No seu último Cem por Cento, de que até parece que estou a fazer propaganda…, Nicolau Santos, apoiado numa base de poemas que vai inserindo, enumera, nas colunas centrais, que três são mas só duas e meia preenchidas, Cinco Mitos sobre a crise.
Seriam eles
“a Europa do Norte governa muito melhor que a do Sul”;
“países como Portugal atuaram tardiamente em relação à crise”;
“se a Irlanda recorresse ao fundo europeu de emergência e ao FMI, os mercados iriam acalmar e deixar em paz os outros países”;
“se os países em dificuldades tomassem medidas orçamentais duríssimas para reduzir os seus défices, atingindo assim gravemente o nível de vida e de bem-estar, os mercados entenderiam a mensagem e deixariam de pressionar esses países”;
“é muito melhor que venha o FMI impor as medidas que deveremos adotar em vez de sermos nós a resolver os nossos problemas”.
Naquelas duas colunas e meia, NS demonstra – e de forma muito clara -, que aqueles mitos são… mitos. Mas eu diria que são patranhas, são aldrabices para justificarem, perante a opinião pública, uma actuação, uma ingerência, uma intromissão absolutamente inaceitável nas economias nacionais. Já formatadas numa divisão imperialista do trabalho, com a conivência das instituições democráticas (porque eleitas) dos respectivos países por os ditos eleitos estarem ao serviço dos grupos financeiros transnacionais, os "de fora" e os que têm sedes nos nacionais territórios, nomes comuns – como, no caso português, Belmiro, Amorim, Salgado, Martins –, e batem no peito patrioticamente e recuperam a frase feita “a bem da nação”.
Por isso, se me apraz a desmontagem que NS faz do que chama mitos e termina escrevendo, acutilantemente “Este arrazoado não evitará, com grande probabilidade, que tenhamos de recorrer aos apoios europeus e do FMI. Mas sempre podemos dizer a dezenas de gurus, economistas e analistas que a sua argumentação tem sido completamente desmentida pela realidade e que não nos comem por parvos.” , fico, também, insatisfeito e, até, irritado!

Porque… falta o resto. Falta, a NS – e não espero (tempo de verbo esperança) que o venha a fazer… –, preencher a meia coluna em branco, indo ao fundo da questão.
Não basta demonstrar que essa argumentação é mentirosa, aldrabona, escorada em falsos fundamentos com a aparência de que científicos são Eles são, também, intencional poeira que se atira para os olhos (e ao cérebro) de quem assim é informado/deformado, a par da campanha da falta de alternativa, de inevitabilidades (que, aliás, se imiscui no texto de NS…), de que o capitalismo é o fim da Humanidade. E sê-lo-á se todos nós consentirmos que este seja o rumo a continuar, que levará, ele sim, ao fim da Humanidade, por via da insuportabilidade social, das destruições, das guerras, daquilo que é o angustiante fruto do crescente poderio dos complexos industrial-militares, que, por exemplo, leva a insistir nos escudos anti-mísseis… porque constroi os mísseis, e assim vai adiando a incapacidade do capital-dinheiro se transformar em mais capital-dinheiro.