas.

domingo, junho 24, 2007

No espaço Som da Tinta

recebemos, neste blog:


INFORMAÇÃO-CONVITE


no dia 30 de Junho,
pelas 16 horas
Joaquim Castilho
vai apresentar
o seu livro
no espaço



_________________________
haverá, em seguida,
uma pequena feira de livros, com grandes descontos

quinta-feira, junho 21, 2007

Agora!

¡Urgente! Cinco Cubanos Inocentes estão presos nos E.U.A
por defenderem Cuba do terrorismo
procedente da mafia anticubana de Miami.
Reclama-se JUSTIÇA